Defesa & Geopolítica

Sem dinheiro para manter poços, Venezuela vê petróleo virar fumaça

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A cidade de Punta da Mata, um decadente polo petrolífero na Venezuela, tem um brilho sinistro à noite, iluminada pelas chamas de dezenas de poços que queimam petróleo e gás preciosos por falta de equipamentos em condições de processá-los.

Todo mês, as colunas de fumaça da cidade ficam maiores, um desperdício flagrante num momento em que a Venezuela, dona das maiores reservas de petróleo do mundo, precisa desesperadamente de dinheiro para importar os alimentos e remédios que escasseiam no país. Os poços estão, literalmente, queimando dinheiro.

Para piorar, para cada barril de petróleo leve queimado em Punta de Mata, a Venezuela precisa gastar dólares importando diluentes para misturar ao petróleo pesado produzido no sul.

“É pura má administração”, diz Carlos Bellorin, analista de petróleo da consultoria IHS Inc., em Londres. “Não há outra explicação racional para o desperdício.”

A má conservação dos campos mais antigos, como os de Punta de Mata, responsáveis pela maior parte da receita da Venezuela, é uma das principais razões por que a produção de petróleo do país está caindo mais rapidamente do que a dos demais grandes produtores de petróleo, com exceção da Nigéria, um país assolado por rebeliões.

A produção de petróleo bruto da Venezuela caiu 11% nos 12 meses encerrados em setembro, para 2,3 milhões de barris por dia, segundo dados do governo, e a consultoria Medley & Associates espera que o recuo se acelere nos próximos 12 meses. A não ser que haja um aumento nos preços do petróleo, a queda na produção vai agravar a já séria crise do país, cuja economia deve contrair mais 10% neste ano.

O governo está com dificuldades para obter os dólares suficientes para importar bens básicos e pagar quase US$ 16 bilhões em dívida externa entre agora e o fim de 2017.

Nos campos de petróleo que pontuam a savana no leste do país, bombas de produção seguem paradas devido à falta de peças, balsas de transporte de petróleo abandonadas enferrujam nas praias e trabalhadores que ganham US$ 9 por semana frequentemente não trabalham todos os turnos.

No total, o número de sondas de petróleo em funcionamento na Venezuela caiu 25% no ano encerrado em setembro, segundo a empresa americana de serviços de petróleo Baker Hugues Inc. Hoje há mais sondas operando em Omã, onde as reservas comprovadas são apenas 1,7% das existentes na Venezuela.

“Eu não acredito que este governo seja capaz de estabilizar a produção mesmo se os preços do petróleo começarem a subir”, diz Luisa Palacios, analista da Medley para a Venezuela.

O presidente socialista Nicolás Maduro atribui a crise econômica do país aos Estados Unidos, que ele acusa de ter orquestrado o colapso dos preços do petróleo para ajudar a economia americana. A queda nos preços do petróleo, de US$ 100 o barril em meados de 2014 para cerca de US$ 50 em junho, corroeu perto de 65% da receita com exportações da Venezuela, prejudicando os investimentos, diz o governo.

A produção global, por outro lado, caiu apenas 0,5% desde o início da queda nos preços, segundo o Fundo Monetário Internacional. Muitos produtores, como a Rússia e o Irã, na verdade, elevaram a produção.

Os trabalhadores do setor em Punta de Mata, que já foi o maior polo produtor de petróleo da Venezuela, culpam as expropriações do governo, a corrupção e a queda dos salários pelo recuo da produção na Venezuela, que vem abalando a PDVSA.

Prestadoras internacionais de serviços de petróleo, como Schlumberger Ltd., Halliburton Co. e Baker Hugues, que já ajudaram a PDVSA a perfurar e iniciar a produção de poços de Punta de Mata, foram quase todas embora, deixando para trás bilhões de dólares em faturas não pagas ou ativos encampados pelo governo.

Depois que as empresas estrangeiras começaram a deter as operações das sondas de perfuração e os trabalhadores especializados foram embora da área de Bacia de Monagas do Norte, que inclui Punta de Mata, a produção de petróleo local caiu 70% em dez anos, a maior retração do país, segundo gerentes da PDVSA.

Afetada pelo aperto financeiro, a PDVSA concluiu ontem uma operação de swap considerada crucial para evitar um default, estendendo a maturidade de quase US$ 3 bilhões em títulos de dívida. Ela originalmente havia oferecido a troca para US$ 5 bilhões em dívida, mas não conseguiu atrair um número suficiente de investidores.

A estatal praticamente já deixou de pagar sua dívida interna. No fim de 2015, a PDVSA devia US$ 19 bilhões a prestadores de serviços, de operadoras de sondas até fornecedores de alimentação para empregados, segundo seu relatório anual mais recente.

Depois de realizar uma baixa contábil de US$ 500 milhões no país, a Schlumberger, maior prestadora de serviços de petróleo do mundo, começou a reduzir suas operações em campos mais antigos em junho. Ela demitiu centenas de funcionários, paralisou algumas sondas e informou que apenas trabalharia para a PDVSA quando recebesse pagamentos antecipados. A partir deste ano, a Halliburton só vai operar com a PDVSA em sociedade com um acionista estrangeiro e quando tiver uma chance maior de ser paga, segundo dois engenheiros da empresa na Venezuela.

A Schlumberger e a Halliburton não quiseram comentar sobre suas operações no país. O presidente da PDVSA, Eulogio del Pino, diz que a empresa está investindo na redução da queima de gases e trabalhando para atrair mais firmas pequenas para assumir os poços mais antigos.

Ele diz que a produção de petróleo e líquidos de gás do país terminará o ano em 2,7 milhões de barris diários, queda de 2% ante a média de 2015.

Na década de 90, Punta de Mata era uma cidade em ascensão fervilhante de profissionais do setor de petróleo. A cidade possuía um campo de golfe, quadras de tênis e um aeroporto nos arredores, com voos diretos para o Caribe nos fins de semana.

Julio Vargas, que era engenheiro de petróleo da Schlumberger, deixou a empresa em abril para ganhar mais dinheiro servindo café em Sydney, disse ele na Austrália, durante uma entrevista por telefone.

“A desmoralização nos campos é absoluta”, disse o engenheiro de exploração Luis Herrera, que recentemente deixou a Halliburton depois que seu salário caiu para US$ 100 por mês.

Para tentar reverter a queda da produção de poços antigos, a PDVSA fechou um contrato de US$ 3,2 bilhões com três empresas em setembro, inclusive a Schlumberger, para perfurar 480 poços no Cinturão de Petróleo do Orinoco. Para garantir o pagamento, as firmas vão receber uma fração de cada barril que a PDVSA vender desses poços.

Bellorin, o analista da IHS, diz que a estratégia não vai elevar muito a receita do país. Os bilhões gastos no Orinoco seriam mais bem aproveitados na manutenção de poços de petróleo leve mais antigos, como o de Punta de Mata, diz.

ANATOLY KURMANAEV

Colaborou María Ramírez, de Puerto Ordaz, Venezuela.

Foto: Miguel Gutierres para THE WALL STREET JOURNAL

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: WSJ

Nos EUA, petrolíferas ‘zumbis’ impedem recuperação

Seus proprietários podem estar quebrados, mas as grandes minas de carvão da Bacia do rio Powder, no Estado americano de Wyoming, continuam produzindo. A mesma história agora se repete em campos de petróleo da costa do Golfo do México e em poços de gás de xisto de outras regiões dos Estados Unidos.

Investidores da indústria petrolífera há muito alimentavam esperanças de que o colapso dos preços do petróleo se resolveria à medida que produtores mais fracos quebrassem, estancando o excesso de oferta. Mas, apesar do aumento do número de pedidos de recuperação judicial do setor nos EUA, o impacto deles nos mercados do combustível é praticamente inexistente.

Cerca de 70 empresas americanas de petróleo e gás iniciaram processos de recuperação judicial em 2015 e 2016. Elas agora produzem o equivalente a cerca de 1 milhão de barris por dia, aproximadamente o mesmo que produziam antes de quebrar, segundo a Wood Mackenzie, firma de pesquisa e consultoria do setor. Isso representa cerca de 5% da produção de petróleo e gás atual do país.

Essa capacidade de resistência tem mantido os estoques em alta e colocado um freio nos preços.

A cotação do barril chegou à faixa de US$ 50 em meados do ano, mas tem tido dificuldade de avançar muito além dessa marca. Ontem, os futuros de petróleo caíram 0,65% em Nova York, fechando em US$ 50,52 o barril.

A teoria de que as recuperações judiciais nivelariam o mercado “era equivocada”, diz Roy Martin, analista de pesquisa da Wood Mackenzie. “E as pessoas começam a se dar conta disso agora.”

O processo de recuperação judicial americano foi projetado justamente para salvar as empresas que têm condições de sobreviver, e muitas firmas do setor de petróleo estão usando os tribunais para aliviar sua pesada carga de dívidas, adaptar-se aos tempos de vacas magras e continuar produzindo.

Peabody Energy Corp., Arch Coal Inc. e Alpha Natural Resources Inc. — três das cinco maiores produtoras de carvão dos EUA — iniciaram processos de recuperação judicial nos últimos 18 meses. Elas responderam por 36% de todo o abastecimento de carvão dos EUA no primeiro semestre de 2015. Este ano, a produção diminuiu apenas em linha com o resto da indústria e a participação das três empresas no primeiro semestre permaneceu inalterada, em quase 33% do total produzido, segundo a consultoria IHS Global Energy. A Arch Coal e a Alpha Natural Resources saíram da recuperação judicial recentemente.

“É frustrante”, diz Adam Wise, diretor-gerente da John Hancock Financial Services, firma de serviços financeiros que ajuda a administrar uma carteira de cerca de US$ 7 bilhões em investimentos ligados a títulos e ações do setor de energia. “Muitas dessas empresas continuam operando como operavam antes da recuperação. Isso definitivamente não ajuda.”

O petróleo atingiu um recorde de baixa este ano e, embora tenha se recuperado um pouco, a faixa de US$ 50 o barril é só a metade do nível de três anos atrás. O excesso de oferta continua golpeando o mercado e forçando analistas a descartar previsões anteriores de que o preço chegaria a US$ 60 ou US$ 70 hoje.

Mesmo contando com reduções recentes, produtores e importadores de petróleo acrescentaram 18 milhões de barris aos estoques dos EUA neste ano, elevando o total ao volume quase recorde de 469 milhões de barris, segundo os dados mais recentes da Agência de Informação sobre Energia dos EUA.

O prolongado declínio dos preços levou muitas empresas à recuperação judicial, mas também forçou cortes substanciais de custos que ajudaram os produtores a manter poços e minas rentáveis.

Desde 2012, a Peabody Energy demitiu 1.650 funcionários e cortou seus gastos anuais de US$ 997 milhões para US$ 111 milhões. Como resultado, três grandes minas na bacia do rio Powder registraram uma margem de lucro de US$ 3,46 por tonelada em 2015, ante US$ 3,45 em 2011. As operações da Peabody na região produzem mais de 100 milhões de toneladas por ano, o suficiente para abastecer 16 milhões de residências com energia, diz a mineradora.

No setor de petróleo, a Midstates Petroleum Co. entrou em recuperação judicial e começou a perfurar um novo poço no dia seguinte. A empresa interrompeu os serviços de algumas sondas de perfuração em antecipação ao processo judicial, mas continuou operando após iniciá-lo. Muitas empresas continuaram a honrar alguns contratos de serviços de sondas e poços, programando a perfuração de poços com meses de antecedência, e ainda precisam produzir receitas para pagar credores.

Outras empresas que passaram pelo processo de recuperação agora estão voltando rapidamente à estabilidade e até ao crescimento. Hálcon Resources Corp., SandRidge Energy, Inc., Goodrich Petroleum Corp. e Penn Virginia Corp. recentemente saíram dos tribunais de concordata, após passar de dois a seis meses em reestruturação. Juntas, elas se livraram, aproximadamente, de US$ 7 bilhões em dívidas.

A Goodrich planeja elevar a produção “drasticamente”, diz seu diretor-presidente, Robert Turnham. A recuperação recente nos preços do gás no país torna a perfuração mais rentável, e a empresa está empregando novas técnicas para economizar dinheiro. Uma mudança no processo de fraturamento hidráulico, ou “fracking”, por exemplo, ajudou a reduzir o tempo de extração em mais da metade, diz Turnham.

Os bancos credores do setor, sem disposição de tomar posse dos ativos utilizados pelas empresas de petróleo como garantia para seus empréstimos, também têm colaborado com as empresas em dificuldades. Durante a recuperação judicial, Halcón, SandRidge, Goodrich e Penn Virginia conseguiram captar um total de US$ 1,3 bilhão em dívida, a maior parte em renovações de linhas de crédito por seus bancos.

JOHN W. MILLER

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: WSJ

 

 

3 Comments

  1. Claudio Moreno says:

    Pois é…Petrobrás vai pro mesmo caminho…

    • Athos says:

      Sim, também está sob ataque estrangeiro com suporte de idiotas internos.
      Porque idiota é o que não falta no mundo!

  2. Athos says:

    Flares são inerentes a indústria do petróleo.
    Toda plataforma de produção, todo poço tem um flare para ser ligado caso haja necessidade.

    Reportagem, esta ai, é pura propaganda sobre UMA foto.

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