Defesa & Geopolítica

Trump queria demitir Comey desde a eleição, diz Casa Branca

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Porta-voz afirma que presidente americano não confiava no ex-diretor do FBI. Demissão, em meio à investigação da agência que envolve pessoas ligadas a Trump, é criticada por democratas e alguns republicanos.

Trump é criticado por demitir Comey em meio a inquérito envolvendo sua campanha

Em meio ao tumulto causado com a demissão do ex-diretor do FBI, a porta-voz adjunta da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, afirmou nesta quarta-feira (10/05) que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deseja demitir James Comey desde que foi eleito em novembro do ano passado.

“O presidente perdeu a confiança em Comey e, sinceramente, estava pensando nisso desde o dia em que foi eleito”, disse Sanders a jornalistas.

Sanders destacou ainda que Trump conversou com procurador-geral, Jeff Sessions, e o adjunto Rod Rosenstein na segunda-feira, quando eles transmitiram ao presidente a preocupação sobre o comportamento de Comey.

O ex-diretor do FBI era alvo de uma investigação do Departamento de Justiça pelas declarações públicas feitas poucos dias antes da eleição sobre suspeitas contra Hillary Clinton. A decisão de voltar a investigar a candidata sobre o uso de um provedor privado para enviar e-mails oficiais causou uma reviravolta na reta final da campanha eleitoral. Os democratas acusam Comey pela derrota nas urnas.

A demissão levantou, porém, questões sobre os motivos de Trump. Sob o comando do ex-diretor, o FBI iniciou uma investigação sobre as eventuais conexões entre a Rússia e pessoas ligadas à campanha do republicano.

Sanders ressaltou que a Casa Branca encoraja o FBI a completar essa investigação, embora tenha considerado não ser necessário nomear um procurador do ministério público independente para a investigação, como desejam alguns congressistas.

Demissão suspeita

Após o anúncio da demissão, os congressistas democratas e alguns republicanos se mostraram preocupados com a decisão e criticaram o presidente.

“O momento e o motivo para isso não fazem sentido para mim”, afirmou o republicano Richard Burr, presidente da Comissão de Inteligência no Senado, que, assim como o FBI, também investiga as supostas conexões entre a Rússia e à campanha de Trump. O senador acrescentou que a demissão pode complicar o inquérito.

O líder dos democratas no Senado, Chuck Schumer, classificou a demissão como um grave erro e apelou à nomeação de um magistrado independente para conduzir o inquérito sobre a interferência russa na campanha eleitoral.

Além dos democratas, alguns congressistas republicanos pediram ao Departamento de Justiça que nomeasse um procurador independente com o objetivo de afastar essa investigação do círculo de Trump e garantir que os fatos serão investigados de forma exaustiva.

A impressa americana revelou nesta quarta-feira que, pouco antes de ser demitido, o ex-diretor do FBI solicitou um notável aumento de recursos para a investigação envolvendo pessoas ligadas ao presidente.

Segundo o jornal americano The New York Times, citando como fonte três funcionários familiarizados com o assunto, Comey pediu esses recursos adicionais durante um encontro na semana passada com o procurador-geral adjunto, Rod Rosenstein.

O Departamento de Justiça negou “categoricamente”, através de um porta-voz, que Comey teria pedido mais recursos. Rosenstein foi precisamente quem escreveu o relatório que justificou a demissão do ex-diretor.

Já Trump defendeu nesta quarta-feira a demissão. “Ele não estava fazendo um bom trabalho. É muito simples. Ele não estava fazendo um bom trabalho”, disse o presidente ao ser questionado por jornalistas por que dispensou repentinamente o chefe do FBI.

Trump, no entanto, recusou responder se o novo diretor do FBI ficará a cargo da investigação que essa agência abriu sobre os contatos da campanha eleitoral do agora presidente americano com a Rússia. A Casa Branca também não esclareceu se a investigação sobre a Rússia continuará aberta pelo novo titular do FBI.

Fonte: DW

Um toque de Watergate

Demissão de diretor do FBI por Trump lembra escândalo que resultou na renúncia de Nixon e pode provocar um terremoto político em Washington, opina o correspondente da DW Miodrag Soric.

Miodrag Soric é correspondente da DW em Washington

Nunca antes na história dos Estados Unidos se viu algo assim: o chefe da Casa Branca demitiu o diretor do FBI, James Comey, num momento em que este conduzia investigações que poderiam ser perigosas para o presidente. Comey investigava tentativas da Rússia de influenciar a campanha eleitoral à presidência americana: com o objetivo final de respaldar o caminho de Donald Trump à Casa Branca e prejudicar sua rival política, Hillary Clinton.

Nas últimas semanas, o governo americano rechaçou todas as acusações de ter cooperado com o Kremlin durante a corrida eleitoral de 2016. Mas investigações do FBI ainda estão em curso. Demitir o chefe da autoridade policial antes do fim dessas investigações deixa um gosto político amargo. Agora não apenas democratas temem que Trump nomeie um diretor do FBI que logo coloque um ponto final nas investigações. E que, assim, a verdade sobre a influência de Moscou nunca venha à tona.

A decisão de Trump prejudica a credibilidade das instituições políticas em Washington. A reputação da classe política deve alcançar níveis baixos novamente, e o descontentamento político deve aumentar. O presidente supostamente quer um recomeço para o FBI. Trump usa como justificativa para a demissão de Comey o comportamento do diretor no caso envolvendo e-mails de Hillary.

Mas ninguém comprou a versão de Trump, nem mesmo seus colegas de partido. Afinal, foi o próprio Trump que elogiou a conduta de Comey no caso – depois de as investigações afetarem fortemente a reta final da campanha de sua adversária. Demitir o diretor do FBI, meses depois, justamente por isso faz alguns questionarem os motivos de Trump.

A aposentadoria compulsória de Comey poderia provocar um terremoto político em Washington. A decisão lembra o caso Watergate. Afinal Richard Nixon também demitiu um investigador especial que havia se inteirado das maquinações obscuras do presidente. Mesmo assim Nixon teve de renunciar: não se conseguiu esconder a verdade por muito tempo. Trump pode até demitir Comey, mas os democratas – e também alguns republicanos – vão continuar investigando se a equipe de campanha do presidente estabeleceu contatos com autoridades russas. Até agora faltam provas. Mas isso pode mudar.

Fonte: DW

 

 

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