Defesa & Geopolítica

Voto de confiança no Brasil

Posted by

http://www.oficinadelivros.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/11/brasil_ciencia12.jpgDepois de trabalhar por 21 anos em renomados centros internacionais de pesquisa, o físico brasiliense retorna ao País.



Há alguns meses, o físico de partículas Eduardo do Couto e Silva, 44 anos, surpreendeu seus colegas no Laboratório Nacional da Universidade de Stanford (Califórnia), ao anunciar que voltaria ao Brasil. Os demais cientistas estranharam a decisão porque ele havia recém-criado na instituição um grupo de pesquisa de ponta para buscar vestígios de matéria escura – o ingrediente que forma a maior parte do Universo, mas permanece um mistério para a ciência – em uma mina de níquel no Canadá, projeto que parecia consolidar definitivamente uma vitoriosa carreira internacional.

Trabalhando no mesmo laboratório, ao lado de alguns ganhadores do Prêmio Nobel, Silva desempenhou papel-chave na construção e no lançamento do Telescópio Fermi, equipamento revolucionário que consegue visualizar ao mesmo tempo grande parte do Universo e busca, por meio da detecção de raios gama, explicar a composição da mesma matéria escura. O currículo do cientista, que deixou o Brasil em 1989, depois de concluir sua graduação na Universidade de Brasília (UnB), inclui ainda uma longa passagem pelo Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern), instituição de excelência mundial em física nuclear.

Na sua primeira entrevista desde que assumiu, há duas semanas, o posto de especialista visitante no Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), associação civil que tem a missão de realizar estudos que possam orientar as políticas de ciência e tecnologia do país, o físico, nascido em Brasília, explica o que o motivou a retornar ao país e conta quais são seus planos: “Eu vim para aprender o que é fazer ciência no Brasil”.

Por que o senhor decidiu voltar para o Brasil?

Eu posso buscar a resposta em Gonçalves Dias, na Canção do Exílio: “Não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá”. Foi uma questão pessoal, portanto. Depois de muito tempo, surgiu a vontade de estar perto da família. Além disso, o Brasil é uma democracia bem estabelecida que nos últimos anos adquiriu estabilidade econômica. Hoje, temos condições de planejar, e existe uma vontade do governo brasileiro de levar a agenda de ciência e tecnologia para frente.

E por que a volta ocorreu agora exatamente?

Voltar muito antes talvez não fizesse sentido, porque eu precisava adquirir experiência. Eu cheguei ao ápice da minha carreira profissional neste último ano e precisava disso para validar tudo o que eu tinha aprendido. Ao mesmo tempo, em 2007, eu me envolvi com os Conselhos de Cidadãos, fóruns criados pelo governo brasileiro para se aproximar da sociedade civil no exterior. Ali, tive contato com sociólogos e pessoas de outras áreas, e aquilo despertou um sentimento de brasilidade em mim. Além disso, depois de tantos anos fora do Brasil, você começa a se perguntar se está ou não na hora de voltar. Existe uma idade para voltar, e acho que já estava passando da idade.

Como seus colegas reagiram à sua decisão?

Muitos olharam para mim e pensaram: “O Eduardo planejou montar um grupo de pesquisa nos últimos anos, conseguiu criar esse grupo, está num dos centros intelectuais mais importantes do mundo, tem uma carreira bem definida e está jogando tudo fora”. Eu estou saindo por uma questão pessoal, e isso é complicado para as pessoas entenderem, principalmente para os americanos, que se movem muito em função do emprego. E eu não tinha emprego quando tomei a decisão.

O senhor não sabia o que faria aqui?

O CGEE não tinha me dado uma resposta quando eu falei para os americanos que eu queria voltar. E aí as pessoas se assustaram mais ainda. Chegaram ao ponto de me perguntar se eu tinha consultado um psicólogo.

E consultou?

(Risos) O que teve de gente dando palpite como psicólogo, você não imagina. Mas não é uma decisão que você toma da noite para o dia. Ela vai amadurecendo. Mas muita gente não aceitou. Eu ouvi de físicos proeminentes: “Foi seu maior erro profissional”. E eu falei: “Espero poder voltar aqui e mostrar para você que não foi”. Mas também houve um grupo reduzido de pessoas, cientistas eminentes, que me falaram: “Eduardo, é um passo muito grande. E quando fazemos algo assim e dá certo, isso acaba tendo um significado e um impacto muito profundos”.

O que o senhor está fazendo ou pretende fazer no CGEE?

Nos últimos anos, eu fazia menos pesquisa e me dedicava muito ao gerenciamento e ao planejamento de projetos, e tomei gosto por isso. O CGEE é uma referência no país ao fazer estudos prospectivos que podem subsidiar as políticas de ciência, tecnologia e inovação. Eu venho para participar de equipes que já fazem trabalhos assim, vou colaborar. Mas, na verdade, eu vim para aprender o que é fazer ciência e tecnologia no Brasil. Seria pretensão dizer: “Olha, eu fiz isso nos Estados Unidos, na Europa, a gente tem de fazer isso aqui”. Não funciona assim. São realidades diferentes. E existe uma diferença entre colaborar e ajudar. O Brasil não precisa da minha ajuda.

Não?

O Brasil está muito bem. Ele precisa da minha colaboração, talvez. E ainda precisamos descobrir qual é a melhor área para eu participar.

E o que o senhor já percebeu sobre a ciência no país? Fazer ciência no Brasil é interessante? Vale a pena, por exemplo, vir estudar aqui?

Fazer pós-doutorado no Brasil está muito atraente, pela posição que o país começa a assumir no cenário internacional. Eu acho que, na próxima década, passaremos a nos preocupar com problemas maiores em ciência e tecnologia. Eu acredito em colaborações internacionais, em projetos de grande porte e acho que o Brasil vai chegar a esse patamar. Se esse for o caminho que o Brasil escolher, acho que posso contribuir. Se não for, mesmo assim, minha experiência pode ser útil.

Além de trabalhar com projetos de pesquisa de ponta na Universidade de Stanford, o senhor se dedicava muito à divulgação científica. Ela é fundamental para que as pessoas percebam a importância dos investimentos em ciência, não?

Eu posso dar um exemplo. Quando você digita no computador http para ir a um site, talvez você não saiba, mas aquilo ali foi desenvolvido em um laboratório de partículas, o Cern. Foi um protocolo criado para a comunicação entre os pesquisadores. E veja o que virou. Mas isso não pode ser escrito em um projeto. Você não envia ao governo uma proposta para criar um laboratório porque ele vai dar na internet. Quando você faz pesquisa fundamental, há uma série de benefícios que surgem, às vezes de forma imediata, outras depois de 20 anos. Quando a mecânica quântica foi desenvolvida, ninguém sabia que ela daria origem aos transístores, que permitiram a construção dos computadores. O público precisa ter noção do que é pesquisa fundamental. Ela leva você à fronteira do conhecimento, e isso é fundamental para países que ambicionam a liderança científica e tecnológica.

Também em Stanford, o senhor teve uma importante participação na construção do Telescópio Fermi. Ele já nos trouxe resultados?

É bom que você tenha perguntado se já nos trouxe resultado, porque o que se espera é que os resultados demorem. Mas, por incrível que pareça, trouxe. Antes, porém, preciso explicar um pouco sobre os raios gama, que é o que estamos estudando. Eles têm um comprimento de onda muito curto, mais ou menos igual às distâncias interatômicas, e são muito mais penetrantes que os raios X. Se você quiser observá-los com um telescópio comum, terá dificuldade, porque eles atravessam a matéria. Para detectá-los, precisávamos de uma tecnologia totalmente nova, que veio da área de detecção de partículas. O primeiro grande resultado foi alcançado antes de ligarmos o Fermi: colocamos as comunidades de astrofísica e de física de partículas para trabalhar juntas.

E depois de lançado, que resultados o Fermi trouxe?

Existem galáxias cujo núcleo de repente entra em ignição e emite jatos de raio gama poderosíssimos, que percorrem distâncias surpreendentes sem serem perturbados. O que promove isso? Algumas teorias dizem que buracos negros rodando em alta velocidade fornecem a energia para essa ignição. Esses objetos eram estudados de forma pontual, porque você tinha de estar apontando para eles na hora da ignição. Já o Fermi tem um campo de visão muito amplo, ele vê grande parte do Universo ao mesmo tempo. Antes dele, conhecíamos cerca de 70 desses objetos, hoje temos milhares, em apenas dois anos de funcionamento. Outra área interessante é a de pulsares. No fim da vida de uma estrela, ela se transforma numa estrela de nêutrons que, em certos casos, pode emitir radiação com frequência bem definida. De onde vem essa radiação? Não se sabe. Até 2008, só conhecíamos seis pulsares emitindo raios gama. Depois do Fermi, eles são quase uma centena. Dentro de cinco ou 10 anos, poderemos juntar essas informações e dizer se foi uma descoberta importante, mas ainda estamos garimpando.

E a busca por matéria escura?

O Fermi é um dos instrumentos mais importantes na detecção de matéria escura. Nosso Universo é constituído basicamente por três coisas: a matéria como essa que conhecemos aqui; a matéria escura, que não emite luz e não sabemos ainda o que é; e tem ainda outra coisa, responsável pela expansão do Universo, que chamamos de energia escura. A matéria escura e a energia escura correspondem a 96% do Universo. A gente acredita que a matéria escura possa ter origem em partículas que ainda não foram descobertas, e existe uma corrida grande para encontrá-las, seja num laboratório de partículas, seja no espaço, seja nesse experimento que eu estava trabalhando até recentemente, que busca a matéria escura em uma mina de níquel no Canadá. Agora, se você não vê essa matéria, como é que você pode medi-la? É que, como ela é matéria, ela tem o efeito gravitacional, e medindo esse efeito você infere sua existência. No nosso caso, a teoria diz que, se há uma partícula que forma a matéria escura, ela vai se encontrar com sua antipartícula e produzir energia. E essa energia vai emitir raios gama. É dessa maneira que a gente vai detectá-la com o Fermi. Verdade ou não, não sei. Estamos correndo atrás.

Para muitos leigos, o fato de a ciência não conhecer o que forma a maior parte do Universo é a evidência da existência de Deus. Como o senhor lida com isso?

Sua pergunta parece ser: como são os conceitos de Deus e de religiosidade para um cientista que trabalha com a origem e a evolução do Universo? É complexo, primeiro porque a gente tem de estabelecer os limites. O que é a origem do Universo para nós, físicos? A gente acredita no big bang. Mas uma coisa sutil e importante sobre o processo do big bang é que o espaço e o tempo foram criados naquele momento. Se espaço e tempo foram criados, você não pode me perguntar o que havia antes. Ah, mas isso é um subterfúgio dos pesquisadores? Não é. Isso é uma teoria consistente, pela qual você consegue explicar a origem e a evolução do Universo. Então, quando você me pergunta o que acontece antes ou além disso, você está me fazendo uma pergunta fora da física, metafísica, que, como físico, não posso responder. Mas como Eduardo, como ser humano, eu posso. Eu acredito que exista algo mais, além da física. Eu não tenho vergonha de admitir isso. Eu acho que o ser humano deve ser algo mais do que aquilo que conseguimos medir aqui, pelas próprias coisas que a gente vê na natureza. A gente se maravilha com várias coisas complicadas de explicar. Talvez eu acredite nisso porque ainda não vi a explicação. Talvez, um dia, quando a explicação me for dada, eu não acredite mais, mas hoje eu acredito.

Se lhe oferecessem a oportunidade de desenvolver qualquer projeto no Brasil, o senhor teria algo para propor agora?

Se eu tivesse um projeto para propor, eu estaria acreditando que conheço mais sobre a realidade da ciência brasileira do que eu realmente sei. Eu preciso de um tempo no Brasil para entender quais são as reais necessidades. De repente, eu não preciso construir nada, eu só preciso colaborar com o que já existe. Mas tenho ideias, obviamente. Eu trabalhei em colaborações internacionais, em centros renomados de instrumentação, tenho experiência técnica em administração, em planejamento. Lendo relatórios da Sociedade Brasileira de Física você vê que um dos grandes desafios do Brasil é a instrumentação científica, que tem uma relação muito forte com o desenvolvimento da indústria, que leva à questão da inovação, que, por sua vez, é outro problema. Outro desafio para o Brasil é o de recursos, de pessoal altamente qualificado. Tudo isso pode ser tratado num ambiente parecido com o que eu vivia lá fora. Um centro de instrumentação de excelência poderia ser um negócio bacana. Mas será que isso é o que o Brasil precisa? Eu não sei, eu não tenho a pretensão de dizer isso. Gostaria de fazer um estudo para saber se é isso que o Brasil precisa? Se for de interesse do Brasil, sim. (Correio Braziliense).

Fonte: Jornal da Ciência

19 Comments

shared on wplocker.com