Defesa & Geopolítica

França terá segundo turno entre Macron e Le Pen

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Disputa presidencial francesa ficará entre dois candidatos de fora do establishment, mas que não podiam ser mais diferentes. Em 7 maio, estarão frente a frente visões opostas sobre o futuro do país e seu papel na UE.

O centrista Emmanuel Macron e a populista de direita Marine Le Pen vão se enfrentar no segundo turno das eleições presidenciais francesas, num resultado que muda o cenário político do país e coloca frente a frente duas visões opostas sobre o futuro da França e seu papel na União Europeia.

Segundo a apuração parcial neste domingo (23/04) e projeções, Macron terá entre 23% e 24% dos votos, e Le Pen contará com entre 22% e 23%. O ex-premiê François Fillon, que assumiu a derrota, e Jean-Luc Melenchon, da esquerda radical, ficariam com o terceiro lugar, na casa dos 19%.

A escolha dos franceses de levar Macron e Le Pen ao segundo turno representa uma guinada no cenário político francês: é a primeira vez na Quinta República que o segundo turno não contará com nenhuma das correntes políticas que governaram a França desde 1958: socialistas e republicanos.

“Hoje é virada claramente uma página na vida política francesa”, afirmou Macron, de apenas 39 anos, que nunca exerceu cargo eletivo e fundou seu movimento político, “Em Marcha”, há menos de um ano. Segundo ele, os franceses exprimiram nas urnas o seu “desejo de renovação”.

“O resultado é histórico, o primeiro passo foi dado”, disse, por sua vez, Le Pen em discurso aos seguidores. “O mais importante em disputa nesta eleição é a desenfreada globalização que coloca em perigo nossa civilização”, completou. “É o momento de libertar o povo francês.”

A participação eleitoral foi estimada em 80%, similar à de cinco anos atrás. Segundo pesquisas dos institutos Ipsos Sopra Steria e Harris Interactive, Macron vencerá o segundo turno com facilidade: com entre 62% e 64% dos votos, contra 36-38% de Le Pen.

Após o fechamento das urnas, figuras proeminentes da direita, como os ex-premiês Fillon, Alain Juppé e Jean-Pierre Raffarin pediram votos para Macron. O mesmo fizeram o presidente François Hollande, do Partido Socialista, e seu candidato Benoit Hamon.

Eleições em tempos de desconfiança

A eleição presidencial francesa é observada como crucial para o futuro da Europa, e é um termômetro da insatisfação dos eleitores com o establishment político. O pleito ocorre num momento de desconfiança em relação ao futuro da UE pós-Brexit, onda populista e temor de novos atentados terroristas.

Mas, apesar da ameaça terrorista, como mostrou uma série de pesquisas antes da votação deste domingo, a maior preocupação dos eleitores é com o declínio social na França. E Le Pen e Macron têm visões radicalmente diferentes para um país cuja economia está pior do que a de seus vizinhos e onde um quarto dos jovens está desempregado.

Macron defende medidas de desregulamentação gradual da economia francesa, que seriam bem recebidas pelos mercados financeiros globais, enquanto Le Pen defende abandonar o euro e possivelmente sair da União Europeia.

Mais de 50 mil policiais, apoiados por unidades de elite dos serviços de segurança franceses, patrulharam as ruas nos últimos três. A segurança, que já era intensa, teve de ser reforçada após um atirador matar um policial e feriu outros dois na Champs-Élysées, avenida no coração de Paris.

A jornada eleitoral foi livre de incidentes. O único momento de tensão foi logo no início domingo, quando uma seção de votação em Besancon, no leste da França, foi interditada depois que um veículo roubado foi abandonado com o motor ligado no local.

O fato de as eleições irem para o segundo turno não é novidade na França: as presidenciais raramente são decididas no primeiro turno – desde o início da Quinta República, em 1958, apenas o general Charles de Gaulle conseguiu o feito.

Após o fechamento das urnas, houve protestos de grupos anarquistas e autointitulados antifascistas na Praça da Bastilha. Os manifestantes, que demonstravam indignação com a chegada de Le Pen ao segundo turno, entraram em confronto com a polícia.

Macron: um europeu convicto

Macron é considerado um europeu convicto. Ele não poupa críticas, por exemplo, ao presidente dos EUA, Donald Trump, como quando disse que a política americana anti-imigrantes e de meio ambiente é um erro. Ele quer cortar 60 milhões de euros de gastos públicos e eliminar 120 mil postos de trabalho nesta área, caso ganhe a eleição. No entanto, planeja investir 50 bilhões de euros em programas de financiamento, como para projetos ambientais, por exemplo.

Entre outras coisas, o candidato independente promete flexibilizar a semana de 35 horas. Além disso, quer que o seguro desemprego seja disponibilizado para outros grupos profissionais, ao mesmo tempo em que propõe uma maior pressão sobre os desempregados, para que eles aceitem os empregos encaminhados pelas agências de trabalho. A taxação das empresas deve ser reduzida dos atuais 33,3% para 25%. A polícia e o Exército devem ser reforçados.

O ex-banqueiro e ministro da Economia é um humanista. Certa vez, ele cunhou a frase “refugiados são pessoas resistentes e inovadoras”. Ele elogiou com firmeza a política migratória de Angela Merkel, afirmando que ela “salvou a honra da Europa”.

No meio político francês, marcado por personalidades relativamente desinteressantes, o jovem político em ascensão é uma espécie de figura exótica. Ele é casado com uma ex-professora, que é 24 anos mais velha e já é avó. Ela ás vezes ajuda Macron a escrever seus discursos. Ele está bem posicionado em uma campanha eleitoral marcada por escândalos.

A vez de Le Pen?

Ao longo da campanha, Marine Le Pen permaneceu sólida, sempre com mais de 20% das intenções de voto. Em muitas análises, a eleição francesa é encarada como um teste para a força da FN, que há décadas assombra o cenário político francês.  Depois da vitória de Donald Trump nos EUA e da aprovação do Brexit, partidos populistas de direita europeus, entre eles a FN, passaram a encarar que chegou o seu momento.

Até o segundo turno, Le Pen tentará afastar a repetição do massacre que ocorreu com seu pai em 2002, quando Jacques Chirac venceu com mais de 80% dos votos. Segundo pesquisas de antes do primeiro turno, Marine perderia a votação final.

A FN, que costuma ir bem em pesquisas, mas nunca consegue converter isso em poder, passou por um processo de “normalização” nos últimos anos. Com um discurso mais amplo, distante da pregação abertamente racista de seu pai, Marine Le Pen passou a cortejar a classe trabalhadora que se sentiu abandonada pelos partidos tradicionais.

O discurso xenófobo ainda está presente, mas é mais pontuado por uma defesa do Estado laico francês e contra o terrorismo. Por outro lado, a candidata também redobrou sua hostilidade à UE, defendendo a realização de um “Frexit”, uma consulta popular sobre a permanência da França no bloco.

Fonte: DW

“Um europeu de coração”: a ascensão de Macron

Após os favoritos tropeçarem em escândalos, político de 39 anos vence primeiro turno da corrida presidencial francesa. Discurso é direto e claro: sem a Europa, não há solução para a França avançar.

Na verdade, Emmanuel Macron é um filósofo. Pelo menos a julgar pela primeira faculdade que cursou. Ele escreveu sobre Maquiavel e Hegel. O que na Alemanha muitas vezes termina em uma carreira como motorista de táxi, na França pode muito bem qualificar para a entrada, após passagens por outras universidades de elite, em um alto escalão no governo e na economia.

Pois o filho de um casal de médicos de Amiens, no norte da França, também visitou a elitista Escola Nacional de Administração (ENA), em Estrasburgo. “Ele é um produto dessas elites francesas e teve uma formação completa. Ele vem da classe média educada e representa aquilo contra que Marine Le Pen faz sua campanha”, diz Stefan Seidendorf, vice-diretor do Instituto Franco-Alemão.

Mas ao contrário de muitos dos antecessores proeminentes, Macron passou, após um curto período como diretor financeiro na administração pública, para o banco de investimento privado Rothschild, em Paris. Lá, ele acompanhou um dos maiores acordos de investimento entre o conglomerado alimentício suíço Nestlé e a gigante farmacêutica americana Pfizer no valor de nove bilhões de euros.

Seu talento como administrador e seu conhecimento sobre questões econômicas levaram em 2012 a se tornar assessor do presidente François Hollande, que o nomeou ministro da Economia em 2014.

Desagradando a amigos

Macron às vezes também consegue desagradar aos próprios aliados, como quando contrariou os sindicatos, ou no caso de um escândalo sobre impostos que causou sua rejeição momentânea entre a população. Suas brigas constantes com o primeiro-ministro Manuel Valls quase causaram sua demissão por Hollande. Mas Macron foi mais rápido e, em 2016, anunciou sua renúncia e a criação do movimento “En Marche”.

Macron tem apoio de diferentes grupos políticos. O cientista político francês Alfred Grosser declarou recentemente seu apoio ao político de 39 anos, além de vários membros da velha esquerda e do verde Daniel Cohn-Bendit.

Ele tenta algo completamente novo. Fundou um novo partido e conseguiu a adesão de cerca de 190 mil dentro de poucos meses. É tido como um candidato para transmitir esperança e o único que diz tão radical e claramente aos franceses que sem a Europa a França não tem solução.

“Ele consegue criar fluxos de entusiasmo, mobilizar em prol do projeto europeu, algo que há muito tempo não ocorria na França”, lembrou Cohn-Bendit recentemente durante uma entrevista a uma rádio alemã.

Macron é, de fato, um europeu convicto. “Precisamos encontrar a resposta europeia relevante diante de todos os desafios, porque só a nível europeu conseguiremos resolver estes problemas. A tarefa da França e da Alemanha é fazer tudo para aprofundar a integração europeia nas áreas de finanças e economia, de defesa e segurança e na política de refugiados”, afirmou o francês em uma entrevista ao jornal alemão Die Welt no ano passado.

Ele também não poupa críticas ao presidente dos EUA, Donald Trump, como quando disse que a política americana anti-imigrantes e de meio ambiente é um erro. Ele quer cortar 60 milhões de euros de gastos públicos e eliminar 120 mil postos de trabalho nesta área, caso ganhe a eleição. No entanto, planeja investir 50 bilhões de euros em programas de financiamento, como para projetos ambientais, por exemplo.

Entre outras coisas, o candidato independente promete flexibilizar a semana de 35 horas. Além disso, quer que o seguro desemprego seja disponibilizado para outros grupos profissionais, ao mesmo tempo em que propõe uma maior pressão sobre os desempregados, para que eles aceitem os empregos encaminhados pelas agências de trabalho. A taxação das empresas deve ser reduzida dos atuais 33,3% para 25%. A polícia e o Exército devem ser reforçados.

O ex-banqueiro é um humanista. Certa vez, ele cunhou a frase “refugiados são pessoas resistentes e inovadoras”. Ele elogiou com firmeza a política migratória de Angela Merkel, afirmando que ela “salvou a honra da Europa”.

No meio político francês, marcado por personalidades relativamente desinteressantes, o jovem político em ascensão é uma espécie de figura exótica. Ele é casado com uma ex-professora, que é 24 anos mais velha e já é avó. Ela ás vezes ajuda Macron a escrever seus discursos.

“Felizmente, eu nunca paguei algo a ela por isso”, brincou Macron recentemente, soltando, assim, uma farpa contra seu rival conservador François Fillon.

Ileso em meio a escândalos

Ele está bem posicionado em uma campanha eleitoral marcada por escândalos. “No momento, parece que ele está se tornando um candidato promissor, apesar de sua posição mais à esquerda. Isso se deve também ao fato de os outros candidatos estarem se destruindo a si mesmos”, afirma Stefan Seidendorf, do Instituto Franco-Alemão em Ludwigsburg.

Segundo ele, Macron tem senso de política, traz propostas realistas, é um europeu de coração e sabe governar. “Para Macron, Alemanha e França são a espinha dorsal da UE”, acrescenta Seidendorf.

O conservador François Fillon tem de lidar com o caso do emprego fantasma de sua esposa; a populista de direita Marine Le Pen perdeu sua imunidade por ter divulgado no Twitter fotos mostrando atrocidades cometidas contra vítimas da milícia terrorista Estado Islâmico (EI). Le Pen está também envolvida em um caso de emprego fantasma em seu escritório no Parlamento Europeu.

Segundo as últimas pesquisas, apesar da margem apertada no primeiro turno, Macron vencerá Le Pen com facilidade na votação final, em 7 de maio.

Foto: Macron

Fonte: DW

O último sinal de alerta para a Europa

A França terá Marine Le Pen, da extrema direita, no segundo turno. A UE precisará mostrar para os franceses que uma escolha racional contra populismo e isolacionismo vale a pena, opina Bernd Riegert.

Poderia ter sido pior, mas bom o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais francesas não é. A populista de direita Marine Le Pen irá ao segundo turno e, com isso, conseguiu a maior façanha de sua carreira política. O nacionalismo desenfreado avança. Desde que, após a saída de seu pai, o antissemita Jean-Marie, Marine Le Pen assumiu a liderança do partido, ela comanda a “frente nacional” em êxitos cada vez maiores – em eleições regionais, eleições europeias e, agora, nas eleições presidenciais.

O que há de errado na segunda maior economia da União Europeia a ponto de permitir que uma política de estratégia maliciosa, com visões retrógradas, possa celebrar um triunfo como o deste domingo (23/04)?

Pelo menos ela não conseguiu, logo de cara, a maioria dos votos. Eles foram para o liberal – na verdade, mais social-democrata – Emmanuel Macron. Nesse ponto, imperou a sensatez, e não o sentimento. No segundo turno, daqui a duas semanas, será a hora de os sensatos votarem em Macron, mesmo que não estejam totalmente de acordo com suas políticas.

Socialistas e conservadores têm que – e vão – apoiar esse rebento do establishment político, que tem relativamente pouca experiência. Pois, agora, se trata sobretudo de reduzir ao máximo possível Marine Le Pen e sua onipotentes fantasias nacionais.

Alguns analistas falam de um efeito Donald Trump no segundo turno, ou seja, um inesperado triunfo dos populistas. Mas algo assim na França está praticamente fora de questão. Em parte, devido ao sistema eleitoral francês, que, com o segundo turno, dá aos eleitores uma segunda chance de tomar uma decisão racional, caso, no primeiro, tenham optado por externar protesto e frustração.

Mesmo que Macron chegue de fato ao Palácio do Eliseu, as eleições são como um último alerta. Seus antecessores, o conservador Nicolás Sarkozy e o socialista François Hollande, não conseguiram renovar a França, implementar as reformas econômicas e sociais necessárias. Os franceses não votaram apenas numa radical de direita, como também num radical de esquerda, o comunista velha-guarda Jean-Luc Mélenchon. Praticamente um em cada dois eleitores rejeitou o atual sistema. Nenhum partido tradicional chegou ao segundo turno.

É por ali que Macron tem que começar. Ele tem que trazer novamente para o centro da sociedade os hoje profundamente inseguros franceses, que se sentem economicamente deixados para trás, excluídos pela elite e ameaçados por estrangeiros e imigrantes. Será uma tarefa árdua. Os vizinhos da França e a União Europeia, que acompanharam com apreensão a votação, podem agora respirar aliviados. A França não deixará a zona do euro e a Otan – como ameaçavam Le Pen e Mélenchon.

Bernd Riegert

Os europeus, porém, não podem continuar como agora. A França como um alicerce da UE, ao lado da Alemanha, não é algo mais tão sólido como muitos pensavam. Emmanuel Macron terá exigências à UE. Ele quer um relaxamento fiscal, uma redução no superávit alemão em relação à França. Não será uma jornada fácil para Angela Merkel, mas Macron precisa de ajuda. A Europa precisa provar para os franceses, que uma escolha racional contra populismo e isolacionismo vale a pena.

A propósito: as pesquisas de intenção de voto acertaram desta vez. Ou seja, a esperança não está perdida, apesar dos prognósticos errados sobre o referendo do Brexit, a vitória de Trump e as eleições holandesas.

Foto: © REUTERS/ Jacky Naegelen

Fonte: DW

 

 

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