Defesa & Geopolítica

Vídeo: EUA entram na guerra civil da Síria

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MAR VERMELHO (23 de Setembro de 2014) USS Arleigh Burke (DDG 51) lança mísseis Tomahawk Land-Attack (TLAM) contra alvos do ISIL

Com os primeiros bombardeiros na Síria, na madrugada de terça-feira, os Estados Unidos entraram em uma guerra civil que evitaram durante anos. Mais de 190.000 mortos e mais de três milhões de refugiados depois, os avanços do Estado Islâmico (EI) alteraram os cálculos de Washington. Nas vésperas da Assembleia Geral da ONU, que congrega nesta semana em Nova York mais de 140 líderes mundiais, o presidente Barack Obama autorizou uma intervenção aérea nas regiões controladas pelos radicais sunitas.

A intervenção, que conta com o apoio de cinco países árabes, põe fim a três anos e meio de hesitações. Obama, que em agosto ordenou bombardeios no vizinho Iraque para frear os avanços do mesmo grupo, é um presidente em guerra: exclui no momento o envio de tropas terrestres para o Iraque e a Síria, mas a retirada dos últimos anos e a vontade de acabar com o estado de guerra perpétua posterior ao 11 de setembro de 2001 está em questão.

Os Estados Unidos, como antecipou Obama em um discurso para a nação em 10 de setembro, atacam na Síria, mas o roteiro é diferente do que se previa pouco tempo atrás. O objetivo dos ataques não é, como quase ocorreu em setembro de 2013, o regime de Bashar al-Assad, mas os grupos que se opõem a ele, como o EI e o Jorosan, uma organização ligada a Al Qaeda que, segundo a Casa Branca, preparava um atentado eminente na Europa ou nos EUA.

Aqueles que em 2011, quando estourou a guerra civil na Síria, pediam em Washington uma intervenção o faziam no contexto das primaveras árabes: as revoltas populares contra regimes autoritários. A ressaca daquelas revoltas e o auge islamita modificam as prioridades: primeiro, frear os jihadistas que pretendem criar um califado; Assad, cuja queda Obama pediu pela primeira vez há três anos, pode esperar.

Obama autorizou os bombardeios na quinta-feira, após visitar a sede do Comando Central dos EUA na Flórida, responsável pelo Oriente Médio e o norte da África nas Forças Armadas norte-americanas. Os ataques vieram, primeiro, com mísseis Tomahawk lançados a partir de porta-aviões no mar Vermelho e no Golfo Pérsico, e depois com caças, bombardeiros e aviões não pilotados, segundo o Pentágono.

Os ataques destruíram alvos do EI – combatentes, campos de treinamento, armazéns, centros de comando e veículos – próximos de Raqqa, capital de fato dos jihadistas na Síria, e em outras cidades no leste e norte do país. Os alvos da Jorosan se encontram próximos da cidade síria de Alepo, e incluem campos de treinamento, fábricas de munições e centros de comunicação.

O Bahrein, Jordânia, Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos participaram ou apoiaram os ataques contra o EI. “A força desta coalizão deixa claro para o mundo que esta não é uma luta só da América”, disse Obama em Washington antes de voar para Nova York para participar da Assembleia Geral da ONU e de outras reuniões com líderes internacionais.

Para Obama, é fundamental a mensagem de que a operação contra os insurgentes conta com o respaldo de uma coalizão internacional de mais de 40 países – inclusive várias potências árabes sunitas – e que não opõe os EUA contra o EI mas o mundo árabe e muçulmano contra o EI.

O fato da intervenção começar justamente antes da grande semana da ONU – a organização encarregada de preservar a legalidade internacional – coloca Obama em uma posição delicada. Ao contrário do que ocorre no Iraque, a base legal não está bem clara na Síria. Os bombardeios no Iraque respondem a um pedido do Governo deste país. Na Síria não existe tal oferecimento. Os EUA não pediram permissão ao regime sírio: se limitaram a informar seu embaixador na ONU. A Administração de Obama sustenta que, de acordo com o artigo 51º da Carta da ONU, a defesa do Iraque, dos EUA e de seus aliados diante da ameaça do EI justifica a missão.

Os EUA não pediram uma autorização para o Conselho de Segurança da ONU: a Rússia, aliada de Assad, poderia vetá-la. O presidente também não pediu um voto de confiança ao Congresso dos EUA em apoio à missão: a Casa Branca acredita que a autorização de George W. Bush para usar a força contra a Al Qaeda após os atentados de 11 de setembro ampara sua resolução.

Obama quer usar a ida na ONU para reforçar a legitimidade da operação. Pronunciou na terça-feira seu discurso anual diante da Assembleia Geral e presidiu uma reunião do Conselho de Segurança na qual tentou aprovar uma resolução para perseguir os combatentes estrangeiros do EI.

Sem a cooperação aberta do regime de Bashar al-Assad nem de tropas terrestres confiáveis, é uma incógnita se a intervenção aérea bastará para derrotar o Estado Islâmico. “Não é possível conhecer a duração destes desdobramentos e operações”, admitiu Obama diante do Congresso. Não se vê o final desta guerra.

Fonte: El País

Ataque ao “Estado Islâmico” na Síria marca guinada

Obama hesitou por muito tempo em iniciar uma ação militar na Síria. Decisão é uma mudança na política americana em vários sentidos, opina o editor-chefe da DW, Alexander Kudascheff.

Os Estados Unidos mostraram que não estão para brincadeiras – e atacaram o “Estado Islâmico” (EI) de maneira decisiva e resoluta na Síria, onde os jihadistas têm sua principal base, em Raqqa e redondezas. E eles não atacaram sozinhos: eles estão enfrentando o EI com aliados árabes! Entre eles a Arábia Saudita, que é suspeita de incentivar, apoiar e financiar a milícia terrorista.

Isso mostra que os EUA não estão entrando sozinhos na guerra contra os islamistas fundamentalistas na Síria e no Iraque. Eles procuram uma aliança maior, mesmo sem ter um mandato da ONU. E os tradicionais aliados de Washington – o Reino Unido e a França – estão, em princípio, também dispostos a atacar.

Isso é uma guinada no Oriente Médio. Pois, embora o presidente sírio, Bashar al-Assad, sequer tenha sido consultado sobre a realização de ataques em seu país esfacelado pela guerra civil, é possível que justamente Assad seja o maior beneficiado da luta contra o EI.

Alexander Kudascheff é editor-chefe da DW

Até então, Assad era o pária do Oriente Médio, um autocrata e ditador, responsável por 200 mil mortes e milhões de refugiados. Mas, na guerra contra a milícia islâmica, Assad pode se tornar um parceiro estratégico e tático. A escolha entre EI e Assad é politicamente pouco atraente, mas, na dúvida, a aliança internacional vai privilegiar Assad.

A guerra contra o EI, que se iniciou com os ataques aéreos, também é um ponto de guinada para Obama. O ganhador do Prêmio Nobel da Paz queria que os Estados Unidos não entrassem mais de guerras. Ele retirou as tropas americanas do Iraque. No Afeganistão, a retirada já começou e deve ser concluída no final do ano que vem.

Com Obama, os Estados Unidos eram uma potência em retirada, alguns falavam até mesmo de um renascimento do isolacionismo. Agora eles retornaram às ações militares no Oriente Médio. No momento só com operações aéreas e não terrestres. Mas por quanto tempo é possível manter esssa postura, quando a história militar mostra que as guerras são vencidas no combate terrestre? E com grandes perdas, é claro.

E é uma guinada também na determinação política em não apenas combater e conter o EI, mas em destruí-lo. A incrível brutalidade dos islamistas, encenada midiaticamente, e o seu desejo de destruir culturalmente o Oriente Médio e acabar com sua milenar diversidade, não será tolerada.

Essa guerra contra esses combatentes religiosos de ideologias medievais é realmente uma guerra contra o terrorismo, contra o islamismo. A luta contra o fascínio exercido por uma interpretação arcaica do islã está apenas começando. E não apenas no Oriente Médio, mas também na Europa e na Alemanha, onde milhares de jovens estão dispostos a morrer por Alá.

Fonte: DW.DE

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