Defesa & Geopolítica

Diplomacia de Trump é “ingênua”, diz imprensa chinesa

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Presidente eleito dos EUA é alvo de críticas após ameaçar rever política de “uma só China”, adotada há décadas por Washington, numa aparente tentativa de conseguir vantagens comerciais.

A imprensa estatal chinesa lançou novas críticas ao presidente eleito americano, Donald Trump, chamando o americano de “infantil” e “ingênuo” após ele sugerir que irá reavaliar o relacionamento dos EUA com Taiwan.

Em entrevista à emissora Fox News neste domingo (11/12), Trump criticou a política adotada há quase quatro décadas pelo governo americano, sob a qual Taiwan é considerada parte do território chinês.

“Não sei por que temos de estar presos a uma política de ‘uma só China’, a não ser que cheguemos a um acordo com a China que teria a ver com outras coisas, incluindo comércio”, disse o presidente eleito.

A aparente tentativa de Trump de barganhar com Pequim para obter futuras vantagens comerciais levou a imprensa estatal chinesa a reforçar as críticas ao americano. O influente jornal Global Times, publicado pelo Partido Comunista chinês, afirmou em editorial que Trump seria “ingênuo como uma criança em termos de diplomacia”, e que a política de “uma só China” não pode ser “vendida ou comprada”.

“O desejo de Trump de vender a política de ‘uma só China’ por interesses comerciais é um impulso infantil”, diz o editorial. O jornal sugeriu que o presidente eleito se informe melhor sobre as relações EUA-China e pare de recorrer a práticas de “bullying”.

Telefonema com líder de Taiwan

No início do mês, Trump irritou Pequim ao aceitar um telefonema da líder taiwanesa, Tsai Ing-wern, que o parabenizou por vencer as eleições. Esse foi o primeiro contato entre um presidente americano – eleito ou no exercício do cargo – com o governo de Taipei desde 1979, quando o ex-presidente Jimmy Carter modificou o status diplomático dado a Taiwan, que passou a ser tratado como parte da China.

“Não quero que a China mande em mim, e esse foi um telefonema feito para mim”, disse o presidente. “Foi muito bom. Curto. Por que uma outra nação vem me dizer que não posso atender um telefonema?”, questionou Trump, acrescentando que teria sido “muito desrespeitoso” não responder à ligação de Taipei.

RC/rtr/ap

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: DW

Opinião: Trump comete um erro de cálculo em relação à China

O presidente eleito dos EUA volta a pôr em xeque política de “uma só China”, tratando assuntos externos como meros negócios. Um engano com possivelmente graves consequências, opina o jornalista Rodion Ebbighausen.

Antes mesmo de assumir na Casa Branca, o presidente eleito Donald Trump já ataca a base da política externa entre os Estados Unidos e a República Popular da China.

Desde 1979 vigora a assim chamada “política de uma China”, segundo a qual, pelo menos do ponto de vista chinês, o governo em Pequim é o único representante válido dos interesses nacionais. Quem quiser manter relações diplomáticas com a República Popular, tem que acatar a política de uma China – o que os EUA têm feito nos últimos 37 anos.

Desde sua vitória nas eleições presidenciais, Trump vem desafiando Pequim. Primeiro conversou ao telefone com a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen. Depois, tuitou: “A China nos perguntou se está OK desvalorizar sua moeda…, taxar pesadamente os nossos produtos… ou construir um complexo militar enorme no Mar da China Meridional? Eu acho que não!”

No domingo (11/12) ele foi mais longe, numa entrevista à emissora de TV conservadora Fox, ao declarar: “Mas eu não entendo por que nós devemos estar comprometidos com uma ‘política de uma China’, enquanto não tivermos um deal com a China sobre outras coisas, inclusive o comércio.”

A citação mostra como Trump vê o mundo, reduzindo a política a uma questão de comércio, big business e deals. Mas ele vai ter que aprender que política internacional não é apenas negócios.

Ao atacar a política de uma China, ele ataca um interesse central chinês. Um pilar sobre o qual a legitimidade do Partido Comunista da China se sustenta é a defesa e manutenção da integridade territorial. Do ponto de vista de Pequim, territórios como Hong Kong, Macau, Tibete, Xinjiang e especialmente Taiwan são partes inalienáveis da república.

Para o Partido Comunista, desviar-se desse princípio significaria colocar em questão décadas de sua linha política. Haveria até mesmo o perigo de colocar contra si a própria população, cujo nacionalismo o regime tem inflamado ao longo dos anos, sobretudo usando a questão de Taiwan.

Taiwan representa um interesse nuclear nacional, e interesses nacionais não se colocam em questão, muito menos como massa de negociação para um acordo econômico.

Essa investida de Trump é um perigoso erro de cálculo, com o qual ninguém sairá ganhando. Devido ao entrelaçamento dos interesses econômicos de ambos, tanto os EUA quanto a China sofreriam seriamente com uma piora de suas relações, ou mesmo uma guerra econômica. Taiwan estaria sob ameaça de acabar esmagado entre as duas grandes potências do Pacífico.

No momento já há suficientes conflitos não solucionados pelo mundo. É totalmente incompreensível por que, sem a menor necessidade, o presidente eleito dos EUA está criando um novo foco de crise.

Rodion Ebbighausen

Foto: Presidente de Taiwan Tsai Ing-wen, o Presidente eleito dos EUA, Donald Trump e o Presidente da China, Xi Jinping.

  • Rodion Ebbighausen é jornalista da DW

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: DW

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