Defesa & Geopolítica

Com saída americana do Iraque, crescem temores de colapso sectário

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Jack Healy
The New York Times

Um dia após a retirada pelos Estados Unidos de suas últimas tropas de combate, o Iraque enfrentou uma perigosa crise política na segunda-feira, quando o governo dominado pelos xiitas ordenou a prisão do vice-presidente sunita, o acusando de comandar um esquadrão da morte que assassinou oficiais da polícia e autoridades do governo.

As denúncias sensacionais provocaram uma resposta preocupada de Washington e deixaram a frágil parceria de governo do Iraque à beira do colapso. Uma grande coalizão política apoiada pelos sunitas disse que seus ministros entregariam seus cargos, deixando à deriva agências que lidam com as finanças, escolas e agricultura do Iraque.

As acusações contra o vice-presidente Tariq al Hashimi também ressaltaram os temores de que os líderes iraquianos podem estar usando as instituições que os Estados Unidos gastaram milhões de dólares tentando fortalecer –a polícia, os tribunais e a imprensa– como uma clava para esmagar seus inimigos políticos e consolidar o poder.

Na noite de segunda-feira, Al Hashimi estava na região semiautônoma do Curdistão, no norte, além do alcance das forças de segurança controladas por Bagdá. Não se sabe quando –ou se– ele retornará para Bagdá.

Em Washington, onde as autoridades estavam celebrando discretamente o fim da guerra, funcionários do governo Obama soaram o alarme a respeito da ordem de prisão contra Al Hashimi.

“Nós estamos conversando com todos os partidos e expressando nossa preocupação em relação a esses desdobramentos”, disse Tommy Vietor, o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional. “Nós estamos pedindo a todos os lados para que trabalhem para resolver as diferenças pacificamente e por meio do diálogo, de modo consistente com o estado de direito e com o processo político democrático.”

O rompimento entre o primeiro-ministro Nouri al Maliki e Al Hashimi e seu partido Iraqiya ocorreu em um momento inoportuno para o governo, ao acontecer tão próximo da retirada das tropas. As autoridades americanas passaram anos tentando convencer o governo do Iraque, dominado pelos xiitas, a trabalhar com a minoria sunita do país, e estão preocupadas com a situação.

O presidente Barack Obama disse na semana passada, em comentários feitos na recepção às tropas que voltavam ao Forte Bragg, Carolina do Norte, que o futuro do Iraque agora está “nas mãos do povo iraquiano”. Mas após a remoção de suas tropas de combate, não se sabe se os Estados Unidos ainda contam com influência suficiente para limitar as tensões sectárias, que alguns analistas dizem que podem arrastar o país de volta ao caos e violência de anos anteriores e até mesmo dividi-lo geograficamente.

O governo apresentou seu caso contra Al Hashimi em uma transmissão de meia hora pela televisão, que foi promovida agressivamente como um especial no horário nobre. Em confissões em um vídeo granulado, três homens disseram ter cometido assassinatos por ordem de Al Hashimi. Eles disseram que explodiram carros, atacaram comboios com pistolas com silenciadores e eram recompensados com envelopes contendo US$ 3 mil em cédulas americanas.

Para os críticos do governo, as acusações pareciam fazer parte de uma ampla consolidação de poder por parte de Al Maliki. Em meio à ansiedade com a partida dos americanos e com os distúrbios na vizinha Síria, Al Maliki, um xiita, reforçou seu controle sobre este país violento e dividido por meio da marginalização, intimidação ou prisão de seus rivais políticos, muitos deles parte da minoria sunita do Iraque.

Centenas de pessoas foram detidas nos últimos dois meses, prisões visando antigos membros do Partido Baath fora da lei de Saddam Hussein. Nas últimas semanas, as forças de segurança também prenderam pelo menos 30 pessoas ligadas ao ex-primeiro-ministro, Ayad Allawi, um xiita secular e forte crítico de Al Maliki, segundo o escritório de Allawi. E, no domingo, Al Maliki pediu ao Parlamento para que realizasse o voto de não confiança contra seu próprio vice, Saleh al Mutlaq, um sunita propenso a hipérbole que comparou Al Maliki a um ditador em sua entrevista.

“Qualquer político sunita importante parece ser no momento alvo desta campanha de Maliki”, disse Reidar Visser, um especialista em política iraquiana. “Parece que todo muçulmano sunita ou secular corre o risco de ser rotulado como baathista ou terrorista.”

Al Hashimi não costuma ser descrito desse modo. Às vezes abrasivo e sempre voltado para o interesse próprio, ele foi um dos primeiros líderes sunitas a abraçar o processo político após a invasão americana, e perdeu três irmãos para ataques terroristas durante o auge da guerra sectária.

“Ele foi alguém que tentou ser conciliador com os islamitas xiitas em um momento em que outros não eram”, disse Visser. “Agora Maliki está atrás dele.”

Um assessor de Al Hashimi condenou as acusações como uma caça às bruxas. “Isto é um golpe contra todos os parceiros, contra o processo político e contra a Constituição”, disse o assessor, que se identificou apenas como Abu Aya. “Esta é a nova ditadura.”

Qualquer solução parece uma esperança distante. A coalizão Iraqiya, um grande bloco político liderado por Allawi e que inclui Al Hashimi, Al Mutlaq e muitos outros sunitas proeminentes, parou de participar das sessões do Parlamento no sábado. Na segunda-feira, não havia quorum suficiente de parlamentares, de modo que as sessões do Parlamento foram adiadas até 3 de janeiro.

Na noite de segunda-feira, os membros do Iraqiya pediram ao presidente do Curdistão, Massoud Barzani, para intervir e reprisar o papel exercido pelos curdos na união das facções discordantes e na ajuda para solução do longo impasse após as eleições nacionais do ano passado.

O recente tumulto deixou tensa a elite política de Bagdá.

Dentro da Zona Verde cercada de concreto, o coração do governo do Iraque e lar da embaixada americana, proliferavam Humvees e tanques do exército iraquiano. Pelotões recém-reforçados de soldados montavam guarda em cruzamentos, e as forças de segurança foram posicionadas nos limites das instalações de Hashimi e outros líderes sunitas.

“É uma crise atrás da outra”, disse o vice-primeiro-ministro, Al Mutlaq, em uma entrevista. “Nenhum dos partidos políticos deseja que Maliki permaneça no cargo, mas Maliki está controlando tudo. Por meio de sua política, seu exército, suas medidas de segurança. Todo mundo está com medo.”

Após dias insinuando as alegações contra Al Hashimi, o governo iraquiano optou por uma plataforma familiar para expor seu caso: a confissão televisionada. Foram exibidas três confissões de guardas de Al Hashimi, com a promessa de que mais serão apresentadas em breve.

As declarações eram ricas em dados e nomes, mas era impossível verificar qualquer detalhe ou saber se as forças de segurança fizeram uso de ameaça ou força para extrair informações. Em junho, a Anistia Internacional disse que o uso das confissões televisionadas pelo Iraque “mina seriamente o direito a um julgamento justo”.

No primeiro, um homem que se identificava como Abdul Karim Mohammed al Jabouri disse que trabalhava há poucos anos como guarda-costas de Al Hashimi, quando o vice-presidente o abordou a respeito de um novo trabalho importante, mas perigoso. Al Jabouri disse que aceitou.

Ele disse que então passou a receber ordens de um dos subordinados de Al Hashimi. Ele e outros guardas recebiam um telefonema os instruindo para pegar uma bomba improvisada no gabinete de Al Hashimi e então plantá-la em uma rotatória de trânsito movimentada. Outras vezes, eles eram instruídos a assassinar uma autoridade do Ministério das Relações Exteriores usando pistolas com silenciador.

Após um atentado a bomba, disse Al Jabouri, ele voltou ao gabinete de Al Hashimi.

“O vice-presidente ligou para nós para agradecer”, disse Al Jabouri. “Ele nos deu um envelope com dinheiro e eu o agradeci.”

Abu Aya, o assessor de Al Hashimi, disse na noite de segunda-feira que os homens nas confissões em vídeo pareciam ser guardas que trabalharam no gabinete do vice-presidente. Cerca de 10 guardas de Al Hashimi foram presos na semana passada, segundo funcionários de Al Hashimi, do governo e das forças de segurança, e na manhã de segunda-feira, a mais alta corte do Iraque proibiu Al Hashimi de deixar o país enquanto as acusações de terrorismo eram investigadas.

No final da transmissão, o general Adel Daham, um porta-voz do Ministério do Interior, acenou uma folha branca de papel diante dos microfones. Era o mandado de prisão para Al Hashimi, ele disse, assinado por cinco juízes.

“Está bem claro diante de vocês”, ele disse.

Fonte: UOL

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