Defesa & Geopolítica

Entrada da África do Sul nos Brics expõe diferenças internas

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A entrada da África do Sul nos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), que será oficializada na próxima quinta-feira durante a reunião de cúpula, serve para reforçar o bloco como um expressivo fórum de países emergentes. Mas essa adesão, resultado do convite chinês, também evidencia grandes diferenças internas do grupo.

Maior e mais diversificada economia do continente, com Produto Interno Bruto (PIB, a soma das riquezas produzidas no país) na casa de US$ 350 bilhões, a África do Sul está longe do patamar dos quatro gigantes emergentes dos Brics. Os sócios originais, com PIBs acima de um trilhão de dólares, são também candidatos a potências mundiais, donos das maiores taxas de crescimento e atores influentes no comércio internacional.

Apesar disso, diplomatas lembram que o sócio africano, 32ª economia do mundo, consagra a dimensão global do grupo. Nesse sentido, o quinto membro dos Brics representa a porta de entrada na África, confirmando o fórum como mais importante agrupamento de emergentes.

“Iniciativas como a dos Brics servem para dar corpo ao multilateralismo, que andava exausto. Por outro lado, elas também confirmam a atual fase da hegemonia dos Estados Unidos, que, na prática, já não podem mais tudo”, comenta Túlio Sérgio Ferreira, professor da PUC Minas e mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB).

Geopolítica
Para o especialista, a procura por um “sistema mais realista de poder mundial” continuará se valendo de experiências como essa e a do Ibas, grupo que reúne Índia, Brasil e África do Sul. “Potências regionais, como a África do Sul, têm avançado explicitamente nessa tentativa de concerto”, sublinha.

Ferreira ressalta que os alinhamentos não seguem um padrão ideológico e que China e EUA ainda desequilibram o conjunto de relações. “Numa só tacada, Pequim incluiu o Ibas nos Brics, numa clara demonstração de querer fazer frente a Washington, dentro de uma perspectiva geopolítica global”, ilustra.

Grande contestadora da dominância norte-americana, a China viu impulsionar os desejos de rearranjo da governança mundial após a crise econômica de 2008 e 2009. “O primeiro movimento nesse sentido foi o G20, um reconhecimento que o combalido G8 se tornou insuficiente para solucionar os abalos na economia mundial, onde os emergentes ganham peso rapidamente”, diz o professor.

A reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU), uma das principais reivindicações das diplomacias brasileira e indiana, na briga por um assento permanente no atual clube de cinco países, não deverá ser, contudo, uma bandeira dos Brics. A explicação: China e os quatro vencedores da Segunda Guerra Mundial (EUA, França, Reino Unido e Rússia) não deram nenhum sinal seguro de que aceitarão novos colegas.

Sombras
Para Argemiro Procópio, professor titular do Instituto de Relações Internacionais (Irel) da UnB, as resistências russa e chinesa em ceder esse espaço é a maior contradição interna do fórum. “Só participar do conselho da ONU como membro rotativo em nada adianta. Nesse sentido, até mesmo a África do Sul sonha com o poder de veto”, disse.

Os Brics, na sua avaliação, têm apenas efeito simbólico na diplomacia multilateral, sem qualquer poder articulador como Mercosul e União Europeia. Curiosamente, lembra que os sócios dos Brics têm intensa relação clandestina entre si, formando um dos maiores fluxos de contrabando do mundo. “É uma vigorosa economia das sombras”, brinca.

O mais novo integrante do grupo dos Brics não vai mudar só a grafia da sigla. Além de escapar da lógica estatística do acrônimo cunhado em 2001 pelo economista Jim O’Neill, chefe de pesquisa em economia global do grupo financeiro Goldman Sachs, a inclusão da África do Sul mostra o choque de interesses entre associados.

China e Brasil, por exemplo, disputam espaço econômico no continente africano. O governo chinês transformou a região em seu segundo maior destino de investimentos diretos, depois da Ásia. O Palácio do Planalto, por sua vez, vem fomentando desde a última década empreendimentos privados no continente negro, como os tocados por Vale e Petrobras, além de buscar ampliar a corrente de comércio e as parcerias institucionais, como as das áreas de produção de alimentos e biocombustíveis.

A república sulafricana, dona de uma das maiores reservas minerais do mundo, como ouro e diamantes, tem economia guiada pela livre iniciativa. Mas o Estado ainda participa diretamente de várias atividades industriais, como petróleo e armas, e de outras via agências de desenvolvimento.

Com serviços financeiros e infraestrutura de transportes e comunicações considerados de boa qualidade, o país também cumpriu com louvor ano passado a missão de realizar a primeira Copa do Mundo de Futebol na África.

Mas outros desafios persistem. Desde o término de oito décadas de regime de segregação racial, o apartheid, a partir da primeira eleição multirracial (1994), a África do Sul busca superar a desigualdade social com desenvolvimento. A população negra do país ainda sofre elevados índices de pobreza e criminalidade, além de ser a principal vítima da epidemia de Aids.

Fonte: Correio Braziliense

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