Defesa & Geopolítica

Dois anos após Kadafi, caos cresce na Líbia

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Imagens do corpo ensanguentado de Muamar Kadafi espalharam-se pelo mundo, em 20 de outubro de 2011, como primeiras evidências da morte do homem que mandou na Líbia por 40 anos. Três dias depois, os oito meses de revolta foram encerrados com a queda de Sirte, último reduto leal ao coronel. Dois anos depois, o país está em frangalhos e parte dos líbios sente saudades dos tempos do ditador.

O mais esdrúxulo exemplo do caos líbio deu-se há dez dias, quando o primeiro-ministro, Ali Zeidan, foi sequestrado em Trípoli por ex-rebeldes anti-Kadafi como represália pela captura de um suposto líder da Al-Qaeda, Abu Anas al-Libi, pelos EUA. Libertado horas depois, Zeidan denunciou ter havido “golpe contra a legitimidade”.

“Zeidan é fraco, sem instrumentos para conduzir um país cujas instituições foram desmontadas na ditadura”, disse Geoff Porter, especialista do North Africa Risk Consulting.

No sul da Líbia, dezenas de xeques beduínos e líderes tuaregues exigem autonomia política e montaram governos de facto, protegidos por milícias. Enquanto isso, drones americanos vasculham a área constantemente. Em todo o território, extremistas islâmicos se beneficiam do volume imenso de armas restantes dos oito meses de guerra civil, contrabandeiam armamento para Síria e Somália e reforçam frentes de combate no Mali e na Tunísia.

Nesse cenário fragmentado, os líbios escolherão este mês os seus representantes na Assembleia Constituinte. O texto final da nova Constituição, que em princípio terá de acolher as demandas autonomistas e apelos de islâmicos moderados e extremistas, será aprovado pelo Conselho Geral Nacional, onde a Irmandade Muçulmana líbia luta contra políticos seculares.

“A Líbia ainda carrega o legado de ausência de instituições da ditadura de Kadafi. O esforço não se resume a construir um governo, mas um Estado”, afirmou Porter.

Os 6,4 milhões de líbios vivem sob total insegurança. As forças de segurança continuam dispersas, sem preparo e a criminalidade cresce. Segundo Claudia Gazzini, especialista do International Crisis Group, os grupos armados se defrontam entre si.

Em setembro de 2012, um deles invadiu o Consulado dos EUA em Benghazi e matou o embaixador americano, Christopher Stevens, e três funcionários. Porter, no entanto, não vê risco de golpe de Estado. “Ninguém quer substituir Zeidan, porque não há como governar o país”, afirmou.

A italiana Claudia, que vive em Trípoli há um ano e meio, diz que ouve queixas recorrentes sobre a insegurança. Segundo ela, muitos sentem saudades de Kadafi. “Em termos de segurança, com certeza Kadafi era melhor. Há uma insatisfação geral com o atual processo político.”

Segundo Riccardo Fabiani, do Eurasia Group, a situação é caótica, mas não como na Somália, onde há uma guerra civil. “Na Líbia, nenhum grupo jihadista quer derrubar o regime. O que eles querem é aumento de salário, autonomia e resolver a situação política.”

Fonte: Estadão

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