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Estudo de palestinos ajuda a compreender sua sociedade fraturada

Nakba – “catástrofe” em árabe – expulsão das populações árabes pelos israelenses durante a guerra de 1948

 

Por José Ailton Dutra Júnior*

A Questão Palestina é um dos temas centrais da história contemporânea, pois a existência de uma sociedade que vive dividida em uma população exilada e expulsa por um movimento colonial de origem europeia apoiado pelas potências capitalistas anglo-saxãs hegemônicas no mundo desde o fim das guerras napoleônicas (primeiro a Grã Bretanha e depois EUA)-o sionismo-e outra sobre a ocupação do estado criado por esse movimento (Israel), sendo que esse povo é a população nativa do país no qual se encontram alguns dos mais importantes sítios religiosos da duas maiores religiões do mundo (Cristianismo e Islamismo), sendo esse país uma terra sagrada para essas religiões e o povo vítima dessas perseguições ter populações que as praticam, se trata de um fato que de forma, direta ou indireta, acaba envolvendo. Aceitar ou repudiar o destino imposto ao povo palestino, nessa situação, significa definir um padrão de como se devem tratar os seres humanos nos séculos seguintes em todo o globo: ou se aceita que os direitos humanos, como definidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, assinada pela maioria dos estados do mundo, são válidos- ao menos teoricamente-para todos os seres humanos, ou ela se aplica a alguma minoria poderosa e privilegiada dentro da ordem mundial atual.

Evidentemente, os palestinos não são a única população no mundo que sofre injustiças terríveis. Podemos citar os habitantes da Nova Guiné Ocidental vitimados por uma brutal ocupação militar da Indonésia (que pode ter matado entre 100 e 500 mil pessoas, segundo diversos órgãos de imprensa) cujo objetivo é entregar suas terras, florestas e subsolos para o saqueio por parte das corporações multinacionais americanas, australianas e britânicas, dentre outros países. Podemos citar a questão dos curdos na Turquia, país da mesma região da Palestina e de certa forma um vizinho, cujas políticas repressivas e negação de direitos, em maior ou menor grau, independente se suas forças políticas tenham ou não se aliado aos EUA e Israel, caracteriza a conduta padrão do estado turco há um século. Podemos citar inúmeros e mais terríveis e sangrentos casos, em relação à Palestina, ao longo do continente africano e outras partes do mundo. Todos são acontecimentos importantes, mas em nenhum deles existe essa questão colocada pela existência do drama palestino: o povo nativo da Terra Santa cristã e muçulmana, falante da mesma língua que os habitantes dos países vizinhos, compartilhando com eles-exceto os egípcios- uma identidade maior síria- foi parcialmente expulsa por colonos de origem judaica (que também considera a Palestina e vários de seus lugares sagrados), cujos líderes fundadores e movimentos vieram da Europa, e outro esta exilada nos países vizinhos, mas cada vez mais possui comunidades dispersas pelo mundo.

Por isso, para se poder compreender a Questão Palestina também é necessário conhecer informações básicas sobre a sociedade palestina e sua história. Bons sites, boas reportagens, bons documentários e bons livros de divulgação ajudam a começar a entender esse assunto tão complexo. Uma compreensão mais profunda requer livros de caráter mais acadêmico e uma das melhores obras nesse sentido é o trabalho de Samih K. Farsun e Christina E. Zacharia Palestina and the Palestinian, publicado em Nova York em 1997.

Infelizmente, como acontece com muitos livros bons em diversas áreas das ciências humanas, esse trabalho não foi editado no Brasil, mas ele pode ser encomendado pela internet em sites estrangeiros.

Nesse trabalho, os dois autores palestinos irão mostrar a sociedade palestina como ela existiu antes de depois da Nakba (desastre em árabe, a expulsão de 700 mil palestinos pelos sionistas em 1948), mais especificamente como era a sociedade palestina desde o século XVIII, as transformações por que passou no século XIX (Reformas Tanzimat no Império Otomano e a penetração do capitalismo ocidental), a colonização britânico-sionista (1918-1948), e depois, a sua transformação profunda como resultado da Nakba e sua divisão em três segmentos: os exilados, os habitantes da Faixa de Gaza e Cisjordânia (conquistados por Israel na guerra de 1967), os habitantes do interior do estado de Israel.

Os autores, ao falarem da sociedade palestina antes de 1948 comentam também sob sua geografia e a influência que esta teve na formação das culturas locais e nos sistemas econômicos de cada localidade e região que compõe a Palestina, assim como o papel importante dela como Terra Santa para muçulmanos e cristãos e, por isso, um local de peregrinação importante no Oriente Médio por séculos. (Estes fatos: abrigar lugares sagrados muçulmanos, cristãos e judeus), além de ser uma das rotas mais importantes de peregrinação para Meca e Medina (os dois mais importantes lugares sagrados do islamismo) na Arábia ocidental sempre a colocou em destaque em termos geopolíticos e também ajudou a configurar a sua economia, pois alimentar, ajudar a transportar, abrigar e vender artigos religiosos ou de outros tipos aos peregrinos sempre foi uma receita importante para a economia das cidades palestinas e fez com que duas delas se destacassem nesse processo: Jerusalém e a cidade portuária de Haifa, atualmente dentro do estado de Israel.

Um outro aspecto importante para se entender a sociedade palestina até o começo do século XX é o seu pertencimento a Síria histórica-geográfica fazendo com que a população palestina compartilhe a mesma língua (em versões dialetais locais): o árabe-levantino ou árabe sírio, e uma cultura e identidade mais geral, embora seus particularismos sejam importantes também para se poder compreender a sua dinâmica interna e particularismo culturais-religiosos importantes como a forte devoção aos profetas Moisés e Saleh, objetos de cultos nas mais importantes festas palestinas até a Nakba no qual participavam tanto muçulmanos como cristãos e também judeus não sionistas.

Celebração de um Casamento em 1929 em Ramallah, Sede Atual da Autoridade Palestina

Uma ideia central, segundo Farsun e Zacharia, é importante para se entender os palestinos antes e depois da Nakba: antes de 1948 os palestinos eram, apesar das modificações provocadas pela penetração capitalista ocidental desde o século XIX, uma sociedade que ainda era muito regida pelos valores tradicionais ligados a vida aldeã, a forte presença da religião (muçulmana ou cristã) na organização da vida privada e publica e os laços comunitários dos complexos familiares (hamulas) nas aldeias interioranas, um mundo assentado ainda em uma base econômica majoritariamente agrícola; depois da Nakba, diante do exílio ou da ocupação israelense, a antiga estrutura perde o sentido, apesar dos esforços dos palestinos para mantê-las. Como resultado a alfabetização, urbanização, proletarização, emancipação das mulheres, difusão dos ideais socialistas, comunistas, terceiro-mundistas e pan-árabes, democráticos e o islã político conservador moderno (que se expande com mais força a partir dos anos 1980), uma vida marcada pela precariedade, o receio e a presença da violência e da segregação, mudam o perfil psicocultural das gerações palestinas pós 1948 em relação aos seus antecessores. Também, como apontam Farsun e Zacharia, no caso dos refugiados: estes se dividiram em dois grupos: os das antigas elites palestinas, cuja possibilidade de reconstruir suas vidas era muito mais fácil, e os pobres que irão sentir todo o peso da condição de exilados.

O território da Palestina, como Farsum e Zacharia mostram, era tradicionalmente dividido em dois grupos de populações cujos meios de vida faziam com que se relacionassem constantemente a ponto de viverem em simbiose econômica: os beduínos nômades ou seminômades-dependendo da tribo-de economia pastoril, que se fixavam nas terras baixas ou nas zonas semidesérticas e as populações sedentárias, vivendo principalmente nos planaltos, majoritariamente de economia agrícola, no qual o sistema de posse coletiva da terra (chamada Musha´a) e distribuição dos lotes de acordo ao tamanho e necessidades das famílias era predominante. Junto a isso estavam as identidades coletivas locais baseadas nas hamulas, grupos de aldeias e regiões sobre o qual surgiam lideranças que eram reconhecidas oficialmente pela administração otomana. Os camponeses eram socialmente submetida à notáveis que viviam em aldeias maiores ou nas cidades. Essa população rural sustentava a população urbana de localidades como Nablus, Jerusalém, Haifa, Jaffa, Hebrom, Gaza, Belém e outras, que, no caso das cidades interioranas, formavam sistemas econômicos locais (no qual o artesanato e o comércio eram as atividades principais) com culturas regionais bem definidas, sendo que várias, ou eram cidades sagradas ou com locais sagrados ou eram parte das rotas de peregrinação religiosa e nas litorâneas no qual haviam os contatos permanentes com o exterior por meio do comércio internacional. Em Jerusalém havia também os Ashraf: as famílias descendentes dos generais conquistadores árabes do século VII, a quem o Califa Omar havia dado a guarda ou proteção dos lugares sagrados da cidade. Esse grupo tinha um papel de liderança na Palestina e se sobrepunha aos notáveis urbanos do restante do país.

Sobre esse complexo sistema econômico-social se imporá a ordem internacional capitalista vinda da Europa e estimulado pelas reformas sociais, legais, administrativas, econômicas e políticas pelo governo otomano desde 1839 chamadas de tanzimat (reorganização em turco). Estas reformas estabeleceram a propriedade privada plena e as garantias legais para sua estabilidade e transmissão por herança (cujos resultado a longo prazo será a formação de grandes propriedades fundiárias nas mãos das elites em todo país), centralização administrativa, regularização e modernização do sistema fiscal, igualdade jurídica entre muçulmanos e não-muçulmanos entre outras medidas. Esse processo de modernização otomana, por conta da expansão do imperialismo europeu (especialmente o britânico no caso da Palestina) teve como resultado a entrada do capital europeu na economia local orientando-a para as necessidades dos mercados ocidentais (exportações de produtos agrícolas como laranja e trigo), investimento e controle europeu das infraestruturas modernas como ferrovias, telégrafos e navegação a vapor entre outros, controle financeiro anglo-francês do governo otomano com impacto sobre a Palestina, importação de bens indústrias europeus (particularmente os britânicos), o que levou ao desenvolvimento de uma classe mercantil vinculada aos capitalistas europeus. Isso modificou a estrutura social, levando a progressiva proletarização dos camponeses, a introdução do sistema moderno de trabalho assalariado, decadência da classe artesanal nas cidades, o desmonte progressivo do sistema de propriedade coletiva musha´a e o aumento da diferenciação social e da concentração de renda.

Tudo isso foi muito intensificado após a Guerra da Crimeia (1853-1856) no qual o Império Otomano participou ao lado da Grã-Bretanha e da França contra a Rússia. Farsun e Zacharias comentam que “a penetração econômica imperialista do século XIX (que desviou para os seus interesses os efeitos das reformas tanzimat) criou as condições para que a colonização sionista pudesse acontecer”, pois ela foi retirando, progressivamente do controle otomano a Palestina e permitindo aos europeus se estabelecerem no país como privilegiados com poder econômico e social, fato que irá caracterizar os colonos sionistas no século XX sob a ocupação britânica.

Por outro lado, a modernização também levou a formação de um setor social com educação técnica e cultural moderna vivendo nas cidades, constituindo uma nova classe média, e a formação de ideias político-sociais distintas dos comunitarismos religiosos, clânicos, nômades, regionais e locais e outros que se expressavam no aparecimento da noção de nacionalismo (palestino, sírio, pan-árabe) e nos diversos projetos políticos-ideológicos de origem europeia: democracia, liberalismo, modernização econômica, a ideia moderna de tolerância religiosa e secularismo, etc.

Após a Primeira Guerra Mundial que levou a derrota do Império Otomano (aliado da Alemanha), a ocupação britânica em 1918 e o estabelecimento do mandato pela Liga das Nações (1920-1948) trouxe o projeto de colonização judaica promovido pelas elites britânicas que aceitaram promover o projeto do movimento sionista estabelecido por estes durante o I Congresso Sionista de 1897 em Basileia na Suíça. A Declaração Balfour de 11 de novembro de 1918 estabeleceu publicamente essa aliança entre sionistas e o império Britânico que tinha na burguesia financeira judaica inglesa, como o ramo britânico dos Rothichilds, os intermediários.

Farsun e Zacharias mostraram em seu trabalho como, ao longo de todo o mandato e independente dos críticos ingleses dentro e fora do governo, como o governo mandatário britânico (na verdade um governo colonial) promoveu uma política para aumentar a imigração judaica, protege-la economicamente, desfavorecer até as classes dominantes palestinas e fazer do cada vez maior enclave judeu uma zona mais ricas, mais industrializada, incorporadora de tecnologias estrangeiras e com melhores indicadores sociais. Ela era protegida até mesmo da concorrência econômica da burguesia metropolitana. Sua população cresceu de 84 mil em 1922 para 640 mil em 1947 (a população árabe era 666 mil em 1922 e 1,300 milhão em 1947). Essa colonização foi acompanhada de uma agressiva política de colonização por meio da compra de terras e o estabelecimento de colônias agrícolas (Kibbutzim) o e fechamento do mercado de trabalho judeu para os árabes, além disso aos judeus foi permitido a formação de uma força armada e seus grupos milicianos ilegais não eram reprimidos com muita ênfase. O resultado disso foi uma série de confrontos que culminaram na revolta anticolonial de 1936-1939 cuja derrota, desarmamento, controle policial da população, exílio ou prisão da classe política da época teve um impacto social e psicológico devastador que estabeleceu as condições locais finais para a Nakba de 1948.

Após 1948, Farsun e Zacharia, mostram como os palestinos se esforçaram para manter a sua unidade cultural e espiritual, identidade e recordação de sua pátria unificada em meio à realidade dura do exilio ou ocupação israelense. Apesar do apoio popular a sua luta no Mundo Árabe e do reconhecimento internacional do seu drama (por exemplo, a Resolução 194 da ONU de 11 de dezembro de 1948 exigindo o retorno dos exilados), os palestinos irão enfrentar em muitos países discriminação e restrição aos seus direitos vivendo a maioria nos inúmeros campos de refugiados montados nos países vizinhos e sob a administração de uma agência da ONU – a URWA, sigla em inglês para a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados dos Oriente Próximo.

Família de refugiados palestinos no campo de Wadi Seer, na Jordânia em 1958.

A divisão da sociedade palestina em três grupos: os exilados, os habitantes de Gaza e Cisjordânia (sob a ocupação de Israel a partir de 1967) e os que viviam dentro do estado de Israel (definidos oficialmente como árabes de Israel) e que receberam uma cidadania de segunda mão e uma prática social marcada por forte discriminação racial, criou três distintas realidades que aumentava a tensão ainda mais por dentro a fraturada e traumatizada sociedade palestina e os obrigou a mudar muitos aspectos de sua vida para poder resistir ao poder sionista e o seu patrocinador principal desde 1967: os EUA. Os palestinos exiliados (6-7 milhões hoje) viveram em constante precariedade, nunca tendo certeza sobre o seu futuro e com a sombra da guerra sempre presente. Muitos se tornaram imigrantes, buscando emprego no exterior-particularmente a Europa e os estados árabes do Golfo Pérsico- formando novas comunidades de exilados nesses países e, no caso dos estados árabes do Golfo, formando desde os anos 1960, uma importante classe média de técnicos, médicos, professores e dirigentes que muito contribuiu com o desenvolvimento trazido pela riqueza do petróleo. Na Jordânia, a enorme população palestina também teve um papel similar, embora, por seu tamanho, muitos se tornaram um componente central da classe trabalhadora jordaniana. Mas essa população exilada sofreria muito com as guerras em diversos desses países (Jordânia 1969-1970), Líbano (1975-1990), Kuwait (1991), Iraque (2003-2009) e Síria (2011 ao presente), tendo estas as marcado e ajudado a definir sobre nova forma a sua identidade.

Já os habitantes de Gaza e Cisjordânia, que também tem refugiados vindos do território israelense, primeiro tiveram seus territórios sobre o controle de estados árabes vizinhos (Egito no primeiro caso e Jordânia no segundo) e depois passaram a viver sobre uma cada vez mais dura ocupação militar israelense, no qual a limpeza étnica e a colonização judaica eram realidades presentes. Estes palestinos passaram, após a guerra de 1967, por um processo de proletarização e urbanização, muitos deles se transformando em trabalhadores mal remunerados dentro de Israel. Estes, ainda mantiveram certas estruturas sociais anteriores a Nakba, como as hamulas, e a influência social das antigas famílias de notáveis, mas também, por conta da pressão sionista e influência de ideologias e movimentos progressistas do Mundo Árabe e de outras regiões do planeta, a se afastar dos valores tradicionais da sua antiga sociedade camponesa. Isso era evidente nas novas gerações nascidas depois dos anos 1950. Se os palestinos exilados se modernizavam como forma de resistir aos males do exílio, os de Gaza e Cisjordânia, como forma de resistir a perde de grande parte do seu país primeiramente e depois para enfrentar a dureza da ocupação israelense e da ausência de direitos.

Campo de Refugiados palestinos de Sabra, em Beirute, capital do Líbano

É dentro desse processo de modernização, explicam Farsun e Zacharia, que se deve entender a emergência dos movimentos políticos e guerrilheiros palestinos dos anos da Guerra Fria como a OLP (Organização para a Libertação da Palestina) de Yasser Arafat, a Frente Popular de Libertação da Palestina, de Georges Habash, marxista-leninista e a Frente Democrática de Libertação da Palestina de Nayef Hawatmeh, também marxista e sediada em Damasco, capital da Síria ou uma organização pan-arabista surgida no Líbano, mas fundada também por muitos palestinos exilados como o Movimento Nacionalista Árabe. Somente, por volta da década de 1980, é que o islã político crescerá para influenciar a luta palestina, sendo o grupo Hamas o mais importante deles.

O trabalho de Farsun e Zacharia é de 1997 e, portanto, não aborda a época do governo de Sharom (2001-2006), os ataques israelenses de 2002, a construção do Muro na Cisjordânia, a morte de Yasser Arafat e demais acontecimentos das últimas duas décadas e seu impacto sobre a sociedade palestina-no exílio ou vivendo sob o domínio israelense, mas ele fornece informações vitais para se compreender a condição dessa sociedade fraturada e traumatizada, mas cuja luta ajudará a definir os rumos que a humanidade tomará no século XXI e com isso os caminhos próprios da modernidade.

Mapa da atual ocupação política e militar israelense nos territórios palestinos.

 

* Doutor em História pela Universidade de São Paulo e especialista em História Contemporânea e Geopolítica do Oriente Médio e Mundo Árabe.

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Coalizão liderada pelos EUA matou mais de 1.600 civis na Síria, acusa Anistia Internacional

Civis caminham emfrente a prédios severamente destruídos em Raqqa, na Síria Foto: Aboud Hamam / Reuters 14-05-18

Civis caminham emfrente a prédios severamente destruídos em Raqqa, na Síria (Foto: Aboud Hamam / Reuters 14-05-18)

Campanha para tomar a cidade de Raqqa do Estado Islâmico em 2017 deixou dez vezes mais vítimas civis do que apontam dados oficiais, segundo estudo

 

BEIRUTE – A coalizão liderada pelos Estados Unidos matou mais de 1.600 civis em Raqqa ao longo de vários meses em 2017, durante sua campanha para expulsar o Estado Islâmico da cidade, acusa um relatório lançado nesta quinta-feira pela Anistia Internacional e pelo Airwars, ONG de monitoramento de guerras.

O número indicado é dez vezes superior aos dados oficiais sobre vítimas civis. O documento diz que ataques aéreos e de artilharia americanos, franceses e britânicos mataram e feriram milhares de inocentes entre junho e outubro de 2017 na antiga capital do Estado Islâmico . Muitos dos casos, diz o texto, “constituem violações à lei humanitária internacional e exigem investigação adicional”.

As organizações passaram 18 meses pesquisando as mortes de civis, incluindo dois meses fazendo pesquisa de campo em Raqqa, disseram. “Nossa descoberta conclusiva depois de tudo isso é que a ofensiva militar da coalizão liderada pelos EUA (EUA, Grã-Bretanha e França) provocou diretamente mais de 1.600 mortes de civis em Raqqa”.

O relatório pede que os membros da coalizão criem um fundo para compensar as vítimas e suas famílias

A coalizão respondeu que tomou “todas as medidas razoáveis para minimizar as baixas civis” e que ainda existem alegações abertas que estão sendo investigadas. “Qualquer perda involuntária de vida durante a derrota do Daesh é trágica”, disse Scott Rawlinson, um porta-voz da coalizão, em um comunicado enviado por email mais tarde na quinta-feira, usando um acrônimo em árabe para Estado Islâmico.

“No entanto, estas perdas devem ser comparadas com o risco de permitir que o Daesh continuasse as suas atividades terroristas, causando dor e sofrimento a qualquer pessoa que quisesse”, acrescentou.

O Estado Islâmico dominou Raqqa no início de 2014, época em que avançou rapidamente na Síria e no Iraque e constituiu um autoproclamado califado. Caracterizado pelas execuções sumárias de opositores, o grupo cometeu uma matança em massa e escravizou minorias, em um processo que a ONU descreveu como um genocídio.

O grupo, que controlava um terço da Síria e do Iraque em 2014, já foi expulso de todo o território que controlou, a partir de campanhas militares empreendidas por um conjunto de forças, incluindo os governos da Síria e do Iraque, dos Estados Unidos, de seus aliados europeus e de seus rivais Rússia e Irã. Apesar de não controlar mais o território, o grupo ainda ameaça lançar ataques terroristas em todo o mundo.

As Forças Democráticas Sírias lideradas pelos curdos (SDF) e apoiadas por Washington  capturaram Raqqa em outubro de 2017, após uma ofensiva de cinco meses apoiada por ataques aéreos liderados pelos EUA e por forças especiais.

A Anistia disse no ano passado que havia evidências de que ataques aéreos e de artilharia da coalizão eem Raqqa violavam a lei humanitária internacional e punham em perigo as vidas de civis, mas até agora não tinha dado uma estimativa do número de mortos durante a batalha.

Durante e depois da campanha, repórteres em Raqqa noticiaram que o bombardeio causou destruição maciça na cidade, devastando bairros inteiros.

Fonte: O Globo e Reuters

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ONU: "Forças dos EUA e do governo afegão mataram mais civis do que os insurgentes"

Enterro de civis mortos num ataque aéreo conduzido por aeronaves remotamente pilotadas da CIA em Khogyani (Jim Huylebroek / New York Times)

Pela primeira vez, os civis afegãos são mortos em maior número pelas forças governamentais e pela coalizão liderada pelos EUA do que o Taleban e outros grupos insurgentes, informou um relatório da ONU divulgado nesta quarta-feira.

Esta triste cifra ocorre no momento em que os EUA intensifica sua campanha aérea no Afeganistão enquanto realiza conversações de paz com o Taleban, que agora controla grandes partes do país pela primeira vez desde que foi retirado do poder em 2001.

Nessa imagem, fotografada em 23 de Março, um homem afegão descobre os corpos de crianças em cima de um caminhão após serem mortas num ataque aéreo na província de Kunduz. Pelo menos 13 civis foram mortos, a maior parte crianças, num ataque aéreo por “forças internacionais” na cidade setentrional de Kunduz na semana passada, segundo informou a ONU, no dia 25 de março. Os EUA é o único membro da coalizão internacional no Afeganistão que providencia apoio aéreo no conflito. (Bashir Khan Safi / AFP)

Durante os três primeiros meses de 2019, as forças da ISAF (Força Internacional de Assistência para Segurança), uma força-tarefa da OTAN e outros parceiros, liderada pelos EUA que conduz as operações no Afeganistão, além do próprio governo afegão, foram responsáveis pela morte de 305 civis, enquanto os insurgentes mataram 227 pessoas, de acordo com o relatório da Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (UNAMA).

A maior parte das mortes resultam de ataques aéreos ou operações de busca em solo, primariamente conduzidas pelas forças afegãs treinadas e equipadas pelos EUA, o que a UNAMA qualifica como “ações realizadas com impunidade”.

“A UNAMA conclama que as forças de segurança afegãs e a coalizão internacional para conduzir investigações em alegações de danos e mortes a civis, que publiquem os resultados de seus dados coletados, e providenciem compensações apropriadas as vítimas,” conclui o relatório.

A UNAMA iniciou a copilação de dados de baixas civis em 2009 a partir da deterioração das condições de segurança no Afeganistão.

É a primeira vez desde que a coleta de dados começou que mostra que as forças pró-governamentais mataram mais do que as forças insurgentes.

Em 2017, As forças dos EUA iniciaram uma aceleração de seu tempo operacional após o presidente Donald Trump flexibilizou restrições e facilitou as condições para bombardeio a posições do Taleban.


Jovem fazendeiro afegão morto em 15 de janeiro de 2010 por um grupo de soldados do Exército norte-americano autointitulado “The Kill Team”.

Enquanto outras nações contribuem com apoio logístico e técnico, os EUA conduzem a maior parte dos ataques aéreos. E em menor escala, a pequena Força Aérea afegã está voando mais missões.

Os EUA enviaram os grandes bombardeiros estratégicos Boeing B-52 em traslados sobre o país, beneficiados pelo aumento da infraestrutura aérea para as operações contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria, onde foram derrotados.

Entretanto, o relatório da UNAMA relatou uma diminuição das baixas civis em 23% em comparação com o primeiro trimestre de 2018.

O decréscimo resultou de uma diminuição dos ataques suicidas, mas a UNAMA não sabe se essa mudança ocorreu após o rigoroso inverno ou a diminuição de ataques do Taleban a civis durante as conversações de paz.

Ainda assim, o chefe da UNAMA, Tadamichi Yamamoto, que também serve como representante especial da Secretaria Geral da ONU no Afeganistão, disse que a morte de civis é um “número chocante”.

“Todas as partes envolvidas devem zelar mais pela segurança dos civis,” Yamamoto disse em declaração.

Ano passado foi o ano mais mortal para a população afegã, com 3.804 mortos, de acordo com a UNAMA

Em 17 anos de ocupação, foram 62 mil mortos nas Forças de Segurança afegãs, 3,5 mil mortos entre as forças da coalizão (sendo 2,4 mil mortos entre soldados dos EUA) contra 65 mil mortos entre os insurgentes do Taleban, além de pequenas células da Al-Qaeda e afiliados do Estado Islâmico. O total de civis mortos totaliza 38 mil mortos até o presente momento. E não há perspectivas concretas de estabilização política do país.

No vídeo abaixo mostra as dificuldades enfrentadas pelos EUA, o que resultou no fracasso dos esforços de reconstrução e estabilidade do país, que culminou na rápida expansão do Taleban nos últimos anos

[embedyt] https://www.youtube.com/watch?v=XKVDXbIpW9Q[/embedyt]

Fonte: AFP e New York Times

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EDITORIAL-Exército Árabe Sírio Parte I - A primavera das sombras


 

 

Autor:

E.M.Pinto

 


Exército Árabe Sírio Parte I – A primavera das sombras

PREFÁCIO

De derrotas humilhantes às mais fulminantes vitórias, num dos teatros de conflito mais complexos que se tem conhecimento. Esta é a trajetória do Exército Árabe da Síria (SAA) que conseguiu “virar a mesa” no momento onde tudo parecia perdido.

O palco? O mais sangrento conflito da atualidade o qual desperta variadas interpretações e questionamentos.

O conflito ceifou cerca de meio milhão de vidas e deixou outras cerca de 1,5 milhões  de feridos em sua maioria crianças e idosos. A guerra promoveu ainda uma crise humanitária com a fuga de cerca de 5,0 milhões de pessoas para o exterior e outras 6,5 milhões tiveram que se mobilizar internamente de uma região para a outra. Atualmente cerca de 70% da população não têm acesso à água potável e a pobreza atinge 80% dos sírios que não têm condições de acesso a alimentos básicos.

O conflito considerado uma “pequena guerra mundial” envolveu efetivos entre soldados regulares, mercenários e voluntários de cerca de 80 nacionalidades num território um pouco menor que o estado do Paraná.

Para alguns o regime de Bashar Al- Assad não sobreviveria sem o apoio da Rússia, Irã e dos seus aliados Libaneses, para outros, a ajuda foi bem vinda, mas a Síria de Assad seria capaz de se sustentar mesmo com a perda de importantes territórios e do moral de exército.

 Não importa qual das opiniões prevaleçam frente à realidade, não há dúvidas de que, atualmente o Exército Sírio está bem mais adaptado e preparado para enfrentar um conflito assimétrico que à sete anos atrás.

Após esta reviravolta no conflito, chega-se a uma importante dúvida, como o exército Sírio foi convertido de uma “presa fácil” como alegavam alguns analistas nos anos iniciais do conflito, à uma eficiente máquina de combate como se viu nas retomadas de 2017 e 2018?

É sobre isso que discorro nesta nova série de matérias da coluna EDItorial que apresenta neste primeiro artigo uma recapitulação dos eventos determinantes para o desenvolver deste conflito.


A PRIMAVERA DAS SOMBRAS

O conflito que se converteu na guerra da Síria teve início em meados de 2011, resultado da movimentação internacional em prol da derrubada de líderes de governos do oriente médio e África.

Uma tempestade se abateu ao norte da África, pegando de solavanco as nações árabes do Oriente Médio, sobre o nome de “Primavera Árabe” a qual, refletiu na Síria provocando inúmeros protestos  contra o governo de Bashar Al-Assad.

O conflito que inicialmente teve suas centelhas em movimentos populares logo, logo eclodiu na mais sangrenta guerra deste século, afetando diretamente os quase 24 milhões de habitantes daquela nação.

Motivados por denúncias que surgiram na onda de divulgações de informações do WikiLeaks, um grupo de cidadãos se indignou com a corrupção envolvendo altos representantes do governo e em março de 2011 deu-se início aos protestos ao sul de Derra em favor da “democracia”.

Após a prisão de jovens e adolescentes por agentes da polícia e do serviço secreto sírio, a população revoltou-se e iniciaram uma onda de protestos nas escolas e praças públicas.

Policiais, viaturas e prédios públicos passaram a serem alvos de violência praticadas por grupos que se misturaram aos protestos. Como resposta, o governo ordenou o uso da força desmedida, abrindo fogo contra manifestantes causando inúmeras mortes, o que ressonou na revolta da população contra a repressão exigindo a renúncia do presidente Bashar Al-Assad.

Com várias nações do Oriente Médio e Norte da África mergulhadas em descontentamentos semelhantes, os demais países passaram a combater uma onda crescente de rebeldes que armados contra os seus governos incendiaram conflitos locais e desta forma, a Síria se viu isolada sem apoio político para impor a sustentação do seu governo.

A Líbia, assistia a queda de Muammar Al-Gaddafi  o dirigente máximo, Egito, Tunísia haviam experimentado transições menos violentas e ´de fora deste eixo, o Irã sufocara o levante popular na onda verde que se insurgiu. Na síria porém, Assad parecia firme e determinado a sufocar a revolta interna e a desafiar os ditames internacionais numa demonstração clara de que o seu exército estaria ao seu lado.

Ao mesmo tempo, surgia no coração da Síria, diversos grupos de oposição armada, inúmeros nomes e siglas de origens distintas mas que, maquiavelicamente compartilhavam dos mesmos objetivos políticos, derrubar Assad a qualquer custo. Uma onda de deserções em massa e entrega sem resistência de material militar para os opositores se abate à Síria dando um indicativo de que os dias de Assad estariam próximo do fim.

Estes movimentos se declararam em marcha para lutar contra as forças de segurança. Brigadas inteiras foram formadas por ditos “rebeldes” que passam a controlar cidades, pequenos vilarejos e que imediatamente foram reconhecidos, recebendo apoio técnico, militar e suprimentos dos Estados Unidos, França, Canadá, dentre outras nações europeias e do oriente médio como Arábia saudita, Turquia e até mesmo de Israel.

CONTRA TUDO E CONTRA TODOS

Na cronologia dos eventos pode-se destacar Julho de 2011, quando dezenas de milhares de manifestantes voltaram às ruas e foram reprimidos pelas forças de segurança de Bashar Al-Assad.

Uma catástrofe humanitária se instaura e centenas de milhares refugiados deixam a Síria saindo preferencialmente pela Turquia em razão dos ferozes combates e bloqueios impostos por ambos os lados do conflito.

Alimentos, combustíveis e o acesso à água são rapidamente interrompidos e por diversas vezes, as forças humanitárias são impedidas de entrar na zona de conflito.

Lideradas pelo presidente Bashar Al-Assad, as Forças Armadas Sírias tentam manter o regime e enfrentam três principais inimigos distintos, o auto intitulado  Exército  Livre da Síria, formado por vários grupos que se rebelaram contra Al-Assad após o começo do conflito em 2011 e que passaram a receber o  apoio da Turquia, Arábia Saudita e Qatar.

Ao norte, o Partido da União Democrática formado pelos curdos, reivindicava a autonomia do povo curdo na Síria juntamente e que recebiam apoio das milícias curdas do Iraque e Turquia.

No auge do conflito surge uma força ameaçadora que se demonstra mais perigosa, o auto intitulado Estado Islâmico declara a implantação de um califado na região.

Em meados de 2012 os combates chegam aos arredores de Allepo, a maior cidade do país, antes do conflito. A maioria sunita passa a se manifestar contra o regime, demonstrando a força crescente dos grupos jihadistas o que alimenta ainda mais o poder dos grupos rebeldes que se aproveitam das fragilidades geradas no conflito.

Por volta de Junho de 2013 as organizações de ajuda humanitária, endossadas pelas Nações Unidas declaram que o conflito já teria ceifado 90 mil vidas e em agosto de 2013, num dos mais controversos eventos do conflito, um ataque químico mata centenas de moradores nos subúrbios de Damasco. Até hoje o regime Sírio acusa os rebeldes patrocinados pelas nações estrangeiras por esta atrocidade, porém este não foi o único evento do tipo.

Aproveitando-se da quase inépcia do regime que parece implodir, em Junho de 2014 o Estado Islâmico toma o controle de parte da Síria e do norte do Iraque proclamando assim o califado e surge ai uma ameaça muito mais contundente ao regime.

Neste momento os Estados Unidos ameaçam intervir no conflito, porém o que se vê são apoios pontuais, que para a comunidade internacional fica evidente se limitarem aos opositores de Assad sem nenhum efeito prático contra aquela que se considera a maior ameaça  a segurança internacional, o Estado Islâmico.

O SHOW DAS PODEROSAS

Em consequência do alegado ataque químico por forças de Assad, uma coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos lançam um ataque aéreo contra as forças Sírias.

Assad passa a combater além do levante interno, a ameaça das nações mais poderosas do planeta. Seu exército que aparentemente não consegue conter os avanços das forças rebeldes e do Estado Islâmico, perde a cada dia mais posições para os seus inimigos, a moral do SAA chega ao seu mais baixo nível e muitos dão como perdida a tentativa de manutenção do governo.

É Agosto de 2015 e a guerra toma um rumo sombrio e bárbaro, especialmente instituído pelos combatentes do Estado Islâmico, que promovem assassinatos em massa, a maioria por decapitação. Mas também, efetuam ataques com armas químicas contra as forças de Assad e civis na cidade de Marea.

Na esfera internacional, fala-se numa Síria pós Assad e a sua queda é considerada eminente. Num emblemático pronunciamento a comunidade internacional, Vladimir  Putin faz um discurso na assembleia das Nações Unidas em 28 de setembro de 2015, declarando seu total apoio à manutenção do regime de Assad, contrariando e enfrentando aqueles que se posicionavam de forma contrária.

Pedindo apoio para formação de uma ampla aliança para uma efetiva luta contra o terrorismo internacional o mandatário russo balança o cenário internacional  e prontamente no dia 30 de setembro cumpre a sua promessa com o envio à síria de uma componente aérea de caças, aeronaves de ataque, inteligência e salvamento. 

TROIKA SÍRIA

Com a chegada do apoio militar russo a Síria, as forças aeroespaciais passam a atacar posições de comando, logísticos e depósitos de armas, posicionando-se de forma contundente em favor do regime de Assad.

Surgem assim as alianças políticas, como a Coalizão Nacional da Síria Revolucionária e das Forças de Oposição.

Com apoio aéreo e inteligência russa e iraniana, apoio em solo pelas forças iranianas e libanesas, o ano seguinte começa com derrotas humilhantes para as forças rebeldes, em Março de 2016, as forças de Al-Assad reconquistam a cidade de Palmira das mãos do Estado Islâmico. Inesperadamente o conflito começa a ganhar um novo rumo, onde se vê um protagonismo maior por parte da Rússia e Turquia que passam a mediar reuniões entre as partes beligerantes a fim de alcançar a paz.

A frente de batalha Síria avança para retomar as suas cidades principais perdidas anos antes para os rebeldes e ou Estado Islâmico e em Setembro de 2016, sob o comando e presença das forças russas, o exército sírio bombardeia maciçamente Allepo, aniquilando a sua resistência e reconquistando a cidade. A batalha pela cidade que durou quatro anos tornou-se numa vitória estratégica para Assad e declarou à comunidade internacional que o seu regime não cairia nas mãos de seus adversários.

As vitórias em campo começaram a repercutir nas frentes adversárias de Assad que começaram a se evadir do conflito, desertar e negociar acordos de paz que quase nunca eram respeitados por ambos os lados.

Em Janeiro de 2017 começam as negociações do que ficou conhecido como o “Processo de Astana” quando vários atores da guerra tentaram mediar um cessar-fogo. O Acordo de Astana foi ratificado apenas pela Russa, Irã e Turquia, não sendo ratificado pelo governo sírio ou pela oposição que passou a comandar suas operações a partir do exílio.

Um novo ataque químico novamente atribuído ao Exército Sírio à população civil da cidade de Khan Shaykhun marca um novo e perigoso episódio deixando uma centena de mortos. Como resposta, pela primeira vez, os Estados Unidos atacam diretamente a base síria d’Al-Chaayrate onde dezenas de mísseis táticos tentam liquidar a base.

Em Setembro daquele mesmo ano, as Forças Democráticas Sírias e o Estado Islâmico travam uma luta pela posse de Deir ez-Zor, região rica em petróleo.

CORRAM PARA AS MONTANHAS

E em fevereiro de 2018, o exército de Bashar al-Assad, lança uma ofensiva violenta à região de Ghouta, reduto da  oposição mais ferrenha ao regime. Seguida de bombardeips e fogo maciço da artilharia a frente blindada abriu passagem para que as forças de Assad retomassem a cidade. A comunidade internacional alega um massacre civil de mais de 300 habitantes que se encontravam na linha de fogo de ambos os lados.

Em fevereiro de 2018, a ONU decretou uma pausa humanitária a fim de fazer entrar um comboio na zona de conflito de Ghouta Oriental, a pausa inicialmente respeitada pelas forças de Assad foi forçada pela pressão do presidente russo Vladimir Putin para que se pudesse entregar remédios, roupas e alimentos para os civis. Cerca de 400.000 pessoas estavam encurraladas entre os dois exércitos combatentes. O cessar-fogo, porém, não foi respeitado por nenhum dos lados e mais mortes ocorreram.

Na sequência em Abril de 2018 mais exatamente na sua primeira semana, um ataque com armas químicas foi efetuado na localidade de Jan Sheijun. Ainda que não se soubesse com certeza os seus autores, França, Estados Unidos e Reino Unido apostaram novamente no regime de Assad e desta maneira, mais uma vez atacaram as forças Sírias na região de Duma.

Atualmente o conflito tem se esfriado e a vitória de Assad e reconquista dos territórios tem promovido o retorno dos refugiados, com impasses ainda a decidir principalmente nas regiões sobre controle dos Curdos e das forças da Coalizão lideradas pelos Estados Unidos.

UMA NOVA GUERRA ESTÁ SURGINDO?

A retirada das tropas dos Unidos do nordeste da Síria expõe os grupos curdos diante de uma possível nova ofensiva Turca e os obriga a cooperar com o governo sírio. A Turquia anunciou, em 12 de dezembro, que iniciaria uma nova operação militar contra os combatentes curdos das Unidades de Proteção Popular conhecidas como o YPG, ligado ao partido Curdo da Turquia.

As Forças Democráticas Sírias, a aliança curdo-árabe formada essencialmente pelas milícias das YPG, já advertiram que uma operação da Turquia enfraqueceria as operações contra o estado Islâmico e também poderia afetar a situação de extremistas ocidentais detidos no norte da Síria.

Dirigentes curdos agora restabelecem contatos em Damasco com o governo sírio para discutir o futuro do norte do país, do qual o regime de Bashar al-Assad perdeu o controle em 2012.

A aliança curda afirma em Janeiro de 2019 que o grupo jihadista Estado Islâmico está encurralado em uma área de seis quilômetros quadrados na província síria de Deir ez-Zor, onde utiliza milhares de civis como escudos humanos. Uma aliança militar liderada pelas milícias curdas o exército democrático da Síria lançou em setembro de 2018 uma ofensiva contra os últimos territórios controlados pelo Estado Islâmico no sudeste da Síria, com o apoio da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos.

O estado Islâmico que ocupou amplos territórios na Síria e no Iraque em 2014 desmorona sobre seus pés e é perseguido dentro e fora da Síria.

Por seu lado, Damasco e Teerã assinaram em 28 de janeiro de 2019 amplos acordos e protocolos, incluindo um pacto de cooperação econômica “estratégica” e “de longo prazo”, para reforçar a cooperação entre ambos os países, aliados na guerra que assola o primeiro país desde 2011.

CONCLUSÃO

O conflito na Síria surgiu de uma forma inesperada e, tanto o governo como forças armadas foram pegos de surpresa, estavam completamente despreparados para aquela situação.

A dinâmica do conflito e a velocidade com que os eventos ocorriam tornavam difícil a possibilidade de se reverter o quadro,  especialmente porque as forças armadas Sírias estavam preparadas para uma guerra convencional e se depararam da noite para o dia com uma força oponente com características distintas, com táticas de combate totalmente novas e criativas, num conflito que se propagou pulverizado em muitos territórios, exigindo do exército Sírio uma mobilidade e rapidez da qual ele não era capacitado a atender.

A sua resposta foi lenta e inicialmente muito difícil, pois exigia uni presença no seu território. Além disso as condições da Guerra exigiram mudanças radicais nas estratégias de combate, os oponentes dispunham de drones, fuzis de assalto, mísseis anticarro modernos e uma variada gama de estratégias de combate apoiadas por potências internacionais. Nos primeiros anos do conflito os estrategistas sírios pouco puderam fazer para garantir a superioridade no conflito. Era frequente que as tropas sírias fossem pegas de surpresa e sem o apoio da Força Aérea, os avanços das frentes de combate eram praticamente nulos.

Assad demorou pelo menos três anos até conseguir organizar as forças, porém num dado momento o avanço dos oponentes cessou e o SAA passou a progredir   e passou a controlar as situações, logrando êxitos no campo de batalha.

Porém é de se ponderar que mesmo nos momentos em que se demonstrou fraqueza e eminente derrota, o Exército Sírio manteve-se forte e heroicamente resistiu a guerra implementada por soldados e armas de quase 80 nações na frente de batalha, enfrentando um inimigo  cujas formas de combate não eram compatíveis com aquilo que a Síria tinha se preparado para enfrentar.

Por essa razão as baixas foram pesadas nos primeiros anos, até que pouco a pouco a situação foi sendo controlada pelo regime,  até chegar em  2018 onde se registrou o menor número de mortos do conflito, com o exército sírio recuperando a maior parte do território e retomando naquela data cerca de 80% do território que antes estava nas mãos do Estado Islâmico.

O apoio do Irã, Líbano e Rússia contribuíram muito para esta vitória, mas ao contrário do que se pensa, não foram os únicos fatores responsáveis pela “virada de mesa” de Assad.

Nos próximos artigos serão abordados os demais fatores e o papel central do SAA na reconquista do território Sírio. Será apresentado o atual status das  Forças Armadas sírias e as ameaças que se enquadram no norte e nordeste do país, da possibilidade do ressurgimento do Estado islâmico e das intervenções internacionais, desejo das potências contrárias a manutenção do governo Assad.


Sobre  o Autor:

E.M. Pinto é Físico, Mestre em Física Aplicada e Doutor em Engenharia e Ciências dos Materiais, Professor Universitário editor do site Plano Brasil e de Revistas científicas  internacionais.

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Colômbia, as FARC e as dissidências

* Mapa: Em destaque azul, as frentes e colunas confirmadas em reincidência e localizadas por departamento. Em vermelho, aqueles sobre os quais existem indicações e relatórios. Imagem Adaptada pelo Plano Brasil do original (Infodefensa).

 


Autor: Erich Saumeth Cadavid

© Plano Brasil- 2018

Tradução e adaptação- E.M.Pinto- Plano Brazil

 

 


Em setembro de 2017, o comissário de paz Colombiano Rodrigo Rivera anunciou que um total confirmado de 11,345 homens entre soldados e militantes das FARC-EP,  tinham se desmobilizado segundo atestavam as listas com nomes e identidades que o mesmo grupo insurgente forneceu ao governo . (1)

Apenas sete meses depois, relatórios de diferentes organizações colombianas e internacionais especializadas no estudo da violência neste país, bem como nos meios de comunicação, houve uma revisão no número de membros do agora chamado grupo armado (GAO) FARC-EP, o qual havia alcançado um número recorde que oscila entre os 1.721 a 1.871 homens reengajados nas armas. (2)

De fato, em relação ao número total de membros das chamadas dissidências das FARC-EP, as diferentes instituições governamentais com competência nesta matéria ainda não conseguiram estimar e concordar com o valor exato.

Foi assim que o Ministério da Defesa estimou em 750 membros, enquanto as Forças Armadas acreditam que existam 500, assim como a Procuradoria Geral da República, embora o Ouvidor e a Agência para a Reincorporação e a normalização calcula 800 para os dissidentes, um número aproximado de 700 que a Fundação de Paz e Reconciliação calcula e que o Grupo de Crise considera próximo a 1.000 (3).

Finalmente, foi uma compilação do jornal El Espectador, que com números detalhados estima os dissidentes em aproximadamente 1800. (4)

 

Estes homens seriam agrupados em 18 grandes estruturas em todo o país, mas o Infodefensa.com foi capaz de determinar que há um total de 46 estruturas, divididas entre frentes, colunas móveis e gangues, que estão presentes em 19 dos 32 departamentos desta nação, ou há relatos ou indicações de atividades dissidentes que estão em processo de serem confirmadas pelas autoridades.

Neste sentido, investigando as informações fornecidas por fontes e relatórios das Forças Armadas, bem como de instituições, organizações e imprensa, a continuação da presença armada ou a reincidência em 21 frentes e cinco móveis e Foram estabelecidas indicações – no processo de confirmação – de outras 18 frentes e duas gangues também reincidentes e em atividades em certos territórios.

Estas estruturas estão presentes principalmente no sul-oeste do país (perto da fronteira com o Equador) e centro-leste e precisamente em regiões onde também são as maiores áreas de cultivo de folha de coca desta nação.

Os dez reinos da coca

De fato, de acordo com o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc), metade desses cultivos estaria localizado em dez municípios do país, nove deles nos departamentos de Cauca, Nariño e Putumayo, no sul do país. O ocidente colombiano e na área não só de maior concentração e tráfico de cocaína na Colômbia (5), cujo número de hectares para 2017 foram avaliados pelos Estados Unidos em aproximadamente 188.000 (6), o que no mercado daquele país representa 92% da cocaína consumida (7), apesar das 797,8 toneladas apreendidas entre 2016 e 2017 e de 60 mil hectares nos últimos dois anos, este último em grande parte graças ao empenho das Forças Armadas (8) .

Estes hectares são então o maior número nos últimos 21 anos, em grande parte motivados pela suspensão da pulverização aérea que desde outubro de 2015 ordenou o Conselho Nacional de Narcóticos, medida que o Tribunal Constitucional através de sentença de abril 2.017 proibiu a aplicação pelo governo colombiano, circunstâncias que sem dúvida aceleraram o desenvolvimento dos acordos de paz que avançaram até agora com as FARC-EP, que o solicitaram na negociação e que se tornou um dos as decisões mais irresponsáveis ​​na luta contra o narcotráfico da administração colombiana atual e de saída (9). Isto porque, apesar de seus benefícios indiscutíveis do ponto de vista ecológico e sanitário para as comunidades em particular, também está fora de questão que o  aumento acelerado do cultivo e, portanto, o tráfico ilegal gerou conseqüências que afetaram a segurança, convivência e ordem pública (além dos danos à saúde e ecológicos, já que a exploração madeireira, ao contrário da fumigação, tem efeitos permanentes) de toda a nação.

O boom e crescimento acelerado da área cultivada de folha de coca, (estimada em mais de 100% em relação a 2015 e particularmente nas áreas onde historicamente foram localizados), além da implementação de um processo mal planejado e  de incentivos para a substituição manual (Plano Nacional de Substituição Voluntária de Culturas Ilícitas – Pnis), tem sido o combustível econômico que permitiu aos dissidentes Farc-Ep se beneficiarem dos recursos para reconstruir e crescer seus quadros armados, com a consequente deterioração da situação de ordem pública nesses territórios e com um aumento notável no micro tráfego nas capitais e cidades intermediárias, que tem desencadeado a insegurança que afeta os níveis de segurança e coexistência cidadã no País.

A ordem no caos nas populações onde o Pnis vem se materializando, as situações de ordem pública também vêm se deteriorando desde o ano passado, conforme registrado pelo governo. O aumento na taxa de homicídios em 36 dos municípios onde o Plano de Substituição foi inserido e um aumento da mesma taxa em 5 5% das populações com presença de culturas e onde houve intervenção do Estado na questão da substituição, enquanto nos restantes 44% dos municípios cocalero e onde não houve ações do Estado, tem havido uma diminuição do número de homicídios. (10)

Claramente, então, e apesar das declarações do vice-presidente colombiano, Oscar Naranjo, no sentido da eficácia do NIP ligando 123.000 famílias ao programa e ter alcançado uma erradicação voluntária de 38.000 hectares (11), a realidade é que a atual administração não conseguiu implementar uma política coerente e voluntaria para a erradicação, ou forçando uma primeira vez para a suspensão de pulverização, que promoveu um aumento no tamanho médio das culturas, seguindo por incentivos em dinheiro para erradicar voluntariamente, o que teve o efeito de semear mais para obter o benefício econômico e terceiro porque as respostas do estado não são coordenadas e não integram segurança ou desenvolvimento rural sustentável, mesmo apesar dos consideráveis ​​orçamentos (em papel) ) que serão destinados durante os próximos 15 anos para tais efeitos. (12)

Na época, o crescimento da produção teve como resultado um maior volume nos estoques de medicamentos disponíveis, o que não é exportado em sua totalidade devido a apreensões pelas Forças Armadas da Colômbia, bem como por aqueles que realizam o governo dos EUA através de suas agências, que abriu a possibilidade de expandir o mercado doméstico, colocando quantidades consideráveis ​​de drogas nas cidades, estimando que a cada cinco toneladas, uma é deixada para consumo interno (13), a um preço razoávelmente baixo (e, portanto, acessível para os setores mais depreciados da sociedade), aumentando assim o consumo exponencialmente, o que, de acordo com o Departamento Administrativo Nacional de Estatística (Dane), resultou em um número próximo de um milhão e meio de consumidores (14)

Em um negócio que movimenta somas perto de dois bilhões de dólares anualmente (15), gerando uma série de dinâmicas derivadas dele e que afetam primeiro medir os núcleos familiares, a coexistência cívica e finalmente a segurança, este último problema considerado como um dos principais a ser resolvido pelos diferentes aspirantes à presidência colombiana. Juntamente com os regulamentos legais que buscam descriminalizar a dose mínima e uma política criminal e prisão muito pobre, promoveram um aumento do microtráfico, o que nos coloca como o quarto país no consumo a nível regional (16)

O Cenário atual é derivado diretamente do aumento das áreas de coca cultivada e não erradicada e de uma completa ausência de soluções possíveis levantadas pela administração nacional, o que só tem sido limitado para lembrar os benefícios dos acordos de paz, o que, obviamente, neste tópico são nulos.

Esta tese é reforçada com o fato de que esse problema não foi abordado com uma resposta do tipo intersetorial pela institucionalidade, tentando não apenas compreender a expansão do fenômeno, mas também compreender a dinâmica nesses territórios e não apenas aumentar a força nos cinco departamentos onde estão localizadas 80% das plantações (todas coincidentes), tentando aliviar a situação e quase limitar-se exclusivamente à apreensão da droga procesada.

Paradoxalmente, em áreas com a maior safra sob controle agora em grande parte a dissidência e os níveis de violência das Farc tendem a ser baixas, nessas áreas e vias de tráfego exercem frentes, mas tendem a aumentar nas cidades pelo microtráfico e disputas que pela comercialização e controle do território geram essa atividade entre as gangues criminosas. (17)

Sob o controle de terroristas, as áreas com maior presença de cultivos de coca são precisamente aquelas em que não apenas as FARC estavam historicamente presentes, mas também onde suas dissidências estão operando novamente. Na verdade, desde o início do processo de desmobilização e de concentração em 19 veredales áreas de transição de Normalização (zvtn) e os nove pontos transitórios para a Normalização (PTN) (18), agora chamados Espaços de Formação Territorial e Reintegração (ETCR), 15 aldeias nestas áreas tiveram plantações de coca, bem como 15 também rotas de tráfego para coca processada e em cinco aldeias do PTN com culturas e rotas de tráfico de drogas, tendo sido as FARC que precisamente apontam a localização para zvtn e ptn. (19)

Este link ao lado da histórica (mas na história recente das FARC-EP),foi consagrado no Acordo de 4: Ilícito acordo de paz drogas pelo qual o governo colombiano concordaram em “lançamento políticas e programas deste ponto “enquanto as FARC-EP concordou acabar com o conflito, acabar com qualquer relacionamento, ( 20),

Um compromisso que foi quebrado por um dos seus membros, Jesus Santrich, pertencente ao Nacional (e ex-funcionários Central), depois que ele foi acusado de tráfico de drogas e procurado para extradição pelo governo dos Estados Unidos. O impressionante sobre esta detenção, o que demonstra o poder da corrupção gerada pelo tráfico de drogas e realização permeiam o círculo de maior poder reinserido importante desta organização é que a distância de seus membros dessa atividade praticar e uma percentagem preocupante não foi dada, sendo esta mais evidente para muitos setores políticos e sociais da nação, que alertou o governo durante as conversações de paz da possibilidade de reincidência na mesma, (não punidos acordos sob ponto de extração artigo que foi finalmente restaurado pelo congresso), mas não para a administração da Colômbia, em um esforço para legitimar os acordos de paz, propositadamente ou ignorar os avisos e indicações  claras ao resto do país. (21)

No final eles tiveram que obter o syndication EEUUL a Jesus Santrich o que realmente mostra é que, embora o procurador-geral colombiano  argumente que ele estava investigando, tinha em prática para ser um governo estrangeiro (Estados Unidos) aquele que investigou suas atividades, o acusou e pediu a extradição para o seu julgamento, a ponto de continuar a considerar este grupo como uma organização dedicada ao tráfico de drogas. Esta, infelizmente, provou não apenas que os acordos foram violados, como também, que a justiça externa que deve a responsabilidade do trabalho colombiano e à inação de outra forma vergonhosa pelo governo nacional, que ainda não foi capaz de explicar como em no país pós-conflito com um guerrilheiro desmobilizado, um ex-chefe pode contrabandear dez toneladas de cocaína (plantado, colhido, processado, transportado e vendido), precisamente nos territórios que hoje controlam a dissidência dessa organização. Não se entende como este concerto criminoso foi escondido.

A saída de Ivan Marqués de Bogotá para ETCR de Miravalle em Caqueta acrescenta, com o aparente propósito de acalmar os medos do reinserido, mas com precisão e, em seguida, para dialogar com um dos mais importantes, o Sr. conhecido como conhecido como El Paisa e ex-comandante da coluna móvel Teófilo Forero, alcançado o efeito oposto, ao decidir este deixar o ETCR e declarar única volta para ela, Santrich foi lançado, levando a se perguntar se esta organização está disposta não só a reconhecer a ação da justiça contra os seus membros, mas também se esta será uma resposta que vai estender .

Além disso, reflete a fraqueza de um processo que foi construído em grande parte motivado para buscar uma solução alternativa e consensual para o problema do tráfico de drogas, em seu principal produtor – as FARC -, que evidentemente não conseguiu, nem quis se destacar desse fenômeno.

Na verdade e neste sentido podemos antecipar que este ano, o governo colombiano vai apresentar uma proposta alternativa para substituir os cultivos de folha de coca, a fim de  legitimar o uso de armas, afirmando ser os porta-vozes de um setor da sociedade colombiana (colonos e camponeses do sul-oeste do país) e, por outro, tomar distância aparente da FARC original, e apresentado como um grupo externo e oposição para o processo de paz, a reincidência das FARC, Nos territórios onde eles fizeram a sua presença antes de sua desmobilização, e o aumento exponencial em plantações de folha de coca em si, é detalhado na identificação das frentes e colunas das quais é incertom onde crimes são novamente cometidos e aqueles que já começaram a ser relatados ou dos quais há notícias ou evidências sobre sua aparência renovada.

Estes são então e discriminados por departamentos (norte a sul): –

La Guajira: Relatórios e evidências: Parte dianteira 19 e enfrenta 59-Bolívar: relatos e evidências: Frente 37-Córdova: Relatórios e evidências: Front 58 Antioch: Confirmado : 18 frontal e dianteira 36Reportes e indicações: dianteiro 5 e 57 (Uraba) -Northern Santander: Relatórios e indicações: Frontal 33 (Catatumbo) Arauca: Confirmado: Frontal 25Reportes e sinais: 10 Frente-choco: Relatórios e indicações: frente 34-Valle: Confirmado: 30Reportes frente e sinais: frente 60 e Coluna móvel Miller Perdomo (MP) -Tolima: Relatórios e indicações: frontais 21 e frente Tulio Varon (TV) -Huila: Relatórios e indicações: frente 3 e frente 17-Cauca: Confirmado: frente 6 da frente 30, Coluna Miller Perdomo móvel Jacobo Arenas móvel Coluna e (JA) -Nariño: Confirmado: frente Oliver Sinisterra (sul unida Guerrillas), da frente 29, Mariscal Sucre móvel Coluna (MS) e Daniel Aldana Mobile Column (DA) Relatórios e pistas: Frente 64, La Banda de la Vaca (BV) e pessoas comuns (GC) .- alvo: Confirmado: Frontal 1 frontal 7, da frente 27, da frente 40, 44 e Dianteira 62Reportes e sinais: Frontal da frente 42 e 43-Vichada: Confirmado: da frente 16, 44 frontal, frente Acacio Medina (AM) -Guaviare: Confirmado: Frontal 1-Guainía: Confirmado: Frontal 16 Frente Acacio Medina (AM) -Vaupés: Confirmado: Frontal 1 Frontal Vaupe (FV) .- Caquetá: Confirmado: frente1, frontal 7 Frontal 14, 15 frontal, frente 49, Front Duvar Valencia (DV), Coluna móvel Teófilo Forero (TF) relatórios e indicações: frontal de 3 Putumayo: confirmado: Front 48Reportes e indicações: Front total de 32in 21 Frentes em seguida, confirmar e 5 colunas móvel reincidentes e relatórios e indicações de 18 frentes e 2 bandas em potencial reincidência, para um total 46 estruturas das FARC-EP, em situações de reincidência ou possível recorrência apenas um ano e 5 meses de acordos de paz assinados na Colômbia Bibliografia:

(1) -kienyke.com: Fechado as listas das Farc.

(2) e (4) -colombia2020.eles pectador.com: Pie força aproximada disidencia de Farc na Colômbia

(3) -ideaspaz.org dissidências

(5) -unodc.org:. Colômbia, censo 2017.

(6) -crisisgroup.org: grupos Armadas colombiano

(8) -Infodefensa.com: US envia fundos para a Colômbia

(9) -corteconstitucional.gov.co: Acórdão T080 2017

(10) -verdadabierta.com: substituição voluntária de cultivos ilícitos

(11) – Semana vivo .. : general Naranjo e Ariel Avila, lupa à implementação

(12) -semana.com Entrevista Daniel M. Rico

(13) -eltiempo.com .. microtrafficking na Colômbia

(14) e (16) -dinero.com.: . como eu mover o negócio da microtrafficking na Colômbia

(15) -periscopiopolitico.com.co .. microtrafficking e tráfico de drogas na Colômbia

(17) -Week ao vivo que tanto poder tem apelido Guacho

(18) -bbc.com.uk: Farc concentrada nas áreas veredales

(19). -colombiacheck.com maioria das áreas encontram-se perto de culturas veredales coca

(20) -colombia2020.elespectador.com .. item 4, drogas ilícitas

(21 )-o tempo. com: A traição de trichi aos acordos de paz.

 

 

Fonte: Infodefensa

 


Sobre  o Autor:
Erich Saumeth é Analista e pesquisador colombiano sobre questões de Defesa, Segurança Nacional, Geopolítica e Políticas Governamentais. Mestrado em Estudos Políticos com ênfase em Políticas de Defesa e Segurança, Especialista em Estudos Político-Econômicos, Diploma em Estudos Geopolíticos, Diploma em Desenvolvimento Humano, Advogado. Especialidades: Defesa – Segurança – Coexistência – Governo. Corresponsal para Colombia de Tecnología Militar e Infodefensa.com

 

 

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5 de fevereiro de 2018: 28 anos, 2 meses e 26 dias da queda do Muro de Berlim

Em 5 de fevereiro de 2018, fim da separação física da cidade completa mesmo tempo que sua existência. Berlim reunificada ainda guarda resquícios do Muro, mas divisão está quase completamente superada.

Alemães dos dois lados ocupam o Muro de Berlim em 11 de novembro de 1989

Berlim comemora nesta segunda-feira (05/02) uma data histórica: 28 anos, 2 meses e 26 dias da queda do Muro. Você deve estar se perguntando por que esse aniversário quebrado é tão importante? É que a data coincide exatamente com o período que o Muro dividiu a capital alemã: 28 anos, 2 meses e 26 dias.

Ou seja, nesta segunda-feira, o fim da divisão física da cidade completa o mesmo tempo que a sua existência. Por isso, esta data coincidente está sendo chamada de Dia do Círculo (Zirkeltag) pela imprensa local. Palestras e uma exposição fotográfica no Memorial do Muro de Berlim marcam esse aniversário um pouco diferente de um dos episódios mais emblemáticas da história berlinense.

Erguido em 13 de agosto de 1961, o Muro impedia a fuga de cidadãos da República Democrática Alemã (RDA) para a Alemanha Ocidental. Até esta data, a RDA já havia perdido um sexto de sua população. Embora a segurança na fronteira entre as duas Alemanhas estivesse “resolvida” pelo regime comunista, em Berlim ainda era possível, sem muito esforço, fazer a travessia para o lado capitalista. Afinal, a cidade era dividida entre dois Estados e não tinha uma clara fronteira física.

Assim, para acabar com a evasão, do dia para a noite uma cerca de arame farpado restringiu a movimentação dos moradores. Aos poucos, o arame foi sendo trocado por blocos de concreto e abrindo espaço para a “faixa da morte”, como essa região composta por diversas barreiras de muros, cercas e torres de observação na fronteira entre a parte ocidental e oriental era conhecida na Alemanha Ocidental. Nessa faixa era proibida a circulação de pessoas e nem é preciso dizer por que ela ganhou esse apelido.

Nos 28 anos, 2 meses e 26 dias em que dividiu a cidade, o Muro foi constantemente aperfeiçoado e mesmo assim não evitou completamente a fuga de cidadãos da RDA. Mais de 70 túneis foram construídos ao longo da fronteira. As tentativas de fuga também custaram vidas. Pelo menos 140 pessoas foram mortas tentando atravessar para o outro lado.

O Muro determinou ainda o desenvolvimento da cidade, pois cada lado tomou um rumo diferente até 9 de novembro de 1989, quando a divisão física veio abaixo. Pouco tempo depois, as Alemanhas e as Berlins voltaram a ser uma só.

Hoje, 28 anos, 2 meses e 26 dias após a queda do Muro, poucas coisas ainda lembram essa divisão. Resquícios do Muro restam em pouquíssimos pontos da cidade. A sua área mais extensa, a East Side Gallerie, com 1,3 quilômetro de extensão, perdeu alguns metros nos últimos anos devido à construção de empreendimentos imobiliários e continua ameaçada por investidores que desejam construir na faixa de terra localizada entre o rio Spree e essa lembrança da Guerra Fria.

O tempo foi ainda unindo a cidade arquitetonicamente. Edifícios em péssimo estado de conservação, localizados no antigo lado oriental, foram restaurados. Prédios modernos foram construídos em ambas as Berlins, o bonde que só passa na RDA avançou para o lado ocidental, e a “faixa da morte” mais larga dentro da cidade, a Potsdamer Platz, transformou-se num grande centro comercial povoado de arranha-céus.

Poucas marcas desta divisão permanecem, como as típicas construções habitacionais da União Soviética, conhecidas como Plattenbau, nos bairros Marzahn ou Lichtenberg, a imponente avenida Karl Marx Allee e a tradicional rua de compras Kurfürstendamm, apelidada de Ku’damm pra facilitar a pronúncia. Ou ainda os pares de instituições e atrações, localizadas uma em cada lado da antiga cidade: os dois zoológicos, as duas bibliotecas estaduais, as duas óperas.

Quase três décadas após sua queda, o Muro foi substituído por uma marcação no chão para evitar seu esquecimento e deu origem a uma ciclovia de 160 quilômetros. E para aqueles que acham que não há nada novo para se descobrir nesta história, o Muro continua surpreendendo. Recentemente foi anunciada a descoberta de uma parte esquecida durante a demolição e de um antigo túnel de fuga.

  • Clarissa Neher é jornalista freelancer na DW Brasil e mora desde 2008 na capital alemã. Na coluna Checkpoint Berlim, publicada às segundas-feiras, escreve sobre a cidade que já não é mais tão pobre, mas continua sexy.

 

Fonte: DW

 

Muro de Berlim se foi há tanto tempo quanto existiu

Barreira dividiu a cidade por 28 anos, 2 meses e 26 dias, mesmo tempo que sua queda completa neste 5 de fevereiro. Berlinense que lutou contra o Muro relembra sua história.

Construção do Muro de Berlim, em agosto de 1961

O Muro de Berlim dividiu a cidade entre leste e oeste por exatamente 28 anos, dois meses e 26 dias. E esta segunda-feira (05/02) marca um ponto de virada: o Muro não existe mais pelo mesmo tempo em que esteve de pé.

A construção, iniciada em 1961, foi projetada para impedir a fuga de alemães orientais para o oeste, o que forçou os fugitivos a criar métodos mais criativos para conseguir chegar à Alemanha Ocidental. Alguns conseguiram a ajuda de prestativos berlinenses ocidentais para tentar atravessar por onde ninguém conseguiria vê-los: pelo subsolo.

Holzapfel: “Sempre haverá pessoas que irão lutar contra a injustiça”

Estima-se que cerca de 70 túneis foram escavados por baixo do Muro de Berlim. Recentemente, um arqueólogo encontrou a entrada de um desses túneis próximo ao parque Mauerpark. A redescoberta desenterrou a história de um homem cuja oposição ao Muro começou com o seu empenho em abrir uma passagem subterrânea em direção ao leste.

“Você não podia simplesmente escavar neste tipo de solo. Você tinha que realmente ‘abrir’ o caminho”, afirmou o então berlinense ocidental Carl-Wolfgang Holzapfel. “Isso foi o que tornou tudo tão difícil e frustrante. Às vezes, eu tinha a sensação de que não estava chegando a lugar algum.”

Em 1963, Holzapfel, juntamente com amigos, começou a escavar sob um armazém desativado no bairro de Wedding. O objetivo do grupo era chegar a um porão a 80 metros de distância localizado no lado oriental do Muro para que Gerhard Weinstein, um conhecido de Holzapfel, pudesse escapar para a Alemanha Ocidental e se reencontrar com a filha.

Holzapfel começou a protestar contra o muro aos 17 anos de idade

Após quatro meses de trabalho árduo, as notícias do esforço do grupo chegaram à Stasi, o serviço secreto da antiga Alemanha Oriental. Weinstein e outras 20 pessoas que planejavam usar o túnel para fugir foram detidas. Holzapfel nunca mais ouviu falar delas.

Holzapfel, hoje com 73 anos, teve uma amarga decepção ao receber a notícia, mas insiste que os esforços de seu grupo não foram totalmente em vão. “Foi um lembrete de que sempre haverá pessoas que irão lutar contra a injustiça e que encontrarão maneiras de miná-la”, afirma.

Para Holzapfel, o túnel marcou o início de uma luta que duraria quase três décadas. “Aos 17 anos, eu disse para mim mesmo: você lutará contra esse Muro – porque ele é injusto – até vê-lo cair ou até fim da sua vida”, lembra.

Em 1965, ele foi preso durante uma manifestação pacífica no posto de fronteira conhecido como Checkpoint Charlie e passou nove meses na terrível prisão da Stasi no bairro de Hohenschönhausen. Após ser liberado, Holzapfel continuou protestando e permaneceu convicto de que veria a Alemanha reunificada.

No 28º aniversário da construção, em 1989, Holzapfel se envolveu na bandeira alemã e se deitou sobre a linha divisória

No 28º aniversário da construção do Muro, em 1989, Holzapfel fez talvez o seu mais simbólico ato de protesto. “Eu pensei: agora, eu preciso fazer algo para mostrar claramente a loucura de se dividir uma cidade”, diz.

Ele se envolveu na bandeira alemã e deitou no chão do Checkpoint Charlie – com o coração e a cabeça no leste e os pés no oeste – e a linha branca que marca a fronteira parecia correr sobre seu corpo. “Assim como eu sou obviamente um corpo, Berlim é um todo, e a Alemanha é um todo”, argumentou.

Menos de três meses depois, em 9 de novembro de 1989, o Muro de Berlim caiu. No dia seguinte, Holzapfel se encontrava no ponto da praça Postdamer Platz onde leste e oeste se encontravam. “Eu estava chorando. Não havia nada melhor – e nada pode superar esse sentimento.”

Há planos para que o túnel de Holzapfel seja preservado e integrado ao Memorial do Muro de Berlim. Para ele, retornar à entrada do túnel é sempre uma experiência emocionante. “Mas não é apenas a minha história. É um pedaço da história de Berlim”, diz.

Fonte: DW

Opinião: O Muro de Berlim ainda existe

Neste mês de fevereiro igualam-se o período de existência da barreira entre as duas Alemanhas e o transcorrido desde sua queda. Mas as velhas fronteiras entre Leste e Oeste perduram, opina o jornalista Marcel Fürstenau.

Berlim: exatamente o mesmo tempo com e sem o Muro

Eu cresci com a presença do Muro de Berlim, ele ficava a só umas centenas de metros do meu playground. Na adolescência – nesse meio tempo, nós tínhamos nos mudado –, eu olhava pela janela da cozinha para o outro lado, para o leste de Berlim.

Eu estava cercado, mas me sentia livre. E não era só autossugestão, pois podia viajar para toda parte, a qualquer momento. Até mesmo para a Alemanha Oriental (RDA), onde viviam nossos compatriotas que não podiam vir até nós. A não ser que fossem aposentados.

Quando, em 13 de agosto de 1961, foi construída aquela monstruosidade, com seus 160 quilômetros de extensão, eu ainda não existia, só vim ao mundo um ano e pouco mais tarde. Portanto o Muro era mais velho, mas eu sobrevivi a ele.

Agora eu já existo há quase o dobro do tempo que a “muralha antifascista” – assim os governantes da Alemanha comunista denominavam sua misantrópica, mortal construção, que corajosos cidadãos do Leste fizeram após insuportavelmente longos 28 anos, dois meses e 26 dias. E neste 5 de fevereiro completa-se exatamente esse mesmo tempo que o Muro de Berlim é história.

Portanto ele não existe mais, exceto alguns restos que foram preservados. E que são também necessários para dar à posteridade ao menos uma ideia das consequências que muros podem ter sobre os seres humanos, consequências que costumam perdurar ainda por muito tempo.

O elemento desagregador do passado se torna presente quando eu converso com antigos cidadãos da RDA sobre a vida deles na Alemanha unificada; quando, por exemplo, eles reclamam, geralmente com razão, de suas aposentadorias mais baixas. É vergonhoso elas ainda não terem sido integralmente equiparadas, passados mais de 28 anos da queda do Muro.

Não me espanto nem um pouco que muitos alemães-orientais continuem se sentindo como cidadãos de segunda classe. Nunca entendi por que das elites da RDA foram substituídas, em sua maioria, por gente do Oeste.

No caso de funcionários especialmente contaminados pela ideologia política, percebo a motivação, óbvio. Mas a purgação em empresas, universidades, ciência e cultura foi, para o meu gosto, muito mais além da medida absolutamente indispensável. Em pleno 2018, a presença alemã-oriental nos postos de liderança de todos os setores da sociedade está muito abaixo da média.

Devo considerar um consolo o fato de há 13 anos a minha chefe de governo ser Angela Merkel, socializada na Alemanha Oriental, porém nascida em Hamburgo? Não estou sendo tão sarcástico quanto pareça: pelo contrário, tenho plena convicção que teríamos avançado muito mais em termos de reunificação interna se houvesse mais gente do tipo de Merkel nas funções mais altas. Esse foi um dos motivos por que lamentei Joachim Gauck não ter se candidatado para um segundo mandato presidencial, em 2017.

No que se refere a um outro campo da política, há muito parei de querer entender: refiro-me à consequente marginalização do partido A Esquerda, originário da RDA. Até hoje os conservadores cristãos da CDU/CSU no governo se recusam a apresentar propostas em conjunto com os esquerdistas – o caso mais recente foi o debate sobre o antissemitismo, em meados de janeiro.

Esse é um tema em que todas as bancadas – excetuada a da Alternativa para a Alemanha, de tendência ultradireitista – estão de acordo: o antissemitismo deve ser incondicionalmente repudiado. Ainda assim, democrata-cristãos e social-cristãos se recusaram a unir forças com A Esquerda. Nesse momento, o mais tardar, eu teria desejado uma intervenção decidida de Angela Merkel, enquanto chanceler federal e líder da União Democrata Cristã (CDU)!

Para mim não há dúvida: quem até os dias atuais rejeita toda uma ala política em razão de suas raízes históricas, carece de maturidade democrática. É assim que se cimentam muros mentais num país em que o Muro de concreto caiu em 9 de novembro de 1989 – portanto 28 anos, dois meses e 27 dias atrás.

A atual data, em que essa barreira completa exatamente o mesmo tempo de não existência do que de pé, seria o momento ideal para também demolir os últimos muros nas cabeças. Os jovens nos mostram como isso é possível: para a grande maioria deles, Leste e Oeste não passam de pontos de orientação geográfica.

Recentemente celebrei na minha família o primeiro casamento alemão-alemão – como se diria antigamente. Ambos nasceram poucos anos antes da queda do Muro de Berlim, ele, no estado de Baden-Württemberg, ela, na Saxônia. Hoje o casal vive em Leipzig, a cidade dois heróis, cujos cidadãos contribuíram decisivamente para a revolução pacífica da RDA, com seus legendários “protestos de segunda-feira”.

Felizmente histórias como essa são normais entre a geração de meus parentes mais jovens, à qual também pertencem os meus filhos. Muitos dos mais velhos poderiam tomá-los como exemplo, embora isso seja difícil para grande parte deles, por motivos em parte compreensíveis.

Marcel Fürstenau

No que se refere aos responsáveis na política, desejo que também os últimos “guerreiros frios” finalmente reconheçam os sinais do tempo e façam jus à própria responsabilidade. Só aí os últimos muros também poderão cair.

  • Marcel Fürstenau é jornalista da DW

Fonte: DW

 

 

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Stalingrado, onde Hitler começou a perder a guerra

Há 75 anos, a Batalha de Stalingrado terminou com a rendição do 6º Exército da Wehrmacht alemã. O grande ponto de guinada na Segunda Guerra. Até hoje, a vitória soviética tem um significado importante para muitos russos.

O centro de Stalingrado, destruído ao final da batalha

Originalmente, a cidade industrial nas margens do rio Volga era para a Wehrmacht apenas uma etapa no objetivo final de conquistar os campos petrolíferos do Cáucaso. Mas devido ao seu nome, a cidade de Stalingrado tinha para Adolf Hitler, assim como para Josef Stalin, um significado que ia além do estratégico.

Por causa das rotas muito longas de abastecimento, a ofensiva alemã do 6º Exército sob o comando do general Friedrich Paulus contra Stalingrado era arriscada desde o início. A ofensiva começou em meados de agosto de 1942, pouco mais de um ano após o regime nazista ter declarado guerra à União Soviética. “Os russos estão no fim de suas forças”, disse Hitler, na época.

Isso seria comprovado posteriormente como um grande equívoco. Apesar de forte resistência, a Wehrmacht (Forças Armadas da Alemanha durante o Terceiro Reich entre 1935 e 1945) conseguiu ocupar a maior parte da cidade até meados de novembro. Ao mesmo tempo, o Exército Vermelho lançou um movimento de pinça – uma manobra militar na qual os flancos do exército oponente são atacados simultaneamente por duas frentes defensivas.

Soldados alemães descarregam suprimentos de avião – o cerco russo dificultou o abastecimento do 6º Exército

Já no final de novembro, todo o 6º Exército e partes do 4º Exército Panzer (unidade blindada) estavam cercados – quase 300 mil soldados alemães. Mas sob ordens de Hitler, eles tiveram de manter suas posições a todo custo. De forma parecida, Stalin havia emitido a ordem de “não retroceder um passo” em julho.

Como nenhum lado deixou sua posição, formou-se um cerco no qual a situação se deteriorou rapidamente. Por meio de transporte aéreo, os soldados receberam provisões por semanas. Mas, em nenhum momento, os carregamentos foram suficientes. E com o avanço do Exército Vermelho cada vez menos suprimentos chegavam aos alemães.

Durante o inverno, temperaturas atingiram 30 graus Celsius negativos. A repetitivamente prometida “ofensiva de resgate” falhou.  A maioria dos soldados alemães cercados em Stalingrado não morreu em combate ou por ataques, mas de desnutrição e hipotermia.

Em 31 de janeiro de 1943, apesar da ordem contrária de Hitler, general Friedrich Paulus se entrega aos russos

Paulus resistiu até (quase) o fim

No entanto, o general Paulus seguiu comprometido com a rígida ordem de Hitler de “aguentar até o último” e, em 8 de janeiro, rejeitou uma proposta soviética de capitulação alemã. Ainda em 29 de janeiro – a situação já era completamente irreversível – Paulus enviou a seguinte mensagem a Hitler:

“No aniversário de sua conquista do poder, o 6º Exército saúda seu líder. A bandeira com a suástica ainda está hasteada sobre Stalingrado. Nossa luta pode ser um exemplo para as gerações vivas e futuras de nunca capitular, mesmo na situação mais desesperadora, e então a Alemanha vencerá. Salve, meu Führer.”

Mas a lealdade de Paulus tem seus limites. Quando o Exército Vermelho invadiu em 31 de janeiro o quartel-general montado no porão de uma loja de departamentos, o comandante nazista é feito prisioneiro. Ele proibiu seus oficiais de cometerem suicídio, porque deveriam compartilhar o destino dos soldados comuns. As tropas alemãs capitulam.

Enquanto isso, o cerco a Stalingrado se rompe em dois – um no norte e outro no sul. No fim de janeiro, os soldados alemães desistiram no sul. Em 2 de fevereiro, também no norte. Os soldados são capturados pelas Forças Armadas russas. Hitler ficou furioso quando descobriu.

Batalha e carnificina 

O balanço da batalha: mais de meio milhão de mortes no lado soviético, incluindo numerosos civis. Por um longo tempo, Stalin impediu a retirada da população civil. O Exército Vermelho não levou em consideração seus próprios cidadãos. Ainda nos primeiros dias de combate, mais de 40 mil civis são mortos em ataques aéreos. Dos cerca de 75 mil habitantes que permaneceram até o fim da batalha, muitos morreram de fome ou congelados.

Do lado alemão, as estimativas variam entre 150 e 250 mil soldados mortos. Dos quase 100 mil alemães que foram presos pela União Soviética, apenas aproximadamente seis mil sobreviventes retornaram à Alemanha em 1956, incluindo Paulus.

A Batalha de Stalingrado não foi a que contabilizou o maior prejuízo para a Wehrmacht, nem era a mais importante em termos militares, mas “o significado psicológico de Stalingrado é imenso e, nesse sentido, foi crucial para a guerra”, disse o historiador Jochen Hellbeck, da Rutgers University, em Nova Jersey. “Também porque desde o início ambos os lados declararam se tratar de uma batalha decisiva.”

Soldados alemães, após serem presos por forças russas, sendo retirados do que sobrou de Stalingrado em 1943

Hellbeck, que compilou testemunhos de veteranos alemães e russos da Batalha de Stalingrado no site Facing Stalingrad, disse que o Exército Vermelho queria posteriormente mostrar ao mundo inteiro “que eles tinham derrotado o melhor exército do mundo”.

Stalingrado, que foi renomeada Volgogrado em 1960, ainda está repleta de memórias da batalha. O Museu Stalingrado é uma das exposições mais visitadas na Rússia. Quão forte as consequências da batalha imperam até hoje é evidenciada também pela discórdia em Moscou em relação à comédia britânica “Stalin’s Death” (A morte de Stalin, em tradução literal). Na sátira, o ditador é culpado pelas mortes de milhões de cidadãos soviéticos. Mas ele também representa a vitória sobre a Alemanha nazista.

O ministro da Cultura, Vladimir Medinsky, proibiu o filme em cinemas russos com o argumento de que “muitas pessoas […] consideram isso como uma zombaria insultante do passado soviético”. E, segundo Medinsky, seria particularmente inadequado mostrar o filme na véspera da celebração da Batalha de Saltingrado em 2 de fevereiro.

O que falta para gesto à lá Verdun?

Há reconciliação após 75 anos? Um sucinto sim. Mais de 700 mil pessoas – soldados e civis – morreram nos combates e no cerco. Até hoje, cadáveres e valas comuns sãos descobertos durante trabalhos de construção na cidade e em seus arredores. E, evidentemente, também restos mortais de soldados alemães.

Graças à cooperação entre o Volksbund Deutscher Kriegsgräberfürsorge (organização humanitária responsável pela manutenção e conservação de sepulturas alemãs de guerra na Europa e no norte da África) e autoridades russas, os restos mortais estão sendo transferidos para cemitérios militares oficiais, como o de Rossoschka, nos arredores de Volgogrado. Lá estão enterrados os soldados da Whermacht e membros do Exército Vermelho, separados por uma rua, mas ainda assim no mesmo cemitério.

Até que ocorra um gesto de reconciliação semelhante ao aperto de mão entre o então chanceler federal alemão Helmut Kohl e o ex-presidente francês François Mitterand, em 1984 nos antigos campos da Batalha de Verdun, um longo caminho ainda terá de ser percorrido. O historiador Hellbeck disse sentir falta de prontidão em ambos os lados.

Na Rússia, ainda existem reservas. Mas, mesmo na Alemanha, não há “predisposição e nenhum sentimento que corresponda ao sentimento demonstrado para com os vizinhos ocidentais –franceses, britânicos ou americanos”. Segundo Hellbeck, deve-se sempre reconhecer um pedaço da memória do outro.

“Não se pode fazer de Stalingrado um abate em massa sem sentido como memória obrigatória entre alemães e russos”, afirmou Hellbeck, pois a Batalha de Stalingrado não foi sem sentido para os russos. Mas Hellbeck mantém a esperança: “Espero ainda presenciar que um estadista alemão e um presidente russo deem as mãos perto das sepulturas de Stalingrado”.

Fonte: DW

 

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75 anos da batalha de Stalingrado

Passaram-se 75 anos do final daquela que foi certamente a maior batalha da Segunda Guerra Mundial, 75 anos desde o momento em que os russos, seus aliados e milhões de pessoas de todo o mundo deram um suspiro de alívio coletivo.

Blindados alemães destruídos em Stalingrado. – JOSÉ MARÍA CASTAÑÉ COLLECTION

LYUBA VINOGRADOVA

O decisivo papel das mulheres na maior batalha da Segunda Guerra Mundial.

Todos vinham acompanhando as informações de Stalingrado com angústia e de forma compulsiva, haviam perdido o ânimo quando parecia que o destino da cidade pendia de um fio, e se alegraram quando chegavam boas notícias. O aterrador e imparável avanço dos Exércitos de Hitler por toda a Europa desde 1939 se deteve. O preço foi a destruição de uma bela cidade à beira do rio Volga.

A caminho da cidade sitiada, em agosto de 1942, o escritor Vasili Grossman, que mais tarde elogiaria a heroica luta pela defesa de Stalingrado, notou repetidamente e com grande tristeza o imenso ônus que recaía sobre as mulheres. Com todos os homens incorporados ao Exército, elas tinham que se virar como podiam. Trabalhavam nas fábricas, dirigiam tratores e criavam os filhos sozinhas. Não tinham ninguém em quem se apoiar. Eram cada vez mais convocadas para cobrir os buracos deixados pelas terríveis perdas do primeiro ano de guerra. Começaram a assumir funções outrora masculinas. A espantosa catástrofe lhes endureceu o coração.

“Hurra, hurra, hurra! Os alemães estão totalmente destruídos, os prisioneiros de guerra partem em longas filas. Dá nojo vê-los. Cheios de muco, esfarrapados, congelados. São a escória!”, escreveu uma jovem de Stalingrado em seu diário em 3 de fevereiro de 1943. Referia-se aos soldados e oficiais do Sexto Exército da Wehrmacht, que haviam se rendido na véspera. Cerca de 100.000 prisioneiros, dos quais só metade sobreviveu. Andavam em fila e tentavam se manter perto dos guardas ou no centro da coluna, para estarem mais ou menos a salvo dos civis. Os alemães capturados ofereciam uma imagem patética: mortos de fome, enregelados e doentes, envoltos em mantas para se aquecer. Os guardas, em vingança pelas atrocidades germânicas, davam um tiro nos que não tivessem força suficiente para andar. E as mulheres, os velhos e as crianças do lugar se postavam no acostamento da estrada para tentar arrancar suas mantas, atirar pedras, empurrá-los, chutá-los e cuspir na sua cara. Depois de meio ano de uma batalha que cobrou mais de um milhão de vidas de soldados e civis, não restava qualquer compaixão.

No Volga, o avanço de Hitler pela Europa foi detido. Custou meio ano de batalha e mais de um milhão de mortos

O objetivo da ofensiva alemã em Stalingrado era interromper as comunicações entre as regiões centrais da União Soviética e o Cáucaso e estabelecer uma cabeça de ponte a partir da qual invadir a região e suas jazidas petrolíferas. O ataque durou de meados de julho até meados de novembro de 1942, e sua interrupção ocorreu a um preço terrível para a URSS. Enquanto os soldados defendiam a cidade, os habitantes e centenas de milhares de refugiados vindos de outras regiões ficaram abandonados à própria sorte. Anna Aratskaya, que morava em Stalingrado, escreveu em 27 de setembro: “Nossa casa queimou, assim como a nossa roupa, que tínhamos enterrado no pátio. Não temos roupa nem sapatos, não temos um teto sob o qual nos refugiar. Quando este pesadelo terminará?”.

A cidade havia se tornado um “gigantesco campo de ruínas” pelos bombardeios maciços dos alemães, particularmente o de 23 de agosto. Haviam ficado em pé algumas casas com janelas quebradas, algumas paredes ou uma chaminé. Muitos soldados “que nunca mais se levantariam jaziam nos pátios e nas ruas, centenas deles, mesmo milhares, mas ninguém os contava. As pessoas vagavam entre as ruínas em busca de comida ou qualquer coisa que pudesse ser útil”. Vasili Grossman comparou esta cidade espectral com Pompeia, mas com a diferença de que, em meio do caos, restaram almas vivas, centenas de milhares delas. Os civis também lutaram brutalmente em Stalingrado, não pelo seu país, mas pelas suas próprias vidas e pelas de seus filhos.

Lylia Litvyak, piloto da Força Aérea soviética, durante a batalha de Stalingrado. – STOCK PHOTO

Sem teto, com as casas destruídas pelas bombas ou pelo fogo, não havia outro remédio a não ser tentar encontrar lugar em um barco para atravessar o rio Volga. Quantos morreram na costa esperando uma oportunidade de cruzá-lo, quantos se afogaram no rio quando suas embarcações foram atingidas por um projétil? Outros preferiram nem tentar. Tornou-se comum viver em buracos escavados na parede de um barranco. Muitos fizeram isso na costa íngreme do Volga, onde testemunharam cenas assustadoras na água. À medida em que avançavam os alemães, até quase chegarem ao rio, as pessoas também tiveram que abandonar esses buracos. Como sobreviveram durante os meses que a batalha durou? Muitos morreram pelas balas de franco-atiradores alemães enquanto tentavam encontrar cereais queimados nos locais destruídos. Outros arriscaram suas vidas para roubá-los do Molino Gerhardt, protegido por soldados soviéticos. “Quando acabou o cereal, comemos lama”, lembrou um sobrevivente.

Talvez o próprio Stalin, ou algum de seus colaboradores, ordenou que fosse proibida a evacuação de civis? Realmente existiu essa ordem ou, como em tantos outros lugares, simplesmente não havia recursos suficientes para evacuar a população porque o rápido avanço dos alemães pegou-os de surpresa? Dizem que havia, sim, uma ordem implícita de Stalin para manter os civis na cidade para que os soldados, muitos dos quais eram locais, lutassem com mais paixão para proteger suas famílias.

A verdade é que muitos soldados haviam sido recrutados na cidade e nos seus arredores pouco antes da batalha ou mesmo assim que ela começou. À medida que os combates se desenvolviam, muitos adolescentes passaram a trabalhar nas fábricas militares e se incorporaram de forma oficial ou extraoficial ao Exército. Entre eles, havia muitas garotas. Embora ainda não tivessem idade para se alistarem, queriam contribuir com a batalha e acelerar o fim do pesadelo. Além disso, o Exército oferecia alguma esperança de melhor alimentação para civis mortos de fome.

‘No Fronte do Leste’, fotografia aérea de Stalingrado feita pela Companhia de Propaganda alemã (PK). – ORBIS PHOTOFUNDACIÓN JOSÉ MARÍA CASTAÑÉ

Durante algumas semanas, Alexadnra Mashkova viu como, toda madrugada às quatro da manhã, jovens recrutas subiam a ladeira até o Volga, atravessavam o barranco em que suas famílias haviam escavado suas casas e desapareciam em direção a Mamáyev Kurgán, uma colina que domina Stalingrado. Pareciam-lhe assustados e muito jovens; na verdade, haviam nascido em 1924 e tinham quase a mesma idade que ela. A maioria nunca voltou, mas alguns foram vistos mais tarde, feridos, voltando a pé ou se arrastando. Pouco a pouco, as adolescentes começaram a ajudar esses soldados machucados, tapando suas feridas ou carregando-os em macas improvisadas até o rio. Alexandra, que tinha 17 anos, juntou-se ao departamento médico de uma unidade militar e cruzou para o outro lado do Volga. Aprendeu com rapidez e brevemente estava pronta para ajudar o cirurgião. No começo, tinha muito medo quando precisava segurar um soldado durante a operação “enquanto lhe amputavam a perna ou abriam o seu braço até o osso”, mas “você se acostuma a tudo”. Muito rapidamente, as jovens enfermeiras comiam, sem se preocupar, na própria sala de operações improvisada. “Tínhamos pedaços de pão no bolso, então limpávamos as mãos de sangue na roupa branca, pegávamos o pão e o colocávamos na boca”.

A motorista Angelina Kolobushhenko pensou que havia enganado a morte quando a febre tifoide a afastou do 1077º Regimento Antiaéreo, formado quase exclusivamente por mulheres, a maioria adolescentes. Depois de disparar contra os aviões que bombardeavam Stalingrado, as jovens deviam mirar os canhões contra os carros de combate que haviam conseguido chegar à fábrica de tratores da cidade. Quase todas morreram, inclusive as encarregadas pelos telefones, as cozinheiras e as enfermeiras. Poucas sobreviveram.

Quando se curou, Angelina foi enviada para outro regimento antiaéreo. Tinha aparência frágil depois da doença, feia e esquelética. As outras garotas a desprezavam e se negaram a dormir na mesma vala que ela. Diziam que podia contagiá-las. No entanto, duas semanas depois, estava totalmente recuperada, recebeu um novo uniforme e, como não havia nenhum veículo disponível para ela, começou a treinar para manejar as armas propriamente ditas. Sentiu-se muito orgulhosa quando a sua unidade, a 5ª Bateria, derrubou um avião alemão. As jovens correram para a planície para buscar a tripulação da aeronave, encontraram-nos e os prenderam. Os três alemães eram muito jovens, um alto e de rosto arrogante e outro menor e mais agradável, mas Angelina lembrou especialmente do terceiro, que tinha queimaduras terríveis e dores insuportáveis quando foi encontrado. Nunca esqueceu seus grandes olhos azuis, cheios de sofrimento.

Soldado mortos, enterrados na neve em Stalingrado. – ARKADII SHAIKHET JOSÉ MARÍA CASTAÑÉ COLLECTION

As motoristas do frente, toda hora andando para cima e para baixo, viam e ouviam muitas coisas. Em novembro, começou a parecer que a situação estava mudando. Havia cada vez mais prisioneiros alemães, e Angelina sentia pena tanto deles quanto dos que viu morrer de frio. Ela e suas camaradas tinham botas novas de feltro e casacos de pele de cordeiro. Sentiam pena dos prisioneiros alemães, com seus casacos finos e estranhos sapatos de palha por cima das botas, nem um pouco preparados para o bruto inverno russo. Quando foi anunciado que havia um grande grupo de soldados alemães cercados, Angelina entendeu que não sobreviveriam por muito tempo, com suas roupas de verão, quase sem comida, na cidade destruída ou na estepe, sem lugar para se refugiar, nem madeira para fazer fogo.

Duas contemporâneas de Angelina, as pilotos de combate Lilya Litvyak e Katya Budanova, voavam com seu regimento para impedir que os alemães arremessassem provisões para as tropas sitiadas. As duas haviam pilotado aviões esportivos e haviam sido instrutoras de voo antes da guerra, mas aprenderam mais em seus 10 meses de exército do que em toda a carreira anterior. Outro piloto lembra a reação do comandante do regimento quando chegaram quatro mulheres com suas tripulações. “Me dói ver uma mulher lutando na guerra. Me dói e me dá vergonha. Como é possível que nós, os homens, não tenhamos conseguido evitar que fizessem um trabalho tão pouco feminino?”. As jovens tiveram que demonstrar suas habilidades e comprometimento. Klava Nechaeva, de 23 anos, morreu em sua primeira missão, depois de convencer seu chefe a deixá-la participar da batalha. As duas corajosas mulheres desafiaram a morte com várias missões no inferno de Stalingrado e sobrevieram àquele inverno, mas ambas caíram em agosto de 1943.

Dizem que Stalin deu a ordem de não evacuar os civis para que os soldados lutassem para proteger suas famílias.

Quando a batalha de Stalingrado chegou ao fim, centenas de milhares de mulheres haviam se alistado ao Exército. O país havia perdido tantos homens que as autoridades não tiveram outra alternativa que não fosse utilizar mulheres em todas as funções militares. Não existem dados concretos sobre as mulheres que serviram, de modo que os cálculos variam muito, desde meio milhão a quase um milhão. O fronte se transferiu e as jovens que continuavam vivas e com boa saúde foram com ele. Muitas das mulheres que entrevistei continuaram lutando até o final da guerra e estiveram em Berlim para comemorar a vitória (muitos soldados estavam convencidos de que Berlim deveria ficar em ruínas como os alemães haviam deixado Stalingrado). Continuaram presenciando a morte e a dor e perdendo suas camaradas. Mas nunca voltaram a viver uma situação tão desesperadora quanto a de Stalingrado, nunca voltaram a sentir que estavam sendo esfaqueadas tão profundamente que poderiam perder a guerra.

 

  • Lyuba Vinogradova é autora de As Bruxas da Noite e Anjos Vingadores (ambos pela editora Pasado & Presente). Os testemunhos citados neste artigo são de entrevistas realizadas pela própria autora e do projeto ‘Iremember. Lembranças de veteranos da Segunda Guerra Mundial’. (www.iremember.ru).

 

Fonte: El País

 

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27 de janeiro de 1945: O Exército Vermelho libertava Auschwitz-Birkenau

Há 73 anos, em 27 de janeiro de 1945, o Exército Vermelho libertou Auschwitz, o maior e mais terrível campo de extermínio dos nazistas. Em suas câmaras de gás e crematórios foram mortas pelo menos um milhão de pessoas.

Auschwitz foi o maior e mais terrível campo de extermínio do regime de Hitler. Em suas câmaras de gás e crematórios foram mortas pelo menos um milhão de pessoas. No auge do Holocausto, em 1944, eram assassinadas seis mil pessoas por dia. Auschwitz tornou-se sinônimo do genocídio de judeus, sintos e roma e tantos outros grupos perseguidos pelos nazistas.

As tropas soviéticas chegaram a Auschwitz, hoje Polônia, na tarde de 27 de janeiro de 1945, um sábado. A forte resistência dos soldados alemães causou um saldo de 231 mortos entre os soviéticos. Oito mil prisioneiros foram libertados, a maioria em situação deplorável devido ao martírio que enfrentaram.

“Na chegada ao campo de concentração, um médico e um comandante questionavam a idade e o estado de saúde dos prisioneiros que chegavam”, contou Anita Lasker, uma das sobreviventes. Depois disso, as pessoas eram encaminhadas para a esquerda ou para a direita, ou seja, para os aposentos ou direto para o crematório. Quem alegasse qualquer problema estava, na realidade, assinando sua sentença de morte.

Prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau

Câmaras de gás e crematórios

Auschwitz-Birkenau foi criado em 1940, a cerca de 60 quilômetros da cidade polonesa de Cracóvia. Concebido inicialmente como centro para prisioneiros políticos, o complexo foi ampliado em 1941. Um ano mais tarde, a SS (Schutzstaffel) instituiu as câmaras de gás com o altamente tóxico Zyklon B. Usada em princípio para combater ratos e desinfetar navios, quando em contato com o ar a substância desenvolve gases que matam em questão de minutos. Os corpos eram incinerados em enormes crematórios.

Um dos médicos que decidiam quem iria para a câmara de gás era Josef Mengele. Segundo Lasker, ele se ocupava com pesquisas: “Levavam mulheres para o Bloco 10 em Auschwitz. Lá, elas eram esterilizadas, isto é, se faziam com elas experiências como se costuma fazer com porquinhos da Índia. Além disso, faziam experiências com gêmeos: quase lhes arrancavam a língua, abriam o nariz, coisas deste tipo…”

Trabalhar até cair

Os que sobrevivessem eram obrigados a trabalhos forçados. O conglomerado IG Farben, por exemplo, abriu um centro de produção em Auschwitz-Monowitz. Em sua volta, instalaram-se outras firmas, como a Krupp. Ali, expectativa de vida dos trabalhadores era de três meses, explica a sobrevivente.

“A cada semana era feita uma triagem”, relata a sobrevivente Charlotte Grunow. “As pessoas tinham de ficar paradas durante várias horas diante de seus blocos. Aí chegava Mengele, o médico da SS. Com um simples gesto, ele determinava o fim de uma vida com que não simpatizasse.”

Grupo de prisioneiros se dirige ao crematório de Auschwitz, onde eles seriam assassinados

Marcha da morte

Para apagar os vestígios do Holocausto antes da chegada do Exército Vermelho, a SS implodiu as câmaras de gás em 1944 e evacuou a maioria dos prisioneiros. Charlotte Grunow e Anita Lasker foram levadas para o campo de concentração de Bergen-Belsen, onde os britânicos as libertaram em abril de 1945. Outros 65 mil que haviam ficado em Auschwitz já podiam ouvir os tiros dos soldados soviéticos quando, a 18 de janeiro, receberam da SS a ordem para a retirada.

“Fomos literalmente escorraçados”, lembra Pavel Kohn, de Praga. “Sob os olhos da SS e dos soldados alemães, tivemos de deixar o campo de concentração para marchar dia e noite numa direção desconhecida. Quem não estivesse em condições de continuar caminhando, era executado a tiros”, conta. Milhares de corpos ficaram ao longo da rota da morte. Para eles, a libertação chegou muito tarde.

Fonte: DW

 

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USS Pueblo, único navio da Marinha dos EUA em poder de uma nação estrangeira

Só há um navio da Marinha americana em poder de uma nação estrangeira, o USS Pueblo, uma embarcação espiã capturada pela Coreia do Norte há 50 anos e que hoje está atracada em um rio na capital Pyongyang como um misto de troféu e atração turística.

GETTY IMAGES – O navio levava 84 marinheiros quando foi capturado em 1968

Os visitantes podem fazer um tour guiado que relata como os valentes marinheiros do Exército Popular norte-coreano capturaram o navio. Como afirmam há cinco décadas, o USS Pueblo teria sido detido quando navegava ilegalmente em suas “águas territoriais”.

A captura deixou um marinheiro americano morto e 83 presos, os quais passaram por duras condições de privação de liberdade e interrogatórios por 11 meses. O governo dos Estados Unidos, sob o comando de Lyndon Johnson, teve de pedir desculpas à Coreia do Norte e admitir que havia violado seu território.

Para muitos, essa foi uma dura derrota americana perante o regime norte-coreano.

A noite da abordagem

Na noite de 23 de janeiro de 1968, o USS Pueblo, um navio de 155 metros de comprimento, com armamento limitado e que estava disfarçado como um navio científico, navegava próximo da costa da Coreia do Norte.

Em seu interior, havia equipamentos de comunicação de alta tecnologia e uma tripulação bem treinada para interceptar e decodificar mensagens.

Coreia do Norte anunciou a captura do navio americano como uma vitória contra o ‘imperialismo’ | Foto: KCNA

Ao estar em águas internacionais, segundo a versão dos Estados Unidos, o capitão Llyod Bucher confiava que não poderia ser detido, por isso a tripulação ficou surpresa ao ver o navio rodeado por três barcos norte-coreanos. Um deles ordenou que se preparassem para serem abordados e abriu fogo após a recusa dos americanos.

O USS Pueblo tinha só duas metralhadoras calibre 50 a bordo, que eram mantidas escondidas o tempo todo. “Não tínhamos como atirar de volta, porque éramos um navio desarmado. Esse era nosso disfarce”, contou à BBC o tenente Skip Schumacher, que tinha 24 anos na época e era o oficial de operações da embarcação.

O capitão do navio ordenou que batessem em retirada, mas eles não conseguiram escapar dos norte-coreanos. Mas a manobra deu algum tempo para que a tripulação destruísse todos os documentos mais delicados e inutilizasse os equipamentos de comunicação.

GETTY IMAGES – USS Pueblo tinha apenas duas metalhadoras, o que era muito pouco para responder ao ataque

Mas, como não havia uma máquina para triturar papéis, foi necessário queimá-los, um processo mais lento que permitiu aos marinheiros se desfazer só de uma pequena parte dos dados de inteligência.

A captura

Após várias horas de enfrentamento, um marinheiro americano tinha morrido e uma dezena havia ficado ferida. O capitão Bucher, então, decidiu se render.

Os prisioneiros foram levados a uma prisão em Pyongyang com o objetivo de obter toda a informação possível.

Começaram por Bucher, que foi golpeado ao se negar a admitir que o navio havia violado as águas territoriais da Coreia do Norte e que comandava uma embarcação espiã.

GETTY IMAGES – Guias vestidos com trajes militares conduzem os tours pelo USS Pueblo em Pyongyang

O tenente Schumacher se recorda dos métodos utilizados para tentar dobrar o capitão.

“Puseram uma pistola contra sua cabeça e disseram: ‘Vamos te matar’. E faziam um ‘clic’ com o revólver, que parecia não ter balas, mas ele ainda assim se negava”, diz.

Quando os interrogadores o colocaram frente a um suposto pelotão de fuzilamento e disseram que iam matar seus homens um a um, Bucher enfim aceitou assinar uma confissão.

O cativeiro

Após a notícia da captura do USS Pueblo, não houve uma missão de resgate, já que os Estados Unidos não tinha informações suficientes sobre onde estavam os marinheiros presos.

Além disso, eram os anos da Guerra Fria, e a União Soviética era um aliado histórico da Coreia do Norte, o que exigia que movimentos militares fossem muito bem calculados.

Suspeita-se que grande parte da informação obtida com os documentos e equipamentos de comunicação do navio tenha chegado às mãos de agentes da KGB, o serviço secreto soviético.

GETTY IMAGES – Os EUA temiam que os dados de inteligência do navio fossem parar em mãos soviéticas

Os prisioneiros foram mantidos em cativeiro por vários meses. Pyongyang estabeleceu um canal de comunicação com o governo americano e exigiu que a Casa Branca reconhecesse que havia cometido um erro. Em certa ocasião, foram enviadas fotos de marinheiros para provar que estavam sendo bem tratados. Em uma imagem, eles mostravam o dedo médio a seus captores.

“Dissemos que o dedo era um sinal de boa sorte no Havaí”, explicou o tenente Schumacher. A foto foi publicada na revista Time, que saudou a tripulação. Mas quando ela foi vista na Coreia do Norte e seu significado foi compreendido, a reação foi violenta.

“Eles queriam saber sobre todos os termos com duplo sentido e as gírias que tínhamos usado no cativeiro, e nos bateram muito”, disse Schumacher. “Foi brutal.”

A vergonha

Sem muitas opções, os Estados Unidos se viram obrigados a declarar que reconheciam que o navio estava espionando quando foi capturado e a pedir desculpas à Coreia do Norte.

Os norte-coreanos também obrigaram o comandante Bucher a gravar uma mensagem de agradecimento.

GETTY IMAGES – O líder norte-coreano já participou de cerimônias no USS Pueblo

Os marinheiros foram libertados em 23 de dezembro de 1968, exatamente 11 meses depois de sua captura, em uma zona desmilitarizada na fronteira entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul.

Posteriormente, a Casa Branca se retratou do pedido de desculpas. O comandante Bucher acabou levado a um tribunal por ter se rendido. Mas ainda que tenha sido recomendado que fosse julgado em uma corte marcial, o então secretário da Marinha, John Chafee, descartou essa opção.

Em 1989, os marinheiros receberam medalhas reconhecendo a coragem demonstrada. No entanto, ainda há na Marinha quem acredite que eles deveriam ter lutado até a morte, em vez de se deixar cair nas mãos do inimigo.

Fonte: BBC Brasil.com

 

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Fim de uma época: Marinha russa se despede dos maiores “tubarões” submarinos no mundo

Os cruzadores submarinos pesados do projeto 941 Akula (Tubarão, em russo) da Marinha da Rússia, cederam lugar aos porta-mísseis nucleares mais furtivos e eficientes de 4ª geração da classe Borei, considera o presidente do Movimento Russo de Apoio à Marinha, capitão-de-mar-e-guerra Mikhail Nenashev.

© Sputnik/ Aleksei Danichev

Mais cedo, uma fonte na indústria de construção naval comunicou à Sputnik que dois submarinos do projeto 941, isto é, Arkhangelsk e Severstal, seriam desmantelados pela empresa Rosatom depois de 2020. De acordo com o interlocutor da agência, sua futura exploração foi avaliada como não rentável, enquanto os próprios navios já foram retirados do serviço da Marinha do país.

“Hoje em dia há uma ordem tecnológica nova na indústria naval russa, na construção dos novos tipos de armas navais, [esta ordem] pressupõe, particularmente, a criação de sistemas de mísseis e torpedos eficazes para submarinos”, assegurou Nenashev nesta sexta-feira (19).

“Por isso, os projetos que hoje em dia estão em curso — Borei e outros — devido à sua eficácia e estado tecnológico são mais necessários para garantir a segurança nacional da Rússia do que os submarinos que precisam de uma modernização dispendiosa”, sublinhou.

Na opinião dele, “não é evidente que mesmo após a modernização o Akula tenha a mesma capacidade furtiva que o Borei”. O especialista adiantou que os submarinos novos, no que se refere a tecnologias “stealth” e potência, têm um nível de proteção e eficiência completamente novo.

“Em cada metro de espaço, nestes navios se pode instalar duas vezes mais equipamentos e armas que nos navios da geração anterior”, explicou.

Para Nenashev, os submarinos do projeto 941 “constituíram uma plataforma de treinamento fundamental para a preparação das tripulações dos novos projetos de submarinos”.

“Na época, a construção destes cruzadores submarinos foi o auge da indústria naval nacional. Nenhum país desenvolvido tinha um complexo militar-industrial capaz de alcançar este auge. Há mais de 40 anos, ao criar os submarinos gigantes, o nosso país demonstrou um nível altíssimo do ponto de vista científico, tecnológico e de engenharia”, continuou.

“Foi no cruzador modernizado deste projeto, Dmitry Donskoi, que se realizaram as provas dos novos mísseis intercontinentais Bulava, instalados depois nos navios do projeto Borei”, resumiu.

Os navios do projeto 941 são os maiores submarinos nucleares do mundo. O deslocamento total do navio é de 49,8 mil toneladas, seu comprimento é de 172 metros e a boca é de 23,3 metros. No total, foram construídos 6 desses cruzadores. O navio principal da classe, Dmitry Donskoi, entrou em serviço da Frota do Norte da Marinha da Rússia em 1981.

Fonte:  Sputnik

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Conflitos e Historia Militar Destaques Geopolítica História Iraque

17 de janeiro de 1991: Começa a operação “Tempestade no Deserto” contra o Iraque

No dia 17 de janeiro de 1991, soldados de 31 países aliados iniciaram uma ofensiva contra o Iraque, em represália à invasão daquele país no Kuwait, em 2 de agosto do ano anterior.

“Há duas horas, os aviões dos aliados iniciaram um ataque contra alvos militares no Iraque e no Kuwait. Enquanto falo aqui, os bombardeios prosseguem. Esse conflito iniciou-se no dia 2 de agosto, quando o ditador do Iraque atacou seu pequeno vizinho indefeso.”

Desta maneira, o então presidente dos Estados Unidos, George Bush (pai) comunicou aos norte-americanos o início dos bombardeios em 17 de janeiro de 1991, duas horas depois do começo da operação Tempestade no Deserto. O presidente iraquiano, Saddam Hussein, invadira o Kuwait em agosto de 1990, e pouco tempo depois proclamara o emirado província iraquiana. O motivo do ataque foram dívidas de Bagdá, de cerca de 80 bilhões de dólares, criadas durante a guerra com o Irã. Os principais credores eram o Kuwait e os Emirados Árabes Unidos.

A economia iraquiana estava muito enfraquecida devido aos altos gastos militares durante a primeira Guerra do Golfo. Além disso, os jovens soldados iraquianos não conseguiam emprego. Saddam exigia que os dois credores diminuíssem a quantidade de petróleo explorado, para que o Iraque pudesse vender mais. Como os dois países se negassem a aceitar a exigência, o ditador em Bagdá viu na invasão a possibilidade de fortalecer seu poder na região.

Arrogância

Saddam Hussein menosprezou a reação internacional. Em vista do importante papel estratégico da região, os Estados Unidos não aceitaram mudanças nas relações de poder. O Conselho de Segurança das Nações Unidas chegou a exigir ainda a 2 de agosto a retirada imediata e incondicional dos iraquianos do Kuwait e, quatro dias mais tarde, impôs um embargo militar e financeiro contra Bagdá.

Seis dias após o ataque iraquiano ao Kuwait, George Bush mobilizou, contra a vontade de seu secretário de Estado, James Baker, 400 mil soldados para defender a Arábia Saudita. Em pouco tempo, formou-se um bloco anti-iraquiano de cerca de 30 países, que ia desde os aliados ocidentais até a Síria e o Egito.

Vendo-se isolado, o ditador iraquiano começou a jogar o jogo dos palestinos, que aceitaram o apoio de bom grado. Seguiu-se uma conferência do Oriente Médio, em que Hussein condicionou a saída iraquiana do Kuwait à retirada israelense dos territórios palestinos ocupados. A sugestão foi rejeitada pelos Estados Unidos, enquanto Saddam ameaçou com a destruição de todos os campos de exploração de petróleo.

O último prazo para a resolução diplomática do conflito expirou no fracassado encontro entre Baker e seu homólogo iraquiano Tariq Aziz, no dia 9 de janeiro de 1991, em Genebra. Hussein, por seu lado, deixou expirar o ultimato à meia-noite de 15 de janeiro, confiando na predisposição de 10 mil homens de se sacrificarem pela pátria.

Em 17 de janeiro de 1991, Bush ordenou o início da operação ao general Norman Schwarzkopf. Os aviões das tropas aliadas voaram em mais de 1.300 missões nas primeiras 14 horas da operação. Os bombardeios arrasaram os complexos militares e industriais do Iraque.

Hussein tentou demonstrar indiferença. Parecendo não estar intimidado, nem ordenou que fossem apagadas as luzes de Bagdá na primeira noite dos ataques. Pelo contrário, proclamou o início da “mãe de todas as batalhas” e ordenou bombardeios contra Israel.

Catástrofe ecológica

Apesar da morte de 13 israelenses, Ytzhak Rabin renunciou à retaliação e seguiu a estratégia ocidental. Depois de uma ofensiva terrestre, Saddam Hussein se rendeu em 28 de fevereiro de 1991, e assinou um acordo unilateral de cessar-fogo. Antes, ainda mandou incendiar 700 poços de petróleo no Kuwait, provocando uma catástrofe ecológica sem precedentes. O fogo demorou oito meses para ser apagado.

O saldo de mortos nunca ficou claro: entre 85 mil e 250 mil soldados do Iraque, entre 40 mil e 180 mil civis iraquianos, entre 4 mil e 7 mil kuwaitianos, e possivelmente 343 soldados aliados.

Fonte: DW

Edição: Plano Brasil