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Conexão Geo 33

1) Atualizando a crise com o Irã.

2) As tensões que correlacionam China, EUA, Hong Kong e Taiwan.

3) 42 Reunião do Tratado Antártico.

 

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Estudo de palestinos ajuda a compreender sua sociedade fraturada

Nakba – “catástrofe” em árabe – expulsão das populações árabes pelos israelenses durante a guerra de 1948

 

Por José Ailton Dutra Júnior*

A Questão Palestina é um dos temas centrais da história contemporânea, pois a existência de uma sociedade que vive dividida em uma população exilada e expulsa por um movimento colonial de origem europeia apoiado pelas potências capitalistas anglo-saxãs hegemônicas no mundo desde o fim das guerras napoleônicas (primeiro a Grã Bretanha e depois EUA)-o sionismo-e outra sobre a ocupação do estado criado por esse movimento (Israel), sendo que esse povo é a população nativa do país no qual se encontram alguns dos mais importantes sítios religiosos da duas maiores religiões do mundo (Cristianismo e Islamismo), sendo esse país uma terra sagrada para essas religiões e o povo vítima dessas perseguições ter populações que as praticam, se trata de um fato que de forma, direta ou indireta, acaba envolvendo. Aceitar ou repudiar o destino imposto ao povo palestino, nessa situação, significa definir um padrão de como se devem tratar os seres humanos nos séculos seguintes em todo o globo: ou se aceita que os direitos humanos, como definidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, assinada pela maioria dos estados do mundo, são válidos- ao menos teoricamente-para todos os seres humanos, ou ela se aplica a alguma minoria poderosa e privilegiada dentro da ordem mundial atual.

Evidentemente, os palestinos não são a única população no mundo que sofre injustiças terríveis. Podemos citar os habitantes da Nova Guiné Ocidental vitimados por uma brutal ocupação militar da Indonésia (que pode ter matado entre 100 e 500 mil pessoas, segundo diversos órgãos de imprensa) cujo objetivo é entregar suas terras, florestas e subsolos para o saqueio por parte das corporações multinacionais americanas, australianas e britânicas, dentre outros países. Podemos citar a questão dos curdos na Turquia, país da mesma região da Palestina e de certa forma um vizinho, cujas políticas repressivas e negação de direitos, em maior ou menor grau, independente se suas forças políticas tenham ou não se aliado aos EUA e Israel, caracteriza a conduta padrão do estado turco há um século. Podemos citar inúmeros e mais terríveis e sangrentos casos, em relação à Palestina, ao longo do continente africano e outras partes do mundo. Todos são acontecimentos importantes, mas em nenhum deles existe essa questão colocada pela existência do drama palestino: o povo nativo da Terra Santa cristã e muçulmana, falante da mesma língua que os habitantes dos países vizinhos, compartilhando com eles-exceto os egípcios- uma identidade maior síria- foi parcialmente expulsa por colonos de origem judaica (que também considera a Palestina e vários de seus lugares sagrados), cujos líderes fundadores e movimentos vieram da Europa, e outro esta exilada nos países vizinhos, mas cada vez mais possui comunidades dispersas pelo mundo.

Por isso, para se poder compreender a Questão Palestina também é necessário conhecer informações básicas sobre a sociedade palestina e sua história. Bons sites, boas reportagens, bons documentários e bons livros de divulgação ajudam a começar a entender esse assunto tão complexo. Uma compreensão mais profunda requer livros de caráter mais acadêmico e uma das melhores obras nesse sentido é o trabalho de Samih K. Farsun e Christina E. Zacharia Palestina and the Palestinian, publicado em Nova York em 1997.

Infelizmente, como acontece com muitos livros bons em diversas áreas das ciências humanas, esse trabalho não foi editado no Brasil, mas ele pode ser encomendado pela internet em sites estrangeiros.

Nesse trabalho, os dois autores palestinos irão mostrar a sociedade palestina como ela existiu antes de depois da Nakba (desastre em árabe, a expulsão de 700 mil palestinos pelos sionistas em 1948), mais especificamente como era a sociedade palestina desde o século XVIII, as transformações por que passou no século XIX (Reformas Tanzimat no Império Otomano e a penetração do capitalismo ocidental), a colonização britânico-sionista (1918-1948), e depois, a sua transformação profunda como resultado da Nakba e sua divisão em três segmentos: os exilados, os habitantes da Faixa de Gaza e Cisjordânia (conquistados por Israel na guerra de 1967), os habitantes do interior do estado de Israel.

Os autores, ao falarem da sociedade palestina antes de 1948 comentam também sob sua geografia e a influência que esta teve na formação das culturas locais e nos sistemas econômicos de cada localidade e região que compõe a Palestina, assim como o papel importante dela como Terra Santa para muçulmanos e cristãos e, por isso, um local de peregrinação importante no Oriente Médio por séculos. (Estes fatos: abrigar lugares sagrados muçulmanos, cristãos e judeus), além de ser uma das rotas mais importantes de peregrinação para Meca e Medina (os dois mais importantes lugares sagrados do islamismo) na Arábia ocidental sempre a colocou em destaque em termos geopolíticos e também ajudou a configurar a sua economia, pois alimentar, ajudar a transportar, abrigar e vender artigos religiosos ou de outros tipos aos peregrinos sempre foi uma receita importante para a economia das cidades palestinas e fez com que duas delas se destacassem nesse processo: Jerusalém e a cidade portuária de Haifa, atualmente dentro do estado de Israel.

Um outro aspecto importante para se entender a sociedade palestina até o começo do século XX é o seu pertencimento a Síria histórica-geográfica fazendo com que a população palestina compartilhe a mesma língua (em versões dialetais locais): o árabe-levantino ou árabe sírio, e uma cultura e identidade mais geral, embora seus particularismos sejam importantes também para se poder compreender a sua dinâmica interna e particularismo culturais-religiosos importantes como a forte devoção aos profetas Moisés e Saleh, objetos de cultos nas mais importantes festas palestinas até a Nakba no qual participavam tanto muçulmanos como cristãos e também judeus não sionistas.

Celebração de um Casamento em 1929 em Ramallah, Sede Atual da Autoridade Palestina

Uma ideia central, segundo Farsun e Zacharia, é importante para se entender os palestinos antes e depois da Nakba: antes de 1948 os palestinos eram, apesar das modificações provocadas pela penetração capitalista ocidental desde o século XIX, uma sociedade que ainda era muito regida pelos valores tradicionais ligados a vida aldeã, a forte presença da religião (muçulmana ou cristã) na organização da vida privada e publica e os laços comunitários dos complexos familiares (hamulas) nas aldeias interioranas, um mundo assentado ainda em uma base econômica majoritariamente agrícola; depois da Nakba, diante do exílio ou da ocupação israelense, a antiga estrutura perde o sentido, apesar dos esforços dos palestinos para mantê-las. Como resultado a alfabetização, urbanização, proletarização, emancipação das mulheres, difusão dos ideais socialistas, comunistas, terceiro-mundistas e pan-árabes, democráticos e o islã político conservador moderno (que se expande com mais força a partir dos anos 1980), uma vida marcada pela precariedade, o receio e a presença da violência e da segregação, mudam o perfil psicocultural das gerações palestinas pós 1948 em relação aos seus antecessores. Também, como apontam Farsun e Zacharia, no caso dos refugiados: estes se dividiram em dois grupos: os das antigas elites palestinas, cuja possibilidade de reconstruir suas vidas era muito mais fácil, e os pobres que irão sentir todo o peso da condição de exilados.

O território da Palestina, como Farsum e Zacharia mostram, era tradicionalmente dividido em dois grupos de populações cujos meios de vida faziam com que se relacionassem constantemente a ponto de viverem em simbiose econômica: os beduínos nômades ou seminômades-dependendo da tribo-de economia pastoril, que se fixavam nas terras baixas ou nas zonas semidesérticas e as populações sedentárias, vivendo principalmente nos planaltos, majoritariamente de economia agrícola, no qual o sistema de posse coletiva da terra (chamada Musha´a) e distribuição dos lotes de acordo ao tamanho e necessidades das famílias era predominante. Junto a isso estavam as identidades coletivas locais baseadas nas hamulas, grupos de aldeias e regiões sobre o qual surgiam lideranças que eram reconhecidas oficialmente pela administração otomana. Os camponeses eram socialmente submetida à notáveis que viviam em aldeias maiores ou nas cidades. Essa população rural sustentava a população urbana de localidades como Nablus, Jerusalém, Haifa, Jaffa, Hebrom, Gaza, Belém e outras, que, no caso das cidades interioranas, formavam sistemas econômicos locais (no qual o artesanato e o comércio eram as atividades principais) com culturas regionais bem definidas, sendo que várias, ou eram cidades sagradas ou com locais sagrados ou eram parte das rotas de peregrinação religiosa e nas litorâneas no qual haviam os contatos permanentes com o exterior por meio do comércio internacional. Em Jerusalém havia também os Ashraf: as famílias descendentes dos generais conquistadores árabes do século VII, a quem o Califa Omar havia dado a guarda ou proteção dos lugares sagrados da cidade. Esse grupo tinha um papel de liderança na Palestina e se sobrepunha aos notáveis urbanos do restante do país.

Sobre esse complexo sistema econômico-social se imporá a ordem internacional capitalista vinda da Europa e estimulado pelas reformas sociais, legais, administrativas, econômicas e políticas pelo governo otomano desde 1839 chamadas de tanzimat (reorganização em turco). Estas reformas estabeleceram a propriedade privada plena e as garantias legais para sua estabilidade e transmissão por herança (cujos resultado a longo prazo será a formação de grandes propriedades fundiárias nas mãos das elites em todo país), centralização administrativa, regularização e modernização do sistema fiscal, igualdade jurídica entre muçulmanos e não-muçulmanos entre outras medidas. Esse processo de modernização otomana, por conta da expansão do imperialismo europeu (especialmente o britânico no caso da Palestina) teve como resultado a entrada do capital europeu na economia local orientando-a para as necessidades dos mercados ocidentais (exportações de produtos agrícolas como laranja e trigo), investimento e controle europeu das infraestruturas modernas como ferrovias, telégrafos e navegação a vapor entre outros, controle financeiro anglo-francês do governo otomano com impacto sobre a Palestina, importação de bens indústrias europeus (particularmente os britânicos), o que levou ao desenvolvimento de uma classe mercantil vinculada aos capitalistas europeus. Isso modificou a estrutura social, levando a progressiva proletarização dos camponeses, a introdução do sistema moderno de trabalho assalariado, decadência da classe artesanal nas cidades, o desmonte progressivo do sistema de propriedade coletiva musha´a e o aumento da diferenciação social e da concentração de renda.

Tudo isso foi muito intensificado após a Guerra da Crimeia (1853-1856) no qual o Império Otomano participou ao lado da Grã-Bretanha e da França contra a Rússia. Farsun e Zacharias comentam que “a penetração econômica imperialista do século XIX (que desviou para os seus interesses os efeitos das reformas tanzimat) criou as condições para que a colonização sionista pudesse acontecer”, pois ela foi retirando, progressivamente do controle otomano a Palestina e permitindo aos europeus se estabelecerem no país como privilegiados com poder econômico e social, fato que irá caracterizar os colonos sionistas no século XX sob a ocupação britânica.

Por outro lado, a modernização também levou a formação de um setor social com educação técnica e cultural moderna vivendo nas cidades, constituindo uma nova classe média, e a formação de ideias político-sociais distintas dos comunitarismos religiosos, clânicos, nômades, regionais e locais e outros que se expressavam no aparecimento da noção de nacionalismo (palestino, sírio, pan-árabe) e nos diversos projetos políticos-ideológicos de origem europeia: democracia, liberalismo, modernização econômica, a ideia moderna de tolerância religiosa e secularismo, etc.

Após a Primeira Guerra Mundial que levou a derrota do Império Otomano (aliado da Alemanha), a ocupação britânica em 1918 e o estabelecimento do mandato pela Liga das Nações (1920-1948) trouxe o projeto de colonização judaica promovido pelas elites britânicas que aceitaram promover o projeto do movimento sionista estabelecido por estes durante o I Congresso Sionista de 1897 em Basileia na Suíça. A Declaração Balfour de 11 de novembro de 1918 estabeleceu publicamente essa aliança entre sionistas e o império Britânico que tinha na burguesia financeira judaica inglesa, como o ramo britânico dos Rothichilds, os intermediários.

Farsun e Zacharias mostraram em seu trabalho como, ao longo de todo o mandato e independente dos críticos ingleses dentro e fora do governo, como o governo mandatário britânico (na verdade um governo colonial) promoveu uma política para aumentar a imigração judaica, protege-la economicamente, desfavorecer até as classes dominantes palestinas e fazer do cada vez maior enclave judeu uma zona mais ricas, mais industrializada, incorporadora de tecnologias estrangeiras e com melhores indicadores sociais. Ela era protegida até mesmo da concorrência econômica da burguesia metropolitana. Sua população cresceu de 84 mil em 1922 para 640 mil em 1947 (a população árabe era 666 mil em 1922 e 1,300 milhão em 1947). Essa colonização foi acompanhada de uma agressiva política de colonização por meio da compra de terras e o estabelecimento de colônias agrícolas (Kibbutzim) o e fechamento do mercado de trabalho judeu para os árabes, além disso aos judeus foi permitido a formação de uma força armada e seus grupos milicianos ilegais não eram reprimidos com muita ênfase. O resultado disso foi uma série de confrontos que culminaram na revolta anticolonial de 1936-1939 cuja derrota, desarmamento, controle policial da população, exílio ou prisão da classe política da época teve um impacto social e psicológico devastador que estabeleceu as condições locais finais para a Nakba de 1948.

Após 1948, Farsun e Zacharia, mostram como os palestinos se esforçaram para manter a sua unidade cultural e espiritual, identidade e recordação de sua pátria unificada em meio à realidade dura do exilio ou ocupação israelense. Apesar do apoio popular a sua luta no Mundo Árabe e do reconhecimento internacional do seu drama (por exemplo, a Resolução 194 da ONU de 11 de dezembro de 1948 exigindo o retorno dos exilados), os palestinos irão enfrentar em muitos países discriminação e restrição aos seus direitos vivendo a maioria nos inúmeros campos de refugiados montados nos países vizinhos e sob a administração de uma agência da ONU – a URWA, sigla em inglês para a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados dos Oriente Próximo.

Família de refugiados palestinos no campo de Wadi Seer, na Jordânia em 1958.

A divisão da sociedade palestina em três grupos: os exilados, os habitantes de Gaza e Cisjordânia (sob a ocupação de Israel a partir de 1967) e os que viviam dentro do estado de Israel (definidos oficialmente como árabes de Israel) e que receberam uma cidadania de segunda mão e uma prática social marcada por forte discriminação racial, criou três distintas realidades que aumentava a tensão ainda mais por dentro a fraturada e traumatizada sociedade palestina e os obrigou a mudar muitos aspectos de sua vida para poder resistir ao poder sionista e o seu patrocinador principal desde 1967: os EUA. Os palestinos exiliados (6-7 milhões hoje) viveram em constante precariedade, nunca tendo certeza sobre o seu futuro e com a sombra da guerra sempre presente. Muitos se tornaram imigrantes, buscando emprego no exterior-particularmente a Europa e os estados árabes do Golfo Pérsico- formando novas comunidades de exilados nesses países e, no caso dos estados árabes do Golfo, formando desde os anos 1960, uma importante classe média de técnicos, médicos, professores e dirigentes que muito contribuiu com o desenvolvimento trazido pela riqueza do petróleo. Na Jordânia, a enorme população palestina também teve um papel similar, embora, por seu tamanho, muitos se tornaram um componente central da classe trabalhadora jordaniana. Mas essa população exilada sofreria muito com as guerras em diversos desses países (Jordânia 1969-1970), Líbano (1975-1990), Kuwait (1991), Iraque (2003-2009) e Síria (2011 ao presente), tendo estas as marcado e ajudado a definir sobre nova forma a sua identidade.

Já os habitantes de Gaza e Cisjordânia, que também tem refugiados vindos do território israelense, primeiro tiveram seus territórios sobre o controle de estados árabes vizinhos (Egito no primeiro caso e Jordânia no segundo) e depois passaram a viver sobre uma cada vez mais dura ocupação militar israelense, no qual a limpeza étnica e a colonização judaica eram realidades presentes. Estes palestinos passaram, após a guerra de 1967, por um processo de proletarização e urbanização, muitos deles se transformando em trabalhadores mal remunerados dentro de Israel. Estes, ainda mantiveram certas estruturas sociais anteriores a Nakba, como as hamulas, e a influência social das antigas famílias de notáveis, mas também, por conta da pressão sionista e influência de ideologias e movimentos progressistas do Mundo Árabe e de outras regiões do planeta, a se afastar dos valores tradicionais da sua antiga sociedade camponesa. Isso era evidente nas novas gerações nascidas depois dos anos 1950. Se os palestinos exilados se modernizavam como forma de resistir aos males do exílio, os de Gaza e Cisjordânia, como forma de resistir a perde de grande parte do seu país primeiramente e depois para enfrentar a dureza da ocupação israelense e da ausência de direitos.

Campo de Refugiados palestinos de Sabra, em Beirute, capital do Líbano

É dentro desse processo de modernização, explicam Farsun e Zacharia, que se deve entender a emergência dos movimentos políticos e guerrilheiros palestinos dos anos da Guerra Fria como a OLP (Organização para a Libertação da Palestina) de Yasser Arafat, a Frente Popular de Libertação da Palestina, de Georges Habash, marxista-leninista e a Frente Democrática de Libertação da Palestina de Nayef Hawatmeh, também marxista e sediada em Damasco, capital da Síria ou uma organização pan-arabista surgida no Líbano, mas fundada também por muitos palestinos exilados como o Movimento Nacionalista Árabe. Somente, por volta da década de 1980, é que o islã político crescerá para influenciar a luta palestina, sendo o grupo Hamas o mais importante deles.

O trabalho de Farsun e Zacharia é de 1997 e, portanto, não aborda a época do governo de Sharom (2001-2006), os ataques israelenses de 2002, a construção do Muro na Cisjordânia, a morte de Yasser Arafat e demais acontecimentos das últimas duas décadas e seu impacto sobre a sociedade palestina-no exílio ou vivendo sob o domínio israelense, mas ele fornece informações vitais para se compreender a condição dessa sociedade fraturada e traumatizada, mas cuja luta ajudará a definir os rumos que a humanidade tomará no século XXI e com isso os caminhos próprios da modernidade.

Mapa da atual ocupação política e militar israelense nos territórios palestinos.

 

* Doutor em História pela Universidade de São Paulo e especialista em História Contemporânea e Geopolítica do Oriente Médio e Mundo Árabe.

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Conexão Geo com Cmte. Leonardo Mattos

 

Pautas de hoje:

1) As eleições europeias e mais um capítulo do BREXIT
2) A Guerra entre China e EUA prossegue
3) Narendra Modi é reeleito na India
4) Atualizando a Venezuela
5) Notícias Militares
6) O que vem por aí

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Conexão Geo com Cmte. Leonardo Mattos

Pautas de Hoje:
1) O encontro de Lavrov com Pompeo.
2) A tensão no Golfo Pérsico.
3) China e EUA, o verdadeiro confronto.
4) Notícias Militares
5) O que vem por aí

 

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OPINIÃO - O Golpe no Sudão e sua Encruzilhada Geopolítica

manifestantes e militares comemoram a queda de Omar Al-Bashir em Cartum

 

por José Ailton*

País do norte da África majoritariamente árabe, o Sudão é entre este conjunto de nações um dos mais singulares por ser composto por uma população negra que foi arabizada principalmente a partir da Baixa Idade Média por conta de várias ondas de migração de populações arabófonas do vale do Nilo ou dos desertos egípcios e da Arábia que se assentaram e se mesclaram com as distintas etnias núbias e de outros povos Nilo-chaarianos que habitam as terras ao sul do Egito. Esse processo lento e gradual de miscigenação foi acontecendo por conta das crises econômicas e políticas que sofreram os reinos núbios cristãos locais (pela ordem de norte a sul: Nobatia, Makurio e Alodia) cujo resultado vai ser a lenta formação do atual povo árabe sudanês cujo componente básico da sua cultura é esse substrato núbio (ou de outros povos nilo-chaarianos) mesclado com as distintas culturas beduínas dos desertos egípcios e da Arábia, mas a cultura egípcia (muçulmana mas também cristã copta), dependendo da tribo ou da população, sendo o componente egípcio ou beduíno maior ou menor.

Mapa do Sudão

 

Outros povos não-árabes também compõe o conjunto da população sudanesa e são elementos importantes na vida politica e social nacional, embora sejam minoritários. Os mais importantes são: os núbios não-arabizados (hoje majoritariamente muçulmanos); os bejas,- povo cushita conhecido desde a Antiguidade ainda em grande parte nômade- das Montanhas do Mar Vermelho e das cidades portuárias de Port Sudan e Suakim; os fures- agricultores Nilo-chaarianos de religião muçulmana da grande província ocidental de Dharfur-um reino independente até a conquista colonial britânica entre 1899 e 1916.

Entre 1899 e 1956 o Sudão foi conquistado e colonizado pelos Britânicos com a importante ajuda dos egípcios vizinhos, sendo por isso o país nessa época chamado de Sudão Anglo-Egípcio. Essa conquista foi, como em grande parte dos casos de colonização europeia, acompanhada por uma conquista militar sangrenta cujo trauma marca a sociedade sudanesa até os dias de hoje.

No caso especial do Sudão, essa conquista foi acompanhada de um enfrentamento militar entre um movimento político-religioso puritano e nacionalista, o movimento mahdista, cujo líder foi Muhammad Ahmad, dito o Mahdi (Profeta ou líder guiado por Deus), morta na luta contra os invasores anglo-egípcios. Esse movimento combinava nacionalismo e anticolonialismo com um forte conservadorismo político e social no qual uma prática intolerante com os sunitas tradicionais, cristãos e animistas vinha acompanhado de um forte controle da vida individual e coletiva onde os castigos físicos eram vistos como exemplos para disciplinarem os fiéis e evitar sua queda no pecado. Já a intransigência religiosa levava, especialmente para com os animistas das terras mais ao sul a práticas de escravização ou submissão violenta cujas memórias marcarão a vida do Sudão no século XX e serão um dos componentes para o constante estado de guerra civil no sul desse país desde 1955 até sua separação e independência formal em 2011.

Mesquita de al-Jami´i al-Kabir em Cártum, Capital do Sudão

Como quase todos os países africanos, o Sudão irá adquirir sua independência depois da II Guerra Mundial (1956) e passará por diversos processos revolucionários, tendo o Partido Comunista estado no poder, em uma coalizão progressista (1969-1971), quando houve uma aproximação com a URSS e a estatização de amplos setores da economia.

No plano internacional o país sofreu o impacto do nacionalismo árabe e da liderança de Gamal Abdel Nasser (presidente do Egito entre 1956-1970) ao mesmo tempo em que o país se recusou a fazer parte do Egito em uma união pan-árabe e se mostrava muito desconfiado dos seus vizinhos setentrionais por causa do processo longo de dominação que sofreu destes, que vinha de 1822, e da colaboração dos egípcios com os britânicos para que estes dominassem e administrassem o território sudanês, embora também fosse o Egito um país colonizado por Londres. O Sudão sempre resistiu ao expansionismo de Israel e declarou publicamente seu apoio a causa palestina, tendo sofrido ao longo dos anos diversos ataques israelenses, embora o empenho real na defesa dos direitos nacionais palestinos nem sempre acompanhassem a retórica dos governantes.

À partir de 1971 o Sudão será marcado por um duplo processo com fortes implicações até os dias de hoje: 1) O então presidente Gaafar al-Nimeiri alinhará o país aos EUA, abrindo gradualmente sua economia para as multinacionais ocidentais, reprimindo o Partido Comunista, sindicatos e movimentos sociais. 2) Uma retomada do conservadorismo social de raiz mahdista, mas agora sobre a forte influencia da Irmandade Muçulmana, grupo integrista de origem egípcia fortemente associado e protegido, primeiro pelos britânicos, depois pelos EUA e que adquiriu forte presença na classe política, elites econômicas e na vida social. Há um partido que representava, ainda que de forma moderada, a herança mahdista e que chegou, nos anos 1960 e entre 1986-1989, a estar no governo: o Partido Nacional Ummah de Sadiq al-Mahdi, mas estes vão aos poucos se afastando e se colocando na oposição, especialmente durante o governo de Omar al-Bashir (1989-2019).

Esse processo foi marcado pela guerra constante no território sul, habitado por povos tribais em grande parte nilo-chaarianos, muitos deles majoritariamente pastores, como os dinkas, nueres e shilluks, por exemplo e que haviam sido cristianizados por missões coloniais britânicas, em sua maioria, e tiveram grande parte de sua vida social alterada por conta da dominação de Londres. Suas lideranças e populações, em sua maioria, desejam não fazer parte de um Sudão independente por conta das memórias das guerras e raízes escravistas promovidas pelos sudaneses mesmo antes do aparecimento do movimento mahdista. Por conta disso realizaram duas longas guerras pela independência (1955-1972 e 1983-2004/2011), com um período de relativa paz e autonomia entre 1972-1982. Com a descoberta de petróleo por meio dos satélites americanos, Gaafar al-Nimeiri, em 1982, eliminou arbitrariamente a autonomia do sul do Sudão e, seis meses depois, impôs a Lei Islâmica (a Sharia), na sua versão mais dura, ao habitantes locais que não eram muçulmanos (algo contrário as práticas mais comuns no islã tradicional), entregando e expropriando aldeias para petroleiras ocidentais explorarem os poços de petróleo. Isto levou a deflagração de uma nova guerra no sul cujo resultado final foi a sua independência formal em 2011.

Em 30 de junho de 1989, por meio de um golpe militar, sobe ao poder um militar fortemente vinculado a Irmandade Muçulmana, o então brigadeiro Omar Hasan al-Bashir que governou de forma ditatorial o Sudão até o dia 11 de abril desse ano. Seu governo, e o seu grupo político-econômico reunindo em torno do Partido do Congresso Nacional, será caracterizado por uma complexa, e muitas vezes contraditória geopolítica, controle das forças armadas do estado, imposição das normas islâmicas da Irmandade Muçulmana na vida nacional, repressão política, empobrecimento e ausência de fortes politicas públicas, um estado constante de guerra dentro país.

Omar al-Bashir, Presidente do Sudão de 1993 a abril de 2019.

 

De início, como tantos governos integristas muçulmanos, o Sudão terá um posição pró-americana, atitude essa favorecida pelo contexto histórico do começo do governo de al-Bashir: fim da URSS e do socialismo de tipo soviético levando a hegemonia mundial plena dos EUA, a permanente situação de fragilidade geopolítico do Sudão por conta da continua guerra em seus territórios meridionais, a hegemonia regional saudita no mundo muçulmano e a presença sempre hostil de Israel cuja ameaça era intensificada pela fragilidade geopolítica sudanesa.

Nesse quadro, como mostram Michel Chossudovsky, Andrew Korybko, Thierry Meissan, Assad Abukhalil e tantos outros analistas políticos, o Sudão se engajará ativamente em muitas guerras promovidas pelos EUA no qual o uso de forças jihadistas será um instrumento central das conquistas colônias de Walshington-Wall Street. Dessa forma, o Sudão hospedará até 1995 o antigo comandante das forças expedicionárias árabes da CIA no Afeganistão nos anos 1980 Osama Bin Laden e o seu grupo guerrilheiro Al-Qaida, considerado pelos analistas citados acima e outros como Paul Craig Roberts, Atílio Borón, James Petras, o venezuelano Walter Martínez, etc, como sendo um agente permanente dos EUA mesmo quando era acusado por este de ataques importantes como o 11 de setembro. Somente após o fracassado suposto ataque da A-Qaida ao presidente egípcio Hosni Mubarak e, devido à pressão dos governos árabes, é que Bin Laden será expulso. Dentre as guerras por procuração dos EUA que o Sudão se envolveu cabe destacar as realizadas nos anos 1990 contra a Iugoslávia no qual foram empregadas em seu território da Bósnia jihadistas, dentre eles sudaneses ou gente enviada através do país árabe.

Mas, apesar disso e dos vínculos que as elites sudanesas tiveram sempre com o ocidente, e os EUA e suas corporações em particular (o analista de origem russa André Vltchek em seu texto de 2016 Sudan, Africa, And the Mosaico of Horrors afirma que até metade dos parlamentares sudaneses teriam cidadania estadounidense), o Sudão se caracterizaria por buscar a sua própria autonomia em relação a aquele país. Dessa forma, o Sudão já na segunda metade dos anos 1990 entra em conflito com os EUA que realizaram, no dia 20 de agosto de 1998 um bombardeio com mísseis Tomahawks, a partir do Mar Vermelho da fábrica farmacêutica montada com ajuda ONU de Al-Shifa na capital Khartum, usando como pretexto o atentado feito as embaixadas americanas no Quênia e Tanzânia alguns dias antes. Os EUA também impõem um embargo econômico ao Sudão que prejudica seriamente a sua população já empobrecida por conta do estado permanente de guerra em muitas províncias e do pequeno investimento social do seu governo.

Ao longo desses anos os norte-americanos passam, a apoiar de forma mais intensa os rebeldes sulistas do Exército de Libertação do Sudão desde o território de Uganda e Quênia cujos governos eram vassalos dos EUA. Israel, que provavelmente sempre teve contato com os rebeldes do sul, também intensifica suas ações. Também um movimento guerrilheiro do povo beja-O Congresso Beja, na época sobre a liderança de Amin Shingrai-se subleva contra o governo sudanês. Na década de 2000 começa a sublevação étnica dos furs do Dhafur por meio da liderança do Movimento de Libertação do Sudão e do Movimento de Igualdade e Justiça apoiados pelo Chade e Eritreia. Mais tarde esses e outros grupos menores se reúnem uma federação chamada Frente de Redenção Nacional tendo como líder figuras como o ex-governador de Dhafur Ahmed Ibrahim Shiraige. Para diversos autores (Chossudovsky, Stephen Lendman, James Petras, Darius Mahdi Nazemroaya, Thierry Meyssan, etc) os EUA o tempo todo estavam promovendo uma política de balcanização do Sudão em quatro ou cinco países menores, seguindo um projeto de destruição (a política do caos programado) de diversos estados nacionais no mundo para facilitar o saque de seus recursos naturais e melhor dominar seus territórios fragilizados econômica, social e politica-institucionalmente. O Sudão de Bashir que havia apoiado essa politica americana em outras partes do mundo era agora vítima dela e isso se devia também ao seu acercamento a China com quem passou a realizar muitas trocas comerciais e abriu as suas reservas de petróleo a exploração por parte das empresas estatais chinesas (a maioria dos campos estavam no atual Sudão do Sul e uma parte no Dharfur), além de, na década de 2010, ir aderindo ao projeto chinês de infraestruturas econômico-comerciais e estratégicas conhecido pelo nome de Nova Rota da Seda. Esse projeto era um desafio aberto à dominação americana do mundo e tornou o Sudão, por mais que ele colaborasse com os EUA em determinadas situações, um alvo por parte destes.

Essa tensão toda produziu a Guerra do Dharfur cuja resposta do governo de Omar al-Bashir foi, através do exército e das milícias Janjawid, em 2008, realizar um grande massacre e limpeza étnica dos fures (2,8 milhões de deslocados e talvez 400 mil mortos numa população estimada em 7 milhões em 2007. Essa tragédia foi usado como arma política pelo governo de George W. Bush, que mobilizou a sua rede de imprensa, ONGs, celebridades como o ator George Clooney e organizações judaicas ligadas a Israel para acusar o governo sudanês de genocídio o que levou ao juiz argentino Luís Moreno Ocampo da Corte Penal Internacional, um instrumento político dos EUA, a pedir a prisão de Omar al-Barshir por crimes de genocídio e de guerra.

No entanto, como a geopolítica do Sudão é complexa e paradoxal há coisas ainda mais inesperadas a primeira vista. Mesmo tendo estabelecido laços até militares com o Irã e permitido uma forte presença econômica e tecnológica dos chineses no país, o governo de Bashir mantinha contatos com os EUA. Segundo Meyssan, em um artigo recente sobre o golpe (A Derrubada de Bashir 16/04/2019), o Sudão não só colaborou com os EUA nas guerras da Líbia (2011) e da Síria (2011 até hoje), enviando grandes contingentes, mas teve as forças especiais Janjawid treinadas por militares do Pentágono. Além disso, sempre foi forte a influência das monarquias do Golfo dentro do Sudão, tendo a Arábia Saudita sido, na maior parte do tempo, nos últimos 30 anos, a mais forte por conta de investimentos e empréstimos feitos ao governo.

No entanto, a população ainda que tivesse uma forte consciência anti-imperialista, foi sempre muito pouco beneficiada por investimentos em infraestrutura, educação, emprego, renda e outras necessidades vitais. Além disso, ainda que praticante de um islamismo sunita muito conservador, sofria o impacto em sua vida cotidiana das normas de controle moral e de repressão forte aos delitos segundo a forma mais dura de interpretação da sharia (lei islâmica) preconizada pela Irmandade Muçulmana.

Segundo a Review World Population, citado dados extraídos do escritório de estatísticas nacionais do Sudão e da ONU, mostra que a expectativa de vida no Sudão cresceu de 55 anos na década de 1980 para 65 anos em 2018 e a taxa de alfabetização acima de 15 anos teria alcançado 75,9% da população, sendo maior entre os homens (83, 3%) do que entre as mulheres (68,6%) em 2015. No entanto, em 2019, 20% da população econômica ativa estava desempregada, sendo 16% dos homens e 32% das mulheres. A taxa de fertilidade as população é alta (4,85 crianças por mulher) e a maior parte da população é composta de jovens, sendo que 43,07% são garotos de 0-14 anos. Como exemplo importante do grande subdesenvolvimento do Sudão: apenas 34,6% da população é urbana.

Esses problemas pouco ou nada resolvidos eram agravados pelo constante estado de guerra do País (Segundo Meyssan, até 75% do orçamento nacional ia para as forças armadas), pelo embargo americano ao país e a crise econômica que atingiu o Sudão levando ao aumento das tarifas e dos alimentos, com destaque para a farinha de trigo, criando uma situação de penúria em vastos setores da população. Essa crise econômica segundo o analista americano residente na Eritreia, Thomas Mountain, foi muito agravada pela separação em 2011 do Sudão do Sul e depois a paralização nesse país da exploração das reservas de petróleo, o que privou o Sudão de receitas importantes não compensadas pelas reservas de petróleo que sobraram os as exportações de goma arábica que entra na produção dos refrigerantes de cola pelo mundo.

Em 2011, durante a chamada “Primavera Árabe”, o Sudão já havia presenciado manifestações importantes contra o governo, mas diferente do seu vizinho Egito, elas não levaram a queda de Bashir. Agora, a partir do fim de 2018, mas especialmente desde janeiro do atual ano, diversas organizações, sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos começaram a realizar grandes manifestações ao longo de diversas cidades, com destaque para a capital Cartum e a vizinha Ondurman (sede do Parlamento) aonde, apesar da forte repressão policial pediam não só a renuncia de Bashir e o afastamento dos islamistas do poder (militares ou civis), mas também soluções para os muitos problemas do país que iam de liberdades individuais, passando por serviços e infraestrutura social, politica anti-inflacionária e contra o desemprego até negociações de paz nas províncias em guerra.

Em 3 de janeiro, um manifesto público: A Carta da Liberdade e Mudança assinadas por partidos como o PC Sudanês, o Partido Nacional Umah, o Partido Republicano, sindicatos e associações de classes como grupos feministas, os estudantes da Universidade de Cartum, associações de advogados, médicos, engenheiros e professores secundaristas e universitários- a Associação de Profissionais do Sudão- e movimentos sociais (de agricultores, de mantenedores de tweeteres, dos núbios, etc) resumiram a pauta de reivindicações, pediam a formação de um governo de nacional de transição que preparasse no futuro uma assembleia constituinte e eleições livres. Essa carta e suas reivindicações foram à base para as ações de rua pedindo a renuncia de Bashir. O grupo político reunindo toda a oposição se chama Frente Nacional para a Mudança.

Nesse quadro também devemos lembrar três motivos que influenciaram na deflagração do golpe: 1) a aproximação com a Rússia, o que levou a acordos econômicos e de assistência militar, além do Sudão auxiliar a Rússia em sua ação política na vizinha, conturbada e sob intervenção ocidental República Centro Africana. Mesmo o Sudão participando ativamente na intervenção militar patrocinada pelos EUA da Arábia Saudita no Iêmen contra o movimento nacionalista dos Houthis e seus aliados, essa aproximação à Rússia-com quem o Sudão estaria negociando uma base no Mar Vermelho-desagradou o EUA e seus aliados no Mundo Árabe. 2) Apesar dessa aproximação a Moscou, segundo Meyssan, o governo Bashir teria tentado administrar a crise econômica recorrendo a uma missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) e este aplicou sua tradicional política de austeridade contribuindo para o aumento dos protestos por todo o país. 3) A aproximação da Turquia, que se tornou uma rival no Oriente Médio da Arábia Saudita chegando a permitir a abertura de uma base da marinha turca na cidade portuária de Suakin no Mar Vermelho, algo que desagradou fortemente os sauditas ao projetar em seu mar ocidental o poder marítimo do governo de Ankara.

Assim, em meio a fortes manifestações, as forças armadas se antecipam e depõem Omar Al-Bashir em 11 de abril e assumem um governo de Transição (Conselho Militar de Transição), no primeiro dia sob o general Ahmed Awad ibn Awf e depois com o ex-comandante das tropas sudanesas no Iêmen, Abdel Fattah al-Burhan. Bashir teria sido preso e pouca informação sobre ele foi divulgada desde então.

A intervenção do exército não agradou muito os grupos de oposição da Carta de Liberdade e Mudança, embora a queda de Bashir tenha agradado muitos na sociedade sudanesa. Manifestações ocorreram nas ruas pedindo que os militares respeitassem a população e estabelecessem um governo misto de transição com civis e militares, mas predominando os primeiros, formando assim um Conselho de Civil de Transição. Reuniões começaram a ocorrer entre os militares e os representantes do grupo Liberdade e Mudança. Estes pediam até representantes dos grupos feministas e de jovens no governo interino, além de prisão e julgamento dos militares e oficiais de polícia responsáveis pela repressão as manifestações. O PC Sudanês também vem criticando os militares e, em 25 de abril, os acusou publicamente de não quererem sair do poder. Essa pressão seria também fortalecida pela ação da União Africana e da União Europeia para transferir o poder aos civis. A União Africana chegou até ameaçar suspender o Sudão em abril por conta da repressão as manifestações. Dia 30 exigiu a transferência para os civis dentro de dois meses.

Como, explicar satisfatoriamente o golpe, sem cair na ingenuidade de que a sociedade civil sudanesa, por si só, se levantou e derrubou o seu ditador no poder desde 1989, lembrando sempre do complicado cenário geopolítico no qual o Sudão está inserido?

Não temos respostas definitivas ainda, pois provavelmente muito do jogo político decisivo está sendo realizado nos bastidores. Pode-se, pelas informações já disponíveis, que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos aprovaram a queda de Bashir, pois concederam ao Sudão um empréstimo de US$ 3 Bilhões. Este empréstimo e o fato de al-Burhan ser o comando das tropas sudanesas no Iêmen indicariam que o país africano caiu sob a influência saudita. A prisão do porta-voz da Frente Nacional para a Mudança, Said al-Jizuli, por algumas horas dia 24, após criticar em público a ingerência dos Emirados Árabes Unidos seria outro indicio de que o atual governo esta sob a influencia regional de Riad e Abu Dhabi.

Como as revoluções coloridas pelo mundo afora criaram uma forte desconfiança em relação às manifestações publicas, aparentemente não-violentas e com slogans democráticos, não sabemos o grau de sinceridade das lideranças envolvida na Carta de Liberdade e Mudança. Condições e legitimidade para as manifestações ocorrerem existiam e a imensa maioria saiu às ruas de forma sincera. Também nada se sabe no momento das ações de bastidores que acabaram conduzindo a derrubada de Bashir pelos militares. Como costuma ocorrer em eventos dessa natureza, ela deve ter sido coordenada ou acompanhada pelos EUA, Grã-Bretanha, ONU, Liga Árabe, União Africana, Arábia Saudita e os russos e chineses também a acompanharam e podem mesmo ter começado a negociar secretamente com os militares sudaneses a continuidade ou não dos acordos feitos sob a administração de Bashir, assim como o mesmo pode estar fazendo a Turquia.

O certo, nesse primeiro momento, é que muito pouco mudará no Sudão em termos sociais e econômicos e o país continuará a sofrer uma pesadíssima pressão geopolítica mundial, especialmente do poder norte-americano e de seus sócios locais, ainda muito presente no continente africano.

 

*José Ailton Dutra Júnior é doutor em História pela Univerisdade de São Paulo (USP) e especialista em História Contemporânea e Geopolítica do Oriente Médio e Mundo Islâmico.

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Nova Coluna Conexão Geo - com CMG Leonardo Mattos

Tópicos de hoje:
1) OS ATENTADOS NO SRI LANKA
2) ELEIÇÕES NA UCRÂNIA
3) OS COLETES AMARELOS E O INCENDIO NA NOTRE DAME
4) O ENCONTRO ENTRE VLADIMIR PUTIN E KIM JONG UN

[embedyt] https://www.youtube.com/watch?v=VDklQlvMHRE[/embedyt]

Leonardo Faria de Mattos é Capitão de Mar-e-Guerra da Marinha do Brasil, Mestre em Estudos Estratégicos da Defesa e Segurança pelo Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (INEST – UFF) e é Professor de Geopolítica da Escola de Guerra Naval (EGN).

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Coréia do Norte, Cúpula de Singapura e suas implicações

Hangout do Plano Brasil tratando sobre a Cúpula de Cingapura, o esperado encontro entre Kim Jong Un e Donald Trump, e suas implicações para a Coréia do Norte e demais atores envolvidos.

Com as participações:

Renato do Prado Kloss
Bacharel em Relações Internacionais pelo IBMEC-MG (2013) e Mestre em Estudos Estratégicos pela University of Reading (2017). Atualmente, focado nas áreas de Estratégia, Segurança, Defesa e Assuntos Asiáticos. Tem experiência nas áreas de Relações Internacionais, Estratégia e História Militar.

Tito Lívio Barcellos Pereira
Licenciado em Geografia pela Universidade de São Paulo (2009), bacharelado em Geografia pela Universidade de São Paulo (2010). Atualmente é integrante – grupo de estudos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humans (FFLCH-USP) e mestre em Estudos Estratégicos da Defesa e Segurança pelo Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (INEST-UFF). Atualmente doutorando em Estudos Estratégicos Internacionais  pela UFRGS.
É integrante do grupo de estudos sobre Rússia e Espaço pós-soviético pelo Laboratório de Estudos da Ásia (Departamento de História – USP) e pesquisador do Laboratório Defesa e Política[s] (INEST – UFF). Tem experiência na área de Geografia, Ciência Política e Relações Internacionais, com ênfase na área de Geopolítica, Geografia Regional, Rússia e Espaço pós-soviético.

 

Mediação: Luiz Medeiros – Equipe Plano Brasil.

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HANGOUT Plano Brasil - Colômbia na OTAN?

Secretário Geral da OTAN Jens Stoltenberg e o Presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos.

O Plano Brasil apresenta mais um Hangout com temática geopolítica, desta vez tratando da entrada da Colômbia na Organização do Tratado do Atlântico Norte como Parceiro Global desta organização.

Contando com a participação de: Tito Livio Barcellos Pereira

Possui licenciatura em Geografia pela Universidade de São Paulo (2009), bacharelado em Geografia pela Universidade de São Paulo (2010). Atualmente é integrante – grupo de estudos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humans (FFLCH-USP) e mestre em Estudos Estratégicos da Defesa e Segurança pelo Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (INEST-UFF) É integrante do grupo de estudos sobre Rússia e Espaço pós-soviético pelo Laboratório de Estudos da Ásia (Departamento de História – USP) e pesquisador do Laboratório Defesa e Política[s] (INEST – UFF). Tem experiência na área de Geografia, Ciência Política e Relações Internacionais, com ênfase na área de Geopolítica, Geografia Regional, Rússia e Espaço pós-soviético.

Para maiores informações acessar:<http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4200259E3>

Leia mais:
Página da OTAN sobre a associação com a Colômbia

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E se os EUA ultrapassarem a Arábia Saudita como produtor de petróleo?

Os Estados Unidos estão se aproximando da liderança na corrida pelo domínio do mercado mundial de petróleo.

Guillermo D. Olmo

De acordo com as últimas previsões da Agência Internacional de Energia, a produção americana atingirá neste ano a marca recorde de 10 milhões de barris de petróleo bruto por dia.

Assim, calcula-se que o país desbancará a Arábia Saudita neste ano da posição de liderança que ostenta, com 13,5% da produção mundial.

Seu impulso, promovido pelo apoio do governo de Donald Trump às exportações, é um problema para a Rússia, a terceira colocada nessa disputa.

O avanço dos EUA terá efeitos no mercado do petróleo, bem como reflexos geopolíticos e econômicos em diferentes países.

A BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, listou cinco possíveis consequências caso os Estados Unidos realmente se tornem o maior produtor de petróleo do mundo:

1. O fim da guerra dos preços da Arábia Saudita e Opep

Para a grande petromonarquia do Golfo Pérsico, ver-se superada pelo aliado – mas também concorrente – implica na constatação dos danos colaterais da sua política tradicional de controle de preços.

Ator principal na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), o país tradicionalmente a usou para controlar os preços no mercado, aumentando ou reduzindo o fornecimento conforme sua conveniência.

Nos últimos anos, porém, o surgimento de técnicas como o fraturamento hidráulico de rocha (fracking) o aumento exponencial da produção americana reduziram a eficácia dessa estratégia.

Antonio de la Cruz, presidente do Centro de Análises de Tendências Interamericanas de Washington, disse à BBC que “a decisão dos Estados Unidos de aumentar a produção nas regiões de fracking na verdade foi tomada pela Opep quando esta apostou em manter os preços, em vez de produzir mais”.

O reino saudita tentou em 2014 sufocar os produtores do fracking nos EUA, inundando o mercado de Brent (petróleo encontrado no Mar do Norte).

 GETTY IMAGES – Arábia Saudita tentou acabar com o setor de fracking americano

A ideia era que os preços caíssem até que as empresas instaladas nos Estados Unidos não fossem lucrativas o suficiente para continuar explorando os campos de petróleo e gás de xisto (aquele obtido através do fracking).

Mas o setor do fracking resistiu: conseguiu reduzir seus custos e economizar suas margens de lucro. Embora o barril de Brent tenha caído até o raro valor de US$ 30, dois anos depois a Arábia Saudita cedeu e convenceu seus parceiros da Opep, pouco a pouco, a voltar subir o preço do óleo.

Agora, a situação e inverteu, e é a enorme produção dos EUA que determina preços e estabiliza o mercado.

Nesse contexto, a nova elite governante no país persa adotou uma nova estratégia que consiste em iniciativas sem precedentes, como a privatização parcial da Saudi Aramco, a empresa estatal de energia.

Isso faz parte das mudanças promovidas pelo príncipe Mohamed Bin Salman, homem forte do governo determinado a reformar a economia do país.

Mas embora os Estados Unidos superem a Arábia Saudita no volume de produção, alguns analistas enfatizam que essa batalha não é medida apenas pelo número de barris diários.

Samantha Gross, especialista em segurança energética da Brookings Institution em Washington, diz que, mesmo que produza menos do que seu concorrente, a Arábia Saudita manterá sua posição de liderança no mercado energético global.

GETTY IMAGES – Mudança pode afetar diretamente mercados da América do Sul e Europa

“O petróleo saudita é produzido por uma única entidade, a Saudi Aramco, de propriedade e administrada pelo Estado, e por isso não é governada unicamente por critérios de benefício econômico. A indústria de energia dos Estados Unidos nunca atuará de forma coordenada, seguindo as diretrizes do Estado”, diz Gross.

Diferenças como essa levam a especialista a concluir que o predomínio saudita, embora questionado, ainda é válido.

2. Venezuela ainda mais castigada

Os efeitos do potencial novo panorama também seriam sentidos na América Latina.

O grande gigante regional do petróleo, a Venezuela, verá sua já maltratada economia ainda mais castigada.

AFP – Falta de investimentos prejudicou o setor petrolífero venezuelano

O analista De la Cruz acredita que a ineficiência e as deficiências estruturais do setor petrolífero venezuelano o tornarão totalmente incapaz de competir com os produtores americanos.

Enquanto a produção dos EUA sobe desde a presidência de Richard Nixon (1969-1974), a venezuelana perdeu 600 mil barris diários.

Nas circunstâncias atuais, desencadeada por uma hiperinflação imparável, “a Venezuela não tem capacidade para produzir ou importar. As possibilidades de ser atualmente um ator no mundo do petróleo foram cortadas”, diz De la Cruz.

O petróleo venezuelano também é muito pesado, então é preciso importar naftas (matéria-prima do petróleo) mais leves de outros países, entre eles os Estados Unidos, para obter uma mistura comercializável. Mas a falta de liquidez do país afetou seriamente sua capacidade de adquirir essas matérias-primas do exterior.

AFP – Especialistas concordam que a Venezuela precisa importar petróleo leve para obter uma mistura mais comercializável

“O petróleo fornece à Venezuela 96% da moeda estrangeira de que ela precisa desesperadamente, então o governo de Nicolás Maduro dará prioridade às exportações para obtê-las. Por isso, o mercado doméstico é que será mais e mais esgotado”, diz De la Cruz.

O que isso significa para o venezuelano comum? “Mais filas em postos de gasolina”, ele responde.

Os problemas do setor petrolífero venezuelano também terão efeitos no quadro regional.

“O socialismo do século 21 usou a ferramenta da geopolítica do petróleo, com o fornecimento de petróleo subsidiado para os países do Petrocaribe e os da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América)”, diz o especialista.

De acordo com sua visão, muitos desses países podem estar tentados a ouvir propostas potenciais de fornecedores alternativos.

3. Possíveis ameaças ao meio ambiente

Grupos ambientalistas alertaram que a política de fracking seguida pelo governo Donald Trump representa uma ameaça para o meio ambiente.

O fim das restrições à exportação e a autorização para construir áreas de exploração em áreas protegidas, como o Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Alasca, provocaram preocupação entre os ambientalistas.

Eles também temem que o novo panorama prolongue a vida dos combustíveis fósseis, como o petróleo, e desencoraje o investimento em energias mais limpas.

Grupos de ambientalistas temem que os danos ao meio ambiente ocorram com decisão dos EUA

Lisa Viscidi, especialista em energia e meio ambiente no centro de análise The Dialogue, de Washington, argumenta que “pode ​​haver algum impacto se a produção aumentar, mas isso depende mais dos preços globais do que de outros fatores”.

A analista afirma que, por se tratar de um mercado global, “um único país não faz a diferença”.

A experiência vivida pelos EUA em 2014 indica que em contextos de grande oferta e preços baixos a demanda aumenta, mas isso não implica necessariamente em um aumento das emissões de poluentes.

“Tudo depende das políticas que os países e as empresas seguem, se são eficientes”, diz Viscidi.

4. Mais independência para os EUA no Oriente Médio

Agora que têm seu abastecimento de petróleo garantido, os Estados Unidos podem se libertar de sua dependência tradicional de abastecimento dos focos exportadores do Oriente Médio.

Cenários como a Crise do Petróleo de 1973 ou a Guerra do Golfo de 1990, quando a turbulência na região levou ao aumento do preço do petróleo, são impensáveis ​​hoje.

AFP – Anúncio de Donald Trump sobre a embaixada em Jerusalém provocou protestos em países islâmicos

“Embora os EUA continuem importando 7 milhões de barris por dia, não têm mais medo de um embargo de petróleo”, explica De la Cruz.

“Tornam-se menos vulneráveis à chantagem, como a da Opep.”

Assim, o país “ganha independência para gerenciar sua própria política na região”, sem temer que isso possa afetar criticamente sua economia, como ocorria no passado. “Ele já não é mais dependente dos países árabes”, diz o especialista.

Para ele, isso ajuda a explicar por que Donald Trump se atreve a tomar decisões sem precedentes, como anunciar a transferência da embaixada dos EUA para Jerusalém – mesmo sob protestos de todo o mundo islâmico.

5. Mais força para os países europeus contra a Rússia

O passo à frente do gigante americano também afeta a Europa, uma das áreas tradicionalmente mais dependentes da energia produzida pela Rússia.

GETTY IMAGES – Guerra do Golfo fez o preço do petróleo disparar

No passado, Moscou usou a fonte de energia como uma ferramenta de pressão. Em várias ocasiões, interrompeu o fornecimento de gás para a Ucrânia e outros países do Leste Europeu a poucas semanas do início do inverno.

De la Cruz explica que a Europa “estará agora em melhor posição de negociação com fornecedores russos, como a empresa de gás Gazprom, uma vez que poderá exercer a vantagem de outro potencial fornecedor”.

Em todo caso, a Rússia ainda possui uma vantagem decisiva nesta área. Pode fazer esses recursos chegarem por meio de gasodutos e tubulações, enquanto os barris dos EUA só podem chegar pelo mar, a um custo maior.

AFP – Agora a Europa poderá ter uma alternativa na negociação com a Rússia

É uma desvantagem competitiva que ainda pesa e fará com que “a Rússia mantenha sua influência”.

Mas De la Cruz não descarta que em alguns anos essa situação também seja revertida.

“O gás natural líquido pode ser o combustível do futuro e substituir o petróleo. Desenvolver isso é um dos projetos fortes nos quais a gestão Trump poderia apostar nos próximos cinco anos.”

Fonte: BBC Brasil.com

Edição: Plano Brasil

 

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5 de fevereiro de 2018: 28 anos, 2 meses e 26 dias da queda do Muro de Berlim

Em 5 de fevereiro de 2018, fim da separação física da cidade completa mesmo tempo que sua existência. Berlim reunificada ainda guarda resquícios do Muro, mas divisão está quase completamente superada.

Alemães dos dois lados ocupam o Muro de Berlim em 11 de novembro de 1989

Berlim comemora nesta segunda-feira (05/02) uma data histórica: 28 anos, 2 meses e 26 dias da queda do Muro. Você deve estar se perguntando por que esse aniversário quebrado é tão importante? É que a data coincide exatamente com o período que o Muro dividiu a capital alemã: 28 anos, 2 meses e 26 dias.

Ou seja, nesta segunda-feira, o fim da divisão física da cidade completa o mesmo tempo que a sua existência. Por isso, esta data coincidente está sendo chamada de Dia do Círculo (Zirkeltag) pela imprensa local. Palestras e uma exposição fotográfica no Memorial do Muro de Berlim marcam esse aniversário um pouco diferente de um dos episódios mais emblemáticas da história berlinense.

Erguido em 13 de agosto de 1961, o Muro impedia a fuga de cidadãos da República Democrática Alemã (RDA) para a Alemanha Ocidental. Até esta data, a RDA já havia perdido um sexto de sua população. Embora a segurança na fronteira entre as duas Alemanhas estivesse “resolvida” pelo regime comunista, em Berlim ainda era possível, sem muito esforço, fazer a travessia para o lado capitalista. Afinal, a cidade era dividida entre dois Estados e não tinha uma clara fronteira física.

Assim, para acabar com a evasão, do dia para a noite uma cerca de arame farpado restringiu a movimentação dos moradores. Aos poucos, o arame foi sendo trocado por blocos de concreto e abrindo espaço para a “faixa da morte”, como essa região composta por diversas barreiras de muros, cercas e torres de observação na fronteira entre a parte ocidental e oriental era conhecida na Alemanha Ocidental. Nessa faixa era proibida a circulação de pessoas e nem é preciso dizer por que ela ganhou esse apelido.

Nos 28 anos, 2 meses e 26 dias em que dividiu a cidade, o Muro foi constantemente aperfeiçoado e mesmo assim não evitou completamente a fuga de cidadãos da RDA. Mais de 70 túneis foram construídos ao longo da fronteira. As tentativas de fuga também custaram vidas. Pelo menos 140 pessoas foram mortas tentando atravessar para o outro lado.

O Muro determinou ainda o desenvolvimento da cidade, pois cada lado tomou um rumo diferente até 9 de novembro de 1989, quando a divisão física veio abaixo. Pouco tempo depois, as Alemanhas e as Berlins voltaram a ser uma só.

Hoje, 28 anos, 2 meses e 26 dias após a queda do Muro, poucas coisas ainda lembram essa divisão. Resquícios do Muro restam em pouquíssimos pontos da cidade. A sua área mais extensa, a East Side Gallerie, com 1,3 quilômetro de extensão, perdeu alguns metros nos últimos anos devido à construção de empreendimentos imobiliários e continua ameaçada por investidores que desejam construir na faixa de terra localizada entre o rio Spree e essa lembrança da Guerra Fria.

O tempo foi ainda unindo a cidade arquitetonicamente. Edifícios em péssimo estado de conservação, localizados no antigo lado oriental, foram restaurados. Prédios modernos foram construídos em ambas as Berlins, o bonde que só passa na RDA avançou para o lado ocidental, e a “faixa da morte” mais larga dentro da cidade, a Potsdamer Platz, transformou-se num grande centro comercial povoado de arranha-céus.

Poucas marcas desta divisão permanecem, como as típicas construções habitacionais da União Soviética, conhecidas como Plattenbau, nos bairros Marzahn ou Lichtenberg, a imponente avenida Karl Marx Allee e a tradicional rua de compras Kurfürstendamm, apelidada de Ku’damm pra facilitar a pronúncia. Ou ainda os pares de instituições e atrações, localizadas uma em cada lado da antiga cidade: os dois zoológicos, as duas bibliotecas estaduais, as duas óperas.

Quase três décadas após sua queda, o Muro foi substituído por uma marcação no chão para evitar seu esquecimento e deu origem a uma ciclovia de 160 quilômetros. E para aqueles que acham que não há nada novo para se descobrir nesta história, o Muro continua surpreendendo. Recentemente foi anunciada a descoberta de uma parte esquecida durante a demolição e de um antigo túnel de fuga.

  • Clarissa Neher é jornalista freelancer na DW Brasil e mora desde 2008 na capital alemã. Na coluna Checkpoint Berlim, publicada às segundas-feiras, escreve sobre a cidade que já não é mais tão pobre, mas continua sexy.

 

Fonte: DW

 

Muro de Berlim se foi há tanto tempo quanto existiu

Barreira dividiu a cidade por 28 anos, 2 meses e 26 dias, mesmo tempo que sua queda completa neste 5 de fevereiro. Berlinense que lutou contra o Muro relembra sua história.

Construção do Muro de Berlim, em agosto de 1961

O Muro de Berlim dividiu a cidade entre leste e oeste por exatamente 28 anos, dois meses e 26 dias. E esta segunda-feira (05/02) marca um ponto de virada: o Muro não existe mais pelo mesmo tempo em que esteve de pé.

A construção, iniciada em 1961, foi projetada para impedir a fuga de alemães orientais para o oeste, o que forçou os fugitivos a criar métodos mais criativos para conseguir chegar à Alemanha Ocidental. Alguns conseguiram a ajuda de prestativos berlinenses ocidentais para tentar atravessar por onde ninguém conseguiria vê-los: pelo subsolo.

Holzapfel: “Sempre haverá pessoas que irão lutar contra a injustiça”

Estima-se que cerca de 70 túneis foram escavados por baixo do Muro de Berlim. Recentemente, um arqueólogo encontrou a entrada de um desses túneis próximo ao parque Mauerpark. A redescoberta desenterrou a história de um homem cuja oposição ao Muro começou com o seu empenho em abrir uma passagem subterrânea em direção ao leste.

“Você não podia simplesmente escavar neste tipo de solo. Você tinha que realmente ‘abrir’ o caminho”, afirmou o então berlinense ocidental Carl-Wolfgang Holzapfel. “Isso foi o que tornou tudo tão difícil e frustrante. Às vezes, eu tinha a sensação de que não estava chegando a lugar algum.”

Em 1963, Holzapfel, juntamente com amigos, começou a escavar sob um armazém desativado no bairro de Wedding. O objetivo do grupo era chegar a um porão a 80 metros de distância localizado no lado oriental do Muro para que Gerhard Weinstein, um conhecido de Holzapfel, pudesse escapar para a Alemanha Ocidental e se reencontrar com a filha.

Holzapfel começou a protestar contra o muro aos 17 anos de idade

Após quatro meses de trabalho árduo, as notícias do esforço do grupo chegaram à Stasi, o serviço secreto da antiga Alemanha Oriental. Weinstein e outras 20 pessoas que planejavam usar o túnel para fugir foram detidas. Holzapfel nunca mais ouviu falar delas.

Holzapfel, hoje com 73 anos, teve uma amarga decepção ao receber a notícia, mas insiste que os esforços de seu grupo não foram totalmente em vão. “Foi um lembrete de que sempre haverá pessoas que irão lutar contra a injustiça e que encontrarão maneiras de miná-la”, afirma.

Para Holzapfel, o túnel marcou o início de uma luta que duraria quase três décadas. “Aos 17 anos, eu disse para mim mesmo: você lutará contra esse Muro – porque ele é injusto – até vê-lo cair ou até fim da sua vida”, lembra.

Em 1965, ele foi preso durante uma manifestação pacífica no posto de fronteira conhecido como Checkpoint Charlie e passou nove meses na terrível prisão da Stasi no bairro de Hohenschönhausen. Após ser liberado, Holzapfel continuou protestando e permaneceu convicto de que veria a Alemanha reunificada.

No 28º aniversário da construção, em 1989, Holzapfel se envolveu na bandeira alemã e se deitou sobre a linha divisória

No 28º aniversário da construção do Muro, em 1989, Holzapfel fez talvez o seu mais simbólico ato de protesto. “Eu pensei: agora, eu preciso fazer algo para mostrar claramente a loucura de se dividir uma cidade”, diz.

Ele se envolveu na bandeira alemã e deitou no chão do Checkpoint Charlie – com o coração e a cabeça no leste e os pés no oeste – e a linha branca que marca a fronteira parecia correr sobre seu corpo. “Assim como eu sou obviamente um corpo, Berlim é um todo, e a Alemanha é um todo”, argumentou.

Menos de três meses depois, em 9 de novembro de 1989, o Muro de Berlim caiu. No dia seguinte, Holzapfel se encontrava no ponto da praça Postdamer Platz onde leste e oeste se encontravam. “Eu estava chorando. Não havia nada melhor – e nada pode superar esse sentimento.”

Há planos para que o túnel de Holzapfel seja preservado e integrado ao Memorial do Muro de Berlim. Para ele, retornar à entrada do túnel é sempre uma experiência emocionante. “Mas não é apenas a minha história. É um pedaço da história de Berlim”, diz.

Fonte: DW

Opinião: O Muro de Berlim ainda existe

Neste mês de fevereiro igualam-se o período de existência da barreira entre as duas Alemanhas e o transcorrido desde sua queda. Mas as velhas fronteiras entre Leste e Oeste perduram, opina o jornalista Marcel Fürstenau.

Berlim: exatamente o mesmo tempo com e sem o Muro

Eu cresci com a presença do Muro de Berlim, ele ficava a só umas centenas de metros do meu playground. Na adolescência – nesse meio tempo, nós tínhamos nos mudado –, eu olhava pela janela da cozinha para o outro lado, para o leste de Berlim.

Eu estava cercado, mas me sentia livre. E não era só autossugestão, pois podia viajar para toda parte, a qualquer momento. Até mesmo para a Alemanha Oriental (RDA), onde viviam nossos compatriotas que não podiam vir até nós. A não ser que fossem aposentados.

Quando, em 13 de agosto de 1961, foi construída aquela monstruosidade, com seus 160 quilômetros de extensão, eu ainda não existia, só vim ao mundo um ano e pouco mais tarde. Portanto o Muro era mais velho, mas eu sobrevivi a ele.

Agora eu já existo há quase o dobro do tempo que a “muralha antifascista” – assim os governantes da Alemanha comunista denominavam sua misantrópica, mortal construção, que corajosos cidadãos do Leste fizeram após insuportavelmente longos 28 anos, dois meses e 26 dias. E neste 5 de fevereiro completa-se exatamente esse mesmo tempo que o Muro de Berlim é história.

Portanto ele não existe mais, exceto alguns restos que foram preservados. E que são também necessários para dar à posteridade ao menos uma ideia das consequências que muros podem ter sobre os seres humanos, consequências que costumam perdurar ainda por muito tempo.

O elemento desagregador do passado se torna presente quando eu converso com antigos cidadãos da RDA sobre a vida deles na Alemanha unificada; quando, por exemplo, eles reclamam, geralmente com razão, de suas aposentadorias mais baixas. É vergonhoso elas ainda não terem sido integralmente equiparadas, passados mais de 28 anos da queda do Muro.

Não me espanto nem um pouco que muitos alemães-orientais continuem se sentindo como cidadãos de segunda classe. Nunca entendi por que das elites da RDA foram substituídas, em sua maioria, por gente do Oeste.

No caso de funcionários especialmente contaminados pela ideologia política, percebo a motivação, óbvio. Mas a purgação em empresas, universidades, ciência e cultura foi, para o meu gosto, muito mais além da medida absolutamente indispensável. Em pleno 2018, a presença alemã-oriental nos postos de liderança de todos os setores da sociedade está muito abaixo da média.

Devo considerar um consolo o fato de há 13 anos a minha chefe de governo ser Angela Merkel, socializada na Alemanha Oriental, porém nascida em Hamburgo? Não estou sendo tão sarcástico quanto pareça: pelo contrário, tenho plena convicção que teríamos avançado muito mais em termos de reunificação interna se houvesse mais gente do tipo de Merkel nas funções mais altas. Esse foi um dos motivos por que lamentei Joachim Gauck não ter se candidatado para um segundo mandato presidencial, em 2017.

No que se refere a um outro campo da política, há muito parei de querer entender: refiro-me à consequente marginalização do partido A Esquerda, originário da RDA. Até hoje os conservadores cristãos da CDU/CSU no governo se recusam a apresentar propostas em conjunto com os esquerdistas – o caso mais recente foi o debate sobre o antissemitismo, em meados de janeiro.

Esse é um tema em que todas as bancadas – excetuada a da Alternativa para a Alemanha, de tendência ultradireitista – estão de acordo: o antissemitismo deve ser incondicionalmente repudiado. Ainda assim, democrata-cristãos e social-cristãos se recusaram a unir forças com A Esquerda. Nesse momento, o mais tardar, eu teria desejado uma intervenção decidida de Angela Merkel, enquanto chanceler federal e líder da União Democrata Cristã (CDU)!

Para mim não há dúvida: quem até os dias atuais rejeita toda uma ala política em razão de suas raízes históricas, carece de maturidade democrática. É assim que se cimentam muros mentais num país em que o Muro de concreto caiu em 9 de novembro de 1989 – portanto 28 anos, dois meses e 27 dias atrás.

A atual data, em que essa barreira completa exatamente o mesmo tempo de não existência do que de pé, seria o momento ideal para também demolir os últimos muros nas cabeças. Os jovens nos mostram como isso é possível: para a grande maioria deles, Leste e Oeste não passam de pontos de orientação geográfica.

Recentemente celebrei na minha família o primeiro casamento alemão-alemão – como se diria antigamente. Ambos nasceram poucos anos antes da queda do Muro de Berlim, ele, no estado de Baden-Württemberg, ela, na Saxônia. Hoje o casal vive em Leipzig, a cidade dois heróis, cujos cidadãos contribuíram decisivamente para a revolução pacífica da RDA, com seus legendários “protestos de segunda-feira”.

Felizmente histórias como essa são normais entre a geração de meus parentes mais jovens, à qual também pertencem os meus filhos. Muitos dos mais velhos poderiam tomá-los como exemplo, embora isso seja difícil para grande parte deles, por motivos em parte compreensíveis.

Marcel Fürstenau

No que se refere aos responsáveis na política, desejo que também os últimos “guerreiros frios” finalmente reconheçam os sinais do tempo e façam jus à própria responsabilidade. Só aí os últimos muros também poderão cair.

  • Marcel Fürstenau é jornalista da DW

Fonte: DW

 

 

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Economia Opinião

Os riscos para a economia mundial em 2018

Alguns podem ser mais difíceis de se antecipar do que outros, como uma guerra, um colapso repentino dos mercados financeiros ou um desastre natural de grandes proporções.

Mas, em determinados casos, há sinais que alertam os economistas para potenciais ameaças e que permitem fazer previsões no curto e no médio prazo.

GETTY IMAGES – A expectativa é de que a economia mundial cresça 3,1% em 2018

Cecilia Barría

Riscos estão sempre rondando qualquer economia.

Neste início de 2018, diversos organismos internacionais listaram as possíveis ameaças à economia mundial. Apesar da previsão de crescimento de 3,1% para este ano, ainda existem incógnitas e ameaças latentes.

Confira abaixo algumas dos riscos projetados para o ano, de acordo com especialistas consultados pela BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC:

GETTY IMAGES – Um dos principais riscos é que o financiamento se torne mais dicífil.

José Juan Ruiz, economista-chefe do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID):

– Riscos geopolíticos e de estabilidade das instituições e das regras globais. Qual será o futuro da Organização Mundial do Comércio e do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta)? Haverá uma escalada das tensões entre EUA e Coreia do Norte, ou entre EUA e China? Estas são algumas das incertezas que podem prejudicar a economia.

– Queda do crescimento da produtividade, tanto em países desenvolvidos como emergentes. Hoje a produtividade cresce menos do que no passado, porque mundo ainda não sabe como utilizar bem as novas tecnologias nos sistemas produtivos. Outro elemento que influi nessa dinâmica é o envelhecimento crescente da população, que diminui a faixa dos economicamente ativos.

– A surpresa da inflação. Há um consenso amplo no mundo de que estamos em uma fase de inflações estruturalmente baixas, com condições monetárias muito favoráveis e mercados abundantes que criam riqueza financeira com pouca volatilidade. Isso provocou uma sincronização da recuperação econômica. Mas, se a inflação subir nos Estados Unidos (que é o esperado), pode haver um aumento na taxa de juros e mudanças nesse cenário.

– Aumento dos níveis de endividamento do setor privado e também dos próprios países. Com isso, alguns recursos que seriam usados em investimentos ou em programas sociais terão que ser destinados a pagar a dívida.

– Há um dilema moral. As empresas precisam apostar no bem comum, e não apenas nos lucros dos acionistas. Isso é um risco, mas levanta a questão sobre como elas podem ganhar legitimidade perante uma sociedade cada vez mais cansada do aumento da desigualdade. Eu acredito que esse debate pode ter um efeito importante.

GETTY IMAGES – Bolsas de valores em todo o mundo registram alta e juros baixos, mas essas condições poderiam mudar repentinamente

Alicia Bárcena, secretária-executiva da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal):

– Mudança climática. Este é o maior desafio que estamos enfrentando. O aquecimento global, os desastres naturais, a escassez de água e a contaminação podem colocar 122 milhões de pessoas na pobreza extrema, além das que já estão nessa situação hoje.

 Crescente desigualdade. O aumento da desigualdade de renda e a polarização social são consequências adversas da hiperglobalização, especialmente no mundo desenvolvido. Hoje existem oito pessoas que concentram uma riqueza equivalente à de 50% da população mundial mais pobre. A desigualdade ameaça a sustentabilidade econômica e social do atual modelo de desenvolvimento; seus custos ameaçam o bem-estar, o investimento e a inovação.

– Diminuição da confiança na democracia. Uma cultura baseada em privilégios transforma as diferenças em desigualdades. Estas tensões sociais, combinadas com incertezas, têm enfraquecido a confiança pública nas instituições democráticas.

– Crise do multilateralismo. Os grandes e persistentes desequilíbrios na conta corrente dos países, juntamente com as mudanças de localização de empresas e a piora nas condições de trabalho, têm provocado um ressurgimento do protecionismo em muitos lugares. Isso, combinado com negociações comerciais ineficientes, enfraquece o sistema de comércio multilateral internacional.

– Impacto desigual da revolução tecnológica. Mais de 40% da humanidade continua desconectada, não participa e nem tem voz na nova economia digital. Assim como as novas tecnologias redefinem os produtos e o mercado de trabalho, a distribuição desigual e o consumo dessas tecnologias afetam o crescimento e criam novas desigualdades.

GETTY IMAGES – Pode haver queda nos mercados internacionais, após uma fase de alta e pouca volatilidade

Carlos Arteta, economista líder do Grupo de Perspectivas Globais de Desenvolvimento do Banco Mundial:

– Endurecimento abrupto das condições internacionais de financiamento. Isso pode acontecer caso os mercados financeiros reavaliem a velocidade com que os bancos centrais doa países desenvolvidos normalizam suas políticas monetárias. Por exemplo, se a inflação nessas economias crescer mais do que o previsto.

– Reajuste muito rápido nos mercados de ações. Este risco tem aumentado devido a níveis muito altos registrados nas bolsas de valores mais importantes do mundo, assim como baixas taxas de juros. Essas condições poderiam mudar rapidamente e gerar tensão financeira.

– Aumento das restrições ao comércio. A ameaça tem crescido diante das tendências protecionistas de algumas das economias mais importantes do mundo, como a dos Estados Unidos.

– Crescimento da incerteza na política econômica. Mudanças drásticas na condução da economia poderiam afetar as decisões de investimento.

– Aumento das tensões geopolíticas. Um endurecimento das tensões na península coreana ou no Oriente Médio, por exemplo, poderia minar a confiança e prejudicar a atividade econômica.

GETTY IMAGES – A desigualdade ameaça a sustentabilidade econômica e mundial, e empresas também têm que responder por seu papel, segundo especialistas

Fonte: BBC Brasil.com

 

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Destaques Opinião

Só acredito em você se você disser o que eu quero ouvir

Já reparou como as pessoas sempre mudam de opinião quando confrontadas com dados que contradizem suas convicções mais profundas? Pois é, eu também nunca vi isso acontecer.

Suposto OVNI avistado em Westall (Austrália) em 1966. UNIVERSAL HISTORY ARCHIVE UIG (GETTY)

MICHAEL SHERMER

E tem mais: a impressão que dá é que, ao ouvir provas esmagadoras contra aquilo que acredita, o indivíduo reafirma as suas opiniões. O motivo é que esses dados colocam em risco sua visão de mundo.

Os criacionistas, por exemplo, rejeitam as provas da evolução oferecidas por fósseis e pelo DNA, porque temem que os poderes laicos estejam avançando sobre o terreno da fé religiosa. Os inimigos das vacinas desconfiam dos grandes laboratórios farmacêuticos e acham que o dinheiro corrompe a medicina. Isso os leva a defender que as vacinas causam autismo, embora o único estudo que relacionava essas duas coisas tenha sido desmentido há bastante tempo, e seu autor tenha sido acusado de fraude. Quem defende as teorias da conspiração em torno dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos se fixam em minúcias como o ponto de fusão do aço nos edifícios do World Trade Center, porque acreditam que o Governo mentia e realizou operações secretas a fim de criar uma nova ordem mundial. Os negacionistas da mudança climática estudam os anéis das árvores, os núcleos do gelo e as ppm (partes por milhão) dos gases de efeito estufa porque defendem com paixão a liberdade, em especial a dos mercados e empresas, de agirem sem precisar se ater às rigorosas normas governamentais. Quem jurava que Barack Obama não nasceu nos Estados Unidos dissecava desesperadamente sua certidão de nascimento em busca de mentiras, porque estava convencido de que o primeiro presidente afro-americano dos EUA era um socialista empenhado em destruir seu país. Os defensores dessas teorias têm em comum a convicção de que seus adversários céticos colocam em risco sua visão de mundo. E rejeitam os dados contrários às suas posturas por considerarem que provêm do lado inimigo.

O fato de as convicções serem mais fortes que as provas se deve a dois fatores: a dissonância cognitiva e o chamado efeito contraproducente. No clássico When Prophecy Fails (“quando a profecia falha”), o psicólogo Leon Festinger e seus coautores escreviam, já em 1956, a respeito da reação dos membros de uma seita que acreditava em OVNIs quando a espaçonave que esperavam não chegou na hora prevista. Em vez de reconhecerem seu erro, “continuaram tentando convencer o mundo inteiro” e, “numa tentativa desesperada de eliminar sua dissonância, dedicaram-se a fazer uma previsão atrás da outra, na esperança de acertar alguma delas”. Festinger chamou de dissonância cognitiva a incômoda tensão que surge quando duas coisas contraditórias são pensadas ao mesmo tempo.

Em seu livro Mistakes Were Made, But Not By Me (“foram cometidos erros, mas não fui eu”, 2007), dois psicólogos sociais, Carol Tavris e Elliot Aronson (aluno de Festinger), documentam milhares de experimentos que demonstram que as pessoas manipulam os fatos para adaptá-los às suas ideias preconcebidas a fim de reduzirem a dissonância. Sua metáfora da “pirâmide da escolha” situa dois indivíduos juntos no vértice da pirâmide e mostra como, ao adotarem e defenderem posições diferentes, começam a se distanciar rapidamente, até que acabam em extremos opostos da base da pirâmide.

Corrigir uma falsidade pode reforçar as percepções equivocadas do grupo, porque coloca em risco a sua visão de mundo

Em outras experiências, os professores Brendan Nyhan, do Dartmouth College (EUA), e Jason Reifler, da Universidade de Exeter (Reino Unido), identificaram um fator relacionado a essa situação: o que chamaram de efeito contraproducente, “pelo qual, ao tentar corrigir as percepções equivocadas, estas se reforçam no grupo”. Por quê? “Porque colocam em perigo sua visão de mundo ou de si mesmos.”

Por exemplo, os participantes do estudo foram apresentados a falsos artigos de imprensa que confirmavam ideias errôneas, porém muito difundidas, como a de que havia armas de destruição em massa no Iraque antes da invasão norte-americana de 2003. Quando confrontados posteriormente com um artigo que explicava que na verdade essas armas nunca haviam sido encontradas, os que se opunham à guerra aceitaram o novo artigo e rejeitaram o anterior. Entretanto, os partidários do conflito bélico argumentaram que o novo artigo os deixava ainda mais convictos da existência das armas de destruição em massa, pois seria uma prova de que o ex-ditador Saddam Hussein havia escondido ou destruído seu arsenal. Na verdade, dizem Nyhan e Reifler, entre muitos destes últimos participantes “a ideia de que o Iraque tinha armas de destruição em massa antes da invasão encabeçada pelos Estados Unidos persistiu até bem depois de que o próprio Governo de George W. Bush chegasse à conclusão de que não era assim”.

Se os dados que deveriam corrigir uma opinião só servem para piorar as coisas, o que podemos fazer para convencer o público sobre seus equívocos? Pela minha experiência, aconselho manter as emoções à margem; discutir sem criticar (nada de ataques pessoais e nada de citar Hitler); ouvir com atenção e tentar expressar detalhadamente a outra postura; mostrar respeito; reconhecer que é compreensível que alguém possa pensar dessa forma; tentar demonstrar que, embora os fatos sejam diferentes do que seu interlocutor imaginava, isso não significa necessariamente uma alteração da sua visão de mundo.

Talvez essas estratégias nem sempre sirvam para levar as pessoas a mudarem de opinião, mas é possível que ajudem a que não haja tantas divisões desnecessárias.

 

  • Michael Shermer é fundador e diretor da revista ‘Skeptic’. Este artigo foi publicado em 2017 na ‘Scientific America’

 

Fonte: El País