Defesa & Geopolítica

Segurança Publica: PMERJ admite que nove sargentos estão sob suspeita de ligação com o tráfico da Cidade Alta

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PMs na Cidade Alta: grupo que usava um veículo blindado é suspeito de envolvimento com o tráfico Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

Agentes do GAT podem ter recebido R$ 1 milhão para transportar traficantes de volta à comunidade

O – Um dia depois de afirmar que uma recente transferência de nove sargentos do 16º BPM (Olaria) para outros batalhões foi um ato administrativo, o comandante-geral da Polícia Militar, coronel Wolney Dias, admitiu que tomou a medida por conta de uma denúncia de que eles teriam recebido propina de traficantes que controlam o conjunto habitacional Cidade Alta, em Cordovil. Todos eram do Grupo de Apoio Tático (GAT), uma espécie de tropa de elite da unidade, e estão sob a suspeita de ganharem R$ 1 milhão para transportar, dentro de um caveirão, bandidos do Terceiro Comando Puro que voltavam à comunidade. Na semana passada, a quadrilha, que controla a venda de drogas na área, entrou em guerra com uma outra facção. Ao fim do confronto, foram presos 45 invasores, que seriam integrantes do Comando Vermelho.

 Nesta segunda-feira, o comandante da Polícia Militar disse que o GAT do 16º BPM foi “dissolvido” para evitar que a investigação do caso seja “contaminada”.

— Não estamos fazendo juízo de valor antecipado. A transferência foi feita para preservar a apuração. Não seremos condescendentes com desvios de conduta. O policial que faz isso é um traidor da sociedade que jurou servir. A nota que divulgamos no fim de semana só dizia que a transferência dos policiais militares era uma medida tomada após avaliação do comando do batalhão. Não dissemos o motivo — argumentou Dias.

NOMES CITADOS

Segundo o coronel, na última quarta-feira, logo após a PM intervir na guerra da Cidade Alta, onde 32 fuzis foram apreendidos, a corporação recebeu a denúncia do suposto envolvimento de policiais do GAT com traficantes. No fim de semana, começou a circular nas redes sociais uma gravação de uma suposta conversa entre policiais e traficantes dentro do caveirão. Nela, são citados dois nomes, Barbosa e Félix. De fato, o batalhão de Olaria tem homens com esses nomes. O primeiro havia trabalhado horas antes da operação de quarta-feira, de acordo com o comando da corporação. Já Félix foi baleado há três meses e está de licença médica. Wolney Dias disse que a autenticidade do áudio, que teria sido gravado em fevereiro, ainda não foi comprovada.

— Estamos avançando nas investigações, mas é fundamental o sigilo. No fim de semana surgiu o áudio, que nos foi repassado pela Secretaria de Segurança. Foi um outro indício, mas, como disse, não posso antecipar o julgamento deles. Não podemos afastá-los totalmente de suas funções — disse o oficial, justificando o fato de não ter retirado das ruas os policiais sob suspeita.

O Ministério Público estadual determinou nesta segunda-feira a abertura de duas investigações sobre o caso, uma no âmbito criminal comum e a outra, no militar. O primeiro está sob a responsabilidade do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp). Os promotores Alexandre Themístocles e Eduardo Campos requisitaram as fichas disciplinares dos policiais transferidos do 16º BPM e um relatório sobre o uso de veículos blindados em operações realizadas na Cidade Alta. O documento deverá conter os nomes dos integrantes das guarnições que estavam com os caveirões.

A outra investigação está a cargo da Auditoria Militar, que pediu à Corregedoria Interna da PM que investigue o áudio gravado. Dependendo do resultado, será aberto um inquérito contra os policiais por associação ao tráfico.

TRAFICANTE PROCURADO

Acusado de chefiar o tráfico de drogas da Cidade Alta, Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, também é suspeito de comandar uma quadrilha que corrompeu policiais civis e militares na Baixada Fluminense. Em outubro do ano passado, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público estadual e a 58º DP (Posse) deflagraram uma operação para cumprir mandados de prisão contra agentes de segurança e bandidos da comunidade Buraco do Boi, em Nova Iguaçu.

De acordo com uma denúncia apresentada por promotores, os policiais recebiam propinas para não combater o tráfico na região e fornecer informações sobre operações programadas. Pelas investigações, Peixão comandava o tráfico na favela da Baixada a distância, dentro dos complexos de Parada de Lucas e Vigário Geral, e ordenava a entrega de propinas aos policiais. Os pagamentos, segundo investigações, eram feitos às sextas-feiras e aos sábados e domingos. Os valores chegariam a R$ 70 mil por mês. O dinheiro, aponta o Ministério Público, era repassado em postos de gasolina e num posto da PM no Buraco do Boi.

Aos 30 anos, Peixão também responde a processo por tráfico em Duque de Caxias, onde nasceu. Após assumir o comando da venda de drogas em Parada de Lucas, ele começou, em 2016, a ordenar invasões à Cidade Alta, até então dominada pelo Comando Vermelho. Quando tomou o conjunto habitacional de Cordovil, fechou um cinturão de comunidades estratégicas à beira da Avenida Brasil, de frente para um acesso à Rodovia Washington Luís e a poucos quilômetros da Via Dutra.

Desde o segundo semestre do ano passado, a facção criminosa expulsa da Cidade Alta tenta recuperar o território. Sucessivos confrontos entre quadrilhas são narrados em áudios que circulam na internet. Numa gravação de sete meses atrás, um traficante — que, segundo a polícia, é Peixão — anunciava uma invasão ao conjunto de Cordovil. Promessa cumprida, ele reclama, em outro áudio, do que encontrou:

“O menor está aqui para ser instruído, para aprender uma nova doutrina e ir lá, onde ele é cria, fazer a diferença. Tu conhece a Cidade Alta? (…) As ruas tudo cheias de lixo, tudo pichado. (…) A partir de agora e para sempre, a Cidade Alta é do Bonde dos Taca Bala”.

Músicas de funk conhecidas como proibidões passaram a ser uma espécie de crônica da criminalidade. Uma delas diz: “Aqui, na Cidade Alta/ A boca tá vendendo / E a favela tá lucrando / Droga vai, dinheiro vem, o cria tá faturando / Tem armamento novo / Que o mano mandou buscar.”

Fonte: O Globo

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