Defesa & Geopolítica

Guerra de ideias para definir um Estado islâmico

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Ed Husain

Será que eu posso usar gravata? No início da década de noventa eu era um muçulmano de 17 anos de idade em Londres, e questões como essa dominavam a minha vida cotidiana. Nascido e criado em Londres, eu sou britânico. Os meus pais vieram da Índia, e eu tinha um tipo físico diferente do inglês típico, com a pele parda e os cabelos pretos. Na mesma época, milhares de europeus louros de olhos azuis estavam sendo mortos na Bósnia por serem muçulmanos.

Durante aquela crise de identidade de adolescente, um amigo mais velho que eu conheci em uma mesquita me deu uma revista que trazia a fotografia de um imame egípcio da década de 40 usando gravata e paletó, embora ele usasse também um chapéu otomano “fez” tradicional. Todos os imames que eu conhecia nas mesquitas de Londres usavam largos robes árabes. Na televisão, representantes da “República Islâmica do Irã” recusavam-se a usar gravatas. Os reis sauditas jamais usavam roupas ocidentais.

Vendo aquela fotografia de um professor gentil e sorridente, eu não saberia o quanto ele influenciaria tantos de nós. Mesmo hoje em dia, pouca gente fora do mundo árabe o conhece. E, no entanto, é possível que Hassan al-Banna seja o árabe mais influente do século passado. Eu comecei a ler os escritos dele. Banna criticou as influências britânicas e europeias na vida árabe no Egito. Ele procurou fazer com que os muçulmanos retornassem a uma modalidade puritana do islamismo, livre das influências do secularismo. A própria vida dele foi um exemplo de resistência, de rebelião e de ativismo. O legado dele foi a Irmandade Islâmica, a precursora de praticamente todos os movimentos islamitas atuais no Oriente Médio. Esta é a força política mais duradoura e efetiva do mundo árabe.

Durante cinco anos, eu fui um islamista fervoroso, ascendendo na hierarquia de organizações cada vez mais radicais. Todas as modalidades desse movimento são derivadas dos ensinamentos de Banna. Ele lutou contra os britânicos na Palestina, treinou uma organização paramilitar, e seguidores dele assassinaram o primeiro-ministro do Egito em 1948. Em resposta, o Estado egípcio assassinou Banna alguns meses depois.

Mas eu aprendi, por meio da amarga experiência, que o islamismo está longe de ser unitário ou coerente. Eu acabei abandonando aquilo que é chamado de “movimento islâmico” por achar que ele controlava demais a minha vida, mas também porque eu não desejava mais viver em um estado de confrontação perpétua com o Ocidente. Mas foram necessários vários anos de viagens e estudos no Oriente Médio para que a minha mente se libertasse das influências islamitas. Eu continuei sendo um seguidor do islamismo como religião, mas não do islamismo como ideologia política.

Como já fiz parte desse movimento global – cujo objetivo principal é a criação de governos muçulmanos – e, a seguir, criei o primeiro centro de pesquisas antirradical, o Quilliam, em Londres, para fazer oposição a essa ideologia, eu tenho acompanhado as rebeliões árabes com intenso interesse.

Existe no Ocidente o medo generalizado de que os islamitas procurem se apossar das revoluções. Em 12 de fevereiro deste ano, na manhã seguinte à queda do regime de Mubarak, quando revolucionários jovens e preponderantemente seculares festejavam nas ruas do Egito com fogos, música e danças, o líder da Irmandade Muçulmana se apressou a observar que aquela era a data na qual Banna foi assassinado em 1949 (os liberais seculares responderam dizendo que 11 de fevereiro foi a data na qual Nelson Mandela foi libertado da prisão). Onde alguns viram a esperança de um Egito livre e secular, a Irmandade Muçulmana enxergou a mão de Deus e uma oportunidade para a criação de um Estado islâmico.

Nos próximos meses, não apenas no Egito, mas também em outros países da região, a guerra de ideias entre secularistas liberais e islamitas irá se desenrolar em torno das suas opiniões sobre como promover a sucessão das ditaduras seculares que foram derrubadas.

Mas, em que se constitui um Estado islâmico? O que isso significa, na prática, para países como Egito, Líbia ou Tunísia? Após a revolução eu fui ao Egito para fazer essas perguntas aos líderes da Irmandade Muçulmana. Muitos desses líderes cumpriram penas de prisão em nome da causa que defendem. Eu conversei com elementos de linha dura da Irmandade Muçulmana, como o ex-líder da organização, Mehdi Akef, de 83 anos de idade. E falei também com o renomado liberal Abdel Moneim el-Fatouh (que atualmente é um candidato presidencial independente no Egito). Além disso, eu me reuni com membros jovens da Irmandade Muçulmana, e com os seus parlamentares, tais como Mohammed el-Beltagy.

Eu perguntei a cada um deles: “O que é um Estado islâmico?”. As respostas variaram bastante. Para Akek, isso diz respeito à lei de shariah transformar-se na lei do Estado; para Abou el-Fotouh a questão diz respeito vagamente à justiça social; e para Beltagy tal Estado seria uma resposta às necessidades do povo. Para os membros mais jovens, esse seria um Estado liberal que refletisse os valores muçulmanos. No entanto, ao serem pressionados, nenhum deles foi capaz de explicar de forma articulada como seria essa nova sociedade.

De certa maneira, essa é uma boa notícia, por significar que alguns islamitas estão abertos a persuasão e influências. Por outro lado, foi exatamente essa inconsistência intelectual que me levou a abandonar o movimento islâmico; essa visão de mundo incoerente e opaca pela qual eles esperavam que eu e outros membros déssemos as nossas vidas. Assim como os marxistas, esses indivíduos fazem todos os tipos de críticas ao Estado e à sociedade, mas quando são pressionados a apresentar políticas para reduzir a pobreza no Egito, eles não têm respostas. Para mim, eles estão se equivocando, já que o islamismo não traz nenhuma prescrição específica para governos.

Na resposta emotiva de Hassan al-Banna ao Império Britânico, e no desejo de apresentar uma diferença em relação ao capitalismo e ao comunismo, ele contribuiu para a criação de uma ideologia atual – o islamismo militante – que procurou politizar o islamismo religioso. Mas eu não descobri quase nada nessa antiga religião que falasse a respeito das necessidades econômicas e políticas de um mundo moderno.

Abou el-Fotouh e outros líderes da Irmandade Muçulmana insistem que a organização acredita em direitos humanos, e que, portanto, o Ocidente não tem motivos para se preocupar quanto a governos liderados pelo grupo. De certa forma, esta foi a resposta deles ao fato de terem sido aprisionados aos milhares por Mubarak em condições duras e sub-humanas. Mas eu sei que Abou el-Fotouh não foi transparente em relação a isso. Da mesma maneira que garantiu defender os direitos humanos, ele me disse que não haverá nada de errado se o parlamento egípcio aprovar leis baseadas no islamismo que prevejam a amputação das mãos de ladrões, o apedrejamento de adúlteros e a decapitação de assassinos.

E ele era o liberal. Eu devo confessar que, ao contrário dos outros, ele se engajou em uma conversa comigo na qual eu questionei os seus pontos de vista. Eu levantei junto a Abou el-Fotouh a questão interna do islamismo, de 800 anos de idade, a respeito dos chamados maqasid, ou objetivos, da lei de shariah, que são preservar a vida, a propriedade, a liberdade religiosa, a família e o conhecimento. Eu argumentei que a lei de shariah não diz respeito a apedrejar e matar, mas sim a garantir a preservação desses cinco fatores. Já por volta de 1350, o prominente imame Abu Ishaq al-Shatibi havia feito tal argumentação, afirmando basicamente que toda sociedade que preservar essas cinco coisas, é, de fato, uma sociedade islâmica.

O que impede que os islamitas árabes atuais adotem essa abordagem de um Estado muçulmano, em vez de punições cruéis e ultrapassada e a negação dos direitos das mulheres?

Eu sei, com base no tempo que passei dentro da Irmandade Muçulmana, que a organização passou cinco décadas tentando sobreviver e escapar das ondas de repressão movidas pelas ditaduras militares do mundo árabe. Os seus integrantes não tiveram o tempo necessário para pensar e se desenvolver no mundo real. E, onde tiveram esse tempo, como, por exemplo, na Turquia, eles tenderam a se tornar centristas e realistas.

Portanto, o islamismo e o significado de um Estado islâmico são um trabalho em andamento. O islamismo é suficientemente rico para oferecer leituras alternativas das escrituras, capazes de negar as alegações feitas por elementos de linha dura de que a lei de shariah tem necessariamente que significar punições bárbaras. Na verdade, a maioria das nações de maioria muçulmana superou essas práticas.

Embora a Irmandade Muçulmana possa se encontrar profundamente dividida quanto a quase todas as questões cotidianas, existe, porém, uma questão quanto à qual ela tem uma resposta hostil e quase que unificada: Israel. Em todo o espectro político islamita no Egito eu não ouvi nenhuma linguagem conciliatória em relação ao vizinho país judeu.

Essa nuvem negra é um motivo real de preocupação. O Egito, assim como outras nações árabes, continua se sentindo humilhado pelas injustiças perpetradas por Israel. A menos que haja um movimento palpável no sentido de dar justiça aos palestinos e acabar com a ocupação israelense, não haverá como dar início às pressões – cuja necessidade é urgente – para a integração entre Israel e os países árabes. Atualmente, com a grande probabilidade de que os islamitas assumam posições de poder nos países árabes, existe uma chance real de um conflito maior, e, consequentemente, de mais radicalização, na região. O conflito com Israel não irrita apenas os islamitas, mas também os liberais.

Em meio à diversificada mistura de figuras públicas egípcias e árabes encontra-se Gamal, o irmão mais novo de Hassan al-Banna. Eu conheci Gamal, que tem 90 anos de idade, há dois anos. Aqueles que, como eu, abandonaram os movimentos islamitas veem nele um pouco de si próprios: a capacidade de pensar livremente e de desafiar as ordens impostas por aqueles movimentos. Mas até mesmo Gamal, um liberal convicto em relação a tudo mais, desde a igualdade entre os sexos até o pluralismo religioso, apoia os homens-bombas que atacam israelenses. E ele não é o único a abandonar a razão e a lógica, e a abraçar a emoção e a raiva, no que se refere ao conflito entre árabes e judeus.

O grande desafio é acabar com aquele conflito, ou pelo menos com as soluções violentas para ele. O mundo foi pego de surpresa por rebeliões árabes nas quais a queima de bandeiras norte-americanas ou israelenses não foi a imagem central. Os manifestantes se concentraram nos problemas nacionais e internos. E isso que eles devem continuar fazendo. Com o tempo, os islamitas também poderão ser direcionados rumo a uma combinação em estilo turco do islamismo e da democracia secular. Mas existe o risco de que essa jornada seja interrompida pelo recrudescimento do conflito entre árabes e palestinos, o que faria com que as mentes jovens se desviassem das questões referentes ao desenvolvimento e à democracia e para se focarem na guerra e na vingança.

* Ed Husain é especialista em estudos do Oriente Médio do Conselho de Relações Exteriores. Autor do livro “The Islamist” (“O Islamita”), ele pode ser seguido no Twitter via @Ed_Husain.

Tradução: UOL

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