Defesa & Geopolítica

Análise da atual política americana para a Rússia

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O jornal “Rossiyskaya Gazeta”, de Moscou, entrevistou o reitor da Faculdade de Economia e Política Mundiais da Escola Superior de Economia da Rússia, Sergey Karaganov, sobre o atual posicionamento dos Estados Unidos em relação à Rússia. Karaganov conclui que o mundo está se tornando cada vez menos ocidental.

A seguir, a íntegra da entrevista.

Sergey Karaganov

Rossiyskaya Gazeta – Na sua opinião, as autoridades americanas estão realmente buscando o isolamento da Rússia?

Sergey Karaganov – Infelizmente, estou totalmente convencido de que o rumo tomado pelos americanos para a contenção e até mesmo para a rejeição da Rússia, num espírito de Guerra Fria, já vinha se intensificando no decorrer do último ano e meio. Isso começou quando os Estados Unidos entenderam que a Rússia não iria embarcar na política ocidental. O novo rumo norte-americano ficou totalmente claro para mim ainda em meados do ano passado, ao assistir às declarações de muitas figuras importantes e analisar o fluxo de informações vindas do exterior através de fontes confiáveis. Já àquela altura o tom das declarações ficava cada vez mais hostil, e a informação assumia o caráter de total propaganda. Entre o final do ano passado e o início deste ano, principalmente na época da Olimpíada, tornou-se clara a guinada na política dos Estados Unidos em relação à Rússia. Outros analistas também chegaram à mesma conclusão. E, se antes ainda restavam dúvidas, o fluxo de desinformação e, por vezes, de evidente calúnia que dominava a imprensa ocidental às vésperas da Olimpíada em Sochi conseguiu convencer até os mais céticos sobre a existência dessa transformação. Portanto, acredito até certo ponto que as ações da Rússia, inclusive durante a crise ucraniana, tratavam de um golpe preventivo. Embora creia que a Rússia também vinha se preparando para tal confrontação, ficava cada vez mais óbvio que a política de pacificação ou de simples interação não trazia quaisquer resultados positivos. O Ocidente continuava a sua expansão para zonas de interesse russo, ampliando a sua esfera de influência e controle.

RG – O senhor concorda com aqueles que relacionam o atual rumo de esfriamento das relações com a Rússia, adotado por Obama, com a proximidade das eleições para o Congresso? Ou o chefe da Casa Branca perdeu por completo o interesse pelos planos de reativar as relações com Moscou?

SK – A política de contenção da Rússia não é um objetivo do atual presidente dos Estados Unidos, até mesmo pelo simples fato de sua agenda ser outra. Obama realmente quer modernizar os Estados Unidos, solucionar os enraizados problemas do país, apesar de não estar conseguindo fazê-lo. Já o tradicional estabelecimento de política externa dos Estados Unidos, dominado por pessoas dos anos 90, está acostumado a ver a Rússia de joelhos, e pedindo esmola. Essas pessoas interpretam a existência de uma outra Rússia como um insulto, uma humilhação pessoal. Nos anos de 1990 elas triunfavam, mas depois o seu país cometeu uma série de erros, e elas começaram a perder. Essas pessoas fazem parte do entorno de política externa de Barack Obama, elas o impelem a promover uma política muito rígida em relação a Moscou. Desde já, essa política parece não apenas buscar a contenção da Rússia, mas estar direcionada para uma troca de regime. Menções a isso já começam a aparecer em alguns documentos norte-americanos. Elas simplesmente ainda não figuram na imprensa. Mas o que os Estados Unidos entendem por troca de regime? A derrubada do Presidente Vladimir Putin. Isso porque a maioria das pessoas que ditam o tom da política externa americana acredita que enquanto Putin estiver no poder não será possível alcançar quaisquer melhorias nas relações entre Estados Unidos e Rússia. Mas isso representa praticamente um rumo para a destruição do país, já que o atual regime russo foi criado de maneira bastante orgânica e é apoiado pela maioria da população. Todos no Ocidente dizem que a Rússia tem poucos recursos. Mas ninguém menciona o fato de os recursos do Ocidente serem hoje consideravelmente menores do que antigamente. A Rússia atual conta com recursos que a União Soviética não tinha.

RG – Acontece, então, que a Ucrânia se tornou aquele pretexto necessário para que os Estados Unidos começassem a promover abertamente a sua política de contenção?

SK – Não apenas isso. A situação na Ucrânia possibilitou a alguns políticos da Europa mostrar que o projeto europeu está se desenvolvendo, ao invés de se degradar. Eles precisavam provar para o mundo, e, antes de tudo, para eles mesmos, que a Europa unificada, acometida por uma difícil e ainda insolúvel crise, está viva e ainda se mostra atraente para alguns. Isso foi um fator político-moral. Aparentemente, alguém dos Estados Unidos, através de pessoas na Europa, aproveitava a situação na Ucrânia buscando provocar uma crise. Além disso, com a ajuda dos acontecimentos na Ucrânia, tanto os americanos quanto muitos europeus esperavam reduzir a sem precedente influência da Rússia na política internacional. Lembremos que no ano passado, graças a uma política externa muito rígida, hábil e volitiva, o peso da Rússia no mundo começou a superar em muito as suas reais possibilidades, principalmente econômicas. Em certa medida, nós começamos quase que a concorrer com os Estados Unidos, apesar de possuir uma economia algumas vezes menor.

RG – Até que ponto é válido afirmar que o novo embaixador dos Estados Unidos em Moscou, John Tefft, está encarregado de congelar as relações com a Rússia?

SK – Ao contrário de Michael McFaul, seu antecessor, Tefft é um embaixador profissional. Ele fará aquilo que lhe for dito. Se Tefft for encarregado de estabelecer as relações com a Rússia, ele o fará muito melhor do que o próprio McFaul, que em sua atividade diplomática era movido por convicções e ligações próprias.

RG – O senhor acredita que com a nomeação de Tefft o diálogo entre os chefes das chancelarias da Rússia e dos Estados Unidos, entre Serguey Lavrov e John Kerry, não será interrompido?

SK – Acredito que o diálogo não será interrompido. Mas é preciso entender que estamos na etapa inicial do desdobramento da crise, cujo epicentro compreende a Ucrânia. A crise, no entanto, como um todo, leva um caráter muito mais profundo. Este reside na recusa da Rússia em continuar seguindo regras impostas a ela, regras que eu chamo de “política de Versalhes em luvas de veludo”. É uma política que era promovida pelos países europeus vencedores da Alemanha na Primeira Guerra Mundial. Ali os europeus, movidos por ganância e ódio em relação à derrotada Alemanha, impuseram a Berlim e ao povo alemão condições humilhantes de paz, tomando para si fundos e territórios por meio de contribuições. Como consequência, eles prepararam o terreno para a Segunda Guerra Mundial. Além do repugnante regime fascista, a responsabilidade dessa guerra também recai de forma integral sobre países europeus, que impuseram à Alemanha o Tratado de Versalhes. Infelizmente, a Rússia era submetida a uma mesma política, ainda que de forma mais branda. Apesar de que os nossos parceiros europeus e norte-americanos preferiam não pensar, quanto menos falar sobre isso.No que diz respeito à situação em torno da Ucrânia, a Rússia se recusou a jogar pelas velhas regras do Ocidente. Mas por trás de sua recusa existe uma tendência muito mais profunda: uma crescente parcela do mundo também se nega a seguir as regras ocidentais. O mundo está se tornando cada vez menos ocidental. E apesar de a Rússia, por força do seu caráter e da sua coragem, ter desafiado abertamente o Ocidente, todos entendem que por trás dela estão os novos grandes países, que gostariam de ver a nossa vitória. Portanto, os acontecimentos de hoje representam uma quebra em potencial muito grande nas relações entre o mundo e o Ocidente.

Mas é preciso compreender os riscos. A Rússia se envolveu numa luta pesada. Espero que nós não sejamos derrotados. Quem sabe, através desse agravamento conseguiremos interromper a contínua guerra fria na Europa, e dentro de alguns anos assinar um novo acordo sobre a União da Europa, que incluirá tanto os países europeus quanto a Rússia, a Moldávia, os países da Transcaucásia, a Turquia e a Ucrânia, que então conseguirá resistir e não ser dilacerada pelas suas contradições e por forças externas.

O mundo sairá ganhando. Surgirá um terceiro polo. Um sistema de dois polos, baseado no eixo Estados Unidos–China, é instável por definição. Um terceiro será melhor para todos, tanto para a Rússia quanto para a outra Europa e todos os demais.

Fonte: Diário da Rússia

 

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