Defesa & Geopolítica

Opinião: Visita de Hillary Clinton caiu no vazio

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A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, chegará nesta terça-feira ao Brasil como etapa de uma viagem à América Latina, que, entretanto, perdeu parte de seu impacto com o terremoto chileno. Sua agenda de temas a ser tratados com o governo brasileiro é extensa e aqui tentarei analisar alguns deles.

O Irã, que, de acordo com a imprensa internacional, prepara-se para produzir sua bomba atômica, é o principal deles. Barack Obama busca – por meio de sua secretária – o apoio do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, para poder aplicar sanções econômicas àquele país.

Os EUA contam já com a União Europeia, a Rússia e a China para tal intento. Querem, todavia, criar um “consenso” negativo no que toca à Teerã.  Entretanto, o governo brasileiro não se inscreverá nesse rol porque entende – com razão – que sanções econômicas se constituem na antessala de uma nova guerra, como ocorreu no Iraque. O governo brasileiro condenou, em 2003, corretamente, a invasão a esse país. E pretende manter, com os americanos, relações de cooperação e não uma parceria privilegiada.O acerto brasileiro no caso tem um custo: o de subscrever uma ditadura militar (a iraniana), que fraudou eleições em 2009 e viola direitos humanos mais elementares – com péssima imagem no mundo. Os direitos humanos, como o de liberdade de expressão, de habitação, de dignidade da pessoa humana, compõem o conteúdo das democracias. A política externa atual de Brasília parece deixar de lado esse ponto e centrar-se na defesa exclusiva de “democracias formais”, haja vista o caso Honduras, onde apoiou, com pertinência, o deposto Manuel Zelaya, porém, faz vistas grossas para as constantes violações praticadas por Hugo Chávez.

“A América é dos americanos”

Desse modo, o governo brasileiro, em muitos aspectos, mimetiza a política externa dos próprios Estados Unidos, que, embora apoie “democracias formais”, fecha os olhos para as violações de direitos humanos como, por exemplo, na China – seu maior fiananciador (o país que mais executa opositores no mundo). A política externa daquele país prefere o pragmatismo irracional expansionista à coerência.

A independência brasileira de 1822 deu-se sob o signo da preservação da unidade do território, enquanto a americana, de 1776, das Treze Colônias, sob o signo do pan-americanismo e da expansão. Seu lema era: “A América é dos americanos”. Para se contrapor ao poder do Reino Unido e da Europa colonial, anexava territórios, introjetando o próprio mecanismo da metrópole. A independência americana fez-se igualmente sob o signo do comércio exterior, ao contrário da brasileira.

Leia-se o secretário do Tesouro dos Estados Unidos Alexander Hamilton (1755-1804) em 1788: “Existem indícios que permitem supor que o espírito aventureiro – próprio e exclusivo dos americanos – produziu mal-estar em várias potências europeias. Elas temem nossa excessiva intromissão no transporte naval. As que têm colônias na América esperam – com penosa inquietação – onde conseguiremos chegar.” Desde sua independência, os EUA pretendem criar um “Sistema americano”, isto é, um projeto hemisférico, sob sua hegemonia.

Essas pretensões causaram inúmeros danos à vida democrática dos países latino-americanos ao longo da história. Daí advém a reação ao “imperialismo americano” e tentativas recentes de se criar um organismo pan-americano sem os Estados Unidos e o Canadá. O governo John Kennedy foi o primeiro a reconhecer Castello Branco – o primeiro marechal do golpe militar de 1964. Na verdade, financiou os golpistas, que depuseram João Goulart.

Hillary não obterá o apoio brasileiro na questão iraniana e tampouco em qualquer outra. Cuba: é uma relíquia da Guerra Fria (1945-1989), uma ditadura que perdeu qualquer perspectiva de “socialismo”. Penso que tanto os Estados Unidos quanto o Brasil erram no que se refere a esse país. O primeiro por manter o embargo econômico desde 1962 – que agora quer impor ao Irã – e o segundo por não pleitear, em nível da OEA (Organização dos Estados Americanos), a democratização da Ilha e o respeito aos direitos humanos. Os Estados Unidos mantêm Cuba suspensa do organismo desde 1962 também. Entretanto, a União Soviética se extinguiu em 1989.

Vaga no Conselho da ONU e comércio

As Malvinas são território do Reino Unido, no Atlântico Sul, habitado pelos Kelpers, que se autodeterminaram como britânicos, que lá começam a fazer prospecções de petróleo em sua plataforma marítima. Por que o Brasil apoia os Castro e também a Argentina na tópica das ilhas Malvinas? Porque busca um acento permanente no Conselho de Segurança da ONU (e precisa do aval de Buenos Aires e de usar Cuba como peça de resistência), pretensão que existe desde o primeiro governo Getúlio Vargas. Vargas, em 1943, aceitou a criação de uma base americana em Natal – durante a 2.ª Guerra – em troca de uma siderúrgica (a de Volta Redonda) e da possibilidade da cadeira em mencionado Conselho da ONU. Os EUA apoiam o Reino Unido.

Na área comercial, a Alca (Área de Livre Comércio das Américas, a ressoar os planos de Hamilton) – que não deu certo – foi um ponto de desgaste com toda a América Latina. Em 2009, a OMC (Organização Mundial do Comércio) autorizou o Brasil a retaliar os Estados Unidos em quase US$ 1 bilhão em virtude dos subsídios que Washington deu aos seus produtores de algodão.

A compra de caças é outro tema importante de Hillary, no entanto, já decidido, apesar da insistência da Boeing, o Brasil vai adquiri-los da França, que apoia sua pretensão de um posto permanente no Conselho de Segurança da ONU.

A aliança entre colombianos e americanos transforma Hugo Chávez, nessa viagem, num ponto sem muita relevância. O fato concreto é que os Estados Unidos são o principal parceiro comercial do Brasil, enquanto a China é o destino preferencial das exportações de matérias primas.

A visita de Hillary prepara a de Barack Obama, ainda em 2010, quando programa-se assinar um novo acordo de cooperação comercial entre os dois países. O etanol brasileiro é um dos pontos de relevo a ser tratados no encontro – que serve mais para quebrar o gelo político que existe hoje em relação aos Estados Unidos em toda América Latina. Não há – com razão – mais reverência ao Tio Sam, que deveria renunciar à sua hegemonia, caso quisesse realmente criar um Sistema Hemisférico equitativo. O Brasil deveria, por seu turno, ser mais coerente em alguns pontos.

Fonte: Regis Bonvicino

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