Defesa & Geopolítica

Resenha: BRICS CCOMSEX

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reservas_bricsBrasil pode levar presidência de banco do Brics

Instituição de fomento começa a operar em 2016, com um capital inicial de US$ 50 bilhões

Eliane Oliveira e Lucianne Carneiro

Enviadas especiais

Fortaleza

 

O Brasil pode assumir a primeira presidência do banco de desenvolvimento que será criado amanhã, durante encontro de cúpula de chefes de Estado do Brics, bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Segundo fontes envolvidas nas negociações, as chances de a cidade chinesa de Xangai ser a sede da instituição são bastante promissoras, apesar da forte pressão indiana por Nova Délhi. O único empecilho no caminho do Brasil é que o país que perder a disputa da sede pode exigir, como compensação, o direito de ser o primeiro presidente.

A seu favor, o Brasil tem o fato de ter sido o único a não se candidatar à sede. Outra vantagem é ser o anfitrião da cúpula. Moscou teria desistido da disputa, e Joanesburgo teria poucas chances. O banco começa a operar em 2016, com capital inicial de US$ 50 bilhões para financiar projetos de infraestrutura sustentáveis sob os pontos de vista econômico, social e ambiental. Ele terá um diretor executivo, indicado pelo país na presidência, e um Conselho de Administração.

Cada um dos países terá uma conta de US$ 10 bilhões. A repartição igual tenta evitar pesos diferentes nas decisões da instituição, cuja atividade se assemelha à do Banco Mundial. Em um segundo momento, o banco emprestará recursos para nações em desenvolvimento fora do bloco. Fontes afirmam que o modelo de gestão do banco seria semelhante ao da Corporação Andina de Fomento, banco de desenvolvimento de 18 países de América Latina, Caribe e Europa. A avaliação é que haveria um foco na viabilidade econômica dos projetos, com uma preocupação efetiva de retorno das operações. 

Fonte: O Globo via CCOMSEX

Banco vai ajudar não só Brics, mas outros emergentes também

Entrevista – Guido Mantega

Segundo ministro, instituição reflete busca por alternativas perante lentidão de países mais ricos em reformar FMI e Banco Mundial

Patrícia Campos Mello de São Paulo

Um novo banco de desenvolvimento, o banco dos Brics, nasce nesta terça-feira (15) como alternativa ao Banco Mundial, com um quinto da capacidade de emprestar, em comparação com o colega fundado no pós-guerra.

Mas o banco dos Brics irá aumentar seu poder de fogo.

O capital integralizado inicial (investido pelos sócios Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) de US$ 10 bilhões pode chegar a US$ 50 bilhões e tem autorização para alcançar US$ 100 bilhões por meio de captações. Além disso, o banco irá administrar fundos especiais de investimentos com capital de terceiros, informou em entrevista à Folha o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

E o primeiro fundo especial irá financiar a execução de projetos de infraestrutura.

“As reformas no FMI não foram implementadas e isso tornou necessário o desenvolvimento de instrumentos alternativos”, disse Mantega.

Os ministros da Fazenda reunidos nesta segunda (14) em Fortaleza, para a Cúpula dos Brics, decidem os detalhes finais do banco: sede (que deve ser a chinesa Xangai) e o primeiro presidente (que deve ser um brasileiro).

Veja abaixo os principais trechos da conversa:

Unidade

A partir da crise financeira de 2008, instituiu-se o G20 como foro das maiores economias do mundo. O G20 simboliza a ascensão dos emergentes ao nível principal das decisões.

A partir das discussões no G20, nós, Brics, fomos descobrindo afinidades em relação a políticas de combate a crise. Os Brics eram os países mais entusiasmados em tomar medidas anticíclicas, achavam que a crise não deveria ser combatida só com ajuste fiscal, que isso deveria ser combinado com estímulos econômicos.

Juntos, colocamos recursos no Fundo para que ele pudesse ter mais poder de fogo na crise. Também nos unimos por uma reforma nas cotas do FMI, dando mais poder de decisão aos Brics. Temos lutado para que a reforma seja concretizada [foi acordada em 2010, mas o Congresso dos EUA ainda não aprovou].

Banco

Uma das saídas para a crise é aumentar investimentos em infraestrutura, mas falta financiamento. Os organismos multilaterais que existem hoje, como BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento] e CAF [Corporação Andina de Fomento], não têm recursos suficientes.

O Novo Banco de Desenvolvimento vai financiar não só os Brics, vai ser usado por outros emergentes. O banco terá um rating [classificação de risco] muito elevado para captar recursos. O capital total que aprovamos é de até US$ 100 bilhões, e o banco terá ingresso de outros emergentes e instituições financeiras.

Fundos de investimentos

Constituiremos já na criação do banco fundos especiais de investimentos. Vamos começar com um fundo para projetos, faltam projetos de infraestrutura. Vários fundos poderão surgir e se somarão ao capital. Serão apenas gerenciados pelo banco, não comprometem o capital do banco. Já de início o banco terá fundos de investimentos.

FMI dos Brics

O objetivo do Arranjo Contingente de Reservas é ajudar os Brics a equilibrarem seus balanços de pagamentos. Esse arranjo, de US$ 100 bilhões, é complementar ao FMI –os sócios podem sacar em momentos de crise para ajudar com problemas de liquidez. Teremos assessoria do FMI, que será acionado para avaliar a solidez dos países.

Alternativas

As reformas no FMI não foram implementadas, isso tornou necessário o desenvolvimento de instrumentos alternativos. Queremos fortalecer o FMI e estamos trabalhando para isso. Só que nos foi prometida uma reforma que até agora não se realizou.

Teremos um banco de desenvolvimento dirigido pelos Brics, que também vai ajudar a desenvolver países na África, Ásia e América Latina.

Motores

Os Brics vão continuar liderando o crescimento da economia mundial. É claro que, diante da crise, todo mundo desacelerou. Mas desaceleraram mais fortemente os avançados –que, aliás, criaram a crise.

A China não cresce mais 11%, mas cresce 7,5%. O Brasil e a Rússia tiveram uns problemas a mais, mas também vão se recuperar. Para nós, é muito importante que os mercados dos EUA e UE [União Europeia] voltem a crescer, mas, como eles não têm dado sinais de dinamismo, temos que olhar para alternativas.

Controle

Os Brics sempre terão 55% do controle da instituição, em igualdade de condições. A China pode querer colocar mais dinheiro, mas só nos fundos especiais, que não interferem no controle do banco.

Se a sede for na China, não haverá influência excessiva chinesa, porque a primeira presidência não será do país. A presidência é rotativa, cinco anos para cada um.

Divergências

Países não precisam ter acordo em tudo. Temos interesses comuns fortes, como o de obter papel maior no concerto político internacional, e isso foi bem sucedido.

O banco e o arranjo são um amálgama da atuação conjunta dos países, uma novidade no sistema de Bretton Woods [que criou FMI e Banco Mundial].

Brasil

Não podemos falar só sobre curto prazo, temos de ter uma visão de longo prazo. Nos últimos dez anos, o Brasil cresceu mais de 3% ao ano.

Não dá para comparar com o crescimento de um país com a renda per capita da China, que está “decolando”, ou da Índia. Eles têm um potencial muito maior, sobretudo porque são agrários, há grandes ganhos de produtividade quando migram para a cidade.

Já passamos por isso. Podemos crescer 3%, 4%, que é mais do que suficiente para aumentar riqueza.

Raio-X – Guido Mantega

Idade

65 anos

Origem

Nasceu em Gênova (Itália)

Formação

Economista, com doutorado em sociologia pela USP

Cargos

Foi ministro do Planejamento (2003-2004); presidente do BNDES (2004-2006); e é ministro da Fazenda (desde 2006).

Fonte: Folha de São Paulo via CCOMSEX

‘Brics precisam ampliar cooperação na área política’

Li Jinzhang, embaixador da China no Brasil

Para diplomata, isso ajudaria grupo a defender interessesem comum e democratizar as instituições internacionais

Lisandra Paraguassu

Brasília

Embaixador da China no Brasil desde o início de 2012, Li Jinzhang assistiu os momentos de maior aproximação entre os dois países, culminando na Cúpula dos Brics, que ocorre esta semana em Fortaleza. Nesse segundo ciclo do grupo, formado em 2009, o embaixador crê que os cinco países precisam incrementar sua cooperação, até mesmo na área política. “É necessário acertar posições sobre questões importantes internacionais. Esse é um poder muito importante desse mecanismo”, disse. A seguir, trechos da entrevista.

Os Brics estão iniciando um segundo ciclo de cúpulas, desde a primeira, em 2009. Depois de cinco anos, quais são os desafios, na visão da China?

A primeira coisa é implementar os consensos já alcançados, especialmente tirar do papel o banco de desenvolvimento e o Arranjo Contingente de Reservas (CRA, na sigla em inglês). Depois, discutir ativamente o estabelecimento de uma parceria econômica mais estreita entre os cinco países. Essa será a maneira de injetar mais vitalidade no crescimento econômico, especialmente nesse momento de dificuldades no cenário mundial. Também é o momento de continuar a afinar as posições sobre as questões relevantes internacionais, seja na área econômica, na política ou segurança, para que possamos defender os interesses comuns dos Brics e democratizar as instituições internacionais.

O senhor acredita que os Brics precisam, então, ter uma articulação maior também nas questões de política internacional?

Os Brics já deixaram de ser apenas uma concepção econômica e financeira e formaram um mecanismo que inclui todas as áreas de cooperação. Isso precisa ser usado. É necessário acertar posições sobre questões importantes internacionais. Esse é um poder muito importante desse mecanismo.

Então a crise entre Rússia e Ucrânia pode ser um tema dos Brics?

Esse é um tema das Nações Unidas. Temos anotado a posição russa, que salientou várias vezes que tenta resolver a crise por meio de diálogos pacíficos. Ficamos na expectativa que essa crise seja resolvida o mais rápido possível para alcançar a estabilidade regional.

O banco de desenvolvimento e o CRA são a primeira ação concreta dos Brics. Isso já é o resultado dessa ação política? Serve como uma forma de pressão aos organismos internacionais, que ainda não conseguiram fazer as reformas necessárias?

São questões interligadas, claro, a criação desses instrumentos e a necessidade de reformas no Banco Mundial e no FMI, mas não há essa relação tão direta. O banco de desenvolvimento e o CRA não servem para substituir o FMI e o Banco Mundial. Na verdade, são complementares e podem ajudar a aprofundar a cooperação e garantir a estabilidade dos países. Mas faz todo sentido que esses novos organismos ajudem a promover a reforma das instituições financeiras. Não há dúvida que é necessário aumentar a participação, a representatividade e a voz das economias emergentes na governança econômica mundial.

O governo brasileiro gostaria de ver mais investimentos chineses no País. Essa ampliação no relacionamento deve acontecer?

Sim, as empresas chinesas e brasileiras podem se complementar. Juntas, podem explorar o mercado da América Latina, África e Ásia. No Brasil, a infraestrutura é uma das prioridades. OBrasil já manifestou interesse de atrair mais investidores chineses e as empresas chinesas estão vindo ao Brasil para procurar parceiros e investir e têm apoio do governo chinês.

Fonte: Estadão via Resenha CCOMSEX

Brics, Brasil e China

Por Sergio Leo

Com a reunião de presidentes desta semana, no Ceará, o grupo dos Brics, formado por Brasil, Índia, China, Rússia e África do Sul, deixa definitivamente de ser um conceito para investidores, criado como sugestão de bons negócios pela Goldman Sachs, nos anos de forte crescimento econômico nas economias em desenvolvimento.

Se consolida como grupo político, de líderes regionais prestes a experimentar sua capacidade de ação conjunta, por meio de um banco próprio de desenvolvimento. O avanço não esconde, porém, que a China ainda é a maior prioridade para o Brasil, entre os países do grupo.

Brasileiros e chineses assinarão, durante a visita do presidente chinês, Xi Jinping, ao Brasil, cerca de 60 acordos, entre tratados, memorandos de entendimento e contratos entre empresas privadas. Espera-se, no governo brasileiro, que, entre esses entendimentos, esteja a solução para uma queixa frequente da China, sobre a burocracia para vistos de trabalho de chineses em território brasileiro – na semana passada, os dois governos finalizavam a discussão de um acordo sobre o tema dos vistos. Um acerto em torno da liberação de importações de carne de frigoríficos brasileiros também estava próximo.

Associação com os chineses é estimulada pelo governo brasileiro

A Camargo Corrêa será uma das primeiras empresas beneficiadas pelo memorando de entendimento a ser assinado entre Dilma e Xi Jinping para cooperação em transporte ferroviário. Ela já negociou com a chinesa China Railway Construction Corporation acordo para disputar a concessão do trecho vinculado à ferrovia Norte-Sul, entre Lucas do Rio Verde (MT) e Campinorte (GO), negócio discutido há dez anos por empresários interessados nas oportunidades com os chineses. As autoridades da China estão particularmente animadas também com o leilão da ligação interoceânica entre o litoral maranhense e o porto de Ilo, no Peru, passando pela Bolívia.

Outra empresa que deve anunciar negócios com os chineses é a Brasil Foods, que já tem parceria com empresas chinesas para distribuição de produtos e planeja montar uma fábrica naquele país para processar carne de aves exportada do Brasil.

Para o presidente do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), embaixador Sérgio Amaral, os dois países atravessam um bom momento para ampliar a atuação das empresas brasileiras, com a redução dos atritos comerciais bilaterais.

“A relação entre Brasil e China é tão diversificada que sempre haverá setores ganhando muito e setores em dificuldades”, minimiza o executivo. “Nosso esforço é criar mecanismos para resolver os problemas, que estão sendo resolvidos, em boa medida.” O CEBC, que reunirá empresários dos dois países, em Brasília, durante a visita oficial de Xi Jinping, anunciará a criação de um mecanismo de revisão dos acordos entre os dois países, para identificar as dificuldades de execução dos acordos e as barreiras a negócios de lado a lado, e cobrar solução dos governos.

Ações tomadas pelo governo brasileiro reduziram, nos últimos meses, a pressão do setor privado no país contra a concorrência chinesa. A redução de impostos sobre exportação, para setores mais ameaçados, e o aumento no uso de medidas comerciais contra produtos da China – hoje o maior alvo de barreiras punitivas a vendas desleais – juntaram-se à reação pragmática dos próprios empresários, que converteram muitas de suas operações em importação de produtos chineses, em setores como utensílios de plástico e de aço e máquinas.

Há queixas como os recorrentes problemas da Embraer, que sofre com a burocracia e atrasos nos processos de compra de aeronaves pelos chineses. Há expectativa de que será anunciada a venda de mais 40 aviões da empresa, como antecipou à agência “Dow Jones”, na semana passada, o ministro do Desenvolvimento, Mauro Borges. Fontes do governo afirmam tratar-se de jatos executivos Legacy.

Os acordos a serem assinados ampliam a crescente influência da China no mercado de commodities brasileiro. Maior mercado mundial para as exportações desses produtos pelo Brasil, o país asiático conquista, pouco a pouco, influência também na logística de exportação.

O governo brasileiro tem estimulado a associação com os chineses e espera ver o modelo de associação em ferrovias estendido a outras concessões, como energia e rodovias. É um movimento a ser acompanhado de perto, com reflexos futuros sobre os ganhos com a exportação de commodities pelo Brasil.

Assim como o estreitamento de laços com a China, a participação no grupo dos Brics extrapola eventuais preferências ideológicas. Embora apresentado frequentemente como uma contraposição aos países e organizações comandadas pelos ditos países “ocidentais” (conceito elástico, que costuma incluir o Japão e excluir países latino-americanos), o grupo mostra-se, a cada reunião, como uma alavanca política usada por seus membros para afirmar sua atuação autônoma nas decisões internacionais.

Prova de que não é uma declaração de confronto ao mundo dos países ricos, o arranjo contingente de reservas, para ajuda mútua em caso de problema no balanço de pagamentos, prevê que será necessário aval de uma instituição como o Fundo Monetário Internacional para retirada de quantias acima de determinado limite.

O Novo Banco de Desenvolvimento, nome do banco dos Brics, ainda percorrerá longo caminho para começar a operar: terá de ser aprovado pelos Congressos dos países e definir detalhes operacionais, como taxas a serem cobradas e exigências para eventual associação de outros países.

O Brasil quer nomear o primeiro dirigente máximo dessa nova instituição financeira. A decisão sobre quem será o presidente do banco não deve ser tomada agora, porém. Será reveladora do grau de entendimento entre o Brasil e seus amigos emergentes.

Fonte: Valor Via CCOMSEX

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