Tensões no estreito de Taiwan: o que vem por aí?

JIN YEN  & E.M.Pinto


As tensões no Estreito de Taiwan aumentaram à medida que a China lançou seu maior exercício militar na região desde agosto de 2022. O Exército de Libertação Popular (ELP) anunciou na quinta-feira o início de exercícios militares conjuntos de dois dias, com o codinome Espada conjunta-2024, envolvendo pessoal e armamento do exército, marinha, força aérea e da força de foguetes e mísseis. A Guarda Costeira Chinesa também participou dos exercícios para “aplicação da lei e ordem” no leste de Taiwan.

Os exercícios abrangem o Estreito de Taiwan, bem como as regiões norte, sul e leste da Ilha, incluindo áreas circundantes como as ilhas Kinmen, Matsu, Wuqiu e Dongyin. O ELP descreveu os exercícios como uma “forte punição pelos atos separatistas das forças de independência de Taiwan e um aviso severo contra a interferência e provocação de forças externas”.

O que Aconteceu Até Agora?

Na manhã da sexta-feira 24/05, o Ministério da Defesa de Taiwan relatou a detecção de 49 aviões militares e 19 navios chineses ao redor da ilha. Pelo menos 35 aeronaves chinesas cruzaram a linha média do Estreito de Taiwan e entraram na zona de identificação de defesa aérea (ADIZ) do sudoeste de Taiwan. A China não reconhece a linha mediana nem a ADIZ.

Na quinta-feira, Taipei detectou uma aeronave, oito navios da marinha chinesa e quatro navios da Guarda Costeira chinesa operando em torno de Taiwan. No entanto, o Ministério da Defesa de Taiwan informou que não detectou quaisquer sinais de atividades de fogo real por parte dos militares chineses.

Os exercícios militares da China em torno de Taiwan, têm como objetivo testar a capacidade do Exército de Libertação Popular (ELP) de “tomar o poder” sobre a ilha, conforme anunciado pelo próprio ELP na sexta-feira. Estes são os maiores exercícios em mais de um ano e ocorrem poucos dias após a posse do novo presidente de Taiwan, Lai Ching-te, que é abertamente desprezado por Pequim por defender a soberania e identidade distinta da ilha.

Pequim classificou Lai como um “separatista perigoso” e criticou seu discurso de posse, onde ele pediu à China que cessasse a intimidação de Taiwan. A liderança chinesa, sob Xi Jinping, tem aumentado significativamente a pressão sobre Taiwan.

Na sexta-feira, o Comando do Teatro Oriental do ELP anunciou que os exercícios continuariam em ambos os lados da cadeia de ilhas de Taiwan para “testar a capacidade de tomar o poder, lançar ataques conjuntos e ocupar áreas-chave”.

Reações e Declarações

Logo após a movimentação de aviões e navios de guerra chineses pela nação insular, o recém-empossado presidente de Taiwan, William Lai Cheng-te, visitou tropas em uma base militar no norte da ilha. Lai afirmou que

“trabalharemos juntos para demonstrar determinação em proteger Taiwan democrática”.

Esta foi a primeira grande manobra militar chinesa desde que Lai assumiu o cargo. Pequim, que despreza Lai e o Partido Democrático Progressista (DPP) de Taiwan por seus elementos “pró-independência”, reiterou sua reivindicação sobre Taiwan. O Ministério dos Negócios Estrangeiros da China declarou:

“Qualquer pessoa que procure a ‘independência de Taiwan’ será esmagada pela tendência histórica da reunificação completa da China”.

Em resposta, Taipei acusou Pequim de aumentar as tensões e pediu contenção.

“Continuaremos a salvaguardar o status quo através do Estreito e a defender firmemente a nossa democracia”,

disse o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Taiwan.

O Ministério da Defesa de Taiwan condenou os exercícios como “provocações irracionais” e mobilizou suas próprias forças navais, aéreas e terrestres em resposta.

A presidência de Taiwan lamentou as ameaças da China à democracia e à liberdade da ilha, reiterando a confiança e a capacidade de proteger a segurança nacional. Apesar das ameaças, a vida continuou normalmente em Taiwan, com muitos habitantes acostumados às frequentes demonstrações de força militar da China.

Escalações Anteriores

Os exercícios atuais são os maiores desde agosto de 2022, quando a então presidente da Câmara dos EUA, Nancy Pelosi, visitou Taiwan. Na ocasião, o ELP lançou exercícios militares conjuntos em torno de Taiwan, disparando pelo menos cinco mísseis balísticos que caíram na zona econômica exclusiva do Japão, segundo Tóquio. Esta foi a primeira vez que mísseis balísticos chineses aterraram nas águas japonesas, provocando protestos diplomáticos de Tóquio.

Motivações Atuais

Chien-Yu Shih, pesquisador associado do Instituto de Defesa Nacional e Pesquisa de Segurança em Taipei, considera os exercícios militares chineses como “desnecessários” e simbólicos, visando satisfazer o sentimento nacionalista chinês. Segundo ele, Pequim sabe que Taiwan não mudará o status quo unilateralmente neste momento. Lai, ao apelar ao diálogo com a China, expressou que Taipei “não está subordinada” a Pequim, mantendo um espaço para o diálogo.

Einar Tangen, comentador chinês, afirmou que Pequim vê o discurso inaugural de Lai como uma “provocação”. Tangen sugere que Lai está tentando aumentar as tensões para obter apoio popular e patrocínio dos EUA, mas alerta que essa estratégia pode resultar em contra-reações populares, como observado em outros países.

Lai Ching-te assumiu a presidência em um momento politicamente turbulento, enfrentando oposição interna de partidos que favorecem relações mais próximas com a China. Pequim rejeitou a oferta de Lai para retomar o turismo e intercâmbios estudantis através do estreito. O Ministério da Defesa da China acusou Lai de levar Taiwan a uma “situação perigosa de guerra”.

Implicações Estratégicas

Os exercícios militares de Pequim não apenas testam capacidades militares, mas também servem para enviar mensagens políticas internas e externas. Zhang Chi, especialista militar chinês, destacou que as manobras se concentram em praticar um novo modo de bloqueio de Taiwan, crucial para cortar as importações de energia e rotas de fuga de forças pró-independência.

Analistas afirmam que a movimentação da Guarda Costeira Chinesa nas águas próximas às ilhas periféricas de Taiwan representa um novo aspecto provocativo dos exercícios, que seguem padrões estabelecidos em exercícios anteriores.

Craig Singleton, da Foundation for Defense of Democracies, sugeriu que essas manobras não indicam uma invasão iminente, mas ajudam a confundir as linhas entre paz e guerra, podendo ser usadas como pretexto para uma invasão real no futuro.

Conclusão

Os exercícios militares chineses em torno de Taiwan representam uma escalada nas tensões regionais e refletem a determinação de Pequim em afirmar sua autoridade sobre a ilha. Embora as manobras enviem um forte sinal político, a vida cotidiana em Taiwan continua inalterada, com os taiwaneses demonstrando resiliência diante das ameaças contínuas. A situação atual sublinha a complexa dinâmica geopolítica e a necessidade de uma gestão cuidadosa das relações entre China e Taiwan.

Em suma exercícios militares em torno de Taiwan só demonstram a complexidade e a volatilidade das relações entre China e Taiwan. Enquanto Pequim reafirma sua reivindicação sobre Taiwan e realiza manobras militares para demonstrar força, Taipei continua a defender e manter o status quo. A evolução desta situação terá implicações significativas para a paz e a estabilidade na região e além.

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