Defesa & Geopolítica

Ato de lealdade

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Imagem meramente ilustrativa- Plano Brasil

No meio jurídico, a expressão latina “data venia” é muito conhecida. Pode significar “dada a licença”, “dada a permissão” ou “com o devido respeito”. Ao ser empregada em diversos contextos jurídicos, como forma de respeito ao superior ou ao colega, essa sentença representa a maneira polida de começar um argumento discordante sobre algo que acabara de ser apresentado, o que evita ao emissor ser mal interpretado ou taxado de arrogante.

Nesse ambiente, o profissional do direito deve assumir a responsabilidade pelas opiniões e ideias que apresenta, ainda que, para fazê-lo, tenha que discordar dos interlocutores. Todavia, é imprescindível que se ancore à discordância, a coragem moral, a iniciativa e o respeito, para que não se perca a chance de agregar valor à discussão e de beneficiar toda a instituição com a riqueza da diversidade de pensamentos. Esse conjunto de concepções pode ser identificado como discordância leal.

Na Inglaterra do Século XVIII, o conceito de discordância leal teve origem na ideia de uma “oposição leal à sua Majestade”, na qual o partido derrotado nas eleições poderia expressar suas opiniões de forma legítima, sem o risco de ser acusado de traição. A lealdade, nesse caso específico, significava fazer, com absoluta responsabilidade, sugestões pertinentes ou críticas construtivas, em prol dos legítimos interesses da sociedade representada. A “contrario sensu”, seria desleal não expressar as opiniões sinceras ou não discordar simplesmente para procrastinar ou tumultuar os processos. Sob o mesmo ponto de vista, é possível transportar tal conceito do ambiente político, empresarial e jurídico para o meio militar.

Nas Forças Armadas, que preveem o posicionamento hierárquico entre seus membros, uma sugestão ou uma manifestação diante de militar superior podem ser recebidas de diferentes maneiras: como a expressão plena da lealdade ou como algum tipo de afronta. Cabe ao superior hierárquico saber distinguir uma situação da outra. Destaca-se que não se trata de discordar meramente, mas de assessorar sob outra perspectiva, com efetividade e competência. O objetivo é somente agregar mais subsídios antes da tomada de decisão.

Ter esse tipo de comportamento, mesmo em ambiente disciplinado e hierarquizado, não só é possível, mas também desejável, desde que seja de maneira educada, construtiva e oportuna. Ao se desenvolver desse modo, tal idiossincrasia estimula a reflexão e enriquece o processo decisório, sem prejuízo da disciplina intelectual, pois, uma vez esgotada a fase argumentativa, o Comandante decidirá. Desse momento em diante, a lealdade estará em cumprir a decisão como se fosse sua, independentemente de opiniões pessoais.

Militares com certas iniciativas podem ser incompreendidos. Contudo, os chefes que sabem aproveitar essa forma de manifestação conquistam mais do que a mera obediência de seus subordinados. Eles angariam o respeito e a confiança, que só podem ser traduzidas em uma palavra: lealdade.

Em qualquer nível hierárquico, saber ouvir é virtude que todo líder deve possuir. Aqueles que tiveram experiências positivas ao ouvirem e ao ser ouvidos, certamente, saberão reproduzi-las. Ao reconhecer no subordinado que se expressa corretamente, o mesmo ímpeto e entusiasmo que ele próprio detinha, o líder será capaz de explorar essa atitude corajosa em benefício do comando.

Quem emprega a lealdade como atitude natural, demonstrando abnegação e coragem, preocupa-se com a Instituição e com o bem-estar de seus integrantes. Mesmo arriscando possível desaprovação do chefe ou dos companheiros, esse militar é capaz de apresentar seu ponto de vista sem revestir-se de desobediência. Essa conduta tem a finalidade de exercitar a disciplina e a coragem moral, além de reforçar a cadeia de Comando. Entretanto, tal atitude depende de variados fatores, como a escolha do momento e local apropriados, a forma adequada de explanação e o estilo de liderança.

Recentemente, o Exército Brasileiro (EB) instituiu o cargo de Adjunto de Comando. A atribuição a um graduado de assessorar o comando, em aspectos relativos às praças, enfatiza o processo de transformação do EB, dentro do espectro mais importante: a dimensão humana. Essa iniciativa pioneira permite à Força, de maneira sistemática e institucionalizada, desfrutar do ponto de vista e das experiências diferenciadas desses militares. Com a ampliação do rol de ferramentas de apoio à decisão, os graduados, agindo com lealdade, ética e imparcialidade, reforçam a autoridade do comando e contribuem para o comprometimento e o bem-estar da tropa.

Reunindo as lições colhidas por décadas, dentro dos mais variados ambientes de trabalho pelo mundo, conclui-se que esse perfil de lealdade não prejudica a disciplina, tampouco mina a liderança dos chefes. Ao contrário, quando bem aplicado, reforça a autoridade do comandante, agrega valor e aumenta o comprometimento do grupo. Os subordinados realmente leais serão reconhecidos pelas iniciativas e contribuições para o êxito da organização militar (OM) e servirão de exemplo para todos.

Em síntese, cabe ao líder, em todos os níveis, estabelecer as condições adequadas para o desenvolvimento e a aplicação da lealdade de maneira devida e produtiva, evitando os excessos. A total falta de iniciativa e comprometimento e a dissensão frequente e desmedida em nada contribuirão para o sucesso das pessoas e, muito menos, da fração da OM.

Vale lembrar que é preciso ser extremamente leal, não apenas ao comando e à Instituição, mas principalmente a si mesmo, a fim de dizer o que precisa ser dito nas oportunidades em que for necessário. É imprescindível ter, ainda, a coragem moral e a abnegação para fazer cumprir a decisão tomada como se fosse sua, pois, só assim, o emprego dessa lealdade específica será profícuo.

Por isso, antes de qualquer julgamento, é fundamental que todo líder militar busque a essência da lealdade dentro de si, uma vez que, em algum momento da carreira, ele carregou o mesmo desejo de expressar suas opiniões. Além disso, é importante propor melhorias e sugestões em benefício das Unidades militares e de todo o Exército.

Fonte. EBlog

“Braço Forte”

… É o nome da mais nova coluna que surgiu de uma parceria do Centro de Comunicação Social do Exército (CCOMSEX) e o Plano Brasil.

Criada com o objetivo de difundir as informações do Exército Brasileiro, a coluna divulgará os conteúdos produzidos pela Agência “Verde Oliva” bem como, trabalhos dos autores do Plano Brasil para os seus leitores, mantendo-os atualizados de maneira dinâmica, com informações segmentadas.

Esta iniciativa reforça o compromisso do Plano Brasil com os seus leitores e busca assim atender a sua missão primeira, difundir e dinamizar o conhecimento a cerca do setor de Defesa e Geopolítica de forma atualizada…

E.M.Pinto

Os conteúdos dos artigos publicados nesta coluna são de total responsabilidade dos autores e não representam, necessariamente, a opinião do site.

5 Comments

  1. PÉ DE CÃO says:

    bonito o texto , agora ve se eu entendi
    o praça pode digamos assim participar o superior pelo adjunto .
    pois antes vc tinha que comunicar o superior para ele poder deixar vc falar com o comando sobre ele rsrs
    agora tem o adjunto
    disc denuncia iria ser muito ensicivo ,
    melhorou vai !
    rsrs
    ou pode fazer o seguinte tambem o comando que fica isolado com aquela turminha de motorista do coronel , aquela pic sargentiaçao que faz as escalas
    entao comando da uma voltinha no quartel de vez em quando , e observem com seus olhos 👀
    só aparecer no palanque nao esta dando certo
    tem um abismo entre o comando e a tropa

  2. stadeu says:

    A ideia do texto é ótima, mas vou te ser sincero, tem cara que acima do seu nível superior é literalmente um babaca .
    Alguns são até conhecidos por serem fodões do regulamento e da caxiagem mas na verdade escondem uma fragilidade e insegurança psicológica incríveis, usam de máscaras como tom de voz elevado , cobranças absurdas, detalhistas desnecessariamente até atrapalhando o serviço e deixando muitos na tropa subjugados por que gente assim nem o Cristo que é perfeito é bom suficiente. Tive sérias situações com oficiais e sargentos ainda na época da ditadura, deram tapas na mesa, gritaram, me ameaçaram de prisão imediata por insubordinação e etc.
    Vou te falar, não me rendi, só usei o regulamento e critérios técnicos como escudo, e me engoliram à seco, tudo na frente de testemunhas. Numa ocasião fiz um oficial ser diluído na minha frente quando usei, pasmem, o próprio JURAMENTO À BANDEIRA para me proteger, um movimento clássico de xadrez na disciplina militar, na época era um Cabo da FAB e depois Soldado da PMSP(Terceiro Grupamento de Busca e Salvamento),amigo tem muuita história pra se contar.
    Devo dizer que o Abuso de Autoridade é inclusive administrativo.

    “ Incorporando-me (à Marinha do Brasil; ao Exército Brasileiro; ou à Força Aérea Brasileira), prometo cumprir rigorosamente as ordens das autoridades a que estiver subordinado, respeitar os superiores hierárquicos, tratar com afeição os irmãos de armas, e com bondade os subordinados, e dedicar-me inteiramente ao serviço da Pátria, cuja Honra, Integridade, e Instituições, defenderei com o sacrifício da própria vida. ”

    A Constituição e o Juramento à Bandeira, todos vão ter de engolir de um jeito ou outro, goste ou não. Se não fecha as portas.

    • stadeu says:

      Quando me protegi com o Juramento à Bandeira usei só um fragmento dele:

      “…cuja Honra, Integridade, e Instituições, defenderei com o sacrifício da própria vida. ”

      “”O chamado Discurso Secreto ou Relatório Khrushchov, cujo nome oficial é Sobre o culto à personalidade e suas consequências, é uma famosa intervenção do político soviético Nikita Khrushchov. Independe do lado.

  3. M. Silva says:

    Muitas vezes, é melhor confiar nos sargentos do que nos oficiais para questões práticas.

    Precisam praças e oficiais ser ouvidos e trocar impressões dentro do respeito mútuo.

    Os problemas: oficiais boçais e praças arrogantes. Isso, sim, tem que acabar para o intercâmbio poder começar. A indisciplina também anda meio solta nas OMs (de ambos os lados). Frutos podres do marxismo cultural.

  4. hartmam says:

    Acho a iniciativa do EB excelente , isso permite uma aproximação entre oficiais
    e graduados, essa ideia deveria ser seguida pela FAB e MB , porém acho que
    ainda vai demorar.A velha ideia de fidalguia ainda se encontra muito presente nesses contextos.

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