Defesa & Geopolítica

A QUE SE DESTINAM AS OPERAÇÕES ESPECIAIS?

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1st Special Forces Operational Detachment – Delta (1st SFOD-D) criada em 1977, a principal força contra-terrorismo e de operações especiais do Exército dos Estados Unidos

Rodney Alfredo Pinto Lisboa[1] especial para o Plano Brasil.

 

Considerando que as ações clandestinas, características das Forças de Operações Especiais (FOpEsp), dependem, fundamentalmente, do elemento “surpresa” para determinar o sucesso ou o fracasso de uma campanha militar, é possível afirmar que as denominadas Operações Especiais (OpEsp) constituem uma modalidade de condução da guerra tão antiga quanto à própria guerra.

Os inúmeros conflitos armados travados em diferentes períodos históricos estão repletos de situações em que tropas pequenas e especialmente treinadas, valendo-se do princípio militar clássico da “economia de forças”, realizavam um tipo de missão particularmente difícil – muitas vezes envolvendo ações denominadas “golpes de mão” – para as quais as forças convencionais não se encontravam devidamente qualificadas.

A mitologia por trás da figura do guerreiro revela que várias culturas do mundo antigo construíram mitos e lendas com base em situações reais de confronto, nas quais o guerreiro, lançando mão de sua astúcia, capacidade e adestramento, acabava transformando-se em herói ao derrotar um adversário muitas vezes mais forte e melhor equipado em uma ação até então considerada impraticável.

O herói mitológico incitou o imaginário popular tornando-se o ideal de guerreiro para várias organizações militares ao longo da história. Entretanto, embora alguns conflitos históricos sejam pródigos em apresentar episódios envolvendo tropas constituídas por guerreiros especializados, a tarefa de estabelecer um programa nacional efetivo para a formação de unidades compostas apenas por esse tipo específico de combatente mostrou-se proibitiva até meados do século XX, quando as Forças Armadas (FFAA) dos países mais desenvolvidos substituíram o sistema de conscrição (recrutamento) e reserva, que preparava seus contingentes de forma inadequada, pelo regime de voluntariado profissional, que oferecia os requisitos necessários para selecionar, treinar, capacitar e manter a tropa em um padrão operacional constantemente elevado.

Na segunda metade do século XX, por ocasião da constante tensão internacional provocada em decorrência da Guerra Fria, vários Estados influenciados direta ou indiretamente por uma das duas alianças militares antagonistas – bloco capitalista, liderado pelos EUA, e bloco socialista, liderado pela URSS – reestruturaram e/ou intensificaram suas políticas de defesa em face ao ambiente de guerra global iminente. Diante das incertezas geradas por ameaças mútuas, as FOpEsp assumiram um papel capital na estratégia de defesa dos países membros de cada uma das duas alianças. Operando normalmente na retaguarda do inimigo, elas agiam clandestinamente com a missão de desestabilizar o poder de combate da força opositora.

A modalidade de guerra não convencional relaciona-se com os princípios formulados por Carl Von Clausewitz quando, considerando que as operações militares são influenciadas por objetivos políticos uma vez que a guerra é um instrumento do qual se vale a política, as FOpEsp atuam “cirurgicamente” com o objetivo de enfraquecer o inimigo conquistando vantagens tanto militares quanto políticas.

Partindo da premissa formulada por Clausewitz, que estabelece uma relação íntima e direta entre guerra e política, as FOpEsp, por sua forma eficiente e sigilosa de operar, são utilizadas como uma valiosa ferramenta para garantir a estabilidade nacional e internacional. Portanto, ao serem empregadas como instrumento comprometido com as políticas nacionais, cabe ao Estado oferecer as condições necessárias para que as FOpEsp adquiram a capacidade de operar de forma autônoma, dispondo dos componentes (informação, transmissão, transporte e logística) que lhe são imprescindíveis para a execução das tarefas a que se destinam. Nesse aspecto, um enfoque relevante a ser analisado refere-se ao Nível de Condução da Guerra (escalonados no âmbito político, estratégico, operacional e tático) e sua abrangência quando considerados os resultados obtidos por ocasião de uma operação executada por tropas especializadas. Conforme é possível avaliar tomando por referência uma diversidade de campanhas realizadas por unidades de elite em momentos distintos da história, na imensa maioria das ações envolvendo FOpEsp os resultados obtidos ocorrem em nível tático, podendo, conforme as particularidades de cada caso, chegar a ocorrer em nível estratégico.

Neste ponto cabe ressaltar que o processo de formação de uma unidade de guerreiros aptos a conduzir ações militares não convencionais – OpEsp  – é um empreendimento que requer uma combinação de fatores que dependem, fundamentalmente, das políticas nacionais de segurança, da iniciativa e capacidade da força militar em questão (Marinha, Exército ou Força Aérea), do aporte financeiro destinado para esse fim, da disponibilidade de tempo (adestramento técnico operacional) e recursos (homens, equipamentos e armamentos), da adequação e modernização tecnológica, de engajamentos compatíveis que permitam o emprego das habilidades adquiridas e a aquisição de experiência de combate que possibilite a ampliação e diversificação dos conhecimentos obtidos.

Os conflitos contemporâneos mostram-se cada vez mais dependentes dos avanços da tecnologia. O planejamento e a condução de uma OpEsp seriam muito mais complexos e sensíveis às adversidades sem o conjunto de aparatos tecnológicos (armas e equipamentos) desenvolvidos para o desempenho optimizado das tarefas a que se destinam. Contudo, operadores do Serviço Aéreo Especial (Special Air Service [SAS]) britânico, considerada a FOpEsp mais bem preparada do mundo, atribuem a excelência de suas capacidades militares não apenas ao moderno material tecnológico por eles empregado, mas principalmente ao meticuloso adestramento a que são constantemente submetidos. Na contramão desse conceito, provavelmente na tentativa de compensar o desajuste de suas políticas de Segurança e Defesa, muitos países em desenvolvimento tendem a valorizar a moderna tecnologia em detrimento da qualificação da tropa. Embora a discrepância tecnológica seja um fator que, indiscutivelmente, afeta o moral dos militares que enfrentam adversários melhor armados e equipados, ela não é sua faceta preponderante. Nesse sentido, considera-se que o aspecto mais importante para o moral de uma FOpEsp é a consciência relacionada à qualidade e eficiência do treinamento, permitindo que seus operadores sejam capazes de enfrentar situações desfavoráveis valendo-se da melhor forma possível dos recursos tecnológicos que lhes são disponibilizados.

Militares da US Navy durante o BUD/S (Basic Underwater Demolition/Seals), o curso que seleciona os futuros Navy Seals

É importante destacar, que embora apresentem algumas semelhanças entre si, os conceitos, doutrinas e procedimentos operacionais adotados pelas FOpEsp variam conforme as políticas nacionais de defesa promovidas por cada país, distinguindo-se de acordo com a importância estratégica que o Estado atribui à utilização e manutenção dessas unidades, independente da condição (períodos de guerra ou tempos de paz) em que a nação se encontre.

Particularmente no que se refere à posição do Brasil, o Ministério da Defesa (MD) e o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas entendem que as FOpEsp constituem:

Força especializada na condução de guerra irregular que, pela versatilidade que lhe confere a estrutura, o grau de instrução e o grande número de especialistas, pode ser empregada em grande variedade de missões que contribuem para a consecução dos objetivos da força como um todo.

Com base nesta definição, as OpEsp realizadas pelas tropas brasileiras adestradas para a condução desse tipo de ação, ocorrem normalmente em ambiente de guerra irregular, em áreas conflagradas ou não, dentro ou fora do país, em ambiente amigo ou inimigo, interno ou externo, tendo por finalidade a conquista de objetivos estratégicos.

Militares das operações especiais brasileiras.

Por ocasião da abrangência que o termo “Forças de Operações Especiais” alcançou ao longo dos anos, sendo amplamente empregado nos diferentes níveis e setores das FFAA (Marinha, Exército e Força Aérea) e dos Órgãos de Segurança Pública (Polícia Federal, Força Nacional de Segurança, Polícia Militar, Polícia Rodoviária, Polícia Civil e Corpo de Bombeiros), é impreterível esclarecer que as OpEsp consideradas neste estudo referem-se a um gênero particular de ação que contempla missões do tipo “destrua e fuja”. Embora tenham evoluído para categorias distintas de OpEsp, essa modalidade peculiar de missão ficou caracterizada pela ação rápida e furtiva de tropas de pequeno porte, especialmente adestradas para agir clandestinamente com o objetivo de destruir ou inutilizar alvos operacionais ou estratégicos localizados na retaguarda do inimigo. A unidade precursora em ações dessa natureza foi idealizada em 1941 por Archibald David Stirling, oficial da Guarda Real Escocesa (Scots Guards), quando de sua proposta de criação do SAS britânico para minar a capacidade de combate do Afrika Korps alemão no norte da África durante a Segunda Guerra Mundial.

Unidades do SAS durante patrulha no norte da África, na Segunda Guerra Mundial.

Nota sobre o autor:
[1] Professor universitário; especialista em História Militar; mestre em Estudos Marítimos pela EGN (Escola de Guerra Naval). É fundador da Poseidon: Análises de Defesa e editor do blog FOpEsp (Forças de Operações Especiais). É membro do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB) e da Associação Brasileira dos Estudos de Defesa (ABED). Foi agraciado em 2014 com o título de Mergulhador de Combate Honorário e em 2016 com o título de Submarinista Honorário. Publicou diversos artigos em periódicos e revistas especializadas abordando a temática da Guerra Irregular e das Operações Especiais.

One Comment

  1. Diego Peixoto says:

    Digamos que atuação das Operações Especias, tenha evoluído conforme necessidade de cada país, porém a readaptação diante das metodologia empregadas na execução do curso, dependerá da crise urbana que se propaga na sociedade. Hoje o cenário é outro e a preparação também.

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