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2ª BATERIA DE ARTILHARIA ANTIAÉREA INAUGURA SALA E SIMULADOR DO MÍSSIL DE BAIXA ALTURA TELECOMANDADO RBS 70

Sant’Ana do Livramento (RS) – Um dos eventos mais esperados pelos militares da 2ª Bateria de Artilharia Antiaérea (2ª Bia AAAe) e pela Comunidade da “Fronteira da Paz” tornou-se realidade no dia 31 de maio, com a Inauguração da Sala e Simulador do Míssil de Baixa Altura Telecomandado RBS 70.

O evento contou com as presenças do General de Brigada Amadeu Martins Marto, Comandante da Artilharia Divisionária da 3ª Divisão de Exército; e do General de Brigada Carlos Augusto Ramires Teixeira, Comandante da 3ª Brigada de Cavalaria Mecanizada; além de autoridades civis e militares do Brasil e do Uruguai.

No primeiro momento, o Comandante da 2ª Bia AAAe, Major Andrei Daniel Ferraz Silva, ministrou uma palestra aos convidados sobre as potencialidades do novo material de emprego militar, o salto operacional da unidade e o Programa Estratégico do Exército Defesa Antiaérea.

Em seguida, o Major Ferraz, junto ao General Marto e ao General Ramires, realizaram o descerramento da Placa de Inauguração da Sala e Simulador do Míssil RBS 70, e foi realizada uma demonstração do novo equipamento da organização militar.

Encerrando o evento, os convidados prestigiaram a solenidade militar sobre o recebimento oficial do referido material. Em suas palavras, os oficiais-generais ressaltaram a importância do emprego da tecnologia e da capacitação dos recursos humanos da Unidade, bem como suas novas capacidades para cumprir suas missões de defesa antiaérea.

 

 

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Brasil e OTAN: uma análise da possível parceria

 

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) foi criada em 1949, agrupando 12 países em torno de um projeto de “segurança coletiva” em face do inimigo comum.  A Europa estava dividida ideologicamente: a leste, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) ameaçava expandir militarmente seu território e, a oeste, os Estados Unidos da América (EUA) tentavam impedir.

            Desde sua criação, a organização sediada em Bruxelas incorporou novos atores e, atualmente, é composta por 29 países.  A despeito da incontestável liderança americana, as decisões são tomadas em unanimidade, não havendo o poder de veto como ocorre, por exemplo, no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

            Com o fim da URSS, a organização teve sua finalidade questionada sob o pretexto de que a ameaça militar direta teria se extinguido. No entanto, a instabilidade de caráter étnico dos Balcãs e o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 reforçaram a ideia de que a OTAN iria ainda desempenhar um papel importante.  O pensamento de extinção cedeu lugar ao processo de transformação pelo qual a organização ampliou sua área geográfica de atuação para além de seus próprios limites.

            Nesse contexto de transformação, a ideia de se estabelecer parcerias estratégicas para a paz foi colocada em prática. Baseada em um senso mais complexo de defesa coletiva, a OTAN passou a privilegiar relações bilaterais com países não europeus capazes de contribuir de alguma forma para a consecução de seus objetivos. São exemplos claros de tais parcerias as relações entre a OTAN e o Iraque, o Afeganistão, a Austrália e, na América do Sul, mais recentemente, a Colômbia.   

            Em novembro de 2018, em uma entrevista à BBC, o ex-embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, defendeu que o Brasil estabelecesse também uma parceria para a paz com a OTAN, pois “isso traria ao Brasil uma oportunidade para se envolver e trabalhar diretamente não apenas em questões militares e das forças armadas, mas em tudo que for ligado à segurança nacional e segurança global”. 

Para o Brasil, maior país da América do Sul, a aproximação direta com a OTAN sempre gerou questionamentos sobre o que essa parceira representaria para o país. Essa é uma reflexão importante, especialmente no momento atual, em que a política externa brasileira está se aproximando dos EUA.

            No campo geopolítico, não há dúvidas de que se o Brasil deseja realmente alcançar uma posição de maior protagonismo internacional, uma possível parceria com a OTAN contribuiria para este objetivo. Ressalta-se que isso não representa um rompimento com a tradição brasileira de não intervenção e de solução pacífica de controvérsias.

            Por outro lado, o estabelecimento dessa parceria reafirmaria o posicionamento contrário do Brasil ao expansionismo e ao terrorismo, repudiados historicamente pela diplomacia brasileira. Ou seja, a ação de se aproximar não seria novidade nenhuma para aqueles que acompanham os passos do Brasil.

            Militarmente, as oportunidades são mais claras e fáceis de visualizar. O sistema doutrinário da aliança é fruto das lições aprendidas em suas missões e constitui-se em um conhecimento de ponta para nações pacíficas como o Brasil. A ideia-força seria  “aprender com os erros e acertos dos outros”. A OTAN cumpre missões, atualmente, no Afeganistão e em Kosovo, patrulha o mar Mediterrâneo, apoia a União Africana na Somália e policia o espaço aéreo nas regiões fronteiriças com a Rússia. Todas essas atividades podem subsidiar a nossa própria doutrina.

            A Diretriz para Atividades do Exército Brasileiro na Área Internacional (DAEBAI) assinala a região formada pela América do Norte e Europa como sendo o “Arco do Conhecimento” para aquisição de inovações doutrinárias e tecnológicas. Para cumprir esse objetivo, militares brasileiros são enviados para frequentarem cursos de aperfeiçoamento e altos estudos que os tornam conhecedores da doutrina militar das Nações Amigas (NA). Paralelamente, uma rede de oficiais de ligação foi estabelecida com o intuito de se ter acesso aos centros de doutrina desses países. Estamos, de uma maneira indireta, recebendo os ensinamentos da OTAN.

            Não obstante, há que se ressaltar que uma parceria com a aliança permitiria o acesso direto ao sistema de ensino da Organização. A Colômbia, por exemplo, envia militares para a Escola da OTAN na Alemanha (Oberammergau) e para o Colégio de Defesa da OTAN na Itália (Roma) desde 2013. Ademais, O Exército Brasileiro poderia ter acesso facilitado a outras formações como, por exemplo, na Escola de Defesa Cibernética em Portugal, considerada referência no setor.

            Nessa mesma direção, acrescenta-se a possibilidade de promoção dos Produtos de Defesa do Brasil em mercados tradicionalmente fechados. Quanto mais aprofundarmos a participação em exercícios utilizando material nacional, maiores são as chances de adoção desses equipamentos na Europa e nos demais parceiros da OTAN. Os programas ASTROS e GUARANI encaixam-se perfeitamente nesse ponto.

            Finalmente, cabe ressaltar que estabelecer uma pareceria para a paz com a OTAN não representa, em absoluto, alinhar-se automaticamente com qualquer ator internacional. Ao contrário, assinala um passo pragmático para o fortalecimento das capacidades militares dissuasórias do País. Sem dúvidas, será um passo possível e importante.

Fonte: EBlog

 

Sobre o Autor

O Tenente-Coronel Mauricio Aparecido França é oficial de infantaria do Exército Brasileiro. Após concluir o curso da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, no Rio de Janeiro, frequentou a École de Guerre, em Paris em 2017-2018. Nesse ano escolar, cursou o programa de mestrado da École Pratique Hautes Etudes (EPHE) desenvolvendo pesquisa sobre a evolução do pensamento geopolítico brasileiro”.

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EXÉRCITO BRASILEIRO APOIA A ETIÓPIA NA CONDUÇÃO DE TREINAMENTO PARA OPERAÇÕES DE PAZ NA ÁFRICA

Etiópia (Àfrica) – O Centro de Treinamento de Apoio à Paz da República Democrática Federal da Etiópia (FDRE PSTC, sigla em inglês) foi criado em 2015 e, desde então, tornou-se um centro de excelência na preparação de militares, policiais militares e civis em prol das Operações de Paz no continente africano.

Nesse contexto, o Exército Brasileiro coopera com a Etiópia desde 2017, por meio de intercâmbio de conhecimentos e experiências relativos às Operações da Paz das Nações Unidas. Para tanto, o FDRE PSTC e o Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB) são reconhecidos, sob esse Convênio, como organizações especializadas na instrução, treinamento e pesquisa relacionadas às Missões de Paz.

No dia 4 de fevereiro do corrente ano, o Comandante do FDRE PSTC, General de Brigada Habtamu Tilahun, apresentou os cumprimentos de boas vindas ao instrutor brasileiro designado para o ano de 2019, o TC Fabio Rodrigo de Assis. Na ocasião, o Comandante do Centro agradeceu o apoio do Exército Brasileiro e ressaltou a necessidade de avançar no acordo firmado entre ambos os países.

Dentre as principais atribuições do Instrutor brasileiro no FDRE PSTC, cabe destacar: – conduzir cursos e desenvolver currículos nas lides da preparação para as Operações de Paz, seguindo a doutrina da ONU e da União Africana; – contribuir para a consolidação de lições aprendidas; – participar de pesquisas, seminários, atividades acadêmicas relacionadas com as Operações de Paz, a pedido do Centro; – colaborar para a implementação de novas oportunidades de cooperação na área de missões de paz, em ligação com o Adido Militar do Brasil na Etiópia.

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A hélice tríplice e a inovação aberta



 

A era do conhecimento consagra a busca e a necessidade da materialização de avanços técnicos e científicos como os agentes que definirão o relacionamento entre as nações e o bem-estar de suas sociedades.

Nesse contexto, o Exército Brasileiro (EB) tem buscado se modernizar e transformar para estar à altura das mais elevadas aspirações do País, reduzindo as diferenças tecnológicas que infligem desvantagens consideráveis à manutenção dos interesses nacionais.

Considerando que, atualmente, o Brasil conta com uma ampla e complexa base tecnológica e industrial e que em diversas regiões do País podem ser identificados centros universitários de excelência e renomados institutos de ciência e tecnologia, a realidade sugere que a tradicional missão de contribuir com o desenvolvimento brasileiro deva ser adequada à atual conjuntura.

A transformação da Força requer a adoção de uma efetiva política de abertura, buscando e apoiando, em cada região do Brasil, polos científico-tecnológicos consolidados, estimulando o estabelecimento de um sistema sinérgico, baseado em sólidas parcerias. Dessa forma o EB, por intermédio do Departamento de Ciência e Tecnologia, implementou em outubro de 2016, por meio da Portaria n° 1701, do Comandante do Exército, o Sistema Defesa, Indústria e Academia de Inovação (SisDIA), de abrangência nacional, cujo principal objetivo é promover a inovação, assumindo como pilares a Hélice Tríplice e a Inovação Aberta.

Importa comentar a abordagem da Hélice Tríplice, desenvolvida por Henry Etzkowitz Loet Leydesdorff, que é baseada na perspectiva das relações entre Universidades, Empresas e Governo, visando à produção de novos conhecimentos, à inovação tecnológica e ao desenvolvimento econômico. A inovação é compreendida como resultante de um processo complexo e dinâmico de experiências nas relações entre ciência, tecnologia, pesquisa e desenvolvimento nas universidades, nas empresas e nos governos, em uma espiral de “transições sem fim”.

Para alcançar os objetivos de Defesa Nacional no tocante à inovação e tecnologia, o sistema atua de forma local, regional e nacional. O nível local é operativo e executa os projetos de interesse do Exército ou contribui com os Arranjos Produtivos Locais (APLs) realizando a interface entre as esferas governamentais e o nível intermediário do sistema. O nível regional estimula as potencialidades regionais das hélices industrial e acadêmica, participa das discussões com federações das indústrias, universidades e órgãos de fomento, identifica potenciais recebedores de tecnologia e realiza prospecção estratégica e tecnológica. Já o nível nacional tem cunho iminentemente estratégico, com ações definidas com ministérios, agências reguladoras e confederações.

Como instrumento que viabiliza o SisDIA, o Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT), órgão de direção setorial do EB, possui, dentre as diversas atribuições, a missão de promover o fomento à indústria nacional, visando ao desenvolvimento e à produção de sistemas, produtos, tecnologias e serviços de defesa. O DCT tem praticado uma política de “portas abertas” no sentido de buscar e apoiar soluções genuinamente nacionais nos diversos centros de excelência regionais existentes, como as iniciativas já colocadas em prática nos polos tecnológicos de Santa Maria, Florianópolis, São José dos Campos, Sete Lagoas, Campinas, São Paulo, Florianópolis e Foz do Iguaçu: servir de interface entre os integrantes do sistema, aportar engenheiros militares nos programas e projetos, utilizar espaços físicos compartilhados (como laboratórios) e disponibilizar recursos financeiros de forma direta ou por intermédio de acordos de compensação.

O sistema também tem inovado ao promover, de forma institucional, materiais de emprego militar genuinamente nacionais empregados e adotados pela Força Terrestre entre exércitos de nações amigas. O funcionamento do sistema como agência de apoio às exportações também é faceta importante para o fomento à indústria nacional.

O foco na transformação pela inovação (ao proporcionar o aumento do valor agregado dos produtos da indústria pela simplificação da legislação que permita a desburocratização do fomento à BID) e, particularmente, a ênfase na forte e duradoura integração entre todos os entes do SisDIA são o cerne do sucesso desse conceito. O sistema está alinhado com as políticas públicas do Governo Federal a respeito do tema. Exemplo disso é o novo marco legal da Ciência, Tecnologia e Inovação consubstanciado no Decreto Federal nº 9.283, de 7 de fevereiro de 2018, que regulamentou a Lei nº 13.243, de 11 de janeiro de 2016. A legislação foi recebida pela comunidade acadêmica e empresarial como “um passo importante” para aproximar instituições científicas e tecnológicas (ICTs) e o setor produtivo, aumentar as chances de o conhecimento chegar às empresas e alavancar o desenvolvimento econômico e social. As novas regras abordam com propriedade a encomenda tecnológica, especializa ainda mais a Lei 8.666/93 nesta área, amplia mecanismos de subvenção, dentre outros benefícios para a comunidade científica.

A história demonstra a natural vocação do Departamento de Ciência e Tecnologia para o empreendedorismo e o desenvolvimento de projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P,D&I), em busca de soluções tecnológicas que atendam as necessidades conjunturais da Força Terrestre. O momento presente aponta ativamente a obtenção de capacidades, considerado o equilíbrio entre a aquisição, para atender às demandas operacionais “mais urgentes”, e a pesquisa e o desenvolvimento, para a absorção do conhecimento tecnológico e o fortalecimento da capacidade produtiva nacional. O foco no resultado, o alinhamento à Concepção Estratégica do Exército e a adequação dos processos internos às novas Instruções Gerais do Ciclo de Vida de Materiais de Emprego Militar (EB1-IG-01.018) funcionam como norteadores.

A atuação de forma integrada com a Indústria e a Academia, por meio do SisDIA, na buscade tecnologias de ponta para a Defesa com emprego dual,reforçam o papel catalisador que o departamento tem desempenhado no processo de transformação da Força e, consequentemente, o protagonismo do Exército Brasileiro em proveito do bem-estar da sociedade e do progresso do País.


Sobre o Autor

Tenente-Coronel do Exército. Aspirante a Oficial de Artilharia e Bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (1996). Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2003). Mestre pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (2004). Pós-graduado em Marketing pelo Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (2008) e Gestão Pública pela Universidade do Sul de Minas (2018). Atualmente, serve no Gabinete do Comandante do Exército.


Fonte: EBLOG

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“SIGAM-ME OS QUE FOREM BRASILEIROS”

Não é de hoje que, por razões diversas, tentativas revisionistas acercam-se do vulto histórico
do Duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro. Todas caem em descrédito, pois
carecem de qualquer fundamento.

“SIGAM-ME OS QUE FOREM BRASILEIROS”


(Batalha de Itororó, 6 de dezembro de 1868)
O Marechal Caxias, que nunca perdeu uma batalha, notabilizou-se, entre
outras virtudes, pelo tratamento digno e respeitoso que dispensava aos vencidos.
Nos vários episódios em que foi chamado a pacificar províncias insurgentes,
soube compreender as diferenças políticas e culturais que geravam antagonismos
entre os brasileiros. Assim, sempre agiu para promover a unidade e a integridade
nacional.
No comando de tropas brasileiras, ao lado de brancos, negros, índios e
mestiços, Caxias foi o conciliador que estabeleceu a paz em um ambiente
conturbado de revoltas, entre as quais a Farroupilha, que já se alongava por quase
uma década, provocando morte e desunião de irmãos brasileiros, na então
Província do Rio Grande do Sul, de 1835 a 1845.
Os integrantes do Exército Brasileiro orgulham-se de seu patrono Caxias, o
símbolo máximo da própria unidade nacional brasileira. Gilberto Freyre define:
“Caxiismo não é conjunto de virtudes apenas militares, mas de virtudes cívicas,
comuns a militares e civis. Os “caxias” devem ser tanto paisanos como militares.
O caxiismo deveria ser aprendido tanto nas escolas civis quanto nas militares. É
o Brasil inteiro que precisa dele”.
Todos os dias, o exemplo patriótico de Caxias é repetido por milhões de
brasileiras e brasileiros, civis ou militares, de todas as raças, o que contribui para
a nossa pluralidade cultural e para o fortalecimento de nossa democracia.
Sigam o Velho Marechal aqueles que forem brasileiros!
Brasília, DF, 11 de março de 2019
CENTRO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DO EXÉRCITO

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Braço Forte Defesa Tecnologia

Reflexos do rápido avanço tecnológico para a segurança e defesa nacionais



Algumas tecnologias estão transformando profundamente a vida em sociedade. A Inteligência Artificial (IA), por exemplo, está por trás de diversos projetos envolvendo carros autonavegáveis, comandos efetuados por voz, reconhecimentos faciais e filtros de conteúdo em redes sociais. No campo dos sistemas aéreos não tripulados (Unmanned Aerial Systems – UAS), vislumbram-se múltiplas aplicações comerciais, como meios de entregas e até de transporte público, na forma de taxis aéreos.

Não por acaso, estima-se que a indústria de drones comerciais nos Estados Unidos tenha saltado de US$40 milhões, em 2012, para aproximadamente US$1 bilhão, em 2017 – e, em 2026, esse mesmo segmento pode representar um impacto na faixa de US$31-46 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano. Paralelamente, a área de cibersegurança permeia vários outros campos, na medida em que equipamentos e “sistemas de sistemas” cada vez mais complexos também se tornaram presa fácil para ataques cibernéticos. Em 2023, o mercado de cibersegurança pode alcançar um montante de US$248 bilhões.

Evidentemente essas transformações afetam diretamente as mais modernas Forças Armadas. Na Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos de 2018, por exemplo, ressalta-se a importância dos desdobramentos das novas tecnologias comerciais para a sociedade e para o fenômeno da guerra, especialmente tendo em vista a perspectiva de que muitos desenvolvimentos tecnológicos virão dos setores comerciais de ponta. Já a China tem investido em IA, por exemplo, como parte de um conjunto mais amplo de esforços para o desenvolvimento de uma série de veículos autônomos (aéreos, terrestres e navais), bem como de jogos de guerra e simuladores. Entre os planos de Beijing para alcançar o objetivo de ser o líder mundial em IA está a construção de um polo de pesquisa, com o custo estimado em US$2,12 bilhões, abarcando até 400 empresas e parcerias com universidades.

Outros países também estão enveredando esforços nesses novos campos com enfoque em segurança e defesa nacionais. Os planos da Índia incluem o estabelecimento de uma Agência de Defesa Cibernética com mais de 1000 integrantes distribuídos em diferentes posições no Exército, na Marinha e na Força Aérea. A Rússia tem explorado o uso de IA em, por exemplo, mísseis de cruzeiro, drones armados, guerra eletrônica e inteligência de imagens. Apenas na área de IA, estima-se que Moscou tem investido anualmente cerca de US$ 12,5 milhões. Já a Alemanha almeja criar sua própria versão da norte-americana Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA).

O impacto dessa realidade para as mais modernas Forças Armadas é evidente, pois afeta diversos elementos de doutrina, organizacionais, de adestramento, de material, de educação, de pessoal e de infraestrutura. Diante das perspectivas de proliferação de mísseis hipersônicos, robôs armados, lasers, canhões eletromagnéticos e dos avanços da computação quântica, vários países têm buscado se adaptar constantemente a essas inovações, priorizando recursos em equipamentos e otimizando estruturas de pessoal e custeio.

No Reino Unido, por exemplo, um dos poucos membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) que conseguem cumprir as metas de alocação de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em defesa e 20% desse montante em Equipamentos, observa-se uma série de dificuldades políticas na definição de prioridades e do tamanho do efetivo de suas Forças Armadas. Ademais, tanto nas reformas dos aparatos de defesa iniciadas pela Rússia, em 2008, e pela China, em 2015, por exemplo, houve profundas mudanças organizacionais com foco conjunto e redução de efetivos, além de estabelecimento de planos de equipamentos de médio e longo prazo.

Seguir essa vasta onda de transformações é um enorme desafio para qualquer país. No Brasil, o processo de atualização, para 2020, dos documentos Política Nacional de Defesa (PND), Estratégia Nacional de Defesa (END) e Livro Branco de Defesa Nacional (LBDN) apresenta-se como uma valiosa oportunidade para enfrentar tais questões, sobretudo quando considerados os históricos tanto do orçamento de defesa brasileiro quanto dos investimentos nacionais em Ciência e Tecnologia. Nesse sentido, o que está claro é que o acelerado avanço tecnológico vai continuar – independentemente de o Brasil conseguir ou não acompanhá-lo.

Fonte: EBlog


Sobre o autor: Peterson Ferreira da Silva é Doutor em Relações Internacionais (IRI-USP), professor do campus Brasília da Escola Superior de Guerra (ESG) e pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos do Exército (CEEEx). 

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Braço Forte Brasil Defesa Geopolítica

EXÉRCITO BRASILEIRO APOIA A ETIÓPIA NA CONDUÇÃO DE TREINAMENTO PARA OPERAÇÕES DE PAZ NA ÁFRICA

Etiópia (Àfrica) – O Centro de Treinamento de Apoio à Paz da República Democrática Federal da Etiópia (FDRE PSTC, sigla em inglês) foi criado em 2015 e, desde então, tornou-se um centro de excelência na preparação de militares, policiais militares e civis em prol das Operações de Paz no continente africano.

Nesse contexto, o Exército Brasileiro coopera com a Etiópia desde 2017, por meio de intercâmbio de conhecimentos e experiências relativos às Operações da Paz das Nações Unidas. Para tanto, o FDRE PSTC e o Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB) são reconhecidos, sob esse Convênio, como organizações especializadas na instrução, treinamento e pesquisa relacionadas às Missões de Paz.

No dia 4 de fevereiro do corrente ano, o Comandante do FDRE PSTC, General de Brigada Habtamu Tilahun, apresentou os cumprimentos de boas vindas ao instrutor brasileiro designado para o ano de 2019, o TC Fabio Rodrigo de Assis. Na ocasião, o Comandante do Centro agradeceu o apoio do Exército Brasileiro e ressaltou a necessidade de avançar no acordo firmado entre ambos os países.

Dentre as principais atribuições do Instrutor brasileiro no FDRE PSTC, cabe destacar: – conduzir cursos e desenvolver currículos nas lides da preparação para as Operações de Paz, seguindo a doutrina da ONU e da União Africana; – contribuir para a consolidação de lições aprendidas; – participar de pesquisas, seminários, atividades acadêmicas relacionadas com as Operações de Paz, a pedido do Centro; – colaborar para a implementação de novas oportunidades de cooperação na área de missões de paz, em ligação com o Adido Militar do Brasil na Etiópia.

Fonte: ADIEx – Etiópia

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Campanha de testes para homologação da nova aeronave militar desenvolvida pela EMBRAER, o KC-390

Rio de Janeiro (RJ) – O mês de janeiro marcou o início dos trabalhos da Operação Guarani 2019, como é chamada a campanha de testes para homologação da nova aeronave militar que está sendo desenvolvida pela EMBRAER, o KC-390.

  O Exército Brasileiro, por intermédiio da Brigada de Infantaria Paraquedista, participa ativamente dos testes da nova aeronave desde o início do projeto.

No dia 14 de janeiro, militares do Batalhão de Dobragem, Manutenção de Paraquedas e Suprimento pelo Ar (B DOMPSA) deslocaram-se para a guarnição de Campo Grande (MS), em que ficarão até o dia 25 de janeiro, realizando a montagem de cargas médias e pesadas para lançamento aéreo.

Essas cargas serão lançadas em voo do KC-390 a partir do dia 10 de fevereiro, dando, assim, o início dos testes de lançamento de cargas em voo da nova aeronave brasileira.

Fonte: EB verde Oliva

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Acidentes e Catástrofes Braço Forte Brasil Israel

Exército Brasileiro apoia, junto às demais Forças, as equipes de busca e salvamento na Região de Brumadinho

As Forças Armadas prosseguem atuando no transporte aéreo das diversas equipes de busca e salvamento dos órgãos do Governo de Minas Gerais. Também vêm sendo prestados assessoramentos em termos de comunicações satelitais e rastreamento, além da montagem e manutenção de instalações móveis para facilitar o trabalho de identificação dos corpos.

Além disso, desde a noite desse domingo, 27 de janeiro, o Comando Militar do Leste, por intermédio da 4ª Região Militar, sediada em Belo Horizonte (MG), vem prestando apoio logístico aos militares israelenses que chegaram à região para trabalhos de busca e salvamento. Esse apoio inclui:

– emprego de cinco helicópteros da Aviação do Exército, de modelos variados, para utilização pelas equipes de buscas;

– alojamento e alimentação para cerca de 130 pessoas;

– alojamento, alimentação e apoio veterinário para cães farejadores;

– transporte e acondicionamento de todo o equipamento (aproximadamente 16 toneladas), por meio da montagem de um depósito de campanha em Brumadinho;

– instalação de cozinha de campanha para a confecção de alimentação na área de Brumadinho;

– alojamento e alimentação aos intérpretes designados.

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De Clausewitz aos líderes atuais: o Brasil agradece

 

Em 1º de junho de 1780, na cidade alemã de Magdeburg, veio ao mundo o mais célebre teórico da guerra do mundo contemporâneo Von Clausewitz. Entre os acontecimentos mais importantes da época, um teve influência fulcral em sua vida e seu modo de pensar: o império de Napoleão Bonaparte. Não à toa, o estrategista prussiano carregou para si traços e características marcantes do imperador francês.

De origem humilde, filho de Tenente do Exército da Prússia, Clausewitz teve sua primeira experiência militar, em 1793, ainda adolescente. Em 1801, o jovem prussiano ingressou na Academia Militar de Berlim e obteve, ao final do curso em 1804, a primeira colocação geral. Entre as inúmeras funções exercidas, uma se destacou das demais: o cargo de Diretor da Academia Militar de Berlim, exercido entre 1818 e 1830. Nesse período, Clausewitz debruçou-se em reflexões sobre a essência do fenômeno da guerra, cujos resultados se materializaram na sua obra mais importante: Da Guerra. Vitimado pela cólera, faleceu em Breslau, em 16 de novembro de 1831, sem que houvesse concluído a redação de sua grande produção teórica. Quis o destino que sua esposa, Marie Von Bruhl Clausewitz, publicasse Da Guerra após sua morte, no ano de 1832.

Após a publicação, suas ideias ganharam força e impulso entre as mais variadas autoridades da Prússia. Pessoas como o general alemão Helmuth Von Moltkee e o Chanceler Otto Von Bismarck, principais articuladores da unificação alemã, incorporaram aspectos de sua teoria e os aplicaram na unificação alemã. No entanto, o pensamento de Clausewitz não se deteve ao momento histórico de sua produção. Seu alcance atravessou os anos e as fronteiras da Prússia. Da Guerra serviu de manual de políticas para algumas das potências mundiais no início do século XX, como a Alemanha e França. Na Guerra Fria, os postulados clausewitzianos influenciaram pensadores como Raymond Aron e André Beaufre. Não obstante, suas ideias cruzaram o Atlântico e alcançaram terras brasileiras, sendo consideradas por muitos, uma leitura obrigatória para todos os chefes militares.

Conforme descrito anteriormente, Clausewitz tinha apenas treze anos quando participou pela primeira vez de uma guerra. Nessa oportunidade, pôde testemunhar o caráter violento da batalha e presenciar cenas fortes que marcaram profundamente a personalidade e o pensamento do jovem militar prussiano, de tal forma que o fez estudar sobre a importância das forças morais num combate, as quais ficaram registradas em seu livro. Nesse tempo, os estrategistas não analisavam os efeitos psicológicos na guerra, pois eram considerações difíceis de serem estudadas, resumindo-se a tão somente compreender esse fenômeno sob uma lente mais voltada para as ciências exatas, algo mais tangível de ser estudado. Essa nova forma de pensar, dando importância e relevo para aspectos intangíveis em pleno século XIX, fez com que Clausewitz estabelecesse um rompimento conceitual com vários pensadores de sua época, pois não concordava com a ausência de elementos importantes que deveriam ser analisados na guerra: as forças morais e o aspecto psicológico.

Desde então, vários países reconheceram a relevância de valores como coragem, iniciativa e determinação numa guerra e se propuseram desenvolver tais atributos em suas Forças Armadas. Acompanhando essa tendência, o Exército Brasileiro, em 1967, acrescentou no currículo da Academia Militar das Agulhas Negras – AMAN, de forma metodológica, os valores morais propostos por Clausewitz em seu livro Da Guerra. Desde sua origem até os dias atuais, o ensino militar vem se ajustando diante dos desafios contemporâneos, aprimorando e melhorando os processos voltados para o desenvolvimento de valores morais, considerados extremamente valiosos para a Instituição.

Levando-se em conta estas considerações, nota-se claramente a liderança exercida pelo General Villas Bôas. Sob o mantra da estabilidade, da legalidade e da legitimidade, o Comandante do Exército vem conduzindo habilmente os desígnios da Instituição, durante este conturbado período que o Brasil vem atravessando, direcionando a Força para o correto caminho a ser seguido e blindando-a de toda turbulência política.

Sua postura e atitude, nos momentos sensíveis, motivaram manifestações de respeito e admiração que extrapolaram os limites da Força, alcançando diversos setores da sociedade e sendo registradas em mídias sociais, jornais, revistas e programas de televisão. Superando o agravamento de seu estado de saúde, o General Villas Bôas vem revelando elevado sentimento do dever e imensurável devoção à Pátria.

Por fim, os ensinamentos de Clausewitz e as ações do General Villas Bôas devem servir de exemplos e estímulos à sociedade para que surjam líderes capazes de proporcionar o desenvolvimento social e econômico necessário, conduzindo o Brasil ao merecido local de destaque político-estratégico no cenário internacional.

Sobre o autor

Ano de Formação na AMAN: 1998 (Infantaria)

Curso Básico Paraquedista: 2002

Curso de Mestre de Salto: 2003

Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais: 2006

Curso de Comando e Estado-Maior do Exército: 2014 – 2015

Doutorando em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela ECEME (2014 – 2018)

Instrutor do Instituto Meira Mattos/ECEME: 2016 – 2017 – 2018

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Braço Forte Defesa Tecnologia

Tecnologia e inteligência militar: prioridade e realidade

A tecnologia militar da atualidade muito nos deslumbra. Na era da chamada inteligência artificial, com drones de conduta quase autônoma, somos apresentados, a todo o momento, a mecanismos cada vez mais rápidos e eficientes, fruto de um processo de modernização contínua, que nos direciona a crer que a guerra será cada vez mais curta e limpa. Vemos uma oferta abundante de recursos tecnológicos, cada vez mais aperfeiçoados e diversificados, à disposição dos Exércitos que puderem dispor de orçamentos suficientes por parte de seus governos.

Porém, retratar essa realidade dinâmica e não menos volátil, a era da informação, que nos liga por um chip, pode oferecer uma visão supervalorizada sobre o real papel que a tecnologia cumpre na chamada Guerra Moderna. Por outro lado, desde que o homem, pelo uso da inteligência, sobrepujou aos demais animais na arena africana, descortina-se uma evolução gradativa da aplicação dessa capacidade na guerra desde tempos imemoriais. Trazendo esse atributo da intelectualidade para a resolução de questões ligadas a conflitos, dá-se a gênese da inteligência militar enquanto arma de guerra. Evidências arqueológicas, cada vez mais frequentes, apontam para o peso considerável do uso dessa arma nas vitórias dos hebreus em sua épica marcha rumo à Terra Prometida, quando da fuga do Egito. Cartago, Roma, Veneza, entre outros fariam corpo a essa tendência.

 Pois bem, tecnologia ou inteligência militar? Força e ferramentas para lutar ou o conhecimento do inimigo? Analisando de forma bem genérica esses dois eixos evolutivos de componentes distintos e essenciais da guerra, tecnologia e inteligência, e trazendo esse debate mais para nosso tempo, podemos estabelecer uma provocação: existe dissonância entre capacidade tecnológica e emprego de inteligência militar, particularmente nos conflitos armados dos últimos 150 anos? E caso possamos dizer que sim, qual deve ser o peso desse descompasso no resultado das últimas guerras, especialmente na expectativa que se constrói quando uma força militar com vantajosa tecnologia é empregada em campanha?

Quem se debruçar a analisar superficialmente os conflitos bélicos desde que essa onda modernizadora (mais especificamente desde o fim do século XIX) começou a se refletir nos Teatros de Operações, pode se surpreender com um panorama ainda pouco animador no que se refere à relação entre força mais tecnológica e vitória no combate. Nesse decurso temporal moderno, ao invés de conflitos rápidos e limpos, com ataques coordenados e exposição cada vez menor de homens reais ao fogo inimigo, temos uma grande incidência de atoleiros táticos inesperados com grandes morticínios. O cheiro de “sangue e pólvora”, uma das experiências sensitivas mais dramáticas da história humana, continua presente em todos os conflitos armados deflagrados pelo mundo.

A empreitada norte-americana no Iraque, intensificada em 2003 e prolongada por oito anos, é uma das mais recentes faces dessa realidade. Há de se anotar aqui, também, a invasão russa no Afeganistão (prologada por mais de oito anos) e a não menos fatídica ação bélica encabeçada pelos EUA no Vietnã (estendida duramente por mais de 10 anos). É evidente que tais conflitos não espelharam a clássica simetria da guerra regular, uma vez que tanto estadunidenses quanto russos (ficando aqui nos dois paladinos mestres) lutaram contra combatentes irregulares, quer sejam islâmico radical quer sejam mujahidins afegãos ou guerrilheiros comunistas norte-vietnamitas. Ainda assim, não é notável que a disparidade entre o poder tecnológico de um contra o “amadorismo” do outro lado não tenha sido decisivo para abreviar as campanhas?

 Mesmo que consideremos fatores mais complexos que possam explicar, por exemplo, as causas da demora extenuante na consecução dos mínimos objetivos norte-americanos no Iraque, como a incapacidade de estabelecer alianças fiéis com uma população tão alheia aos valores ocidentais, ainda assim a lógica não apontaria dificuldades muito menores a serem enfrentadas? Abre-se uma possibilidade para se especular o peso de erros analíticos crassos a justificar tais resultados práticos inesperados.

A história das guerras no período pós-Segunda Revolução Industrial sinalizou de forma quase inconteste que a prevalência da tecnologia seria a tônica da guerra moderna. Em todos os conflitos que opuseram partes tecnologicamente desproporcionais, os resultados foram expressivos. Foi o que John Keegan chamou de “modo de guerrear ocidental”. Desde as operações navais franco-britânicas nas chamadas Guerras do Ópio (1839 e 1856), com uma potência mundial sobrepujando uma China ainda aprisionada em sua cultura, passando pelas operações navais e terrestres dos norte-americanos contra as possessões coloniais espanholas (Guerra Hispano-americana) no Caribe e Filipinas, na avassaladora derrota imposta por Israel às forças árabes lideradas pelo Egito e pela Síria (Guerra do Yom Kippur, em 1973) ou mesmo a breve e desastrosa aventura argentina no Atlântico Sul, resolvida pela Armada Britânica em poucas jornadas (Guerra das Malvinas, 1982).

É inegável que tais exemplos, a despeito da complexidade inerente a cada conflito (causas politicas, situação operacional de cada lado beligerante, motivação estratégica, etc), reforçaram o peso da tecnologia como componente indispensável a ser usado na prática da guerra em si. Até mesmo se avançássemos o sinal e nos aventurássemos a citar a hecatombe bélica da Segunda Guerra Mundial, grosso modo, também poderíamos concluir ter sido decidida por fatores tecnológicos relevantes. Ali também, e sobremaneira, poderíamos colher exemplos estruturalmente táticos que reforçam esta questão de modo mais amplo: o valor do uso eficiente da inteligência militar (ficando aqui apenas nos momentos capitais, quer seja no planejamento e execução da invasão da Europa pela Normandia, quer seja na genial decodificação do código alemão do “enigma”) e o preço que se pagou quando se negligenciou a ela (citando a aposta alemã na abertura de duas frentes, ocidental e oriental, num crasso erro analítico conjectural, e a opção americana em desconsiderar os alertas de iminente ataque japonês no pacífico, numa demonstração excepcional de negligência preventiva).

Os conflitos exemplificados anteriormente nos levam a duas constatações: de um lado a primazia da tecnologia, de outro a dúvida sobre o quanto de aparato de inteligência militar foi empregado e qual o peso disso no seu desenrolar. Não iremos avançar ao campo da geopolítica, mas podemos questionar se o uso da inteligência militar tanto na fase preparatória quanto durante a consecução dos conflitos não foi, por diversas vezes, fatalmente negligenciado.

Em 2017, os gastos militares globais atingiram seu maior número desde o fim da Guerra Fria, em 1989. Mensurar o quanto desse montante efetivamente foi empregado em ações de inteligência militar não é nosso propósito, mas cabe deixar essa dúvida como estímulo ao leitor. Os Exércitos da atualidade certamente têm (e assim será por longo tempo) como modelo inspirador as tendências de emprego de tecnologia militar do exército norte-americano, logicamente que adaptando seus respectivos orçamentos a suas necessidades táticas e situação geopolítica. Essa hegemonia referencial norte-americana se explica facilmente pelo seu histórico de protagonismo, quer seja nas duas guerras mundiais do século XX, quer seja pela vitória após quase meio século de guerra fria com a Rússia.

 Mas, mesmo numa nação em que os gastos militares acabam sendo vitais para sua própria sobrevivência enquanto potência hegemônica, como no caso dos Estados Unidos, existe proporcionalidade tática entre investimento em tecnologia e uso de inteligência militar? Seria possível estabelecer um lugar mensurável na parcela de investimento dos Exércitos modernos (esses mesmos que miram no modelo estadunidense) em inteligência militar frente ao custo tecnológico? Ficou disposta aqui a constatação de que a qualidade do material militar de que um exército dispõe não lhe garante a capacidade de melhor usá-lo, nem a certeza do melhor momento e das formas mais adequadas de emprego (isso sem falar da melhor das possibilidades, que é aquela em que se consegue antecipar ações que evitem até mesmo a necessidade de seu uso, poupando vidas e recursos essenciais).

Da História Militar brevemente visitada aqui, podemos colher insights que nos estimulem a valorizar o aperfeiçoamento tecnológico desde que lastreado por um proporcional e crescente esforço de criação de uma mentalidade de inteligência militar, permeada por medidas de segurança orgânica e disciplina institucional militar no que se refere ao uso constante da contrainteligência.

De forma geral, inteligência militar ainda se constitui num assunto mais privado, relegado aos bastidores governamentais e, muitas vezes, a planos menos prioritários. Tomado muitas vezes das referências saídas das páginas da história de países não muito bem servidos de instituições bem consolidadas, e estigmatizados como clandestino e oculto, o trabalho de inteligência sofre constantemente de certa desconfiança, tanto da parte dos contribuintes quanto dos governos para os quais lhe é servido. Certo é que, amado ou odiado, o serviço de inteligência que também é uma peça militar fundamental, deve ser entendido como necessário, assim como a diplomacia e as demais formas de relações internacionais. E, a despeito da necessidade de atualização tecnológica de suas Forças Armadas, também deve ser encarado como parte fundamental de seu constante e permanente esforço de garantia da soberania nacional e sua integridade territorial.

 

Fonte: Eblog

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Violência: problema estratégico não se cura com tática

Soldados das Forças Armadas patrulham a praia de Copacabana como parte de um plano de combate ao crime organizado e a onda de violência nas ruas do Rio de Janeiro – 30/07/2017 (Sergio Moraes/Reuters)

Segundo o Atlas da Violência, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil registrou 59.080 homicídios em 2015 e 62.517 em 2016. Já em 2017, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, houve 63.880 casos. Grande parte dos homicídios dolosos está relacionada diretamente ao narcotráfico e é fruto de disputas entre facções criminosas, cobranças de dívidas, batalhas internas das facções, confronto em operações policiais, balas perdidas, entre outras causas.

Tais índices demonstram que o Plano Nacional de Segurança Pública, lançado em 2017, com a meta de reduzir o número de homicídios no País, veio ao mundo com objetivo ambicioso. Natal (RN), uma das cidades-piloto do Plano, terminou 2017 com o emprego de tropas em operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Na atualidade, a cidade possui um dos índices mais elevados de homicídios. O constante emprego das Forças Armadas em GLO comprova que o modelo jurídico, a política externa, a política educacional e o planejamento da segurança pública em âmbito nacional não estão surtindo o efeito necessário para combater a violência no Brasil.

De acordo com os órgãos de imprensa, na Cidade do Rio de Janeiro, em 2012, o “peso” de 25 gramas de erva prensadas (medida padrão da venda de maconha) custava, em média, R$ 150,00 (em alguns lugares, o preço cobrado poderia ser de R$ 100,00, R$ 130,00 e, até, de R$ 200,00, dependendo da qualidade). Em agosto de 2017, circulavam na Web imagens de embalagem da droga contendo a foto da atriz Juliana Paes. “Bibi de R$ 100,00”.

Pela lei da oferta e procura, verifica-se que o preço da droga não subiu com o passar dos anos, porque a oferta aumentou significativamente. Fato interessante é que, em 2017, houve recorde de apreensões de drogas na faixa de fronteira. A aparente contradição do aumento da oferta para o consumidor, mesmo com o recorde de apreensões, pode ser justificada pelo aumento das áreas de produção de drogas nos países vizinhos, possibilitando um tráfico maior pelo território nacional. Segundo o relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), somente a Colômbia aumentou o cultivo de cocaína em 52% em 2016.

A trajetória histórica da violência indica a tendência da continuidade da crise, situação que se agrava e que pode fugir ao controle estatal. Enquanto os integrantes do crime organizado possuem total liberdade de ação, não temendo a morte, as forças legais lutam pelo direito de sobreviver.

A segurança pública do Brasil demonstra que há necessidade de se tomar medidas mais eficazes nos diversos campos do poder, para que se alcance solução definitiva ou mais satisfatória do que apenas o emprego das Forças Armadas em inspeções de presídios, operações na faixa de fronteira, de GLO nas cidades com greves da polícia; e em combate à violência, como no caso do constante emprego no Rio de Janeiro.

Sabe-se que as fronteiras são vulneráveis aos ilícitos transnacionais e que os países vizinhos, indiretamente, contribuem para o aumento da violência no Brasil, seja produzindo drogas, seja fornecendo armas ao crime organizado. Inúmeras operações militares e interagências são realizadas a fim de combater os ilícitos, tendo como resultados as apreensões e a diminuição da atuação do crime organizado durante o período das ações policiais, militares e fiscalizadoras.

Todavia, é perceptível a crescente insegurança no País. As estratégias de combate à violência precisam ser revistas. O emprego das tropas militares, que deveria ocorrer somente em casos excepcionais, virou rotina, demonstrando que os campos político, econômico, psicossocial, científico e tecnológico não estão sendo usados adequadamente. Algumas das ações inerentes a esses campos não são instantâneas, como o investimento em práticas educativas para que a atual e as futuras gerações conheçam os males das drogas.

No entanto, os índices da violência têm levado a sociedade a buscar ações imediatas, pois as de longo prazo só resolvem problemas também em longo prazo. Uma das possíveis soluções é pressionar os países lindeiros e cobrar-lhes atuações mais efetivas no combate ao narcotráfico e no controle de armas. Nesse caso específico, a ação nas áreas produtoras pode gerar resultados mais imediatos.

Em que pese o respeito do Brasil pela soberania dos países vizinhos, nada impede o estabelecimento de acordos de cooperação que permitam a ajuda brasileira em outros territórios. Isso não é novidade. Muitas operações de combate ao crime organizado já ocorrem nesse modelo, sendo necessário intensificá-las.

Em 31 de agosto de 2014, o Estadão publicou a seguinte matéria: “Paraguai caça PCC e CV em roças de maconha”:

                    (…) Um dos relatórios contendo resultados de oito das operações Nova Aliança mostra que, de 2012 a março deste ano, foram destruídos cerca de 29 milhões de pés de maconha em 2.878 hectares. O custo da força-tarefa foi de US$ 452,9 mil, sendo US$ 261,9 mil pagos pela Polícia Federal. O dano provocado ao narcotráfico seria de US$ 264,8 milhões no período.

A operação ocorreu dentro do território paraguaio, com a participação de poucos policiais federais brasileiros; teve custos financeiros inferiores ao emprego efetivo da tropa em operações e produziu muito mais resultados.

A partir da destruição da droga na origem, toda a cadeia subsequente é destruída. Isso significa que há menos evasão de divisas, menos recursos para a compra de armas, menos carros roubados para pagar drogas, menos traficantes nas estradas, menos pessoas nas prisões, menos roubos para sustentar o vício e menos mortes. Enfim, todo o Brasil se beneficia. Combater o crime apenas em uma cidade como o Rio de Janeiro, que é dominada pelo Comando Vermelho, está contribuindo para fortalecer outras facções, como o Primeiro Comando da Capital, de São Paulo, que, na atualidade, está presente em todo o território nacional e em processo de ampliação no exterior.

Conclui-se que o centro de gravidade do problema está na produção da droga, e não no sistema financeiro ou no consumidor, como alguns acreditam. No caso do sistema financeiro, na década de 1990, na Itália, houve intenso trabalho de combate à máfia; contudo, verifica-se que o Brasil, ao tentar copiar o modelo italiano, não apresentou o resultado desejado.

O crime organizado encontra-se bem estruturado nacionalmente e tem braços além da fronteira, o que vai dificultar ainda mais as ações do governo brasileiro nas políticas nacional e internacional. O Brasil também deve estar preparado para enfrentar a expansão da produção e do uso das drogas sintéticas, que, nos dias atuais, são produzidas em banheiros e cozinhas. Essa será uma luta muito mais difícil.

No dizer de Sun Tzu, “A estratégia sem tática é o caminho mais lento para a vitória. Tática sem estratégia é o ruído antes da derrota”. Assim, sem centro de gravidade definido, sem liberdade de ação e sem estratégia adequada, não adiantará ter vitórias no nível tático, pois dificilmente a paz social será alcançada.

 

Sobre o autor

O Cel Fontes é o chefe da Seção de Operações da Divisão de Planejamento e Gestão do Centro de Comunicação Social do Exército. Oficial de Artilharia oriundo da Academia Militar das Agulhas Negras, possui capacitação em Planejamento Estratégico Organizacional, especialidade em Bases Geo-Históricas para Formulação Estratégica, mestrado em Operações Militares e mestrado em Ciências Militares. Ainda, possui os cursos de Comando e Estado-Maior, Básico Paraquedista e Básico de Inteligência, todos no Brasil. No exterior, especializou-se em Inteligência Estratégica no Instituto de Inteligência das Forças Armadas Argentinas e em Segurança Militar Nacional e Comando na Universidade de Defesa Nacional da China. Foi analista de inteligência do Ministério da Defesa, comandou os Grupos de Operações de Inteligência da 3ª Brigada de Infantaria Motorizada em Cristalina/GO e da 16ª Brigada de Infantaria de Selva em Tefé/AM, o Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva do 3º Grupo de Artilharia de Campanha – Regimento Mallet, em Santa Maria/RS, o curso de Artilharia da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais no Rio de Janeiro/RJ e o 7º Grupo de Artilharia de Campanha – Regimento Olinda, em Olinda/PE.