Defesa & Geopolítica

A MÃO OCULTA QUE SEGURA O PUNHAL: Histórico das Forças Especiais do Exército Brasileiro (Parte 1)

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Militares do Curso OpEsp 1957

Fotografia 1: Militares que participaram do Curso de Operações Especiais 57/1 ministrado pelo CIEspAet (Centro de Instrução Especializada Aeroterrestre [atual Centro de Instrução Paraquedista General Penha Brasil]).. (Fonte: Acervo do COpEsp).

Texto elaborado por Rodney Alfredo Pinto Lisboa.

No início da década de 1950, o NuDivAet (Núcleo de Divisão Aeroterrestre [denominação da Brigada de Infantaria Paraquedista entre 1953 e 1969]) do EB (Exército Brasileiro), localizado na Colina Longa, Vila Militar, Rio de Janeiro-RJ, cooperou em missões de busca e salvamento decorrentes, predominantemente, de acidentes aéreos. Nessa época, o esforço empregado nesse tipo de operação se baseava, sobretudo, no ímpeto e no espírito de corpo dos membros da tropa. Em 1953, face às dificuldades enfrentadas por ocasião da falta de planejamento, pessoal e meios adequados para a execução de tarefas dessa ordem, a Diretoria de Rotas Aéreas do Ministério da Aeronáutica identificou a necessidade de dispor de mão de obra especializada para conduzir missões de busca e salvamento. A partir dessa percepção, iniciou-se um trabalho conjunto envolvendo a Diretoria de Rotas Aéreas com o NuDivAet, então considerada como a principal unidade de elite do Brasil, com a finalidade de capacitar paraquedistas do EB na conduta de operações dessa natureza.

Por ocasião desta iniciativa, em 1956, atendendo a determinação do General de Brigada Djalma Dias Ribeiro (Comandante do NuDivAet), foi criada uma comissão, formada por integrantes do seu Estado Maior, com o objetivo de estabelecer normas de conduta para procedimentos de busca e resgate. Os trabalhos desenvolvidos pela comissão constituída pelo Major Gilberto Antônio Azevedo e Silva (diretor do Curso de Precursor Aeroterrestre [(atual Curso de Precursor Paraquedista]), pelos Capitães Augusto Vergner de Castro Araújo e Edmar Eudóxio Telesca, além do Tenente Sergio Barcelos Borges, resultaram na criação do Curso de Busca e Salvamento, ministrado pelos instrutores do CIEspAet (Centro de Instrução Especializada Aeroterrestre [atual Centro de Instrução Paraquedista General Penha Brasil]).

Fotografia 2: Major Gilberto Antônio Azevedo e Silva na época em que servia junto ao NuDivAet (Núcleo de Divisão Aeroterrestre). Em 1956 o Major Gilberto encabeçou a comissão que foi encarregada de estabelecer parâmetros para o Curso de Busca e Salvamento, posteriormente transformado no Curso de Operações Especiais. (Fonte: BRASIL, 2007, p. 10).

Fotografia 2: Major Gilberto Antônio Azevedo e Silva na época em que servia junto ao NuDivAet (Núcleo de Divisão Aeroterrestre). Em 1956 o Major Gilberto encabeçou a comissão que foi encarregada de estabelecer parâmetros para o Curso de Busca e Salvamento, posteriormente transformado no Curso de Operações Especiais. (Fonte: BRASIL, 2007, p. 10).

Nesta época, o Comandante do NuDivAet, devidamente acompanhado de seu Estado Maior e dos instrutores do CIEspAet, realizou uma viagem para os EUA com o objetivo de visitar as unidades paraquedistas estadunidenses em Fort Bragg, Carolina do Norte. Durante essa visita, os brasileiros foram convidados pelo Exército norte-americano a conhecer as OpEsp (Operações Especiais) desenvolvidas pelos Ranger e pelos recém-criados (entre 1952 e 1953) SFG-A (Grupo de Forças Especiais-Aerotransportado [Special Forces Goup-Airborne]).

Impressionado pelas capacidades demonstradas pelas unidades de elite norte-americanas, após retornar ao Brasil o General Djalma decidiu alterar o currículo do Curso de Busca e Salvamento de modo a transformá-lo em um Curso de OpEsp. Assim, valendo-se do conhecimento obtido no exterior, a comissão elaborou a grade curricular do novo curso, que mediante alterações sugeridas pelo Estado Maior do NuDivAet, foi efetivado, em caráter experimental, no dia 2 de dezembro de 1957.

Inicialmente o Curso de OpEsp foi estruturado visando capacitar os alunos, recrutados em caráter de voluntariado, na condução das seguintes tarefas: conquista de pontos chave; golpes de mão (ofensiva executada de surpresa com o intuito de aniquilar uma força inimiga e/ou destruir suas instalações/equipamentos; sabotagens; destruições; socorro e ajuda a populações ameaçadas por catástrofe; coleta de informações; enquadramento e instrução de guerrilheiros; captura de chefes inimigos; busca e salvamento (eventualmente).

Tendo sido nomeado o Major Gilberto como instrutor-chefe do curso, contribuíram para as instruções ministradas oficiais e graduados (sargentos) vinculados ao NuDivAet, bem como militares e civis de notável destaque em seus respectivos segmentos profissionais.

Figura 1: Distintivo das Forças Especiais do Exército Brasileiro idealizado pelo Major Gilberto Antônio Azevedo e Silva por ocasião do 1º Curso de Operações Especiais. O título deste texto é uma referência direta a este distintivo. (Fonte: Acervo do COpEsp).

Figura 1: Distintivo das Forças Especiais do Exército Brasileiro idealizado pelo Major Gilberto Antônio Azevedo e Silva por ocasião do 1º Curso de Operações Especiais. O título deste texto é uma referência direta a este distintivo. (Fonte: Acervo do COpEsp).

Na época em que foi publicado, o edital de inscrição do curso chamou a atenção de 35 militares paraquedistas, todos atraídos pelo ineditismo e pelas experiências que esse curso de combate poderia agregar em suas carreiras. Onze dos 35 candidatos desistiram antes mesmo de ser iniciada a bateria de exames clínicos e testes físicos requeridos para o ingresso no curso, que foi realizado em dois módulos: 1º Formação de Comando, com carga horária de 392 horas (realizado entre os dias 02/12/1957 e 13/03/1958); 2º Habilitação para Cumprimento de Missões Específicas de OpEsp, com carga horária de 133 horas (realizado entre os dias 02/06/1957 e 04/07/1957).

No relatório elaborado em consequência do progresso do Curso de OpEsp (então designado 57/1) foi proposto a constituição do 1° Destacamento de OpEsp, unidade que seria estruturada em quatro equipes de OpEsp, seção de comando, seção de manutenção e aprovisionamento, e seção de material de comunicações. Conforme proposto no relatório, cada uma das equipes de OpEsp deveria ser composta por nove operadores FE (Forças Especiais) qualificados nos seguintes cursos: precursor paraquedista; dobragem e manutenção de paraquedas e suprimento de ar; engenharia; saúde. Entretanto, ao final do curso, os 15 operadores concluintes (considerados como pioneiros da atividade OpEsp no EB) foram distribuídos pelas diferentes unidades do NuDivAet, permanecendo em condições de serem empregados a qualquer momento.

Figura 2: Relação de militares considerados como pioneiros da atividade OpEsp realizada pelo Exército Brasileiro. À exceção do Major Gilberto (instrutor), todos os demais foram alunos concluintes do Curso de Operações Especiais 57/1. (Fonte: Elaborado pelo autor).

Figura 2: Relação de militares considerados como pioneiros da atividade OpEsp realizada pelo Exército Brasileiro. À exceção do Major Gilberto (instrutor), todos os demais foram alunos concluintes do Curso de Operações Especiais 57/1. (Fonte: Elaborado pelo autor).

Tendo por finalidade viabilizar a participação de militares não qualificados como paraquedistas, na transição entre as décadas de 1950 e 1960, ocorreu a criação do Estágio de Comandos na estrutura curricular do Curso de OpEsp. Esse Estágio, ministrado inicialmente como primeira fase dos Cursos de Precursor Aeroterrestre e Operações Especiais, abriria espaço para o desmembramento do Curso de OpEsp de modo a originar (1966) o Curso de Comandos, que também seria administrado pelo CIEspAet.

Por assemelhar-se ao conceito operacional executado pelos SFG-A norte-americanos, em 1964 o termo “Operações Especiais”, empregado até então em referência às atividades análogas desenvolvidas no Brasil, foi alterado para “Forças Especiais”. Assim, em 1967 o curso é realizado pela primeira vez ostentando sua nova denominação (Curso de Forças Especiais).

Posteriormente, a transferência do Coronel Joffre Coelho Chagas (chefe dos cursos de especialização do CIEspAet) para a AMAN (Academia Militar das Agulhas Negras [estabelecimento de ensino localizado na cidade de Resende-RJ]), ocorrida no decorrer de 1966, possibilitaria o ingresso da temática OpEsp nos estágios de instrução ofertados na escola de formação de oficiais do Exército. Atuando como professor, o Coronel Jofre colaborou na criação do DIEsp (Departamento de Instrução Especializada [atual SIEsp/Seção de Instrução Especializada]), cuja finalidade era promover instruções de combate para os cadetes.

Em 1968, por ocasião de uma Portaria Ministerial datada de 12 de agosto, os Cursos de Forças Especiais e Comandos ministrados pelo CIEspAet foram oficialmente reconhecidos, sendo ativado o DFEsp (Destacamento de Forças Especiais), primeira unidade de OpEsp do Exército Brasileiro. Com sede na Colina Longa, Vila Militar-RJ, essa unidade inicialmente permaneceu sob autoridade do CIEspAet, sendo posteriormente subordinada à BdaAet (Brigada Aeroterrestre [denominação da Brigada de Infantaria Paraquedista entre 1969 e 1971])). Dotado com o valor de uma companhia, o DFEsp encontrava-se estruturado por dois DOFEsp (Destacamentos de Operações de Forças Especiais) e um DstCooCt (Destacamento de Coordenação e Controle), sendo que cada destacamento dispunha de 12 operadores FE (quatro oficiais e oito graduados [sargentos]).

Fotografia 3: Instalações do NuDivAet (Núcleo da Divisão Aeroterrestre) localizado na Colina Longa, Vila Militar, Rio de Janeiro. (Fonte: Acervo do COpEsp)

Fotografia 3: Instalações do NuDivAet (Núcleo da Divisão Aeroterrestre) localizado na Colina Longa, Vila Militar, Rio de Janeiro. (Fonte: Acervo do COpEsp)

 

Fonte: FOpEsp (Forças de Operações Especiais)

One Comment

  1. _RR_ says:

    Muito boa matéria! Valioso registro.

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