Defesa & Geopolítica

Jornalista analisa cooperação técnico-militar entre Rússia e Brasil

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Mário Russo, jornalista especializado em economia, conversou com Arnaldo Risemberg a respeito de uma matéria publicada recentemente numa importante revista semanal sobre a licitação para a compra dos novos caças da Força Aérea Brasileira.

A seguir, a conversa entre os dois jornalistas, transmitida pelo programa Voz da Rússia.

Voz da Rússia : Uma revista brasileira publicou a informação de que, quando o ministro da Defesa da Rússia, Serguei Shoigu, visitou recentemente o Brasil, ele propôs ao seu colega Celso Amorim que reavaliasse a possibilidade de a Força Aérea Brasileira contar com os aviões de caça  Sukhoi , que foram eliminados da licitação internacional em 2003, tendo ficado para a grande finalíssima apenas os aviões Boeing, dos Estados Unidos, Rafale, da França, e Gripen, da Suécia. Não se sabe ainda quando será anunciado o vencedor. Como você vê essa questão?

Mário Russo:  Ainda no Governo Lula, a FAB anunciou uma licitação para a compra de 36 caças para substituir os nossos atuais, que já passaram do prazo de validade há muito tempo. Aliás, os últimos Mirage que estão voando, se não me engano, são apenas três ou quatro, porque os outros estão parados por não ter mais peças para fazê-los voar. A Defesa vai ficar por conta dos F-5, que são modelos um pouco mais nobres do que os Mirage, mas, mesmo assim, já bastante antigos. Então, essa licitação seria de quatro bilhões de dólares e tinha todos esses candidatos citados. Mas, devido a problemas no orçamento, acabou o Governo Lula, chegou a Dilma, e a questão se prolongou até agora.

A revista que publicou essa matéria diz, em primeiro lugar, que a escolha do F-18 (Boeing) é dada como certa pelos oficiais da Aeronáutica. E que o anúncio de compra só foi adiado no mês passado devido ao caso de espionagem americana que teria afetado a Presidenta Dilma, seus ministros e o restante do Brasil. Ela cancelou, inclusive, sua viagem aos Estados Unidos, quando, segundo a revista dá a entender, a escolha pela Boeing seria manifestada.

A matéria diz o seguinte: Quando o ministro russo (Shoigu) esteve aqui com o Celso Amorim e se aventou a possibilidade de comprar os Sukhoi Su-35 através de leasing, a notícia, diz a revista, foi recebida com um misto de descrença e pânico. Olha, eu gostaria de lembrar que em 2002 os quatro aviões foram testados por quem mais entende de avião, que são os pilotos da FAB. Com base nesses testes – eu já falei isso no ano passado, em outra conversa que tivemos, sobre a viagem da Dilma a Moscou –, foi feito um relatório, entregue ao Comando da Aeronáutica e ao Ministério da Defesa, dizendo que, levando-se em consideração o custo-benefício, o Sukhoi era a melhor opção de compra para o Brasil. Mas aí tem a questão política. Na época, o Dassault (Rafale) foi apontado como o mais provável para ganhar a licitação. E a licitação está aí, ainda indefinida.

Essa revista, para valorizar os outros caças, faz pouco caso da tecnologia russa. Aliás, é uma tendência, de certa forma, de a mídia brasileira só aceitar a Rússia em coisas que não incomodam. Ou seja, os grandes expoentes do atletismo, do xadrez, da literatura e da dança, do balé. Quando entram em qualquer outra área, como na tecnologia militar, há uma predisposição de ter uma desconfiança do equipamento. Ou porque a coisa não é confiável, ou porque não vai ter continuidade de suprimento, etc.

A Venezuela, segundo a publicação, comprou 24 aviões de combate Sukhoi e 30 helicópteros russos. Desses helicópteros, seis já caíram por falta de manutenção, matando 31 militares venezuelanos. Aí, ela (a revista) continua e diz que os militares brasileiros também estão tendo problemas com os helicópteros russos Mi-35 comprados em 2008. Foram encomendados 12, e até agora só foram entregues nove. Ora, um dos princípios do bom jornalismo, no Brasil ou em qualquer lugar, é o direito ao contraditório. Se você vai fazer uma reportagem, a partir de uma denúncia, você ouve o denunciante e ouve o denunciado. Em nenhum momento dessa matéria é ouvida alguma autoridade militar da Venezuela, das forças aéreas… E ela (a revista) sai fazendo as denúncias. E a única fonte citada é o doutor Mario Ivan Carratu Molina, intitulado ex-diretor do Instituto de Altos Estudos da Defesa Nacional da Venezuela. Esse senhor diz assim: “O Brasil vai repetir o erro do meu país e pôr a vida dos seus militares em risco se insistir em comprar aviões com base em critérios políticos e não técnicos.” Mas esqueceram de dizer [os editores da matéria], talvez por falta de espaço, que o doutor Carratu Molina tem residência em Miami, ele não vive mais na Venezuela. Miami que acolhe uma grande parte dos dissidentes venezuelanos e dos anticastristas há décadas. Ele foi chefe da Casa Militar do ex-Presidente Carlos Andrés Pérez, que governou o país de 1974 a 1979 e de 1989 a 1993, tendo sido o único presidente venezuelano a sofrer impeachment por denúncia de corrupção.

Então, eu fico muito triste quando leio matérias desse tipo, que têm uma função de lobby, que pecam por um excesso de parcialidade, que acabam até prejudicando o próprio leitor. É isso o que eu tenho para dizer dessa concorrência do Sukhoi-35. Espero que de alguma forma ele ainda tenha condições de concorrer, mas acho difícil, já que os três finalistas já estão apontados.

VR:  Por nada desse mundo seria admissível que a Rússia propusesse um negócio desse vulto ao Brasil sem oferecer o pacote completo, que é o fornecimento de peças, o serviço de manutenção e a instrução técnica para os pilotos brasileiros, para que eles estejam habilitados a operar de fato esses aviões Sukhoi de novíssima geração.

MR:  Exatamente. Introduziram um novo conceito de tecnologia de caça. Inclusive a China tem vários desses, a Índia tem vários, a Venezuela, o Peru… Fica o problema político. Por que comprar equipamento russo? Acho que essa compra das baterias antiaéreas [o armamento Igla e Pantsir que está sendo negociado], no valor de um bilhão de dólares, já é um passo muito grande. Só para lembrar uma coisa, às vezes as pessoas ficam achando que os caças são todos iguais, mas não são. Uma das grandes vantagens do Sukhoi-35 sobre os outros é a autonomia que ele tem. Ele pode chegar a distâncias de até 4.600km (com tanque suplementar), o que dá para cobrir o Brasil todo, basicamente, numa saída de Anápolis [base da Força Aérea Brasileira]. Além disso, tem uma velocidade supersônica de 2.700km/h e uma grande capacidade de armamentos.

Su-35-Flying-Front-View

Essa matéria, por exemplo, fala da queda dos aviões na Venezuela, mas eu me lembro de que os Dassault [Rafale] também andaram caindo aí pelo mundo nos últimos três anos. Mas ninguém fala dessas quedas.

Fonte: Diário da Rússia

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