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OTAN determina reforço militar no Leste

Líderes da aliança transatlântica decidem posicionar batalhões na Polônia e nos países bálticos. Apesar da maior manobra desde a Guerra Fria, Aliança sinaliza vontade de manter o diálogo com a Rússia.

Os líderes da Otan decidiram nesta sexta-feira (08/07) posicionar quatro batalhões multinacionais na Polônia e nas três repúblicas bálticas como principal medida de reforço militar no leste da Europa. A Aliança Atlântica, por outro lado, sinalizou também que quer manter abertos os canais de diálogo com a Rússia.

“Mantemos nosso interesse em manter o diálogo com a Rússia. A Rússia não deve ser isolada”, advertiu o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, em entrevista coletiva ao término do primeiro dia da cúpula, no qual foram formalizadas as decisões para continuar “o maior reforço da Aliança desde a Guerra Fria”.

Concretamente, serão distribuídos quatro mil soldados em quatro batalhões na Polônia, na Estônia, na Letônia e na Lituânia, liderados por Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Alemanha, respectivamente.

Os EUA confirmaram para o próximo ano o envio de mil militares à Polônia, o Reino Unido de 500 à Estônia e de 150 à Polônia, e a Dinamarca 250 sem informar o destino, enquanto a Espanha disse que detalhará em breve sua contribuição, que segundo fontes aliadas consistirá em elementos de apoio aos batalhões.

Além disso, a França fornecerá uma companhia ao batalhão na Estônia, a Noruega uma companhia na Lituânia, a Romênia uma companhia à Polônia e Holanda e Portugal diferentes companhias à Lituânia, enquanto a Polônia assegurará militares nos países bálticos e Bulgária, Itália e Croácia também enviarão soldados, segundo as mesmas fontes.

Os quatro batalhões “são um elemento a mais em nosso esforço para reforçar o flanco oriental da Otan”, disse Stoltenberg, que acrescentou que se somam “à força de ação rápida, ao aumento de manobras, à maior atividade de nossas bases, ao aumento das provisões militares na região e à maior coordenação de nossas forças”.

“O que fazemos é inteiramente defensivo”

Os líderes aliados deram, além disso, sinal verde à criação de uma brigada multinacional na Romênia, composta principalmente por soldados romenos e búlgaros.

Em paralelo, declararam a capacidade operacional inicial do sistema de defesa de mísseis balísticos, de modo que os navios americanos com base na Espanha, o radar na Turquia e a sede do interceptador na Romênia “podem agora trabalhar juntos sob o comando e controle da Otan”.

“O que fazemos é inteiramente defensivo, um escudo contra ataques de fora da área euroatlântica”, comentou Stoltenberg. O secretário-geral indicou que os embaixadores aliados explicarão as medidas adotadas a seu colega russo no Conselho Otan-Rússia previsto para quarta-feira em Bruxelas.

Stoltenberg destacou o forte investimento da Rússia para modernizar sua defesa nos últimos anos e que o país utilizou “a força militar contra uma nação soberana na Europa, violando a integridade territorial e soberania da Ucrânia”.

“Por isso ampliamos nossa presença na parte leste da Aliança”, resumiu, apesar de ter ressaltado que o diálogo aberto com a Rússia permitirá “evitar incidentes que possam escapar de controle”.

Os aliados também impulsionaram uma nova era de colaboração com a União Europeia (UE) por meio da assinatura de uma declaração para cooperar mais em segurança marítima, ciberdefesa, ameaças híbridas e consolidação de capacidades de defesa em terceiros países.

Reino Unido não mudará de posição

Esta primeira jornada da cúpula também esteve marcada pela expectativa criada pela decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia, uma medida que Stoltenberg considerou que “não mudará” a posição de liderança desse país na Aliança.

O primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, garantiu que quando seu país sair da UE “não vai dar as costas à Europa nem à defesa e segurança europeias”.

Por outra parte, o vice-secretário-geral da Otan, Alexander Vershbow, presidiu uma Comissão Otan-Ucrânia de ministros das Relações Exteriores na qual destacou que a Aliança pretende avançar na colaboração com o governo georgiano “dentro do contexto de aumento da tensão no Mar Negro e no flanco sudeste”.

Os aliados decidiram aumentar o apoio à Geórgia em formação (incluindo a possibilidade de impulsionar um projeto de fundo fiduciário) e comunicações estratégicas, e para desenvolver sua defesa e vigilância aéreas.

PV/efe/ots

Fonte: DW

OTAN se reúne em Varsóvia para debater ameaça russa

Ofensivas militares da Rússia espalham medo no Leste Europeu. Aliança Atlântica reafirma compromisso com segurança dos países-membros e tenta diálogo com Moscou.

Nesta sexta-feira e sábado (07-08/07), os líderes dos 28 Estados-membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e numerosos países parceiros se reúnem em Varsóvia numa conferência de cúpula. O encontro é anunciado como um marco em que irão se tomar decisões para reforçar a segurança da Aliança Atlântica, aumentando seu poder de dissuasão e defesa e projetando estabilidade para além de suas fronteiras.

O país anfitrião, a Polônia, tem pressionado para obter a maior presença possível de tropas da Otan em seu território, a fim de fazer frente à ameaça percebida partindo de Moscou. Também os países bálticos – Estônia, Letônia e Lituânia –, que têm fronteiras com a Rússia ou seu aliado Belarus, sustentam o slogan: “Quanto mais, melhor”.

Em Varsóvia, a Otan deverá atender, pelo menos em parte, a essa demanda. Segundo declarou o secretário-geral da Aliança, Jens Stoltenberg, os aliados no Leste Europeu deverão receber uma reafirmação de que, em caso real de perigo, os demais Estados vão socorrê-los. Essa será a mensagem da cúpula, afirmou um alto diplomata da Otan que não quis ser identificado, acrescentando: “Em Varsóvia vai se decidir a direção a ser tomada. Isso não é rotina.”

“Dissuadir e negociar”

Falando ao Parlamento nacional na véspera do encontro, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, atribuiu à Rússia a culpa pelo agravamento da situação de segurança na Europa. Os países-membros da Otan no Leste estão “profundamente abalados” devido à investida russa contra a Ucrânia, afirmou.

Algum tempo atrás, o ministro alemão do Exterior, Frank-Walter Steinmeier, criticara a Otan por ficar brandindo demais a espada em direção à Rússia e entoando cantos de guerra, enquanto negligencia o diálogo. A organização procura abrandar tais temores com a oferta à Rússia de “transparência e minimização de riscos”.

Merkel também lembrara ao Parlamento em Berlim que “só pode haver segurança duradoura na Europa com, não contra a Rússia”, e que o procedimento da Aliança Atlântica não é “antirrusso”, mas de natureza puramente defensiva. Por pressão alemã, a estratégia “dissuadir e negociar” será agora sustentada por todos os 28 Estados-membros da Otan, inclusive pela anfitriã Polônia.

Secretário-geral da OTAN Jens Stoltenberg: “Estamos abertos ao diálogo”.

Medidas de caráter psicológico

Os chefes de Estado e governo reunidos na capital polonesa darão sinal verde definitivo para o estacionamento de contingentes adicionais de mil soldados da Otan na Estônia, Letônia, Lituânia e Polônia, respectivamente. Além disso será fortalecida a brigada multinacional na Romênia.

Na opinião de Judy Dempsey, especialista em Otan do think tank de política externa Carnegie Europe, a Polônia e o trio báltico aceitarão a oferta da Aliança Atlântica de reforço de tropas, já que não obterão mais do que isso. “Trata-se de uma medida psicológica para tranquilizar os poloneses e os bálticos. Do ponto de vista militar, seguramente não é o suficiente, quando se vê o que a Rússia está montando no exclave de Kaliningrado e em Belarus”, disse à DW.

Desde a última cúpula da Otan, em 2014, em Newport, no País de Gales, a organização já instalou seis depósitos de armamentos em países-membros do Leste, destinados ao abastecimento da tropa de ataque rápido da Otan. Esta dispõe de 40 mil soldados estacionados em países ocidentais, aptos a serem mobilizados para o Leste no prazo de poucas semanas caso a Rússia prepare uma ofensiva.

O monitoramento do espaço aéreo na fronteira oriental também está sendo ampliado, assim como a presença de forças-tarefa da Marinha no Mar Báltico e no Mar Negro. O número e proporções das manobras no território dos aliados orientais será igualmente aumentado.

OTAN “aberta ao diálogo” com Moscou

Os estrategistas da Aliança Atlântica cuidam para que esses batalhões suplementares não fiquem estacionados permanentemente, mas em regime rotativo, sendo substituídos por novas tropas após alguns meses.

“Continuaremos nos orientando pelo Ato Fundador sobre Relações Mútuas entre a Otan e a Rússia”, prometeu Stoltenberg. Nesse acordo firmado em 1997 em Paris, a organização se compromete a não estacionar permanentemente “tropas de combate significativas” no território dos antigos Estados que estavam na órbita soviética.

No entanto o Kremlin não está satisfeito. O embaixador russo na Otan critica o processo de armamento, e o Ministério russo da Defesa reagiu anunciando a mobilização, para as regiões oeste e sul, de mais três brigadas com um total de até 30 mil homens.

A Otan, por sua vez, quer prosseguir negociando com Moscou, apesar do reforço das tropas. “Nós permanecemos abertos ao diálogo”, anunciou o secretário-geral Stoltenberg. Logo após a cúpula em Varsóvia está planejado um novo encontro do Conselho Otan-Rússia, em nível diplomático, no quartel-general da organização, em Bruxelas. As atividades desse conselho estão congeladas desde a anexação da península da Crimeia, em 2014, e da intervenção russa no conflito no leste da Ucrânia.

Como sinal de boa vontade, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, falou ao telefone com seu homólogo russo, Vladimir Putin, pouco antes da cúpula de Varsóvia. Ambos concordaram quanto a uma cooperação estreita no combate à organização terrorista “Estado Islâmico” (EI) na Síria, numa demonstração que Washington e Moscou têm interesses comuns.

Ucrânia e Geórgia também presentes em Varsóvia

Para a especialista em Otan Judy Dempsey, contudo, está claro que quatro batalhões não têm a menor chance de impressionar militarmente o Kremlin. “O estacionamento dá aos russos um bom pretexto para criticar. Eles querem dividir a Otan e veem, é claro, que os social-democratas da coalizão de governo alemã têm problemas com os passos da organização”, comenta, referindo-se também às declarações de Steinmeier.

No fim do encontro de dois dias, os líderes da Otan também encontrarão em Varsóvia o presidente ucraniano, Petro Poroshenko. A mensagem será que as Forças Armadas de seu país seguirão sendo equipadas e treinadas para dar conta da guerra civil no leste da Ucrânia.

Ao mesmo tempo, porém, a aliança também espera que Kiev cumpra sua parte na implementação do Plano de Paz de Minsk, delineado na capital bielorrussa por Ucrânia, Rússia, Alemanha e França. Até o momento, é sobretudo Moscou a bloquear partes essenciais desse plano.

A Geórgia, candidata a filiação à Organização do Tratado do Atlântico Norte, só participará da cúpula em Varsóvia no nível dos ministros do Exterior. A Rússia, que apoia os separatistas georgianos na ocupação de territórios, é radicalmente contra a ampliação da Aliança Atlântica.

Fonte: DW

OTAN envia sinal de unidade com cúpula

Em Varsóvia, aliança reforçará compromisso com segurança de Estados-membros. Mensagem é endereçada à Rússia, mas também aos membros do Leste Europeu, opina o jornalista Peter Sturm, do “Frankfurter Allgemeine Zeitung”.

O confronto de dois blocos é, felizmente, coisa do passado. Se hoje em dia pessoas na Europa Ocidental se sentem ameaçadas por alguém, então esse alguém é, quase certamente, um terrorista islâmico.

Muitos jovens de hoje não podem imaginar como era na época da Guerra Fria. Então não devemos culpá-los quando reagem com ligeiro estranhamento quando cidadãos da Polônia e dos Estados bálticos falam sobre ameaças à segurança deles. Na Polônia, Lituânia, Letônia e Estônia ainda está viva a consciência – e também entre os mais jovens – de se ter um vizinho grande e potencialmente ameaçador: a Rússia.

Isso pode ser considerado um exagero. Mas quem mantém os olhos abertos não pode ignorar que há vários anos a Rússia tem feito muito para consolidar sua má reputação entre os países do Leste Europeu.

O temor foi reaceso em 2008, quando a Rússia tomou partes do território da Geórgia numa breve campanha bélica. As preocupações cresceram quando ficou claro que a Rússia não tinha por que temer quaisquer consequências graves. E tudo ficou pior ainda com o conflito na Ucrânia, país que a Rússia desestabilizou por inteiro através de ações militares.

É por isso que fazer parte da Otan é tão importante para muitos dos antigos Estados satélites da União Soviética e para as suas populações. O tratado da Otan lhes garante o apoio de todos os Estados-membros no caso de um ataque. Essa promessa de assistência é hoje mais importante do que nunca. Pois, por exemplo, os países bálticos foram, nos últimos anos, várias vezes vítimas de ataques cibernéticos, cuja origem foi localizada na Rússia.

Ao se reunirem em sua cúpula em Varsóvia, os líderes dos países da Otan visam enviar uma mensagem de unidade. O destinatário mais importante desta mensagem é, naturalmente, o presidente russo, Vladimir Putin. Mas também os povos dos países do leste da aliança precisam desse gesto de confirmação. E isso não tem nada que ver com um “brandir de espadas”, como o ministro do Exterior alemão disse recentemente ter ouvido do lado ocidental.

Fonte: DW

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A QUE SE DESTINAM AS OPERAÇÕES ESPECIAIS?

1st Special Forces Operational Detachment – Delta (1st SFOD-D) criada em 1977, a principal força contra-terrorismo e de operações especiais do Exército dos Estados Unidos

Rodney Alfredo Pinto Lisboa[1] especial para o Plano Brasil.

 

Considerando que as ações clandestinas, características das Forças de Operações Especiais (FOpEsp), dependem, fundamentalmente, do elemento “surpresa” para determinar o sucesso ou o fracasso de uma campanha militar, é possível afirmar que as denominadas Operações Especiais (OpEsp) constituem uma modalidade de condução da guerra tão antiga quanto à própria guerra.

Os inúmeros conflitos armados travados em diferentes períodos históricos estão repletos de situações em que tropas pequenas e especialmente treinadas, valendo-se do princípio militar clássico da “economia de forças”, realizavam um tipo de missão particularmente difícil – muitas vezes envolvendo ações denominadas “golpes de mão” – para as quais as forças convencionais não se encontravam devidamente qualificadas.

A mitologia por trás da figura do guerreiro revela que várias culturas do mundo antigo construíram mitos e lendas com base em situações reais de confronto, nas quais o guerreiro, lançando mão de sua astúcia, capacidade e adestramento, acabava transformando-se em herói ao derrotar um adversário muitas vezes mais forte e melhor equipado em uma ação até então considerada impraticável.

O herói mitológico incitou o imaginário popular tornando-se o ideal de guerreiro para várias organizações militares ao longo da história. Entretanto, embora alguns conflitos históricos sejam pródigos em apresentar episódios envolvendo tropas constituídas por guerreiros especializados, a tarefa de estabelecer um programa nacional efetivo para a formação de unidades compostas apenas por esse tipo específico de combatente mostrou-se proibitiva até meados do século XX, quando as Forças Armadas (FFAA) dos países mais desenvolvidos substituíram o sistema de conscrição (recrutamento) e reserva, que preparava seus contingentes de forma inadequada, pelo regime de voluntariado profissional, que oferecia os requisitos necessários para selecionar, treinar, capacitar e manter a tropa em um padrão operacional constantemente elevado.

Na segunda metade do século XX, por ocasião da constante tensão internacional provocada em decorrência da Guerra Fria, vários Estados influenciados direta ou indiretamente por uma das duas alianças militares antagonistas – bloco capitalista, liderado pelos EUA, e bloco socialista, liderado pela URSS – reestruturaram e/ou intensificaram suas políticas de defesa em face ao ambiente de guerra global iminente. Diante das incertezas geradas por ameaças mútuas, as FOpEsp assumiram um papel capital na estratégia de defesa dos países membros de cada uma das duas alianças. Operando normalmente na retaguarda do inimigo, elas agiam clandestinamente com a missão de desestabilizar o poder de combate da força opositora.

A modalidade de guerra não convencional relaciona-se com os princípios formulados por Carl Von Clausewitz quando, considerando que as operações militares são influenciadas por objetivos políticos uma vez que a guerra é um instrumento do qual se vale a política, as FOpEsp atuam “cirurgicamente” com o objetivo de enfraquecer o inimigo conquistando vantagens tanto militares quanto políticas.

Partindo da premissa formulada por Clausewitz, que estabelece uma relação íntima e direta entre guerra e política, as FOpEsp, por sua forma eficiente e sigilosa de operar, são utilizadas como uma valiosa ferramenta para garantir a estabilidade nacional e internacional. Portanto, ao serem empregadas como instrumento comprometido com as políticas nacionais, cabe ao Estado oferecer as condições necessárias para que as FOpEsp adquiram a capacidade de operar de forma autônoma, dispondo dos componentes (informação, transmissão, transporte e logística) que lhe são imprescindíveis para a execução das tarefas a que se destinam. Nesse aspecto, um enfoque relevante a ser analisado refere-se ao Nível de Condução da Guerra (escalonados no âmbito político, estratégico, operacional e tático) e sua abrangência quando considerados os resultados obtidos por ocasião de uma operação executada por tropas especializadas. Conforme é possível avaliar tomando por referência uma diversidade de campanhas realizadas por unidades de elite em momentos distintos da história, na imensa maioria das ações envolvendo FOpEsp os resultados obtidos ocorrem em nível tático, podendo, conforme as particularidades de cada caso, chegar a ocorrer em nível estratégico.

Neste ponto cabe ressaltar que o processo de formação de uma unidade de guerreiros aptos a conduzir ações militares não convencionais – OpEsp  – é um empreendimento que requer uma combinação de fatores que dependem, fundamentalmente, das políticas nacionais de segurança, da iniciativa e capacidade da força militar em questão (Marinha, Exército ou Força Aérea), do aporte financeiro destinado para esse fim, da disponibilidade de tempo (adestramento técnico operacional) e recursos (homens, equipamentos e armamentos), da adequação e modernização tecnológica, de engajamentos compatíveis que permitam o emprego das habilidades adquiridas e a aquisição de experiência de combate que possibilite a ampliação e diversificação dos conhecimentos obtidos.

Os conflitos contemporâneos mostram-se cada vez mais dependentes dos avanços da tecnologia. O planejamento e a condução de uma OpEsp seriam muito mais complexos e sensíveis às adversidades sem o conjunto de aparatos tecnológicos (armas e equipamentos) desenvolvidos para o desempenho optimizado das tarefas a que se destinam. Contudo, operadores do Serviço Aéreo Especial (Special Air Service [SAS]) britânico, considerada a FOpEsp mais bem preparada do mundo, atribuem a excelência de suas capacidades militares não apenas ao moderno material tecnológico por eles empregado, mas principalmente ao meticuloso adestramento a que são constantemente submetidos. Na contramão desse conceito, provavelmente na tentativa de compensar o desajuste de suas políticas de Segurança e Defesa, muitos países em desenvolvimento tendem a valorizar a moderna tecnologia em detrimento da qualificação da tropa. Embora a discrepância tecnológica seja um fator que, indiscutivelmente, afeta o moral dos militares que enfrentam adversários melhor armados e equipados, ela não é sua faceta preponderante. Nesse sentido, considera-se que o aspecto mais importante para o moral de uma FOpEsp é a consciência relacionada à qualidade e eficiência do treinamento, permitindo que seus operadores sejam capazes de enfrentar situações desfavoráveis valendo-se da melhor forma possível dos recursos tecnológicos que lhes são disponibilizados.

Militares da US Navy durante o BUD/S (Basic Underwater Demolition/Seals), o curso que seleciona os futuros Navy Seals

É importante destacar, que embora apresentem algumas semelhanças entre si, os conceitos, doutrinas e procedimentos operacionais adotados pelas FOpEsp variam conforme as políticas nacionais de defesa promovidas por cada país, distinguindo-se de acordo com a importância estratégica que o Estado atribui à utilização e manutenção dessas unidades, independente da condição (períodos de guerra ou tempos de paz) em que a nação se encontre.

Particularmente no que se refere à posição do Brasil, o Ministério da Defesa (MD) e o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas entendem que as FOpEsp constituem:

Força especializada na condução de guerra irregular que, pela versatilidade que lhe confere a estrutura, o grau de instrução e o grande número de especialistas, pode ser empregada em grande variedade de missões que contribuem para a consecução dos objetivos da força como um todo.

Com base nesta definição, as OpEsp realizadas pelas tropas brasileiras adestradas para a condução desse tipo de ação, ocorrem normalmente em ambiente de guerra irregular, em áreas conflagradas ou não, dentro ou fora do país, em ambiente amigo ou inimigo, interno ou externo, tendo por finalidade a conquista de objetivos estratégicos.

Militares das operações especiais brasileiras.

Por ocasião da abrangência que o termo “Forças de Operações Especiais” alcançou ao longo dos anos, sendo amplamente empregado nos diferentes níveis e setores das FFAA (Marinha, Exército e Força Aérea) e dos Órgãos de Segurança Pública (Polícia Federal, Força Nacional de Segurança, Polícia Militar, Polícia Rodoviária, Polícia Civil e Corpo de Bombeiros), é impreterível esclarecer que as OpEsp consideradas neste estudo referem-se a um gênero particular de ação que contempla missões do tipo “destrua e fuja”. Embora tenham evoluído para categorias distintas de OpEsp, essa modalidade peculiar de missão ficou caracterizada pela ação rápida e furtiva de tropas de pequeno porte, especialmente adestradas para agir clandestinamente com o objetivo de destruir ou inutilizar alvos operacionais ou estratégicos localizados na retaguarda do inimigo. A unidade precursora em ações dessa natureza foi idealizada em 1941 por Archibald David Stirling, oficial da Guarda Real Escocesa (Scots Guards), quando de sua proposta de criação do SAS britânico para minar a capacidade de combate do Afrika Korps alemão no norte da África durante a Segunda Guerra Mundial.

Unidades do SAS durante patrulha no norte da África, na Segunda Guerra Mundial.

Nota sobre o autor:
[1] Professor universitário; especialista em História Militar; mestre em Estudos Marítimos pela EGN (Escola de Guerra Naval). É fundador da Poseidon: Análises de Defesa e editor do blog FOpEsp (Forças de Operações Especiais). É membro do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB) e da Associação Brasileira dos Estudos de Defesa (ABED). Foi agraciado em 2014 com o título de Mergulhador de Combate Honorário e em 2016 com o título de Submarinista Honorário. Publicou diversos artigos em periódicos e revistas especializadas abordando a temática da Guerra Irregular e das Operações Especiais.

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MBDA Italia recebe contrato de um bilhão de Euros

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E.M.Pinto

exocet-mm40-block-3A Marinha do Qatar efetivou o contrato com a MBDA Itália avaliado em € 1,0 bilhões  para o fornecimento de mísseis.  A aquisição das armas destina-se a equipar os navios recentemente adquiridos ao estaleiro italiano Fincantieri, e incluem mísseis e ataque naval  Exocet MM40 Block 3 e as armas de defesa aérea Aster 30  e VL MICA.

O acordo recente faz parte de um outro ainda maior, avaliado em € 5 bilhões, que já inclui mísseis da MBDA , assim como armas navais , radares e eletrônicos fornecidos pelo conglomerado italiano Leonardo – Finmeccanica. O Qatar encomendou corvetas  e barcos de mísseis  e um navio de apoio logístico. Os quatro corvetas e o navio de apoio custaram cerca de € 3,9 bilhões e os dois barcos lança mísseis €1,0 bilhão.

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Vídeo: Míssil de cruzeiro P-500 – Uma das armas do complexo modular “Iskander-M”

Míssil de cruzeiro 9M728 / P-500 do complexo “Iskander-M” na fase inicial do voo antes da abertura das asas.

  • Não deixe de ver o vídeo, o melhor está no final…

 

 

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“Economia russa é mais estável hoje do que há alguns anos” – Nouriel Roubini

O economista americano Nouriel Roubini, que previu a crise financeira global de 2008, falou sobre os desafios da economia mundial, o futuro da União Europeia e o crescimento econômico da Rússia durante o Congresso Financeiro Internacional de São Petersburgo, que aconteceu entre 29 de junho e 1º de julho.

UE após o Brexit

“O Brexit é um choque regional e não mundial. É incorreto compará-lo com a falência do banco Lehman Brothers, que em 2008 levou à crise financeira global”, acredita Roubini. Embora o Brexit já tenha causado um aumento da volatilidade financeira e o enfraquecimento do iene japonês, o seu impacto sobre os ativos nos Estados Unidos e nos países em desenvolvimento não foi significativo, e os mercados mundiais reagiram aos resultados da votação no Reino Unido com moderação. No entanto, Roubini acredita que o Brexit pode iniciar um efeito dominó nos países europeus, com consequências mais graves no futuro.

“O desejo do Reino Unido de sair da União Europeia pode levar à desintegração da Europa”, disse o economista. O Brexit é uma crise que poderá prejudicar o mercado único da UE e levar à desintegração do acordo de Schengen. “Se o Reino Unido sair, a Escócia e a Irlanda do Norte também mostrarão o desejo de se separar. Do mesmo modo, a Catalunha tentará se separar da Espanha, enquanto a Suécia e a Dinamarca poderão declarar que a União Europeia sem o Reino Unido é a zona do euro, da qual não querem fazer parte, e tentarão sair do bloco”, explicou.

Além disso, os países da UE estão cansados da política de austeridade. “Em primeiro lugar, o Brexit afetará a economia britânica, que enfrentará uma desaceleração do crescimento econômico e o declínio de investimentos”, disse Roubini.

Países em desenvolvimento

“Apesar dos problemas estruturais, hoje, o sistema econômico russo é muito menos vulnerável e muito mais estável do que era alguns anos atrás. Nos últimos dois anos, a economia russa enfrentou não só as sanções ocidentais e a queda dos preços do petróleo, mas também a desaceleração econômica da China”, disse Roubini. Segundo ele, no futuro próximo, a economia russa poderá alcançar um crescimento de 1 a 2% por ano.

“Ao contrário da Arábia Saudita, que decidiu que a queda dos preços do petróleo é uma circunstância temporária e não mudou nada em sua economia, a Rússia reagiu corretamente. Em particular, o governo russo alterou a política de crédito e focou em metas de inflação, em vez de garantir o crescimento econômico”, disse Roubini. Segundo ele, os principais riscos para a Rússia são o declínio dos rendimentos reais e a instabilidade social.

Ao mesmo tempo, os riscos globais para os países em desenvolvimento não desapareceram. “Hoje, o processo de globalização beneficia os países que têm especialistas altamente qualificados, capazes de desenvolver produtos tecnicamente sofisticados. Os países com uma força de trabalho pouco qualificada estão perdendo a corrida da globalização “, disse o economista.

Além disso, o envelhecimento da população nos países desenvolvidos leva ao declínio de investimentos e do consumo e desacelera o crescimento da economia mundial. A população está envelhecendo não só nos EUA e no Japão, mas também na China e na Rússia. No entanto, segundo Roubini, os riscos globais existentes não podem levar a uma nova crise financeira internacional.

  • Nouriel Roubini: Economista (Universidade Harvard/EUA) estadunidense, de origem judaico-iraniana, da Stern School of Business da Universidade de Nova York, desde 2009. É também presidente do grupo de consultoria RGE Monitor, especializado em análise financeira.

KIRA EGOROVA

Fonte: Gazeta Russa