Defesa & Geopolítica

Carlos Lessa: Entre ser Noruega ou o Iraque tropical

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Sugestão: Gérsio Mutti

Para o economista Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES, o setor de energia atualmente é o mais estratégico do mundo e o Brasil pode sofrer ou se beneficiar de seu potencial energético, dependendo das opções que fizer:

“A mão de Deus nos deu o petróleo, que dependendo de como o usemos, pode representar desenvolvimento, como na Noruega, ou retrocesso. No limite, podemos ser uma Noruega tropical ou um Iraque no Atlântico Sul. Temos de exportar trabalho feito pelos brasileiros e não virar primário exportador. Lula fala isso. Espero que tenha coragem de enfrentar o problema.”


Lessa, que também foi reitor da UFRJ, lembrou que o petróleo tem sido maldição para a maioria dos países produtores: “A Venezuela não produz alimentos porque a entrada de dólares tornou isso muito caro. O mesmo pode acontecer aqui. Exportar petróleo cru também é maldição. A Indonésia vendia a US$ 2 o barril, acabou com suas reservas, e, agora, importa a US$ 90″, disse, acrescentando que o México também perdeu muito de suas reservas.

Outro setor sensível para o Brasil, mas que pode ser uma oportunidade de desenvolvimento, na opinião dele, é o de transportes: “A matriz logística é o Calcanhar de Aquiles do Brasil. Temos um dos piores sistemas de movimentação de cargas e pessoas do mundo. A começar pela opção pelas rodovias, que são os piores e mais caros meios de transporte.”

Lessa, porém, enfatizou que, se houver coragem política, o investimento em logística poderá deflagrar um surto de desenvolvimento no país.

“Se investirmos na matriz logística e fizermos redução dos preços do frete, isso significará aumento de poder de compra, sobretudo para o povão. Estaremos restaurando o mercado interno e dando impulso fantástico a essa produção, cuja tecnologia dominamos. Sabemos fazer coisas em grande escala, como Brasília. Mas o que vemos é paralisação por causa de juros altos e câmbio valorizado”, criticou, em entrevista ao Monitor Mercantil.

Qual o setor mais estratégico da economia mundial atualmente?

Sem dúvida nenhuma é o setor de energia. Há mais de 25 anos que as reservas conhecidas de petróleo crescem menos que o consumo. Ou seja, a taxa de utilização está crescendo, o que significa que o recurso é cada vez mais escasso. Em conseqüência, os preços da própria geração e de tudo que é produzido com muita energia estão cada vez mais caros. Ao mesmo tempo, são poucos os países que têm reservas hídricas a serem incorporadas.

Então, esta crise mundial é manifestação de uma crise financeira, mas tem o problema da energia como pano de fundo?

Sim. O sinal mais evidente é o preço do petróleo, que caiu com a crise, mas já se aproxima dos US$ 90 o barril. Para a economia norte-americana, o petróleo é vital, pois o país consome 30% do petróleo do mundo e tem reservas para cinco anos apenas, mas é imprescindível também para Japão, Alemanha, França, e muitos outros países.

Qual a situação do Brasil?

A mão de Deus nos deu o petróleo, que, dependendo de como o usemos, pode representar desenvolvimento, como na Noruega, ou retrocesso. No limite, podemos ser uma Noruega tropical ou um Iraque no Atlântico Sul.

Temos de exportar trabalho feito pelos brasileiros e não virar primário-exportador. Lula fala isso, espero que tenha coragem de enfrentar o problema. O petróleo tem sido maldição para os países.

A Venezuela não produz alimentos porque a entrada de dólares tornou isso muito caro. O mesmo pode acontecer aqui. Exportar petróleo cru também é maldição. A Indonésia vendia a US$ 2, acabou com suas reservas, e, agora, importa a US$ 90. México também perdeu muito de suas reservas.

O que fazer para evitar essa maldição?

A primeira coisa a pensar é a questão do combustível renovável, em substituição ao petróleo ou carvão, no qual está baseada a produção de energia na China. O novo dinamismo mundial só surgirá quando aparecer um substituto para o vetor petróleo.

Sem resolver a questão da energia, o mundo permanecerá estagnado, pois qualquer crescimento mundial faz disparar o preço do petróleo. Muitos apostam no hidrogênio, outros no carro elétrico.

De qualquer maneira, a tendência mundial é para redução do consumo de energia. Estou convencido de que os automóveis bebedores de gasolina estão com os dias contados. Detroit acabou. Obama (Barak Obama, presidente dos EUA), quando fala de longo prazo, refere-se à renovação da infra-estrutura. Haverá um aperfeiçoamento grande nos sistemas de transportes, que são enormes consumidores de energia.

E quanto ao Brasil?

Olhando para o Brasil, estamos em situação extremamente curiosa. Nossa matriz energética é espetacular, pois, das grandes economias, somos a que tem maior participação de recursos renováveis na geração de energia – cerca de 50%, enquanto a média mundial é 11%. Mas a produção de energia por habitante está abaixo da média mundial. Nossa matriz é maravilhosa, mas tem de ser preservada e ampliada, sobretudo a partir de recursos hídricos, que são, de longe, os menos agressivos ao meio ambiente, embora, infelizmente, exista veto ambiental.

O que é veto ambiental?

Bloqueios internos e internacionais. Veja Belo Monte como está sendo atacada. Há um atraso de pelo menos dez anos em sua construção. O que está crescendo no Brasil é a termeletricidade. Há 66 termelétricas em construção, sobretudo no Nordeste. Energia mais cara e poluente. É criminoso e estúpido. Nos próximos quatro anos, todo aumento de produção de energia no país se dará por termelétricas. E não há nada mais decisivo para o Brasil do que oferecer energia barata. Hoje nossa tarifa é das mais caras do mundo.

Não podemos produzir a partir da biomassa?

Sim, mas o capital estrangeiro está comprando todas usinas. Podemos também ter energia complementar nuclear. É melhor que diesel, gás natural, carvão etc. Sabemos enriquecer o urânio e já somos a sexta reserva mundial.

Por que o senhor afirma que a matriz logística é o calcanhar de Aquiles do Brasil?

Por que temos um dos piores sistemas de movimentação de cargas e pessoas do mundo. A começar pela opção pelas rodovias, que são os piores e mais caros meios de transporte. Levamos cargas do Rio Grande do Sul ao Pará por via rodoviária.

Praticamente acabamos com a navegação de cabotagem, que seria a opção mais barata. Encurtamos a redes ferroviárias e não completamos as grandes ferrovias de integração, expondo o país a uma grande vulnerabilidade. Como agravante, há o fato de que a população está indo cada vez mais para as cidades, o que faz a mercadoria rodar mais para chegar ao consumidor. Privilegiamos carro e ônibus, em detrimento do trem e do metrô.

Por que isso também pode ser uma oportunidade?

Se investirmos na matriz logística e fizermos redução dos preços do frete, significará aumento de poder de compra, sobretudo para o povão. Estaremos restaurando o mercado interno e dando impulso fantástico a essa produção, cuja tecnologia dominamos. Sabemos fazer coisas em grande escala, como Brasília. Mas o que vemos é paralisação por causa de juros altos e câmbio sobrevalorizado.

Como o senhor avalia a atual onda de fusões e aquisições no país?

Não é que haja uma tendência à aceleração de fusões e aquisições no Brasil, mas, com a crise e seus reflexos, corremos o risco de quebrar as indústrias de frango, os matadouros e a produção de celulose (referindo-se, respectivamente a Sadia, frigoríficos e Aracruz).

O que o BNDES fez foi apoiar a sobrevivência de grandes grupos nacionais. No entanto, a tendência desses grupos é transferir o controle para o exterior, como aconteceu com a AmBev, ou começar a comprar ativos no exterior. Até a Petrobras comprou refinaria no Japão. Essa orientação primário-exportadora está fazendo com que os campeões nacionais estejam surgindo, não voltados para o mercado interno, mas para o mercado mundial.

Como devem ser feitas as fusões?

Devem ser controladas. Mas não é isso que o governo está fazendo. É preciso saber quem funde e para que funde. Havia dois mil financiamentos concedidos a Brahma e Antártica neste século. Desde Pedro II recebiam apoio estatal. Acho que é correto apoiar a Votorantim para comprar a Aracruz, para evitar que virasse filandesa. No caso da Sadia, a Perdigão a absorveu, caso contrário iria para mãos de estrangeiros.

Mas formular como proposta o desenvolvimento de empresas grandes voltadas para o mundo é uma bobagem. O apoio oficial deve privilegiar estratégias para o mercado interno e infra-estrutura e não para gerar emprego lá fora. Nossa política é de desnacionalização por todos os lados, a começar pelo Banco Central (BC), que eleva juros e valoriza o real.

Fonte: O Outro lado da Notícia

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