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Turquia: Erdogan ensaia o presidencialismo

O estado de emergência amplia os poderes de Erdogan. O levante militar foi um perigo para a democracia da Turquia, mas não deve ser usado como pretexto para um “golpe branco”, opina o jornalista Reinhard Baumgarten.

Erdogan agora tem o que precisava. Durante três meses, ele pode determinar o destino do país por decreto. Ele faz isso há algum tempo, mas agora tem a base constitucional necessária. Ele considera isso importante, por isso quer a todo custo uma emenda constitucional que estabeleça o sistema presidencial.

Ele poderia nem ligar, pois já tem o poder de fato de qualquer forma. Mas é extremamente importante para ele dar uma legitimidade democrática à sua onipotência. Com isso, ele ganha pontos entre seus seguidores. E isso é coisa que ele sempre lembra, em todas as oportunidades – o primeiro presidente da república da Turquia eleito diretamente pelo povo.

“O golpe é um presente de Deus”, ele disse na noite do golpe fracassado. Erdogan aproveita a oportunidade para acertar as contas com inimigos reais e imaginários.

Erdogan vai usar o estado de emergência como um teste. Ele quer dividir e dominar. Através de seu modo de governar, irá dividir a população ainda mais fortemente entre aqueles que são a favor ou contra ele. Isto é o que ficou patente nos últimos dias e noites. A polarização da sociedade, ela vai continuar aumentando.

Apesar de todo o ceticismo a respeito de Erdogan, não deve ser esquecido em que situação perigosa a Turquia esteve durante a noite do golpe. Através das muitas medidas esvaziadoras da democracia determinadas por Erdogan, já cresce na Alemanha certa desconfiança primordial. Mas os calafrios aumentam na medida em que vão sendo conhecidos os detalhes sobre os planos e objetivos dos golpistas. A junta militar teria trazido uma enorme carga de sofrimento ao país, teria feito o país recuar por anos, se não décadas.

A Turquia conseguiu contornar um possível desastre. Agora, por outro lado, deve realmente ser assegurado que após o golpe não haja um outro golpe. O presidente Erdogan não deve usar o estado de emergência para um chamado “golpe branco”, a fim de realizar seus objetivos de poder político. Tendo em conta as realidades políticas na Turquia, isso soa como um desejo vão.

Os líderes do levante se prepararam longamente para a tentativa de golpe. E ainda mais tempo Erdogan se preparou para sua limpeza – como ele mesmo chama –, colocada em marcha na própria noite do levante. O fato de seu ambiente mais próximo ter estado repleto de reais ou supostos seguidores de Fethullah Gülen deve ter incitado ainda mais sua ânsia por limpeza. E, no pior caso, a paranoia política da liderança turca, de estar cercada por inimigos e conspiradores, será ainda mais alimentada.

Reinhard Baumgarten

  • Reinhard Baumgarten é correspondente da TV pública alemã ARD em Istambul

Fonte: DW

Turquia suspende Convenção Europeia de Direitos Humanos

Forças de segurança em Ancara

Segundo governo, medida será adotada a exemplo da França durante o estado de emergência, aprovado pelo Parlamento. Vice-primeiro-ministro afirma que cidadãos não serão afetados.

O governo turco anunciou nesta quinta-feira (21/07) a suspensão da Convenção Europeia de Direitos Humanos durante o estado de emergência, decretado no dia anterior pelo presidente Recep Tayyip Erdogan e aprovado pelo Parlamento.

O vice-primeiro-ministro do país, Numan Kurtulmus, explicou que a suspensão da convenção, instituída em 1953, será feita “como na França”, em alusão às medidas tomadas no país europeu com a declaração do estado de emergência por causa dos atentados terroristas dos últimos meses.

Kurtulmus afirmou ainda que o governo tem como objetivo que o estado de emergência dure de 40 a 45 dias, a partir desta quinta-feira, e não três meses, como Erdogan anunciou na véspera.

Segundo o presidente, a declaração de emergência busca assegurar a democracia e localizar os responsáveis pela tentativa de golpe de sexta-feira passada. Nesse sentido, Kurtulmus insistiu que a declaração do estado de emergência não significa a aplicação da lei marcial e que os cidadãos não serão afetados.

“Os direitos de reunião e manifestação não serão cancelados. Não vai haver toque de recolher, não haverá nenhum retrocesso nos avanços democráticos”, afirmou o vice-primeiro-ministro. Kurtulmus prometeu que o “parlamento ficará aberto e funcionando”.

“Governo não democrático”

O oposicionista Partido Democrático dos Povos (HDP) criticou os anúncios do governo. “O caminho para a regra arbitrária, o comportamento ilegal, e a alimentação da violência foi escolhido. A sociedade foi forçada a escolher entre um golpe e um governo não democrático”, criticou a legenda.

O vice-premiê voltou a culpar o clérigo islamita Fethullah Gülen, exilado nos Estados Unidos, pela tentativa de golpe do fim de semana passado, afirmando que ele comanda uma “organização terrorista”. “Seu objetivo (dos golpistas) não era um golpe de Estado. Era matar o presidente Erdogan e levar o país a uma guerra de longo prazo com a Síria”, disse.

Em relação ao pedido formulado pelos EUA para que extradite Gülen, Kurtulmus pediu a Washington que se ponha no lugar da Turquia.

LPF/efe/afp

Fonte: DW

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América do Sul Brasil Destaques Estado Islãmico Inteligência Segurança Pública Terrorismo

Brasil: PF prende célula terrorista que planejava ação na Rio-2016

 A Polícia Federal prendeu nesta quinta-feira (21) um grupo que preparava atos terroristas nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. O ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, dará uma entrevista coletiva ainda hoje explicando detalhes da operação.

A ‘Operação Hashtag’, organizada pela Divisão Antiterrorista da Polícia Federal, prendeu cerca de dez brasileiros que estão sendo considerados como uma célula do Daesh (Estado Islâmico). No total, foram 12 mandados de prisão temporária por 30 dias dias, podendo ser prorrogados por mais 30.

O grupo foi encontrado após monitoramento de mensagens trocadas nas redes sociais, visto que os suspeitos seguiam os mesmos rastros dos terroristas envolvidos nos atentados em Orlando e em Paris, sendo recrutados pela internet.

Com autorização judicial, a PF investigou as correspondências dos suspeitos em redes como Facebook e Twitter, e descobriu relatos de compra de armamento e plano de realizar um atentado durante os Jogos Olímpicos. A investigação também identificou nas mensagens que os detidos chegaram a comemorar o atentado terrorista em uma boate LGBT em Orlando, EUA, que deixou 50 mortos e 53 feridos.

Foi a primeira vez que foi aplicada a lei antiterrorismo, que prevê como crime “promover, constituir, integrar ou prestar auxílio, pessoalmente ou por interposta pessoa, a organização terrorista; realizar atos preparatórios de terrorismo com o propósito inequívoco de consumar tal delito”.

Foto: Tânia Rêgo Agência Brasil

Fonte: Sputnik News

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China Conflitos Defesa Geopolítica Opinião

“Pequim pode prover sistema de defesa no mar do Sul da China”

Decisão de arbitragem pode fazer a China introduzir uma zona aérea de identificação sobre o mar do Sul da China.

Nos últimos meses a China tem repetidamente deixado claro que a introdução da zona aérea de identificação sobre o mar do Sul da China, de acordo com o sistema que funciona sobre o mar da China Oriental. Vasily Kashin, especialista militar russo, comenta a situação.

“Do ponto de vista tecnológico, os preparativos para o estabelecimento da zona aérea de identificação sobre o mar do Sul da China foram concluídos há muito tempo. Mas ela pode ser introduzida neste momento, o que empurra a decisão da arbitragem contra a qual Pequim protesta fortemente. A presença regular ou permanente de bombardeiros chineses com mísseis de cruzeiro na área seria uma boa demonstração de força”, assinalou Kashin.

O especialista de defesa também frisou que as ilhas artificiais no arquipélago Spratly com aeródromos militares são muito pequenas para fornecer abrigo e proteger contra ataques aéreos e de mísseis. Mas, em caso de tensão prolongada, sem se transformar em uma guerra, caças estacionados nos aeródromos do território disputado podem ser úteis. A escolta de aviões de combate e de reconhecimento norte-americanos demonstrará a força e prontidão da China em defender firmemente a sua posição.

Ao mesmo tempo, para Pequim é importante evitar a distorção do diálogo com Filipinas porque há uma chance para solucionar pacificamente todos os litígios sobre os territórios em disputa com a nova administração filipina, concluiu o especialista.

Foto: © AFP 2016/ STR

Fonte: Sputnik News

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Conflitos Destaques Estados Unidos Rússia Síria

Rússia pede investigação de bombardeios dos EUA contra civis na Síria

O Governo russo exigiu uma investigação sobre informações de ataques da coalizão liderada pelos Estados Unidos contra a população civil na cidade síria de Manbij.

“Geram uma grande preocupação os relatos de ataques da coalizão, particularmente na cidade síria de Manbij, que deixou dezenas de mortos e feridos, incluindo crianças (…) É uma história horrível e deve ser investigada”, disse a porta-voz Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova.

Fontes locais revelaram na última terça-feira à agência Sputnik que houve bombardeios da coalizão dos EUA que mataram mais de 100 civis, incluindo mulheres e crianças.

As mesmas fontes disseram que o incidente ocorreu na aldeia de At Tajar, na região de Aleppo.

Os EUA lideram uma coalizão de mais de 60 países contra o Daesh (autoproclamado Estado Islâmico) no Iraque desde agosto de 2014, e na Síria, desde Setembro do mesmo ano.

O Daesh é classificado como organização terrorista pelo Conselho de Segurança da ONU e proibido em muitos países, inclusive na Rússia.

Foto: © REUTERS/ Amer Almohibany

Fonte: Sputnik News

Banho de sangue na Síria: França vingou Nice?

O especialista em política externa Daniel McAdams, do Instituto da Paz Ron Paul, pensa que o incidente perto da fronteira turco-síria pode ter sido um ato de vingança dos franceses pelo ataque terrorista em Nice.

Na quarta-feira (20) o governo sírio exigiu que a ONU tome medidas imediatas contra a França e os Estados Unidos, após a coalizão liderada pelos EUA na Síria ter morto pelo menos 140 civis, entre 20 e 65 anos, em um ataque aéreo norte-americano em Manbij na segunda-feira (18) e pelo menos 120 mortos na aldeia de Toukhan Al-Kubra, perto da fronteira turco-síria, em um ataque aéreo francês na terça-feira.

“O governo da República Árabe Síria condena, nos termos mais fortes, os dois massacres sangrentos perpetrados pelos franceses e norte-americanos <…> que atiraram mísseis e bombas contra civis”, divulga um comunicado do Ministério do Exterior sírio.

Muitos perguntam se o ataque aéreo mortal francês na terça-feira (19) não teria sido uma represália pelo massacre em Nice, na França, na semana, em que 84 faleceram e muitos outros foram feridos.

Na esteira do ataque terrorista em Nice, o presidente francês, François Hollande prometeu intensificar os bombardeios anti-Daesh para enfraquecer e destruir a rede terrorista, que assumiu a responsabilidade por uma série de ataques em todo o país.

Opinião do especialista

Na quarta-feira (20), Daniel McAdams, diretor-executivo do Instituto da Paz Ron Paul, comentou as ações de Washington e Paris em entrevista à Sputnik.

“Não houve qualquer punição por ataques semelhantes ao de Nice no passado. Isso pode ser um terrível acidente e não uma vingança contra civis, mas é parte de uma política mais ampla e que deve ser levada a julgamento”, afirmou McAdams. “Toda a operação anti-[Daesh] é ilegal na Síria. Não fomos convidados pelo governo sírio legítimo, então qualquer ação que realizemos no seu solo é ilegal”.

— Por que é que os ataques aéreos do passado que causaram mortes de civis não receberam a condenação da comunidade internacional?

“Infelizmente, a mídia dos EUA, de modo geral, é propaganda <…> Quem faz a cobertura? Eles não divulgam essa informação, porque isto é uma questão da política <…> Os EUA têm propagandeado que eles não estão seguros em suas camas se não combaterem [o Daesh] em todos os lugares <…> Só que, bombardeando o Oriente Médio, aumenta o perigo de resposta [terrorista], o que vemos mais e mais” – resumiu McAdams.

Fonte: Sputnik News

Coalizão liderada pelos EUA na Síria causa a morte de 140 civis

A Coalizão Nacional Síria pediu aos Estados Unidos e seus aliados para suspender os ataques aéreos na república árabe, após a constatação de 140 mortes de civis em apenas dois dias de operações.

Na última segunda-feira, bombardeios realizados por aviões dos EUA na Síria provocaram pelo menos 20 baixas entre a população não combatente de Manbij. Um dia depois, aeronaves francesas mataram outros 120 civis durante uma missão na vila de Toukhan Al-Kubra, perto da fronteira com a Turquia.

Mais cedo, o Ministério das Relações Exteriores da Síria enviou cartas à secretaria geral das Nações Unidas e ao Conselho de Segurança exigindo ações imediatas contra a missão da OTAN no país. Damasco pediu que a ONU investigue as atrocidades cometidas por França e Estados Unidos como parte das operações da coalizão militar liderada por Washington.

Fonte: Sputnik News

 

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Defesa Defesa Anti Aérea Mísseis Rússia Sistemas de Armas Tecnologia

Cinco eficientes sistemas de defesa aérea da Rússia

A qualidade dos equipamentos de defesa aérea da Rússia é reconhecida até mesmo pelo EUA. São sistemas que engloba míssil e sensores capazes de rastrear simultaneamente vários alvos e atingir objetivos a longas distâncias.

O mais popular: Igla-S

O sistema de defesa aérea Igla-S é portátil e apresenta um design bastante simples, composto por apenas um tubo lançador e o próprio míssil, e é projetado como meio de defesa contra aviões, helicópteros e drones voando em baixa altitude. O míssil se orienta pela emissão de calor do alvo (infravermelho).

O Igla-S possui grande resiliência em ambiente de contramedidas, além de contar com alta precisão. Suas qualidades em combate vem sendo constantemente demonstradas em uma série de conflitos, como na ex-Iugoslávia e Síria.

  • Alcance operacional: 6000 m
  • Envelope de voo: de 10 a 3500 m

O mais eficaz: S-300VM “Antey-2500”

O sistema de defesa aérea S-300VM “Antey-2500” é um complexo de mísseis de defesa aérea capaz de combater mísseis balísticos lançados de uma distância de 2.500 km contra todos alvos aéreos.

O sistema é composto por dois radares: um de busca e detecção aérea, e outro para acompanhamento e guia.

O primeiro busca no espaço aéreo alvos que ofereçam ameaças como aviões, helicópteros e mísseis. O segundo serve para orientar os mísseis lançados.

Este sistema de defesa aérea é o mais capaz que a Rússia já exportou. Atualmente a Venezuela é o único país das Américas que utiliza este sistema.

  • Alcance operacional contra alvos balísticos: 40 km
  • Alcance operacional contra alvos aéreos: 200 km
  • Envelope de voo: 25 a 30 km

O mais completo: Pantsir S-1

O complexo de defesa aérea Pantsir S-1 foi projetado para defesa área de instalações civis e militares, incluindo a defesa de outros sistemas de defesa área de grande porte e longo alcance.

Também pode efetuar a proteção contra ameaças terrestres e marítimas.

O Pantsir S-1 teve seu batismo de fogo na Síria, onde as qualidades do sistema foram confirmadas entre elas, a capacidade de entrar em operação em apenas 5 minutos e o alto poder de fogo e precisão.

O Pantsir S-1 é capaz de derrubar qualquer alvo, desde um “pardal” até um caça.

Atualmente está em serviço, além da Síria, na Argélia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Omã.

  • Alcance operacional: 1,2oo m a 20 km
  • Envelope de voo: 15 m a 15 km

O mais recente: S-400 “Triumph”

O sistema de defesa aérea S-400 “Triumph” foi concebido para atacar aeronaves táticas, estratégicas como as de guerra eletrônica “AWACS”/ inteligência.

Sem excluir aquelas que estão sendo desenvolvidas com tecnologia “stealth”, e isso a uma distância de até 400 km.

O sistema também é capaz de neutralizar ameaças de mísseis balísticos e outros alvos hipersônicos.

Em comparação com seu antecessor o S-300, o “Triumph” aumentou em 2,5 vezes o seu poder de fogo.

A exportação desse sistema está programada para começar a partir de 2016.

O mais promissor: S-500

O sistema de defesa aérea S-500 faz parte de uma nova geração de sistemas de mísseis de defesa aérea que se baseiam no princípio de separação de tarefas de combate contra alvos aéreos e balísticos.

O principal objetivo do S-500 será neutralizar mísseis balísticos e intercontinentais e de médio alcance, sendo capaz de lançar mísseis em condições de alcançar satélites em órbita baixa ou plataformas bem como outros objetos espaciais de caráter militar.

O S-500 está previsto para entrar em serviço em 2017.

TATIANA RUSSAKOVA

Edição/Imagens: Plano Brasil

Fonte: Gazeta Russa

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Conflitos Opinião

Tentativa de golpe na Turquia: Uma tragédia em dois atos

Erdogan encabeçou como um autêntico dirigente de seu povo a resistência contra a rebelião. 

Mas as represálias desmedidas contra golpistas lhe retiram legitimidade aos olhos do mundo.

Pouco depois da meia-noite de sexta-feira, Akin Özcer, um turco liberal que já atuou como diplomata e hoje escreve colunas políticas na imprensa, atravessa a segunda ponte sobre o Bósforo. “Se eu tivesse esperado uma hora a mais, estaria morto, crivado de balas pelos militares que abriram fogo contra a multidão”, lembrava ele, ainda tomado pelo estupor, em um café na orla leste do rio.

Naquela mesma hora, Recep Tayyip Erdogan voava, em uma aeronave particular, a partir da costa do mar Egeu. Um pelotão de soldados tinha se dirigido ao seu hotel na região turística de Marmaris com a ordem de capturá-lo, vivo ou morto. A pequena aeronave do presidente da Turquia já estava sob a mira do radar de disparo de mísseis de dois F-16 dos golpistas quando o seu piloto teve a frieza de responder pelo rádio que se tratava de um voo comercial da Turkish Airlines.

Com o peso da morte —ou da prisão— sobre a sua cabeça, o dirigente que mais poderes acumulou na Turquia desde Mustafá Kemal Atatürk se escondeu de madrugada no principal aeroporto de Istambul. Recorreu às mesmas redes sociais e canais de televisão privados cuja liberdade vem procurando limitar desde que assumiu o poder para conclamar a população a conter o golpe nas ruas. Seus seguidores, além de outras pessoas que nunca votaram nele, ainda comemoram nas praças das cidades turcas o fracasso do maior levante militar realizado no país desde 1980.

Yavuz Baydar, comentarista político demitido de um dos principais jornais diários turcos por pressão do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), de Erdogan, também circulava por aquela ponte norte sobre o Bósforo quando o rádio divulgava a informação sobre o bloqueio militar na ponte sul. “Os especialistas afirmam que por trás do golpe estariam três setores diferentes da cúpula militar”, explica Baydar, que apoiou as reformas do AKP em seus primeiros Governos antes de rejeitar o desvio autoritário do partido islâmico. “Há seguidores de Fethullah Gülen, kemalistas e simples oportunistas que tentaram se aproveitar do golpe para subir na hierarquia militar”, afirma.

Seu diagnóstico coincide, em parte, com o de Egemen Bagis, ex-ministro de Assuntos Europeus e ex-assessor de Erdogan para questões internacionais dentro do AKP. “O golpe de Estado foi dirigido principalmente por generais ligados à confraria islâmica do imã Gülen, exilado nos Estados Unidos, embora outros dirigentes também tenham participado em troca de promessas de alguma recompensa”, avalia Bagis.

Seria o caso, por exemplo, do ex-comandante da Força Aérea general Akin Özturk, a quem se atribui o comando do levante e que supostamente pretendia ser nomeado chefe do Estado Maior. As imagens de Özturk divulgadas após a sua prisão, em que ele aparece com hematomas e uma orelha vendada, deram origem aos protestos da Anistia Internacional, que tem denunciado abusos e maus tratos nas ações maciças realizadas contra os golpistas.

Erdogan permanece em Istambul —feudo político do líder islamista (onde foi prefeito) e sede do Primeiro Comando do Exército, que se manteve leal ao Governo na sexta-feira—, em sua residência no distrito de Üsküdar, na região conservadora ao leste da cidade, desde o fracasso da intentona. Não há previsão, até o momento, de quando retornará ao palácio presidencial da capital, Ankara, a fim de presidir uma reunião decisiva do Conselho de Segurança Nacional, o órgão responsável pela defesa nacional e que define os membros da cúpula militar. O vazamento de que estaria em curso uma depuração maciça de elementos gülenistas nas Forças Armadas é apontado como uma das hipóteses para explicar a rebelião.

“Com a experiência de ter vivido quatro golpes de Estado desde 1971, tenho a impressão de que esse levante foi feito de forma muito estranha”, diz Baydar sobre os movimentos militares da última sexta-feira, “mas o que mais me surpreende é a descomunal magnitude das represálias —um expurgo generalizado— ordenadas pelo presidente Erdogan”.

O ex-diplomata Özcer, que serviu na França e na Espanha antes de trabalhar na aproximação entre Turquia e União Europeia, agora apoia a política linha-dura do Governo, com milhares de detenções e dezenas de milhares de servidores públicos afastados de seus cargos. “É a única forma de impedir que voltem a disparar contra seu próprio povo”, alega. O ex-ministro Bagis também se mostra partidário da reinstauração da pena de morte para os golpistas se o Parlamento aprovar. “Não devemos nada à UE”, diz em resposta à ameaça de Bruxelas de excluir a Turquia do processo de adesão se a pena capital for adotada.

Tensão social

A tensão aflorou até mesmo entre setores sociais habitualmente moderados depois do trauma causado por um golpe que custou mais de 230 vidas e transformou edifícios oficiais de Ankara bombardeados pelos revoltosos em autênticas zonas de guerra. Esse estado de opinião que se instalou na sociedade turca pode estar sendo aproveitado como um sinal do céu receia o colunista Baydar, “para implantar um sistema monolítico de inspiração baazista, de partido único em um Governo purgado por Erdogan”.

Os turcos esperam ter-se libertado da maldição de meio século de golpes militares em um ato de heroísmo democrático coletivo, encabeçados por seu líder político há mais de uma década. Mas, como em toda tragédia, o destino parece tê-los arrastado pelo caminho do sectarismo e da vingança desmedida.

JUAN CARLOS SANZ

Fonte: El País

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“Estados estrangeiros podem estar envolvidos em tentativa de golpe na Turquia” – Erdogan

O presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, disse nesta quarta-feira acreditar que países estrangeiros podem estar envolvidos na tentativa fracassada de golpe de Estado da semana passada, embora ele tenha se recusado a citar quais seriam esses países.

Falando por meio de um intérprete à emissora Al Jazeera, Erdogan também minimizou sugestões de que ele estava se tornando autoritário e que a democracia turca estava sob ameaça.

“Vamos seguir dentro de um sistema parlamentar democrático, nunca nos afastaremos disso”, disse.

Redação Istambul

Fonte: Reuters

Erdogan anuncia estado de emergência por três meses na Turquia

O presidente da Turquia, Tayyip Erdogan, anunciou nesta quarta-feira a decretação por três meses do estado de emergência para permitir às autoridades tomar ações rápidas e efetivas contra os responsáveis pela tentativa fracassada de golpe militar no último fim de semana.

Erdogan, que lançou um expurgo em massa em instituições estatais desde a tentativa de golpe em 15 de julho, disse que a medida estava completamente em linha com a Constituição da Turquia e não viola o regime da lei ou as liberdades básicas dos cidadãos turcos.

O estado de emergência, que entrará em vigor após ser publicado no diário oficial da Turquia, vai permitir ao presidente e a seu gabinete passar por cima do Parlamento na aprovação de novas leis e para limitar ou suspender direitos e liberdades que considerarem necessários.

Erdogan fez o anúncio em pronunciamento transmitido pela TV em frente de ministros do governo após a reunião do Conselho de Segurança Nacional que durou quase cinco horas.

 Asli Kandemir

Fonte: Reuters

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Brasil China Geopolítica Negócios e serviços Rússia

Banco dos BRICS aprova financiamento para a Rússia e conclui acordo com o BNDES

Foi realizada nesta quarta-feira, em Xangai, a primeira reunião anual do Conselho Diretor do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS (NDB).

Nesta reunião, o banco aprovou o financiamento do projeto de construção de hidrelétricas de pequeno porte na República da Carélia, na Rússia, no valor de 100 milhões de dólares. Além disso, foi celebrado um acordo-quadro com o BNDES e com o Banco Asiático de Desenvolvimento.

“Hoje, o conselho de diretores celebrou um acordo-quadro com duas instituições: Banco Asiático de Desenvolvimento e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social”, disse o vice-ministro russo. Após a celebração desse acordo, as partes poderão finalmente inciar um diálogo mais específico e começar a negociar a realização de projetos concretos, disse o vice-ministro das finanças da Rússia, Sergei Strochak, que elogiou o trabalho realizado pelo presidente do banco, o indiano Kundapur Vaman Kamath.

“No início de toda instituição, ainda mais de uma instituição multilateral de desenvolvimento, há muito trabalho técnico, de rotina e pouco interessante a ser feito. O presidente e a sua equipe realizaram esse trabalho com sucesso e já conseguimos tomar decisões relacionados à nossa atividade, no âmbito dos projetos. Nesse sentido, a Rússia, na qualidade de acionista, está satisfeita com o trabalho realizado neste primeiro ano, desde a inauguração da instituição”, disse Strochak aos jornalistas em Xangai, após a reunião anual do NDB.

O vice-primeiro ministro da China, Zhang Gaoli, discursou durante a cerimônia de abertura do conselho de diretores garantiu que o governo da China seguirá apoiando as atividades do banco de desenvolvimento dos BRICS.

“China concedeu muitas condições favoráveis para a instituição e o funcionamento do banco. O governo da China seguirá oferecendo apoio ao NDB, para que o banco possa operar com sucesso”, disse Zhang Gaoli.

“Os países do BRICS estão enfrentando diversos desafios e ameaças. Tenho certeza de que as dificuldades também trazem oportunidades. Devemos transformar crises em oportunidades. Estamos certos de que a tendência de fortalecimento do peso dos países do BRISCS será mantida. O nosso papel seguirá aumentando arena global”, disse o chinês.

Ainda nesta quarta, o banco aprovou financiamento para construção de pequenas hidrelétricas na República da Carélia, na Rússia. O financiamento, no valor de U$100 milhões será repassado para os parceiros do NDB: Banco de Desenvolvimento Euroasiático (BDE) e Banco Internacional de Desenvolvimento.

O especialista russo Aleksandr Apokin, diretor do grupo de pesquisa da economia mundial do Centro de Análise Macroeconômica e de Previsões de Curto Prazo da Rússia, explicou o procedimento em entrevista para a rádio Sputnik.

“O banco dos BRICS é um banco de desenvolvimento de escala global, e deve possuir expertise no âmbito dos projetos que financia. Por isso a parceria com os dois bancos intermediários, que possuem grande expertise nesse campo em países da CEI e da União Euroasiática.”

Segundo o especialista, “Brasil, Índia e China já aprovaram projetos dessa escala” no âmbito do NDB, e “agora é a vez da Rússia”.

Com sede em Xangai (China), o Banco dos BRICS é um banco de desenvolvimento multilateral, operado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul como uma alternativa ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional (FMI). A instituição tem como meta promover a cooperação financeira e o desenvolvimento de mercados emergentes. Cada membro contribui com 20% do capital do banco, tendo direito ao mesmo poder de voto.

Até o momento, 45 pessoas já foram contratadas para trabalhar na sede da instituição em Xangai. Até o final do ano, o quadro de funcionários da instituição deve aumentar para 100.

O Bando dos BRICS começou a funcionar no ano passado, em 20 de julho de 2015. Durante o último ano, o banco aprovou os seus primeiros cinco projetos na área de infraestrutura, recebeu a qualificação AAA das agências financeiras chinesas Chengxin International Credit Rating e China Lianhe Credit Rating, e lançou no mercado chinês títulos de crédito para energia renovável no valor de 4 bilhões de yuans (cerca de R$1,9 bilhões).

Foto: © REUTERS/ Aly Song

Fonte: Sputnik News