Defesa & Geopolítica

Tensão na sala de comando

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http://2.bp.blogspot.com/-FxYcUk6cCNs/TZV6Z6FpxBI/AAAAAAAAABM/V3c35E11Zg0/s1600/obama_cia.jpgMorte de Bin Laden foi revanche da CIA e será chance de Obama recalibrar política externa, diz analista


No verão de 1989, embrenhado nas montanhas empoeiradas de um Afeganistão que tentava expelir os soviéticos, o repórter americano Jon Lee Anderson abandonou a cobertura às pressas, depois de combatentes jihadistas descobrirem que um “infiel” viajava com as tropas afegãs. “Eu não sabia, mas esses homens eram o núcleo inicial da Al-Qaeda e seu líder, um saudita rico recém-chegado, um tal de Osama bin Laden”, lembrou Anderson nessa semana, em um texto para a The New Yorker, revista da qual é colaborador. Na fuga, ele teve que ser contrabandeado para a cidade paquistanesa de Peshawar, a 230 km de Abbottabad, último esconderijo do terrorista morto numa ação cirúrgica dos “dobermans humanos”, como Anderson categoriza os Navy Seals.

Aos 54 anos, esse californiano esteve em quase todos os lugares quentes em momentos estratégicos da história recente: Iraque, Irã, Haiti, Líbia, morros do Rio de Janeiro. Foi também o primeiro jornalista a pisar no Afeganistão depois do 11 de Setembro, incursão que lhe rendeu o livro The Lion”s Grave: Dispatches from Afeghanistan. No Iraque, ele abandonou a carona de tanques americanos e mergulhou numa cobertura independente em busca de histórias de gente comum submersa num cataclismo bélico. A narrativa resultou em seu livro mais recente, A Queda de Badgá, publicado no Brasil pela Objetiva, que editou também Che – Uma Biografia.

Na entrevista a seguir, o jornalista – que estará em São Paulo no dia 20 para uma palestra no Sesc Vila Mariana, por ocasião do 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural – discute o envolvimento da agência de espionagem americana na morte de Bin Laden, diz que a CIA estava em dívida com o país pela falha colossal de inteligência que permitiu o 11 de Setembro e sustenta que Barack Obama precisa tirar as decisões de Estado das mãos dos militares e do interesse privado. Com isso, içará a política externa americana do legado de George W. Bush.

Em um passado de erros de inteligência, como a acusação de armas de destruição em massa no Iraque e a demora em encontrar o mentor do ataque às Torres Gêmeas, a CIA conseguirá, com a morte de Bin Laden, melhorar sua imagem perante os americanos?

A CIA tinha que se redimir pela falha colossal de não conseguir prever o 11 de Setembro. E não apenas perante o público geral, mas com os formadores de opinião e as outras agência do governo, sem falar da própria Casa Branca. O ataque aos EUA em 2001 significou o retorno de frankensteins – Bin Laden e seus seguidores – criados pelos próprios americanos. E nós costumávamos tirar sarro dos soviéticos quando, em 1987, um nerd alemão de 19 anos aprendeu a pilotar um avião de pequeno porte e voou pela Europa aterrissando na Praça Vermelha, em Moscou. Isso foi um embaraço para o Kremlin, mostrou que a URSS podia ser invadida por um secundarista. Mas não houve grandes consequências, além de mostrar como a URSS havia se tornado um gigante disfuncional. O 11 de Setembro foi uma tragédia digna de filme B e o impacto no imaginário nacional foi enorme. Não sei que visão o americano médio tem da CIA, porém a indústria de entretenimento, a partir da qual a maioria dos americanos forma sua opinião, com frequência retrata os agentes da organização como à beira da imoralidade. Desde sua criação, no pós-2ª Guerra, a CIA acumulou muitas sombras. Nos anos 60 foi muito ativa em operações secretas ao redor do mundo para combater o comunismo. Por causa do resultado dramático de muitas dessas atividades, criou-se uma percepção internacional da CIA como uma organização terrível, todo-poderosa. Em certos países, nunca houve reconciliação com essa imagem e os agentes do Serviço Secreto são vistos como uma gangue de bandidos, assassinos de terno.

Desde a falha em prever o 11 de Setembro, a CIA perdeu espaço nos rumos da política externa americana?

A CIA tem estado em baixa na mesa de negociação nos últimos anos, ao passo que Bush filho militarizou muitos aspectos da política externa. Temos até generais que são embaixadores. Há gerações isso não acontecia, desde Dwight Eisenhower, que, no entanto, chegou à presidência por sua reputação de herói de guerra. Obama deveria representar a reafirmação de uma autoridade civil e moral na política externa. Não fez isso. Eu o critico não pela forma como lidou com o terrorismo e com Bin Laden, mas pela permanência das tropas no Iraque e no Afeganistão e na contínua militarização da política externa. Precisamos nos afastar dessa lógica. Obama sabe disso e já começou a mudar as pessoas de lugar. O diretor da CIA, Leon Panetta, foi escolhido para secretário da Defesa e o general Petraeus para liderar a agência de espionagem.

Ambos são conhecidos por sobrepor as funções da CIA e do Exército de forma a que ações militares e de inteligência sejam impossíveis de distinguir. A opção de Obama por esses nomes sinaliza uma mudança no modo como os EUA travarão suas batalhas de agora em diante?

Uma mudança está, de fato, acontecendo. Obama não tinha muita experiência em política externa quando assumiu e foi pouco assertivo nessa área para um homem tão articulado em questões internas. Talvez com a morte de Bin Laden Obama tenha força renovada não só para a campanha, mas para recalibrar esses aspectos perigosos de nossa política externa, que incluem não só a militarização, mas também a privatização. Nossa política exterior foi dada de bandeja para empresas com interesses pecuniários na guerra. É problemático que o dinheiro do contribuinte americano vá para empresas privadas assumirem as mais diversas funções nas frentes de guerra, desde alimentar e lavar os uniformes de nossos soldados até construir estradas no Afeganistão. Ou fornecer mísseis para jatos que serão usados em operações da CIA no Paquistão para matar integrantes da Al-Qaeda. Esse grupo Blackwater, rebatizado de XE depois que cometeu um massacre em Bagdá, está envolvido em todas as ações importantes da nossa segurança internacional. Como a operação secreta de Raymond Davis, preso no Paquistão por matar dois agentes do serviço secreto paquistanês. A dúvida permanece: a operação é da CIA ou da Blackwater? Essas são questões que precisam ser respondidas imediatamente. Já em 1959, o presidente Eisenhower, um general conservador, alertava sobre a possibilidade de um dia os EUA criarem um enorme establishment industrial-militar que se tornaria tão poderoso a ponto de comandar nossa política externa. Em certa medida é o que vemos hoje, e isso me incomoda. A porta giratória não para, e empresários se misturam com idealizadores de política externa. Vemos ex-embaixadores aceitando contratos milionários assim que deixam o cargo, transformando-se em lobistas de países nos quais foram representantes do governo americano. As coisas não estão cheirando bem.

Alguns analistas chamam a morte de Bin Laden de “assassinato político”, outros rebatem alegando que ele era um alvo militar, não político. Em paralelo, a Otan não é clara sobre Muamar Kadafi ser um alvo e contudo bombardeou sua casa, matando filho e netos, A semântica usada para justificar a morte do saudita está sendo aplicada ao líbio?

Está claro para mim que a Otan tentou matar Kadafi em uma série de ocasiões. Isso dois dias antes da morte de Osama. Há temor de que, por causa da proximidade entre os dois eventos, a ideia de resolver as coisas com as próprias mãos, com mísseis direcionados e assassinatos, esteja virando moda. Essa preocupação é válida. A tentativa de assassinato de Kadafi está sendo encoberta por uma trapaça semântica. A Otan alega estar mirando nos centros de controle militar do regime. Kadafi é o líder de um regime verticalizado. Se decapitarmos a serpente, ela morre. Quando tentaram matar Saddam Hussein, ainda no início da invasão americana, também alegaram que foi um ataque contra o centro de comando iraquiano. Depois soubemos, por causa de um vazamento de informação, que aquela tinha sido uma tentativa de matar o iraquiano. O mesmo se repete com Kadafi, e a tentativa de negar isso é um insulto a nossa inteligência. Bin Laden está à margem da política e o terrorismo é uma guerra que não admite leis. A operação para pegá-lo foi feita por um grupo altamente treinado. Os Navy Seals são, basicamente, dobermans humanos: assustadores e treinados para matar. Não podia dar outra. Mas isso nos trás para um terreno arrepiante que é o dilema moral dessa guerra. Estamos atolados há anos nesse pântano, que envolve também a discussão sobre o tratamento de prisioneiros em Guantánamo e o uso de tortura para extrair informações.

O uso de tortura foi abertamente criticado por Obama na campanha. Pode essa inconsistência entre retórica e ação prejudicar sua imagem e influenciar a corrida presidencial?

Obama tem mais dificuldade em se explicar em relação ao uso de métodos tortuosos de interrogação porque ele adotou o discurso da moralidade na campanha. Sua imagem foi afetada e ele pode perder alguns votos democratas com isso. Mas não acho que esse seja um problema para a vasta maioria do eleitorado americano, que, francamente, está mais preocupado com a situação econômica. Se quiserem, os republicanos podem entrar na próxima campanha como os defensores de quê? O partido pró tortura? Ok. Boa sorte. Não acho que isso vá afetar a reeleição de Obama.

Em artigo para a The New Yorker, o sr. relaciona a execução de Che Guevara, em 1967, e o fato de Bin Laden ter sido jogado no mar. Pode a falta de sepultura e de foto do terrorista morto criar uma aura mística e alimentar uma imagem de mártir da jihad?

Pode sim. E há analogia entre as mortes de Che e Bin Laden no que se refere à participação do serviço de inteligência americano e à preocupação de que suas mortes pudessem aumentar a popularidade e a imagem de martírio desses líderes de insurgências. No caso de Che, as circunstâncias da morte só foram descobertas décadas depois. A diferença é que Che teve o cadáver exposto em praça pública, permitindo que seus admiradores se convencessem de que estava morto. Os EUA sumiram com os restos mortais de Bin Laden para negar a seus seguidores um local de enterro. Mas preservaram secretamente evidências de sua morte. As mãos de Che foram amputadas e escondidas. Elas eventualmente foram parar em Cuba, assim como as fotografias de Che antes da execução. Então, se há 45 anos todo esse processo foi registrado, acho difícil que não fizessem o mesmo agora com Bin Laden. A dificuldade agora, nessa era de hackers e WikiLeaks, é preservar as provas fotográficas. Minha intuição diz que eventualmente essas imagens vão chegar ao domínio público. O momento da morte de Bin Laden se dá em meio a um período de convulsão e incertezas no mundo árabe e islâmico, um tipo de fenômeno social que não tínhamos visto antes e muito ameaçador ao status quo mundial. Em meio a tantas incertezas naquele lado do planeta, certamente o cálculo dos EUA era o de sumir com o corpo e anular a saga pela procura de uma sepultura que os seguidores de Bin Laden pudessem cultuar. Mas acho que a atenção vai se focar no espaço físico onde ele foi eliminado. Por muitos anos, os seguidores de Che preservaram a pequena escola na Bolívia onde ele morreu como santuário. Se os paquistaneses não demolirem a casa em Abbottabad ou a incorporarem como parte da academia militar paquistanesa, ela se tornará também um ponto de peregrinação. Ou seja, mesmo sem uma sepultura, o problema não está resolvido.

A história permanece cheia de lacunas e versões cambiantes. Como o sr. vê a posição titubeante dos EUA no relato da operação?

Essas várias versões que estão surgindo mostram que mesmo a mais sofisticada superpotência mundial pode ter uma resposta atrapalhada. Acho que os EUA estavam tão excitados pela notícia que se precipitaram em adiantar detalhes da operação. Isso é tão típico do meu país… No final das contas, ele não consegue manter um segredo. Quanto mais os governantes alteram os fatos, menos atraente fica a história.

Fonte: O Estado de S.Paulo

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