Defesa & Geopolítica

Por que o mundo deve se preocupar com o dilema do petróleo saudita

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O consumo doméstico de energia no maior exportador mundial de petróleo, a Arábia Saudita, está crescendo tão depressa que ameaça a capacidade do país de suprir adequadamente os mercados mundiais de petróleo, advertiu o centro de estudos londrino Chatham House.

Mas a solução que a Chatham House recomenda para o problema – aumentar o preço dos combustíveis no mercado interno do reino saudita — também é cheia de perigos, como demonstram os protestos violentos ocorridos na Nigéria contra altas semelhantes.

Isso mostra que a Arábia Saudita e, por extensão, os compradores do seu petróleo no mundo desenvolvido, terão de percorrer um caminho traiçoeiro entre, de um lado, uma queda nas exportações de petróleo e, de outro, possíveis revoltas populares — sendo que cada uma dessas coisas é capaz de causar uma alta desastrosa no preço do petróleo.

Em um relatório publicado no seu site na quarta-feira, a Chatham House alertou:

“O padrão de consumo de energia da Arábia Saudita é insustentável. A demanda por petróleo e gás natural no país está crescendo em torno de 7% ao ano. A este ritmo de crescimento, o consumo nacional terá dobrado em uma década”.

Se isso acontecer, pode privar o mundo de 2 milhões de barris diários de petróleo exportado, e praticamente eliminar a capacidade saudita de produção petrolífera de reserva, que é tão importante como proteção contra súbitas interrupções do abastecimento, tais como a guerra civil na Líbia.

O resultado final poderia ser “uma crise na oferta de petróleo levando a grandes altas de preços no mercado mundial”, diz o relatório.

O consumo doméstico de petróleo na Arábia Saudita está crescendo com essa velocidade porque o preço dos combustíveis é baixo demais e incentiva o desperdício, segundo a Chatham House. O problema poderia se resolver aumentando os preços dos combustíveis no mercado interno e fazendo esforços por uma maior eficiência energética, segundo o relatório.

Mas isso é mais fácil dizer do que fazer, em um país onde a gasolina custava apenas US$ 0,16 (cerca de R$ 0,30) por litro em 2010.

No início da semana, o governo da Nigéria tentou cortar os gastos públicos eliminando, de forma abrupta, grandes subsídios para os combustíveis, provocando protestos em todo o país e alguma violência.

A Arábia Saudita é, de modo geral, um país muito menos propenso a revoltas do que a Nigéria, mas a Chatham House advertiu que pode haver forte resistência a um aumento no preço dos combustíveis.

“A energia barata constitui uma parte importante do contrato social na Arábia Saudita”, diz o relatório. “Aumentar o preço dos combustíveis é o meio mais óbvio de restringir o consumo, mas a medida pode ser bloqueada ou sabotada por falta de apoio público, ou por uma forte oposição de grupos importantes que se beneficiam do status quo.”

Atualmente a Arábia Saudita está se movendo na direção oposta às reformas recomendadas pela Chatham House. Desde que começou a Primavera Árabe, o reino saudita aumentou os gastos sociais, em um esforço para evitar protestos populares como os vistos no Egito e na Tunísia. Elevar os preços dos combustíveis seria uma meia-volta drástica nessa política.

Não há dúvida que alguns países conseguiram aumentar o custo dos combustíveis sem provocar manifestações de massa, notadamente o Irã. Mas como os protestos no vizinho Barein demonstraram no ano passado, até mesmo uma pequena ameaça de instabilidade na Arábia Saudita pode assustar os mercados mundiais de petróleo.

Fonte: The Wall Street Journal

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