Defesa & Geopolítica

Brasil: Procurador-geral da República, Rodrigo Janot, denuncia presidente Temer por corrupção passiva

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Procurador-geral da República apresenta denúncia ao STF contra presidente, investigado com base na delação da JBS. PF entrega relatório final do inquérito ao Supremo, mencionando ainda o crime de obstrução de Justiça.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, denunciou nesta segunda-feira (26/06) o presidente Michel Temer ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo crime de corrupção passiva. É a primeira vez que um presidente da República é denunciado à Corte no exercício do mandato.

A acusação tem como base uma investigação contra o peemedebista decorrente da delação de executivos da empresa JBS. Alvo do mesmo inquérito, Rodrigo Rocha Loures, ex-deputado e ex-assessor especial de Temer, foi denunciado por Janot também por corrupção passiva.

Loures foi flagrado em abril recebendo uma mala com 500 mil reais em propina de um diretor da JBS, Ricardo Saud. O dinheiro, segundo a denúncia, teve o presidente como beneficiário. Além disso, um total de 38 milhões de reais foi prometido pela empresa, mas nunca entregue, acusa Janot.

“Entre os meses de março e abril de 2017, com vontade livre e consciente, o presidente da República Michel Miguel Temer Lulia, valendo-se de sua condição de chefe do Poder Executivo e liderança política nacional, recebeu para si, em unidade de desígnios e por intermédio de Rodrigo Santos da Rocha Loures, vantagem indevida de R$ 500.000,00”, afirma um trecho da denúncia.

O documento complementa que os valores foram entregues a Loures por Saud e oferecidos pelo empresário da JBS Joesley Batista, cuja delação premiada causou um terremoto político no governo.

O procurador-geral da República pede que Temer seja condenado a pagar 10 milhões de reais por reparação de danos morais à coletividade. Loures, por sua vez, pagaria 2 milhões de reais.

A denúncia de Janot foi enviada ao ministro Edson Fachin, relator da investigação no STF, que deve conceder um prazo de 15 dias para a defesa se manifestar antes de encaminhar o caso para a Câmara.

Segundo a Constituição, os deputados precisam autorizar, em votação no plenário, a abertura de um processo contra o presidente da República em ação penal. São necessários os votos de dois terços dos parlamentares da Casa (342 de 513 deputados) para que o processo avance.

Se a ação for admitida na Câmara, ela volta ao Supremo para ser julgada. Caso a denúncia seja aceita pela Corte, o presidente se torna réu e deve ser afastado do cargo por 180 dias. No entanto, se for rejeitado pelos deputados, o processo é arquivado e não pode ser analisado pelo STF.

Relatório final da PF

No mesmo inquérito que resultou na denúncia por corrupção passiva, Temer é investigado ainda pelos crimes de obstrução de Justiça e participação em organização criminosa – por esses delitos, no entanto, a Procuradoria-Geral da República (PGR) ainda não apresentou denúncia.

Mais cedo nesta segunda-feira, a Polícia Federal (PF) enviou ao Supremo o relatório final da investigação envolvendo Temer e Loures. Também foi entregue ao STF a perícia realizada na gravação da conversa entre o empresário Joesley Batista e o presidente.

O conteúdo do relatório não foi divulgado pela Corte. Segundo a imprensa brasileira, no entanto, a investigação da PF concluiu que Temer cometeu obstrução de Justiça, além de não ter acionado as autoridades ao tomar conhecimento de crimes de corrupção envolvendo promotores e juízes.

O documento afirma, segundo o jornal Folha de S. Paulo, que Temer atuou para “embaraçar investigação de infração penal praticada por organização criminosa, na medida em que incentivou a manutenção de pagamentos ilegítimos a Eduardo Cunha, pelo empresário Joesley Batista”.

Além disso, o presidente “deixou de comunicar autoridades competentes de suposta corrupção [de membros] da Magistratura Federal e do Ministério Público que lhe fora narrada pelo mesmo empresário”, acrescenta o texto, ainda de acordo com o diário paulista.

O crime de corrupção passiva imputado na denúncia de Janot já havia sido mencionado num relatório preliminar da PF entregue ao STF na semana passada. O documento descrevia o episódio da mala com 500 mil reais em propina entregue a Loures por Saud em benefício de Temer.

Gravação de Joesley

Uma das provas usadas no processo é a gravação feita por Joesley em março durante uma conversa com o presidente no Palácio do Jaburu. No diálogo, Temer teria dado aval para o pagamento de uma mesada ao deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), em troca de seu silêncio na prisão. O áudio faz parte do acordo de delação premiada firmado por Joesley.

Na sexta-feira passada, a PF divulgou o laudo de uma perícia realizada na gravação pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC), concluindo que não houve edições no áudio, conforme alegava a defesa de Temer. O presidente vem negando as acusações desde o início.

Nesta segunda-feira, antes de Janot apresentar a denúncia, Temer fez um discurso a empresários no Palácio do Planalto afirmando que “não há plano B” para o Brasil e que nada destruirá seu governo. “Nem a mim, nem a nossos ministros”, garantiu o peemedebista.

Fonte: DW

Em parecer sobre Loures, Janot diz que não há dúvida que Temer cometeu corrupção

Em parecer encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirmou na semana passada que não há duvida de que o presidente Michel Temer cometeu corrupção no caso investigado a partir das delações da JBS.

Para Janot, Temer se valeu de Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), ex-assessor presidencial e ex-deputado, para “operacionalizar o recebimento de vantagens indevidas em troca de favores com a coisa pública”.

“Note-se que em vários momentos dos diálogos travados com Rodrigo Loures, este deixa claro sua relação com Michel Temer, a quem submete as demandas que lhes são feitas por Joesley Batista e Ricardo Saud, não havendo ressaibo de dúvida da autoria de Temer no crime de corrupção”, afirmou o procurador-geral.

A manifestação de Janot, de 93 páginas, ocorreu no âmbito da ação cautelar que tramita no Supremo e avalia a prisão preventiva de Rocha Loures. Ela foi encaminhada na terça-feira passada, um dia após a Polícia Federal ter apresentado ao STF um relatório parcial em diz haver evidências “com vigor” de que Temer cometeu corrupção passiva.

O chefe do Ministério Público Federal deverá oferecer denúncia contra Temer e Rocha Loures até terça-feira, dia em que encerra o prazo legalmente previsto para que Janot faça a acusação formal ao STF ou requeira o arquivamento do caso.

No parecer, o chefe do Ministério Público Federal manifestara-se contrário ao recurso da defesa do ex-assessor presidencial de ser colocado em liberdade.

Janot destacou ainda que “todos os assuntos tratados” por Joesley Batista com Temer envolviam a prática de crimes.

Ele enumerou o pagamento de vantagem indevida ao ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ); a conversa sobre corromper um juiz e um procurador da República e, além disso, o pedido de Joesley para que Temer apresentasse um interlocutor dele em razão dos contatos com o ex-ministro Geddel Vieira Lima e o atual ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, “estarem impossibilitados”, ao que o presidente indicou Rocha Loures.

“Uma vez autorizado por Temer, Rodrigo Loures inicia as tratativas criminosas com Joesley. Tratam basicamente dos principais interesses políticos e comerciais de Joesley Batista perante o governo federal, cujos pontos foram aprofundados numa reunião seguinte com os mesmos interlocutores, bem coma aludem a assuntos relacionados a crimes que Joesley vinha praticando para garantir a combinação de versões com alguns réus da operação Lava Jato, assim como a compra do silencio deles, por intermédio de pagamentos mensais”, disse.

O procurador-geral disse que a prova trazida dos autos reforça a narrativa dos delatores que, em nenhum momento, o destino final da propina era o ex-deputado.

“A vantagem indevida, em verdade, destinava-se a Michel Temer, a quem os colaboradores e o próprio Loures se referem como ‘chefe’ ou ‘presidente'”, afirmou.

Para Janot, a despeito da contestação àquela altura da gravação pelas defesas –rejeitada na sexta por laudo da PF que concluiu não ter havido edição–, o presidente acabou dando validade para a conversa entre ele e Joesley ao ter apresentado extraoficialmente sua versão dos fatos. Temer não comentou o conteúdo da gravação, quando foi interrogado pela polícia.

O chefe do MPF afirmou que o fato de Rocha Loures não ser mais deputado não neutralizaria o potencial de ele continuar a cometer crimes.

“Michel Temer permanece em pleno exercício de seu mandato como de Presidente da Republica. Por sua vez, os fatos apurados no Inquérito nº 4483/DF demonstram que o homem ‘da mais estrita confiança’ do atual chefe do Poder Executivo não mede esforços para servi-Io em atos ignóbeis de corrupção passiva e outras negociatas escusas, sempre na qualidade de longa manus”, avaliou.

Janot disse que revela-se “hialina”, isto é cristalina, a atuação conjunta dos investigados Rocha Loures e Temer.

Ele frisou que os fatos apontam para o desdobramento criminoso que se iniciou no encontro entre Temer e Joesley Batista no Palácio do Jaburu no dia 7 de março de 2017 e culminou com a entrega de 500 mil reais efetuada por Ricardo Saud –executivo da J&F, controladora da JBS– a Rodrigo Loures em 28 de abril de 2017″, concluiu.

Ricardo Brito

Foto: Procurador-geral da República, Rodrigo Janot. 24/11/2016 – REUTERS/Ueslei Marcelino

Reuters

Fonte: YAHOO

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