Defesa & Geopolítica

Conhecendo a República Centro-Africana

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No dia 6 de outubro último, encerrou-se, formalmente, meu tempo de serviço em Missão de Paz de Caráter Individual de um ano, como Oficial de Estado-Maior na Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização da República Centro-Africana (MINUSCA), na qual desempenhei a função de Chefe da Seção de Operações do Setor Leste da Missão. Nesse contexto, sem pretensão de esgotar o assunto e no intuito de compartilhar o conhecimento adquirido sobre o mencionado país africano, apresenta-se, nas linhas a seguir, um panorama atual da República Centro-Africana, de seu conflito interno e da MINUSCA.

A República Centro-Africana (RCA) é um país tão desconhecido quanto pobre. Bem definida pela sua denominação oficial, a RCA situa-se no coração do continente africano, ligeiramente ao norte da linha do Equador. O país, que possui como línguas oficiais o sangho (idioma local) e o francês (herança da colonização), possui considerável área territorial (cerca de 622.0000 km² – maior que o Estado brasileiro de Minas Gerais ou que a França, por exemplo) sendo, no entanto, escassamente povoado, com população estimada em cerca de 4.900.000 habitantes pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2017.

Terra de povo humilde e simpático, a RCA, infelizmente, pode ser identificada como um exemplo da definição de Estado falido. Pela sua debilidade e ineficiência, não se identifica a presença do aparato estatal no país – nem mesmo na própria capital, a cidade de Bangui -, sendo consequentemente ausente na grande maioria de seu território.

Uma percepção geral de sua incipiente economia auxilia na compreensão da falência do referido Estado. Baseada no setor primário, na inexistência do setor secundário e em um inexpressivo setor terciário, a economia da RCA não se estruturou ao longo da história. O Produto Interno Bruto é um dos menores da comunidade internacional, não tendo alcançado a cifra de 2 bilhões de dólares no ano de 2016, segundo o Banco Mundial (BM), classificando o país nas duas ou três últimas posições do “ranking per capta”, elaborado pela ONU ou pelo BM.

Não há obstáculos geográficos de vulto na superfície. Situado na mesma latitude média que os Estados brasileiros do Amapá e de Roraima, o território da RCA evidencia diversas semelhanças com aspectos fisiográficos de algumas regiões do Brasil. A porção Nordeste do país caracteriza-se pelo clima subsaariano, com predominância da vegetação de estepe africana, o que torna a região semelhante ao semiárido do Nordeste brasileiro. A savana domina grande parte do território centro-africano (cerca de 80%), área na qual vigora o clima tropical. A região é extremamente similar ao cerrado no Brasil, sendo sua semelhança tamanha, que a paisagem geral da maior parte da RCA se torna familiar aos conhecedores desse bioma brasileiro. No extremo Sul e região Sudoeste do país, verifica-se a incidência do clima equatorial e a existência da floresta equatorial africana que, na RCA, é muito parecida com a mata atlântica brasileira.

Diferentemente da Geografia, no âmbito da História podem ser identificadas distintas causas do não desenvolvimento do Estado centro-africano. País jovem, a República Centro-Africana obteve sua independência junto à França em 1960. Durante a colonização, não houve ações efetivas para o desenvolvimento educacional e a formação de lideranças locais. Tal lacuna culminou com a inexistência de quadros capazes de gerirem o país quando do início de sua existência soberana. Em consequência, os governos e as instituições, desde a independência, ainda não foram capazes de representar todos os segmentos da população centro-africana, fato gerador dos sucessivos golpes de Estado e da constante instabilidade política que marcam a RCA.

A ausência de representatividade dos grupos étnicos locais no governo e nas instituições nacionais confere tênue caráter de legitimidade a alguns grupos armados, que ocupam o vácuo de poder deixado pelo Estado em grandes porções do território onde aquele não se faz presente, aliando-se, dividindo-se e lutando entre si, ocasionando os confrontos armados que há anos assolam a RCA, na luta por recursos e poder. O conflito atualmente vivenciado sintetiza a curta história do país.

A partir do contexto abordado, iniciou-se, no ano de 2012, a sublevação da população da região Nordeste do país, majoritariamente muçulmana, insatisfeita com os anos de abandono do setor público e com a falta de representatividade no governo e em outras instituições nacionais. Os grupos armados existentes na região formaram uma coalizão denominada Seleka (“aliança”, em sangho), marcharam até a capital, depondo o Presidente da República, e empossaram seu dirigente máximo no cargo. O novo governo, além de não melhorar a situação geral do país, foi complacente com diversos abusos e crimes cometidos pelos grupos armados Seleka, notadamente contra a população cristã e animista que, para se defender, criou diversos grupos de autodefesa denominados Anti-balaka (“anti-facão”, em sangho). Em dezembro de 2013, a espiral de violência atingiu seu pico, ocasionando a “batalha de Bangui”. Barbáries atraem a atenção da comunidade internacional, tendo a ONU concedido seu aval para uma intervenção militar da França, visando controlar os conflitos fratricidas e restaurar a ordem interna do país. Assim, surgiu a MINUSCA, estabelecida pela ONU em 2014 para estabilizar a RCA.

Atualmente, a MINUSCA conta com cerca de 13 mil integrantes, a participação de 53 países e um orçamento de aproximadamente 1 bilhão de dólares por ano. Os êxitos iniciais da missão de estabilização relativa do país e da realização de eleições democráticas foram eclipsados por uma onda de violência em diferentes pontos das partes Leste e Centro-Sul do território centro-africano, a partir do final de 2016.

Em que pese a gravidade dos recentes episódios de violência, a maior crise na RCA é humanitária. A conjugação dos aspectos geográficos, históricos, econômicos e políticos, brevemente abordados, implica em uma triste resultante, que desaloja cerca de 20% da população de seus lares na busca por condições de subsistência e impede o desenvolvimento econômico e social do país, fazendo com que mais da metade dos cidadãos necessite de algum auxílio para sobreviver.

Após a apresentação de uma visão panorâmica sobre a RCA e sobre a MINUSCA é natural que se evidenciem somente os aspectos negativos sobre o país e sobre a Missão, sendo oportuno e útil realizar uma breve reflexão comparativa para obter a perspectiva adequada do universo vivenciado na RCA.

Exemplificando, destaca-se que há vários países que convivem com grupos/bandos armados com grande poder e influência em parte de seu território. As dificuldades estruturais existentes na RCA, como aeroportos sem pavimentação, estradas e pontes precárias e rede de energia elétrica incipiente, também se reproduzem em um vasto número de nações. As soluções para tais óbices de infraestrutura são conhecidas, sendo, inclusive, implementadas, na medida do possível, no país centro-africano.

Ainda é relevante abordar algumas “verdades parciais” comumente difundidas sobre a RCA e seu atual conflito. Quanto à alegação de lutas intermináveis por desavenças étnicas e religiosas, destaca-se que, apesar de a RCA ser cortada pela “fronteira” entre a África muçulmana e a África cristã no terço Nordeste do país, a coexistência das duas religiões no mesmo território não gera conflitos por si mesma na população, exceto quando manipulada por grupos armados ou outros atores com interesses escusos, situação tristemente comum naquela nação.

Outro esclarecimento significativo refere-se ao mosaico étnico que compõe a população. Especialistas identificam mais de 80 etnias presentes, aspecto peculiar também eventualmente manipulado por grupos armados e outros “senhores da guerra”, com influência, direta ou indireta, na criação de clivagens no bojo do povo centro-africano. No entanto, não há “ódios étnicos” genuínos no seio da população. Testemunhei ambas as conclusões, ao atuar funcionalmente em confrontos que se iniciaram entre facções do mesmo grupo armado Ex-Seleka, tendo uma delas aliado-se, posteriormente, a grupos Anti-Balaka.

Quanto às alegações da presença de grupos terroristas na RCA ou da ligação de grupos armados do país com o terrorismo internacional, verifica-se a total ausência de qualquer dado concreto ou mesmo de indício de sua comprovação, sendo a possibilidade de ocorrência de atentados em quaisquer outros países, como eventual retaliação por atuação no conflito, julgada extremamente improvável por estudiosos do tema.

A vivência de um ano na República Centro-Africana foi repleta de ensinamentos pessoais e profissionais. O profundo respeito à capacidade de subsistência do povo centro-africano foi um dos mais significativos. Uma grande lição de resiliência e crença em dias melhores no porvir.

Fonte: EBLOG

 

“Braço Forte”

… É o nome da mais nova coluna que surgiu de uma parceria do Centro de Comunicação Social do Exército (CCOMSEX) e o Plano Brasil. Criada com o objetivo de difundir as informações do Exército Brasileiro, a coluna divulgará os conteúdos produzidos pela Agência “Verde Oliva” bem como, trabalhos dos autores do Plano Brasil para os seus leitores, mantendo-os atualizados de maneira dinâmica, com informações segmentadas.

Esta iniciativa reforça o compromisso do Plano Brasil com os seus leitores e busca assim atender a sua missão primeira, difundir e dinamizar o conhecimento a cerca do setor de Defesa e Geopolítica de forma atualizada.

E.M.Pinto

 

12 Comments

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  2. Fennek says:

    Operação sem sentido algum, inútil, pura idiotice, só vão gastar [mais] dinheiro a toa (mesmo recebendo as compensações da ONU) e trazer mais problemas através de mais imigrantes daquele fim de mundo. O Brasil tem é que se distanciar da ONU, isso sim, essa organização nunca mostrou a que veio.

    • casuar says:

      Aleluia , concordo em GNG .

      • BrComenta says:

        Aleluia,Aleluia , Concordamos em GNG ….

    • Porradaria says:

      Essa organização é a ponta de lança para o governo mundial. Crie o caos nos países, mostre à sua população que seus governantes são incompetentes e então, faça o povo conclamar a presença da ONU. É devager, é lento, mas o projeto segue adiante a passos firmes.

  3. Tomcat3.7 says:

    Ótimo texto, de quem sentiu na pele o lugar por um ano. Pelo texto, lá não é a Síria piorada mil vezes que pregam internet afora. Pode,e deve ,ser mais complicado que o Haiti mas creio,com base no texto, que não passa disso.

  4. Adriano says:

    Parabens ao Coronel e necessitamos sim de mais militares brasileiros em missoes como estas para termos mais voz ativa no cenario mundial, bem como experiencia de primeira grandeza para nossas tropas, principalmente por ser custeado pela propria ONU! BRASIL ACIMA DE TUDO!

    • Anônimo says:

      Não é enviando soldados para missões da ONU que o Brasil conquistaria respeito pelo mundo, a situação ta igual ou pior dentro de casa, até o momento todas qualidades do Brasil que desperta paixão, admiração e cobiça, são frutos do trabalho da natureza, 6 biomas magníficos, terras férteis, água e minerais, o resto gera riso e espanto!

  5. Adriano Corrêa says:

    Nossa que bacana! Sucesso na missão é garantida, e dias melhores irá a RCA!

    Pois:…. Missão dada é missão cumprida!

  6. Caio says:

    Manda a Franca cuidar da merda que deixou, desestruturou a organizacao tribal daquele povo, impos lingua , religiao, e ditadores testas de ferro, agora o Brasil tem que limpa a caca? A Europa tem mais e que aguentar o peso da imigracao ferraram meio mundo com um colonialismo de plantations, exploracao sistematizada dos minerios e garantiram mesmo com o fim do dominio politico fantoches para servirem aos seus proprositos em todos os cantos onde passaram_ inckusive por aqui na America Latrina_, e uma pena a RCA esta longe deles ,.para nao invadirem seus egos a dentro.

  7. CarlBerna says:

    Um belo texto mas que não dá qualquer previsão de futuro, ou seja, toda as pessoas já sabem que não há motivos religiosos mas apenas pelo controlo das riquezas e os chefes da Minusca pretendem forçar a aceitação da autoridade do estado e o respetivo desarmamento dos 14 grupos armados. O General senegalês Balla Keita pede forças especiais para poder forçar os grupos armados porque vai se tornar mais complicado para a Minusca e sobre isso nem uma linha e também não existe nenhuma referência aos militares portugueses que lá estão. 4 links com reportagens
    https://www.youtube.com/watch?v=NhzWhz0TSxE
    https://www.youtube.com/watch?v=An29lWTUkns&t=196s
    https://www.youtube.com/watch?v=EXlYP8-IbnA
    https://www.rtp.pt/noticias/mundo/comandos-portugueses-na-republica-centro-africana_v995557

  8. Tem cada comentário que eu vou te falara viu?

    Ao menos procurem saber qual a importância de participar de uma força de paz em questão ao treinamento, cooperação e aprendizado para um país. Qual a importância da presença nacional para os cidadãos do país em questão?
    Tem hora que é melhor não comentar se o comentário for apenas opinião de gibi e cartilha pré formatada.

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