Defesa & Geopolítica

Na primeira eleição direta para presidente da República da Turquia premiê Erdogan vence

Posted by

O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, venceu a primeira eleição direta para presidente no país, como já se antecipava. No início da noite deste domingo (10/08), a apuração de 98% das cédulas lhe dava 52,1% dos votos válidos. Antes do resultado oficial, que só deverá ser divulgado na segunda-feira, o político conservador comentou que a nação turca “mostrou sua vontade”.

Ainda segundo as projeções divulgadas, Ekmeleddin Ihsanoglu – candidato conjunto dos partidos Popular Republicano (CHP) e do Movimento Nacionalista (MHP) – teria 38,8% dos votos. Em terceiro lugar, o candidato curdo Selahattin Demirtas, do Partido Democrático dos Povos (HDP), obteve 9,1% dos votos.

“Nosso povo tomará uma decisão importante para a democracia turca”, declarou Erdogan, depois de votar em Istambul, acompanhado da mulher e dos quatro filhos. Pelo menos 53 milhões de eleitores estavam registrados para participar da votação do domingo.

Reformas

O político conservador de 60 anos ocupa o cargo de primeiro-ministro desde 2003. As regras de seu partido, o Justiça e Desenvolvimento (AKP), o impediam de servir mais um mandato como premiê. Antes, os presidentes turcos eram eleitos pelo Parlamento, mas uma emenda constitucional aprovada em 2007 mudou o procedimento para o voto popular.

Erdogan substitui o presidente Abdullah Gül, igualmente do AKP, por um mandato de cinco anos. Durante a campanha, ele prometeu renovar o cargo, antes considerado apenas cerimonial, com o objetivo de dispor de mais poderes executivos. Ele também prometeu ativar prerrogativas presidenciais raramente usadas pelos presidentes anteriores, como a de convocar o parlamento e de presidir sessões do gabinete.

Exortando os eleitores turcos, Erdogan sublinhou que “esta é uma decisão bastante significativa, na medida em que um presidente eleito, de mãos dadas com um governo eleito, liderará a Turquia em direção a 2023, de maneira determinada”. A data é uma referência às celebrações do 100º aniversário de fundação do moderno Estado turco.

Para os ouvintes atentos, com essa declaração Recep Tayyip Erdogan já antecipa tacitamente sua reeleição para um segundo mandato, que lhe garantiria a permanência no poder até 2024. Críticos do muçulmano devoto o acusam de enfraquecer o legado secular do fundador da República da Turquia, Mustafá Kemal Atatürk, que estabeleceu uma separação estrita entre religião e política após criar o novo estado.

RM/afp/ap/rtr

Fonte: DW.DE

Vitória de Erdogan é derrota para opositores da islamização

Com a eleição de Erdogan para presidente, continua o processo de desmoronamento das reformas feitas pelo fundador da república, Atatürk, opina o chefe da redação turca da DW, Baha Güngör.

Baha Güngör é chefe da redação turca da DW

A escolha dos eleitores turcos, que pela primeira vez elegeram seu chefe de Estado, é clara: Recep Tayyip Erdogan ultrapassou com folga os 50% necessários para a vitória no primeiro turno. Esse resultado é democraticamente correto e, portanto, incontestável. Isso é um lado da moeda. Por outro lado, existe o temor de que a Turquia esteja a caminho de se transformar numa república islâmica, com um aumento das normas religiosas na vida cotidiana dos cidadãos.

Com a vitória de Erdogan continua a desmoronar o trabalho de reforma do fundador da república, Mustafa Kemal Atatürk. As elites kemalistas não estavam dispostas a admitir isso nos últimos anos, mas sua arrogância diante de muitos problemas, que dificultam de forma significativa a vida diária das pessoas, conduziu ao status quo político na Turquia. Foi justamente isso que permitiu ao conservador e islâmico Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), de Erdogan, chegar ao poder em 2002, com 34% dos votos, e desde então ampliar sua popularidade de forma constante, aumentando sua quota para quase 50% nas eleições parlamentares há três anos. No final, o AKP venceu todas as eleições e agora coroou sua ascensão à esmagadora força política na Turquia com a ascensão de seu líder e chefe do governo ao posto de presidente do país.

O AKP emergiu das cinzas de quatro partidos religiosos. Estes haviam sido proibidos, entre o fim dos anos 1960 e a segunda metade da década de 1990, pelos militares e pelo Tribunal Constitucional, controlado por eles. As legendas foram consideradas “centros de atividades fundamentalistas”. Com base na experiência desses partidos antecessores, Erdogan sabia exatamente quais eram os problemas que afligiam o cidadão médio, do que ele precisava e o que ele queria. Isso é algo que agora é retribuído pelos eleitores. Acima de tudo, Erdogan é recompensado nas eleições por ter dado ao povo turco uma nova autoestima, com base em valores religiosos.

Para Erdogan, pouco importa que as liberdades de imprensa e de expressão tenham sido tão severamente restringidas na Turquia que o país agora ocupa, vergonhosamente, os últimos nas comparações internacionais. E seus seguidores também ignoram as amplas denúncias de corrupção e abuso de poder que pesam sobre Erdogan, sua família e seus colaboradores políticos, em favor da relativa prosperidade alcançada.

Erdogan foi eleito para um mandato de cinco anos. Mas mesmo agora já é possível prever que o político de 60 anos deseja permanecer pelo menos por mais um segundo mandato como chefe de Estado. Assim, entrará para a história, na celebração dos 100 anos da república, em 2023, como o homem que conseguiu reverter quase toda a obra reformista de Atatürk. É bem provável que seja instituído um novo regime, baseado num sistema presidencialista, com um Parlamento marginalizado em sua importância. Por isso é que Erdogan fala sempre da “velha” e da “nova” Turquia.

Seu rival Ekmeleddin Ihsanoglu, apoiado por 14 partidos, alcançou apenas 39% dos votos. Um sucesso moderado foi alcançado pelo político curdo Selahattin Demirtas, de 41 anos, com pouco mais de 9%. Este pode ser o sinal de que seu partido pró-curdo HDP pode conseguir pela primeira vez ultrapassar a marca de 10% nas próximas eleições parlamentares.

Mesmo que Erdogan tenha boa fama entre algumas pessoas na Turquia, sua reputação externa ainda deixa muito a desejar. Rodeado por centros de crise, como Iraque, Síria, Gaza-Israel, Ucrânia, Rússia e, recentemente, novas disputas entre o Azerbaijão e a Armênia em torno da região de Nagorno-Karabakh, Erdogan precisa aplacar o temor de que vai jogar gasolina na fogueira. Porque foi exatamente isso que ele fez em diversas ocasiões.

A UE e, especialmente, a Alemanha, terão que continuar lidando com um Erdogan cada vez mais desconfortável. A aventura da Turquia em direção a uma candidatura à UE está chegando inexoravelmente ao fim, sem sucesso. Isso não significa o fim do mundo, mas as possibilidades de influência da União Europeia sobre os acontecimentos na Turquia devem se tornar cada vez menores. Se isso é bom para os interesses dos europeus na região, é algo que pode ser questionado.

Fonte: DW.DE

Conheça a história de Recep Tayyip Erdogan

Comissão Eleitoral da Turquia confirmou a vitória por maioria absoluta nas eleições presidenciais realizadas hoje do atual primeiro-ministro do país, Recep Tayyip Erdogan, o que o transforma no novo chefe de Estado eleito.

Com 99% da apuração concluída, Erdogan venceu no primeiro turno com 51,8% dos votos e sucederá o presidente Abdulah Gül em um mandato de cinco anos.

Seu rival mais próximo, o acadêmico Ekmeleddin Ihsanoglu, obteve 38,5%, e o ativista curdo Selahattin Demirtas, 9,8%, segundo o jornal “Hürriyet”.

“Já foram apurados 99% dos votos. Os votos sem contar não vão alterar o resultado”, disse em comunicado o presidente da Comissão Eleitoral, Sadi Güven. Os dados finais da apuração serão divulgados amanhã.

“Erdogan alcançou a maioria absoluta dos votos válidos. Decidimos portanto que não há necessidade de preparar um segundo turno”, disse a nota.

Quem é Erdogan

O presidente da Turquia tem poderes limitados e um papel mais cerimonial, embora Erdogan tenha dito que quer realizar uma reforma legal para conceder mais poder ao chefe do Estado.

O carismático premier islâmico-conservador Recep Tayyip Erdogan, 60, no poder desde 2003, venceu neste domingo as eleições presidenciais na Turquia, tornando-se o mais longevo dirigente da república fundada em 1923 por Mustafa Kemal Ataturk sobre as ruínas do Império Otomano.

Erdogan, que, quando jovem, foi vendedor ambulante, torna-se o líder mais poderoso da Turquia moderna e uma figura providencial para seus partidários, mas a encarnação da polarização crescente no país para seus detratores.

Mas “o sultão”, como é chamado, enfrentou nos últimos anos, nas ruas e redes sociais, acusações de despotismo, por parte de ex-aliados e opositores.

A repressão às manifestações sociais e as leis de controle da internet mancharam a imagem de um homem considerado responsável por uma década de crescimento ininterrupto em uma potência emergente de 76 milhões de habitantes.

As denúncias envolvendo corrupção em seu entorno e os ataques nas redes sociais o irritaram a ponto de ele começar a chamar os adversários de “traidores” e “terroristas”.

Também foi acusado de minimizar o acidente na mina de Soma, que, em maio, deixou 301 mortos, atribuindo-o a uma fatalidade e comparando-o aos desastres em minas inglesas do século XIX.

Mas ele segue tendo um apoio sólido nas zonas rurais e nos meios religiosos, que prosperaram sob seu governo.

O partido de Erdogan venceu todas as eleições desde 2002, e o primeiro-ministro, no cargo desde 2003, ganhou o status de homem que trouxe a estabilidade depois de décadas de golpes de Estado e alianças frágeis, e que soube cortar as asas dos militares.

Grande incentivador de pontes, aeroportos e projetos faraônicos de infraestrutura, Erdogan transformou a Turquia em um mercado robusto, controlando a inflação e triplicando a renda da população.

Seu impulso de construtor chocou-se, em maio de 2013, com a resistência da população de Istambul à transformação do parque Gezi em um centro comercial de estilo otomano.

Durante três semanas, 3,5 milhões de turcos protestaram em centenas de cidades, desafiando a repressão policial. As manifestações resultaram em oito mortos, mais de 8 mil feridos e milhares de prisões.

Em dezembro, Erdogan acusou seus ex-aliados da irmandade do imã Fethullah Gülen de estarem por trás das acusações de corrupção contra o Executivo.

Este ano, promulgou leis que reforçam o controle sobre a internet, denunciadas como “liberticidas” pela oposição.

Segundo o professor Ilter Turan, da Universidade Bilgi, de Istambul, o apoio constante nas urnas teve o efeito paradoxal de incentivar as “tendências autoritárias” do chefe de governo.

“Desde que chegou ao poder, o premier foi mudando aos poucos das tendências pragmáticas para a autoritárias, do trabalho em equipe para as decisões pessoais, da democracia para o autoritarismo, das políticas elaboradas para as impulsivas”, afirma.

Erdogan, filho de um guarda-costas de Kasimpasa, foi vendedor ambulante de limões e pães na adolescência.

Aderiu rapidamente a grupos islâmicos que enfrentavam o regime secular-nacionalista e os governos militares que consideravam parte de sua missão manter uma separação rigorosa entre as mesquitas e as instituições estatais.

Foi jogador semiprofissional de futebol e realizou estudos empresariais, antes de ser eleito, em 1994, prefeito de Istambul, cargo em que ganhou popularidade com medidas para tentar reduzir os congestionamentos e a poluição na megalópole, de 15 milhões de habitantes.

Seu partido foi declarado ilegal e Erdogan passou quatro meses na prisão por ter recitado em uma manifestação um poema islamita considerado pelos juízes incitação ao ódio religioso.

Em 2001, Erdogan e Abdullah Gul, atual presidente turco, fundaram o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), que, no ano seguinte, obteve a primeira vitória nas urnas.

Seus governos promoveram reformas que aproximaram a Turquia da União Europeia, embora o processo de adesão se encontre paralisado, em grande parte devido a disputas internas.

Nos últimos anos, Erdogan flexibilizou a proibição do uso do véu islâmico, restringiu a venda de bebidas alcoólicas e tentou afastar os dormitórios de homens e mulheres nos alojamentos universitários, o que lhe valeu denúncias de tentar impor uma islamização desenfreada da sociedade.

“Não concordo com a opinião de que a cultura islâmica e a democracia são incompatíveis”, declarou, em certa ocasião.

Os defensores do regime laico criado por Ataturk o acusam de trair seu legado, mas Erdogan afirma que a transformação de um país atrasado em uma potência regional teria sido aprovada pelo pai da Turquia moderna.

Com informações da EFE e AFP

Fonte: Terra

One Comment

shared on wplocker.com