Defesa & Geopolítica

O Dilema Norte-Coreano. Negociar, atacar ou ignorar?

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Autor- De leon Petta para o Plano Brasil

Nestes dias diversos veículos de imprensa tem noticiado exaustivamente o histórico encontro entre o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o Líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un em Cingapura.

Como não seria de se espantar a vasta maioria da imprensa agora crítica a postura do presidente dos Estados Unidos por negociar com os norte-coreanos alegando a vitória política da Coreia do Norte por ter conseguido colocar os Estados Unidos numa mesa de negociações. Críticas de um movimento que obviamente se fossem feito pelas mãos de outro presidente, principalmente Barack Obama, seriam provavelmente elogios.

Mas de qualquer forma a grande questão é. O que fazer com a Coreia do Norte então? Para isso há apenas três ações possíveis que podem variar na sua infinitamente na sua efetividade de acordo com o contexto e com o número de atores envolvidos. Uma primeira ação seria a de negociar e torcer para que dê tudo certo (sim, torcer não há garantias) e a segunda manter como tudo como está e torcer para que o regime algum dia caia (sim, torcer também).

Mas o mais complicado é o terceiro, o de uma guerra. Afinal, sim os Estados Unidos ganhariam o conflito relativamente sem dificuldades. Mas o grande é problema é o “preço” a se pagar, não me referindo apenas ao custo militar em si, mas também ao custo humano e político que essa guerra teria.

Nesta hipótese não vamos considerar o envolvimento militar da China e nem do Japão, apenas dos Estados Unidos e da Coreia do Sul para que se limitem os possíveis resultados.

As simulações feitas pelos diversos institutos e órgãos apontam uma grande variedade de possíveis resultados e escalas, mas basicamente concordam em alguns pontos em comum. Primeiramente, a vitória militar norte-americana se daria de forma relativamente rápida. Apontando algo em torno de 2-4 meses de guerra, e precisando mobilizar entre 150 a 200 mil soldados (atualmente são 25 mil soldados dos Estados Unidos na Coreia do Sul e 50 mil no Japão) e uma enorme movimentação naval e aérea. E mesmo assim a retaliação norte-coreana seria devastadora para a península coreana.

Logo nos primeiros dias a situação seria devastadora, pois conforme o número necessário de navios e porta-aviões fossem deslocados para a região, as forças norte-coreanas ficariam em prontidão e ao menor sinal ou suspeita, lançariam uma verdadeira chuva de ferro e fogo sobre as cidades da Coreia do Sul. Como pode se ver neste gráfico da Stratfor:

As dezenas de milhares de peças de artilharia norte-coreanas que estão estacionadas ao longo da Zona Desmilitarizada seriam capazes de lançar sobre o Sul entre 1 quilo a até 980 mil quilos por quilometro quadrado por hora. Estas peças (dados sobre a quantidade de artilharia norte-coreana vão de 6,500 a até 18 mil) de fato até são em sua grande maioria obsoletas, datando em média dos anos 50 e 60, mas causam uma enorme destruição. Especialmente, se lançadas sobre as densas e concentradas cidades sul-coreanas, entre elas a enorme Seul com quase 10 milhões de pessoas. Algumas estimativas mais otimistas partem de 20 mil sul-coreanos e outras mais alarmistas dizendo 200 mil sul-coreanos mortos apenas no primeiro dia. De qualquer forma, não é difícil de prever que em 1 semana teríamos mais mortos do que na Guerra Síria que já dura mais de 7 anos.


Ainda que os poderosos bombardeiros americanos B-1B Lancer e B-2 Spirit que partiriam da base de Guam conseguissem junto com outros aviões estacionados em Okinawa e eventuais Porta-aviões na região, o problema seria localizar essas peças e destrui-las no menor tempo possível. Sendo que a capacidade militar dos Estados Unidos e neste cenário, Coreia do Sul também, estariam não focadas apenas nelas mas também distribuídos em outros demais alvos, como bases, bunkers, aeroportos, pontes, dispositivos antiaéreos, centros de distribuição de combustível e etc. Ou seja, a quantidade de alvos é grande demais para que esta ameaça das artilharias fosse neutralizada em um tempo hábil o suficiente para evitar a destruição das cidades sul-coreanas, bem como a perda de milhares de vidas.

Mesmo com eventuais avanços por terra, no intervalo de 1 mês o número de mortos sul-coreanos chegaria facilmente nos 1 milhão e suas principais cidades estariam devastadas em ruínas. E isto ainda sem contar que a Coreia do Norte eventualmente use seus dispositivos nucleares, algo que seria até improvável já que eles não possuem meios efetivos de entregar elas em território protegido (Coreia do Sul e Japão). Nisso tudo ainda foi ignorado o uso de armamento químico e biológico que poderiam ser empregados pelos norte-coreanos ou uma eventual surpresa nuclear. Aí estaríamos falando em pelo menos 10 vezes mais mortos e dezenas de milhões de mortos em menos de 2 meses de guerra, além de áreas gigantescas contaminadas e inabitáveis na melhor das hipóteses por várias décadas.


Ou seja, a 12º economia mundial (Coreia do sul) estaria devastada em todos os sentidos. E a vitória norte-americana ao sul ainda abriria um novo dilema, quem iria reconstruir ambas as Coreias (Sul e Norte)? Em virtude dessa região ser uma das mais economicamente ativas, estaríamos falando de um dano econômico que também afetaria China e Japão (2º e 3º economia mundial), além de sobrecarregar os Estados Unidos (a 1º economia mundial).

O custo humano seria ainda mais devastador, os sul-coreanos que fazem parte de uma das sociedades mais avançadas do globo veriam metade de seu país em situação igual ou pior ao que a Síria tem hoje, a guerra levaria uma enxurrada de refugiados norte-coreanos para a China, possivelmente algo entre 3 a 5 milhões e mais um tanto para o Japão, possivelmente até 1 milhão de pessoas. E isso só pensando nos 25 milhões de norte-coreanos, já que acrescentar o número de refugiados provenientes de 52 milhões de sul-coreanos é impossível. O número de “cérebros” sul-coreanos perdidos também seria devastador, já que a Coreia do Sul é uma potência científica e tecnológica.

Seria seguro afirmar que em virtude do enfraquecimento econômico Europeu, uma guerra desse patamar impactaria severamente as economias asiáticas levando o mundo a uma rombo econômico que levaria entre 10 a 20 anos para se recuperar, mesmo com uma “rápida” vitória militar americana.

Resumindo, o ponto principal deste artigo. A questão Norte-Coreana infelizmente não possui outra opção menos custosa. O isolamento não deu certo já que o regime NÃO IRÁ CAIR magicamente sozinho (especialmente, sem envolver o risco de um conflito) e a questão militar seria desastrosa para a população civil dos dois lados em escala bíblica e mesmo países não envolvidos diretamente sofreriam as consequências, para o Brasil então que tem um comércio cada vez maior e dependente com a Ásia e que nem sequer “arrumou” a casa então, nem se fala.

Ainda que de fato não haja garantias de que esse acordo avance não há muito mais o que se fazer. E para piorar, qualquer negociação realista com a Coreia do Norte precisará envolver ainda anistia e garantias de que suas lideranças militares e políticas não sejam processadas Corte Penal Internacional, além de alguma provável bonificação. Mas diante da calamidade que foi apresentada, a pergunta é: não seria um preço pequeno a se pagar?

Sobre o Autor:

De Leon é Autor associado ao Plano Brasil e Professor das Faculdades Integradas Rio Branco. Doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo. Com estágio sanduíche na Virginia Commonwealth University (Estados Unidos) e University of Hong Kong (China). Tem experiência na área de Geopolítica e Crime Organizado. 

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