Defesa & Geopolítica

Por que a Rússia parece estar ajudando a China a construir um porta-aviões nuclear?

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O que há para Moscou?

por Robert Farley 5 de novembro de 2019

Tradução e adaptação- E.M.Pinto

Ponto-chave: China e Rússia querem alcançar os navios de guerra nucleares dos Estados Unidos.

Parece que a China conta com o conhecimento e a experiência russa para desenvolver o reator para o seu primeiro porta-aviões nuclear. É- o que relata o South China Morning Post.

A China parece estar estudando os reatores nucleares dos maiores quebra-gelo da Rússia, uma abordagem que a União Soviética também adotou quando planejava construir Porta Aviões nucleares na década de 1980. Especificamente, a Rússia convidou a China a licitar a construção de uma nova classe de quebra-gelo nuclear, exigindo necessariamente o desenvolvimento de reatores baseados em navios de superfície. Essa abordagem contrasta com a forma como os Estados Unidos e a França desenvolveram reatores nucleares para os seus maiores Porta Aviões, mas provavelmente representam a melhor escolha para a China neste momento.

História:

Para apreciar o que está em jogo na busca de navios de guerra de superfície movidos a energia nuclear pela China, é importante revisar a experiência dos Estados Unidos e da URSS.

Depois que o desenvolvimento bem-sucedido dos submarinos de ataque nuclear da USS Nautilus e da classe Skate (assim como o navio mercante NS Savannah) forneceu a prova de conceito sobre propulsão nuclear, a USN começou a avaliar a energia nuclear para navios de guerra de superfície.

O primeiro navio de guerra de superfície nuclear da USN foi o cruzador USS Long Beach, encomendado em 1961. O USS Long Beach foi equipado por 2 reatores C1WS, gerando cerca de 120 MW, potência suficiente para produzir uma velocidade de 30 nós para o casco de 17.000 toneladas.

A USN rapidamente seguiu então para USS Enterprise, equipando-o com 8 reatores A2W, cada um bastante semelhante em construção e produção ao C1W. Esses reatores geraram 120 MW cada, traduzindo em 280.000 PCH.

Alguns outros cruzadores e destroyers nucleares se seguiram, mas as vantagens da energia nuclear em navios de guerra de superfície foram limitadas pelo custo. Com os porta-aviões a história é diferente. A classe Nimitz, que começou a entrar em serviço em 1975, usa dois reatores A4W, cada um produzindo 550 MW. 

O recém-encomendado USS Gerald R. Ford utilliza dois reatores A1B, capazes de gerar 700 MW cada. A capacidade extra de geração de energia dos Ford tem pouco a ver com velocidade. Em vez disso, a energia fornece um excedente utilizável para uma variedade de sistemas diferentes, incluindo EMALS e sensores altamente sofisticados. Mais adiante, a energia extra pode alimentar lasers de defesa de ponto e equipamentos similares. No geral, os reatores abrem espaço para modernizar e modificar os navios da classe Ford, mantendo-os eficazes por décadas de vida útil do projeto.

A experiência soviética:

A experiência soviética foi um pouco diferente. Enquanto os soviéticos tiveram um sucesso considerável no desenvolvimento de reatores nucleares para submarinos, eles abordaram a questão dos navios de guerra de superfície com muito mais cuidado. O primeiro navio soviético movido a energia nuclear foi o quebra-gelo Lenin, encomendado em 1959 com três reatores OK-150 (90 MW cada). Entre 1975 e 1990, os soviéticos comissionariam mais nove quebra-gelo nuclear das classes Arktika e Taymyr, geralmente deslocando entre 20.000 e 25.000 toneladas e carregando dois reatores OK-900, capazes de 150 MW.

Esses navios proporcionaram uma experiência valiosa, mas os soviéticos demoraram a dar um salto para os navios de combate de superfície movidos a energia nuclear, em parte porque os navios de guerra soviéticos deveriam operar mais perto de casa do que seus colegas americanos.

Em 1974, no entanto, os soviéticos começaram a construir o primeiro dos quatro navios da classe Kirov, cruzadores de batalha de 26.000 toneladas com propulsão nuclear e convencional. Os relatórios diferem sobre a capacidade de energia dos dois reatores KN-3, com uma faixa de 150 MW a 300 MW. Esses reatores também teriam alimentado os super porta aviões da classe Ulyanovsk, uma classe de navios que foi cancelada com o colapso da URSS.

O que a China quer:

Os chineses, sem dúvida, está pensando em linhas semelhantes às dos soviéticos. As expectativas para o Type 004 ( O 003 será  convencional e CATOBAR) sugerem um navio aproximadamente do tamanho e sofisticação da classe Ford, o que obviamente exigiria imensas capacidades de geração de energia. Como os Estados Unidos, a China quer excesso de geração de energia para colocar um conjunto de futuras armas e sensores. 

Para esse fim, a China precisa de reatores mais poderosos do que aqueles que atualmente usa em seus submarinos, e construir quebra-gelos para a Rússia pode fornecer a experiência necessária.

Essa abordagem contrasta com a da marinha francesa, que decidiu melhorar com base na experiência na construção de reatores nucleares para submarinos. Embora a França tenha tido sucesso com submarinos nucleares, acredita-se que Charles De Gaulle esteja com pouca potência em relação aos outros porta aviões. O Charles de Gaulle usa dois reatores Areva K15, do mesmo tipo que os empregados nos submarinos franceses. Esses reatores fornecem 150 MW cada, mas o De Gaulle possui apenas 43.000 toneladas de deslocamento e se locomove à 27 nós. Vale a pena notar que a Índia considerou, mas sabiamente rejeitou, a idéia de construir o INS Vishal com propulsão nuclear, em grande parte devido aos desafios técnicos do desenvolvimento de um reator poderoso o suficiente.

Considerações finais:

A idéia de usar dados técnicos russos e know-how nuclear certamente faz sentido do ponto de vista da Marinha do Exército de Libertação Popular. O PLAN não tem o luxo da abordagem incremental adotada pelos Estados Unidos e tem bons motivos para considerar a abordagem francesa insuficiente para suas necessidades. 

O fato de os russos parecerem bem em deixar os chineses estudarem seus quebra-gelo sugere, mais uma vez, que Moscou e Pequim atualmente vêem a cooperação como um interesse de longo prazo. Obviamente, nada estará certo até que o primeiro porta aviões nuclear da China entre em serviço, talvez por volta de 2030.

Fonte National Interesting

6 Comments

  1. Valcir says:

    É a terceira guerra que se aproxima.Todos estão se armando!Russos,Chineses,Coreanos,Indianos e lógico USA.Nao vai sobrar nada, um lugar pra se viver.

  2. Muttley says:

    Sempre achei que o reator de um submarino fosse mais complexo dada a necessidade de compactação e silêncio, mas pelo visto fazer algo para um porta aviões é tão desafiador quanto já que não basta apenas aumentar de tamanho.

    • MMerlin says:

      A dificuldade de construção de um reator nuclear está em outro patamar.
      Normalmente, a primeira etapa seria a construção nos requisitos necessários através de um projeto piloto, seguindo para a etapa posterior, que seria a miniaturização.
      O problema já não é tamanho e sim a potência.
      Como um porta-aviões tem mais espaço que um submarino, podemos supor que, ou o problema é tecnologia e conhecimento, ou o problema é falta de recursos para o projeto.

  3. Girleno Cavalcante de Souza says:

    Lamentável o risco que a humanidade vive no tempo atual. Considerando que desde o surgimento das armas nucleares não houve nenhuma guerra proporção mundial, com guerras mais periféricas, não deixa de ser assustador saber que a sobrevivência da humanidade está ao alcance do apertar de um botão. Sabemos hoje pelos registros da história que por pouco não aconteceu esse fato. Olhando para as espécies vivas só os seres herbívoros que vive em relativas paz tirando as brigas pelo acasalamento. Já os carnívoros! A disputa pelo poder é a tônica da sua existência.

  4. Elias says:

    Eterna vigilância. … o Brasil precisa acordar e fortalecer suas ffaa . Haja visto as ameaças da França e Canadá quanto a Amazônia .

  5. Silvyo Avvanti says:

    No futuro, a Rússia voltará a ser aliada do Ocidente, como já foi em guerras anteriores, a exemplo da 1ª e 2ª Guerras Mundiais.

    A Rússia e a Índia possuem o azar de fazer fronteira com um império em crescimento e expansionista, que não tenciona dividir o poder, mas tomá-lo a força, passando a ser a potência hegemônica mundial.

    Certamente, isto fará com que a China possua atritos, não apenas com a potência hegemônica atual (EUA), mas também com seus vizinhos, que futuramente se voltarão para o Ocidente, como forma de resistir as garras do dragão chinês.

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