Defesa & Geopolítica

Sauditas e americanos, cada vez mais distantes

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Rei Abdullah da Arábia Saudita e o Presidente Barack Obama

Glen Carey, do Bloomberg News

A primavera árabe pode estar se tornando gélida para a aliança americana com a Arábia Saudita. Depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, a invasão do Iraque em 2003 e o aumento das vendas de petróleo saudita para a Ásia, a influência dos Estados Unidos sobre a Arábia Saudita diminuiu com a divergência de suas políticas, disse Theodore Karasik, um analista do Instituto para Análise Militar de Oriente Médio e Golfo. Os levantes populares no Oriente Médio testaram sua parceira contrapondo o apoio americano à democracia ao desejo por um status quo da Arábia Saudita.

“Agora, na hora da verdade, a Arábia Saudita seguirá sua própria política sem considerar o que os EUA e outros pensam”, disse Karasik numa entrevista telefônica de Dubai.

A Arábia Saudita apoiou o ex-presidente egípcio Hosni Mubarak até o fim de seu regime, em fevereiro, e enviou tropas para proteger os governantes Al Khalifa no Bahrein. Os EUA, que no ano passado aprovaram uma venda de armas de US$ 60 bilhões à Arábia Saudita, defenderam uma transição no Egito e o diálogo no Bahrein.

Em 16 de junho, o governo do presidente Barack Obama colocou o Bahrein em sua lista de violadores dos direitos humanos com países como a Coreia do Norte e o Irã. No mesmo dia, o xeque Khalid bin Hamad bin Isa al-Khalifa, um dos filhos do rei Hamad, do Bahrein, assinou um contrato de casamento com a filha do rei saudita Abdullah.

“A Arábia Saudita não ficou satisfeita com o modo como o governo Obama lidou com Mubarak”, disse Khalid al-Dakhil, um professor de ciências políticas saudita. “Eles também discordaram sobre o Bahrein.” Desde que o rei Abdul-Aziz al-Saud encontrou-se com o presidente Franklin D. Roosevelt a bordo do USS Quincy em 1945, os EUA e a monarquia Al-Saud foram parceiros práticos. A política de petróleo por segurança sustentou a relação, apesar de eles discordarem em questões como o conflito árabe-israelense.

Desde que as recentes sublevações começaram, a Arábia Saudita, maior exportadora mundial de petróleo, usou seu poder financeiro para apoiar aliados. O reino forneceu US$ 900 milhões ao Egito em doações e empréstimos por um acordo no mês passado e US$ 400 milhões em ajuda financeira à Jordânia. No Iêmen, o Conselho de Cooperação do Golfo, de seis membros, foi convocado para uma transição de poder.

Os dois países “cooperarão em assuntos de interesse comum”, disse Gregory Gause, um professor de ciências políticas da Universidade de Vermont. “Por enquanto, isso inclui conter o Irã, alguma solução no Iêmen e contraterrorismo. Às vezes os sauditas adotarão posições no âmbito do petróleo de que gostaremos, noutras não.”

Perturbações. Este ano, a Arábia Saudita anunciou planos de gastos de cerca de US$ 130 bilhões na tentativa de impedir que a agitação regional provoque perturbações em casa. Com os gastos, a Arábia Saudita precisará de um preço de petróleo de US$ 85 por barril para equilibrar seu orçamento neste ano, segundo um relatório da Nomura Holdings Inc.

A Arábia Saudita tem muitos “objetivos próprios para suas forças militares que vão de encontro a suas necessidades de segurança nacional, não às nossas”, disse Paul Sullivan, cientista político especializado em segurança do Oriente Médio na Universidade de Georgetown. “A entrada no Bahrein é um exemplo disso.”

A secretária de Estado Hillary Clinton disse no dia 11 que seu governo está trabalhando para ajudar “a começar o trabalho lento e difícil de construir democracias sustentáveis com base em garantias de direitos humanos, instituições responsabilizáveis e o Estado de Direito”. Um dia antes de Mubarak ceder o poder aos militares, a Arábia Saudita denunciou a “flagrante interferência de alguns países” nos assuntos internos do Egito.

Desde então, as autoridades em Riad pouco disseram publicamente sobre Egito ou Síria, onde o governo declarou este mês que os EUA estavam tentando incitar uma rebelião contra o presidente Bashar Assad. Clinton disse no dia 11 que Assad havia perdido a legitimidade para governar por causa da repressão contra os opositores. A mudança de relação com os EUA é um reflexo também de como a Arábia Saudita tem se voltado cada vez mais para a Ásia para explorar novos mercados para o petróleo e expandir seus negócios.

Cerca de 65% das exportações diárias de 6,27 milhões de barris do reino foram, em 2009, para a Ásia e o Pacífico, enquanto os EUA receberam 17%, segundo um boletim estatístico de 2009 da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep). Em 2008, a Ásia recebeu 58% das exportações sauditas e os EUA, 22%.

A independência da Arábia Saudita da política externa americana “não decorre apenas da primavera árabe, mas também do fato de que a demanda de petróleo desloca-se de ano a ano cada vez mais dos EUA para a China”, disse Sullivan, da Universidade de Georgetown.

O governo saudita disse, no dia 11, que está “sensível à segurança, estabilidade, unidade e independência de países árabes”. O governo saudita “não quer ver novas instabilidades no Oriente Médio”, disse Karasik no Dubai.

Nawaf Obaid, um bolsista sênior no Centro Rei Faisal de Pesquisa e Estudos Islâmicos em Riad, escreveu num editorial no jornal Washington Post em maio que uma “mudança tectônica ocorreu na relação entre americanos e sauditas”. Ele argumentou que a Arábia Saudita traçará sua própria política depois dos “descaminhos na região” dos americanos desde o 11 de Setembro e sua “resposta mal concebida ao movimento de protesto árabe”.

A percepção que a Arábia Saudita tem dos EUA endureceu com a invasão do vizinho Iraque em 2003. Riad começou, então, a seguir uma polícia regional mais independente, disse al-Dakhil.

Quando começaram demonstrações de manifestantes predominantemente xiitas no Bahrein, em fevereiro, monarquias sunitas no Golfo Pérsico temeram que o Irã, governado por muçulmanos xiitas, estivesse instigando os protestos. A Arábia Saudita enviou mais de 1 mil soldados ao Bahrein para ampliar a segurança contra a influência iraniana.

“Os americanos entregaram o Iraque aos iranianos”, disse al-Dakhil numa entrevista telefônica de Riad. “Os sauditas não estavam disposto a deixar que isso ocorresse no Bahrein.” / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Fonte: Estadão

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