Defesa & Geopolítica

Por que protegem a ajuda a Israel?

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Sugestão: Rafael

Há muito tempo atrás, considerava-se a segurança social como o “terceiro trilho” da política americana. O “terceiro trilho”é um ferrovia carregada de alta energia: tocá-la significa morte instantânea.

Há décadas aplica-se essa metáfora à segurança social: um programa do governo que é tão popular, que lhe propor mudanças significaria a morte política para o político que o fizesse.

Mas isso é passado. Apesar de a segurança social continuar tão popular como sempre o foi, políticos amiúde propõem mudanças no programa – mudanças como privatização e limites na eligibilidade de quem recebe a ajuda segundo a sua renda. Apesar de, felizmente, terem sido infrutíferas propostas assim, os políticos que as apóiam continuam a viver para continuar a lutar no dia seguinte. Hoje, com todos os défices gigantescos e o débito nacional astronômico, nem a segurança social é mais sagrada.

Poucos programas do governo o são – poucos ou nenhum.

Mas a ajuda dos EEUU a Israel o é. Com efeito, os 3 bilhões de dólares do pacote de ajuda a Israel são o novo terceiro trilho da política americana: toque-a e morra. Eles são também o único programa em que todos – esquerdistas, conservadores, Democratas, Republicanos e ativistas do Tea Party – concordam não dever sofrer nem sequer um dólar de corte.

Na verdade, a coisa não é bem assim. Esses partidos e facções não acham que eles sejam mesmo intocáveis, aqueles 3 bilhões de dólares de ajuda a Israel. Eles apenas dizem que acham porque um poderoso lobby, o Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel (AIPAC), deixa-lhes claro que tocar no pacote de ajuda lhes trará um grande problema na próxima eleição.

Cortes a programas sociais

Que o Democrata ou o Republicano médio decidam que cortes na ajuda a Israel não são negociáveis, já não surpreende muito. E isso, mesmo que apóiem cortes em programas como o head start, que educa crianças pobres, ou o WIC, que fornece assistência alimentar a mulheres de poucos recursos e a seus filhos.

Isso não surpreende porque todos sabem que os comitês de finanças de campanhas de Democratas e Republicanos alertam a seus membros sobre as temíveis consequências que podem se lhes abater caso eles ousem se afirmar contra o lobby.

É por isso que até os membros mais esquerdistas do congresso americano nunca apontam o absurdo de apoiar o financiamento completo da ajuda a Israel, enquanto se mutila programas domésticos de importância vital. Com efeito, apenas dois membros do congresso sugerem que Israel compartilhe dos sacrifícios [nos cortes]: o deputado Ron Paul (R-Texas) e seu filho, o senador Rand Paul (R-Kentucky), que cortariam quase todos os programas do orçamento, até a ajuda a Israel.

Apesar de estarem completamente sós aqui, os dois Pauls assustaram a AIPAC: assustaram-na o bastante para que ela fosse certificar-se de que Republicanos de mentalidade similar – aqueles da frente “corte tudo” – não se extraviem e sigam o mesmo caminho dos Pauls, em nome, digamos, da lógica e da consistência.

Conservadores fiscais?

A maior preocupação da AIPAC era com Republicanos em seu primeiro mandato, aqueles que foram eleitos com o apoio de ativistas do Tea Party. Esses ativistas são geralmente conservadores fiscais radicais, e eles tendem a rejeitar que haja exceções – quaisquer exceções – nos cortes no orçamento.

Quase que imediatamente, a AIPAC produziu uma carta para que esses Republicanos a assinassem. A carta lhes pedia que se comprometessem a poupar Israel de cortes, não importa o que mais eles cortassem. E quase que imediatamente, 65 dos 87 novatos Republicanos assinaram a carta. Outros o fizeram mais tarde.

Entre os signatários estão alguns dos apoiadores mais veementes de cortes em quase todos os programas domésticos. Estas são pessoas que apóiam planos que eliminam empregos em seus próprios distritos. Elas apontam com orgulho à sua devoção ao princípio de que o sacrifício deve ser compartilhado por todos.

Mas não por Israel.

Que quase todos os outros programas estão sofrendo cortes, a carta da AIPAC o reconhece. Ela fala de “gastos desenfreados e défices de um trilhão de dólares”. Ela até concede que “escolhas duras precisam ser feitas para controlar gastos federais” e que “precisamos fazer um trabalho melhor ao decidir quais são as prioridades do orçamento”. Essas prioridades, pode-se vê-las na lista de cortes orçamentais draconianos que os novatos apóiam.

Mas aí diz a carta: “Portanto, como este congresso considera a continuação da resolução [relativa a Israel], nós lhes instamos [à liderança da Câmara dos Deputados] que incluam o compromisso dos Estados Unidos com Israel de lhe enviar três bilhões de dólares sem cortes para o Ano Fiscal de 2011 sob o Memorando de Entendimento EEUU-Israel de 10 anos”.

Eis o instante em que os falcões se tornam pombos dóceis: quando se trata de Israel.

Ajuda condicional

Isso não quer dizer que os Estados Unidos devem eliminar a ajuda militar a Israel. Muito do pacote de ajuda pode ser justificado no fato de que Israel é um aliado – um aliado com muitos inimigos que buscam sua destruição.

Mas que, de todo o orçamento federal, se escolha esse programa e se diga dele, sem nenhuma discussão, que ele merece financiamento completo, sem escrutínio algum, enquanto quase todos os outros programas são cortados – como se pode justificar isso?

O fato é que tanto os Estados Unidos quanto Israel estariam em condição melhor se os americanos atrelassem condições à sua ajuda, como nós fazemos com outros programas de assistência externa.

Por exemplo, podíamos dizer que, para cada dólar que Israel gaste com a expansão de assentamentos, subtrairemos um dólar do pacote de ajuda. Ou podíamos segurar uma parte do pacote até que Israel venha a concordar a congelar os assentamentos – algo que possibilitaria o recomeço das negociações com os palestinos.

Ou podíamos simplesmente examinar o orçamento do pacote, item por item, e, assim, assegurarmo-nos de que cada programa seu apóie metas da política dos EEUU. Por exemplo, aquelas bombas de fragmentação que os EEUU fornecem e que ainda estão explodindo no Líbano: elas servem mesmo aos nossos interesses?

Mas nós aqui não fazemos nada disso. Israel prepara uma lista de compras e membros do congresso fornecem os itens. Compre até cair.

Isso está errado. O pacote de ajuda a Israel, o congresso deveria tratá-lo como o faz com todos os programas que beneficiam diretamente aos americanos. Aqueles que o apóiam deviam ser forçados a defendê-lo, linha por linha.

Mas o triste fato é que grupos de interesses especiais – grupos como o AIPAC, a Câmara de Comércio e o Clube pelo Crescimento – intimidam o Congresso a livrar seus projetos prediletos até de discussão. O pacote de ajuda a Israel nem sequer será discutido este ano, salvo por membros do Congresso informando a AIPAC de sua firme devoção a ele.

Quem dera se as crianças, os americanos da classe trabalhadora e os pobres fossem do interesse especial de alguém. Talvez então eles pudessem algum dia intimidar o congresso. Como diz uma antiga expressão judaica: quiséramos nós ver este dia.

Autor: MJ Rosenberg
Fonte: Aljazeera

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