Defesa & Geopolítica

Última ditadura europeia, Belarus tem órgãos de quando era da URSS

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De pé em Minsk, Lenin aínda é o senhor sobre a capital da Bielorrússia. Foto: Reuters

FABIANO MAISONNAVE – MINSK (BELARUS)

A bielorrussa Nasta Palazhanka tinha apenas um ano quando a União Soviética se desintegrou, em 1991. Mesmo assim, passou uma temporada presa na cárcere da KGB.

Ela faz parte da organização Frente Jovem, de oposição ao governo de Alexander Lukashenko, um ex-administrador de fazendas coletivas. No poder desde 1994, promove a detenção de dezenas de opositores ao mesmo tempo em que mantém instituições da era comunista.

A Foice e martelo são imagens constantes na cidade de Minsk

Belarus é o único país que integrava a URSS que mantém o nome KGB para o serviço secreto. A agência funciona num prédio de quatro andares que ocupa meia quadra na avenida principal de Minsk. Tem ainda uma cárcere só para presos especiais.

Palazhanka foi levada ao presídio da KGB em dezembro do ano passado, após participar de protestos contra supostas fraudes na eleição que deu o quarto mandato consecutivo a Lukashenko.

O processo foi criticado pela União Europeia e pelos EUA.”É uma prisão de segurança máxima, com apenas 20 celas”, conta à Folha Palazhanka, em entrevista num café de Minsk.

“Os guardas falam o mínimo. Na hora de levar ao interrogatório, só apontam o dedo e dizem ‘você’ para que os outros presos não escutem nomes. Mas aos poucos aprendemos o que cada som significa.”

Bonde atravessa rua de Minsk, a capital de Belarus

De voz baixa e gestos discretos, Palazhanka ainda vive com os pais. Milita na Frente Jovem desde os 17 anos. Desde então, já foi detida cerca de 50 vezes.

Seu namorado, do mesmo grupo, está preso na KGB e não recebe visitas. A organização se denomina cristão-democrática e defende maior independência política e cultural em relação à Rússia.

Promove ações estilo “flash mob”, como hastear a antiga bandeira de Belarus, rechaçada pelo governo, diante de prédios públicos.

A família também sofre retaliações, relata. Seu pai perdeu o cargo de vice-presidente de uma construtora estatal, e o irmão não teve o contrato de trabalho renovado num banco público. Ela mesma foi forçada a trocar de escola por causa de perseguição. Hoje, cursa uma universidade europeia via internet.

Não é só a KGB que mantém Belarus presa ao passado soviético. A ruas da cidade ostentam nomes como Karl Marx e Lênin. Diante do prédio da KGB, está uma estátua do bielorrusso Felix Dzerzhinsky, fundador da Cheka, violento serviço secreto que deu origem à KGB.

A economia também continua predominantemente estatal. Os investimentos estrangeiros se resumem ao setor bancário e a algumas cadeias de lojas como a do McDonald’s.

Rio Namiha, que cruza a capital bielorrussa, Minsk

ECONOMIA

Neste ano, a situação econômica piorou drasticamente. Problemas de liquidez levaram o governo a queimar reservas internacionais e a desvalorizar a moeda duas vezes. A inflação acumulada em 12 meses é de 88,7%, a maior da Europa, apesar do controle de preços.

Recentemente, o governo anunciou a emissão de notas no valor de 200 mil rublos bielorrussos. A situação econômica difícil e o isolamento no Ocidente fizeram Lukashenko a se aproximar novamente da Rússia neste ano, após um breve período de flerte com a Europa.

Há duas semanas, a Rússia comprou a totalidade do gasoduto que atravessa Belarus rumo ao mercado europeu, e anunciou um empréstimo de US$ 10 bilhões.

Os dois países também avançaram as negociações para implantar uma zona alfandegária comum.

Numa edição do jornal estatal “Belarus soviete” da semana passada, Lukashenko aparecia de mãos dadas com o colega russo, Dmitry Medvedev. A manchete: “Integração total”.

Fonte: Folha

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