Defesa & Geopolítica

Radicais da ‘esquerda’ e da ‘direita’ somam quase metade das intenções de voto na França

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Pela primeira vez em uma eleição presidencial francesa, dois candidatos extremistas e populistas têm grandes chances de chegar ao segundo turno, neste que é o pleito mais imprevisível e marcado por reviravoltas da história recente do país.

Em questão de meses, candidatos da elite política do país – como o ex-presidente Nicolas Sarkozy e o ex-primeiro-ministro Alain Juppé -, se viram fora da corrida (eliminados em eleições primárias) e, após escândalos, o jogo dos favoritos acabou sendo reembaralhado algumas vezes.

Somados aos “nanicos”, de esquerda e de direita, candidatos de perfil radical somam praticamente 50% das preferências do eleitor francês, indicam sondagens.

Até mesmo os dois candidatos que representam os partidos tradicionais que dominam a vida política francesa há décadas – Benoît Hamon, do Partido Socialista (ou PS, centro-esquerda), e François Fillon, do conservador Republicanos (centro-direita) – representam as alas mais radicais de seus respectivos campos políticos.

Trata-se do pleito mais imprevisível dos últimos 50 anos. Quatro candidatos – Le Pen, Fillon, Mélenchon e o centrista Emmanuel Macron – têm chances de passar para o segundo turno, em 6 de maio.

Macron foi ministro da Fazenda do atual presidente, François Hollande (Partido Socialista), e rompeu com o governo.

Herdeira do patriarca da extrema direita francesa, Jean-Marie Le Pen, Marine Le Pen divide a liderança das pesquisas com Macron, em empate técnico, com 22% a 24% das intenções de voto, embora tenha registrado leve queda nas pesquisas na reta final da campanha.

A vantagem de Macron e Le Pen é pequena em relação a Mélenchon e Fillon, também em empate técnico e que alternam a terceira colocação, com 18% a 20% dos votos.

Ou seja, todas as combinações são possíveis para o segundo turno, inclusive uma disputa final entre os dois “extremos”: Le Pen e Mélenchon.

Candidatos antissistema

Para especialistas, o avanço de Le Pen e Mélenchon é consequência do desgaste da elite política e das siglas – PS e Republicanos – que se alternam no poder na França desde o início dos anos 1980.

Pela primeira vez, socialistas e republicanos, que dominavam mais de metade dos votos no país, correm o risco de ficar, ao mesmo tempo, fora do segundo turno em uma disputa presidencial.

Para Martial Foucault, diretor do Centro de Pesquisas Políticas da Universidade Sciences Po de Paris, a opção por Le Pen ou por Mélechon representa um gesto de protesto diante dos problemas do país.

“Os franceses preferem se refugiar em votos de protesto ou de radicalização. Isso não significa adesão total aos projetos de sociedade de Le Pen ou Mélenchon”, afirma.

Para o cientista político, trata-se de uma “mensagem clara” aos partidos tradicionais: eles não são donos do poder.

Os dez anos de governo do conservador Nicolas Sarkozy (2007-2012) e do socialista François Hollande (que assumiu em 2012), que bateu recordes de impopularidade, frustraram os franceses.

Um dos principais problemas do país é o desemprego, que permanece elevado, em 10%. A economia vem crescendo pouco, apenas 1,1% em 2016, índice inferior à média europeia, de 1,9%.

Nesse cenário, parte do eleitorado vem se concentrando em torno de partidos que denunciam os supostos “vilões” da situação: o sistema político, a globalização, a Europa e os imigrantes.

Nessa campanha, todos os candidatos, inclusive de partidos alinhados ao governo, denunciam o “sistema” em discursos.

Le Pen e Mélenchon, por exemplo, embora em campos opostos, disputam o eleitorado operário e apresentam várias medidas semelhantes em seus programas de governo, como a defesa da saída da França da União Europeia, o chamado “Frexit”, e da Otan (aliança militar ocidental).

Ambos defendem ainda a volta da idade mínima da aposentadoria para 60 anos, em vez dos 62 atuais, a revogação da nova lei trabalhista e o protecionismo econômico,além da realização de plebiscitos, sobre, por exemplo, a saída da França da União Europeia.

Também se dizem próximos ao presidente russo, Vladimir Putin, e defendem uma reaproximação com a Rússia.

Avanço dos extremos

Também conhecido pelas iniciais JLM, Mélenchon deixou o Partido Socialista em 2008. É o candidato que mais cresceu nas pesquisas nesta reta final, com aumento de cerca de oito pontos percentuais no último mês.

Com forte presença nas redes sociais e discursos antiglobalização e crítico à elite política, o líder do movimento França Insubmissa tem atraído grande fatia do eleitorado jovem (44% dos eleitores de 18 a 24 anos, segundo pesquisa Ipsos para o jornal Le Monde ), que costuma se abster nas urnas em grandes percentuais.

O candidato lançou até mesmo um videogame, “Fiscal Kombat”, onde se transforma em herói que arranca sacos de dinheiro dos “oligarcas” (personagens como Sarkozy ou a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional, a francesa Christine Lagarde) para permitir a distribuição mais justa de riqueza.

Antes mobilizado contra Le Pen, o presidente Hollande passou a atacar também Mélenchon, afirmando que é necessário lutar “contra todos os populismos na Europa”.

“Ele (Mélenchon) não representa a esquerda que eu considero como capaz de governar, e tem aptidões que caem no simplismo”, declarou Hollande.

Le Pen, por sua vez, busca suavizar a imagem da Frente Nacional desde que assumiu a liderança da sigla, em 2011, procurando afastar o rótulo de partido racista e homofóbico. Mas mantém o discurso radical em temas como imigração – disse que proporá uma moratória sobre a imigração legal imediatamente após sua eventual eleição, até definir novas leis mais rigorosas.

O programa da líder da FN prevê reduzir drasticamente a imigração legal na França de cerca de 200 mil pessoas por ano, atualmente, para apenas 10 mil.

O socialista Hamon faz campanha voltada para o campo antiliberal do partido e, com isso, perdeu o apoio de grande parte dos sociais-democratas, como o ex-premiê Manuel Valls, derrotado nas primárias da sigla e que declarou que irá votar no centrista Emmanuel Macron.

Hamon tem apenas cerca de 8% nas pesquisas. Se confirmado, será o pior resultado do Partido Socialista em décadas.

O conservador Fillon, mais à direita entre os conservadores, é ultraliberal e tem o apoio de movimentos católicos. Seu perfil desagrada parte dos centristas, historicamente ligados à direita na França, e que também decidiu apoiar o centrista Emmanuel Macron. A campanha de Fillon, entretanto, foi abalada por um escândalo de empregos fantasma envolvendo sua mulher e filhos.

Indecisos

As incertezas em relação à votação ainda são grandes, já que, a poucos dias do primeiro turno, mais de um terço dos eleitores franceses continuam indecisos.

Outro fator de peso que deverá influenciar os resultados é a taxa de abstenção – o voto na França não é obrigatório. Segundo pesquisas recentes, ele poderá ultrapassar 30%, o que seria um recorde.

Em tom de ironia, a imprensa francesa vem dizendo que a abstenção poderá ser o “partido com o maior número de votos”.

BBC BRASIL

Foto: Getty Images / BBCBrasil.com – Principais candidatos à Presidência da França, da esquerda para a direita: François Fillon, Benoit Hamon, Marine Le Pen, Emmanuel Macron e Jean-Luc Mélenchon

Fonte: Terra

O laboratório da extrema direita no norte da França

Governada pela Frente Nacional, pequena Hénin-Beaumont serve de vitrine para os populistas liderados por Marine Le Pen. É lá que a candidata à presidência pretende comemorar uma eventual vitória no primeiro turno.

Duas equipes de TV alemãs e uma japonesa visitam a pequena Hénin-Beaumont, no norte da França. Há três anos, o partido populista de direita Frente Nacional (FN) governa a cidade, antigo centro de mineração, vendo-a como uma espécie de campo de provas.

O interesse no povoado de 27 mil habitantes, com taxa de desemprego de quase 20%, é grande, especialmente porque, no próximo domingo (23/04), a candidata do partido, Marine Le Pen, pretende aguardar o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais não com a elite que despreza, em Paris, mas sim aqui, em seu “laboratório”.

O porta-voz da prefeitura de Hénin-Beaumont, Christopher Szczurek, guia os jornalistas pelo prédio da prefeitura e pela Praça do Mercado. Aonde quer que vá, é cumprimentado calorosamente com dois beijos no rosto. Especialmente as mulheres mais velhas, com cabelo branco e bolsa imitando crocodilo se interessam por ele. Sczurek distribui panfletos, outros partidos não são vistos no mercado nesta manhã chuvosa.

“As pessoas adoram a Frente Nacional porque está presente e se preocupa com as pessoas. É simples assim. Quando nosso rival estava na prefeitura, havia muitos problemas. Agora as pessoas estão simplesmente contentes com o modo como fazemos as coisas. Abaixamos os altos impostos. Agora, as pessoas parecem estar felizes”, afirma o ativista da FN.

Porta-voz Christopher Szczurek diante do prédio da prefeitura: “Agora as pessoas estão simplesmente felizes”

Os rivais eram os socialistas, que governaram Hénin-Beaumont por quase 70 anos. Depois de vários escândalos, a FN conquistou a maioria absoluta da câmara local em 2014. O prefeito Steeve Briois não tem tempo para as equipes de filmagem. Ele é muito ocupado, porque, enquanto alto funcionário do partido, tem que dar consultoria à patroa Le Pen durante a campanha.

Ele manda dizer que obviamente está muito orgulhoso com o fato de a candidata vir comemorar sua vitória no primeiro turno justamente em sua comunidade. Algumas sondagens preveem vitória no primeiro turno da candidata populista de direita. Mas no segundo turno, no dia 7 de maio, são prognosticadas poucas chances de vitória para ela.

Desemprego permanece alto

No mercado da cidade, muitos manifestam aprovação à Frente Nacional. “Tudo mudou para melhor, a cidade está mais limpa, há mais ofertas culturais, e o prefeito vem e fala com você”, diz um idoso. Em meio a sapatos, roupas e alimentos baratos, famílias de imigrantes de Marrocos e Argélia também fazem compras. Mas eles não querem ser filmados.

“Muitas pessoas simplesmente não se importam com a política”, afirma um homem diante de uma barraca de flores. “Os políticos são políticos, no mundo todo. E na França, parece que todos têm o mesmo programa. No final, nada vai mudar.”

David Noel, do Partido Comunista, reclama ser alvo de insultos frequentes

O desemprego na estruturalmente fraca Hénin-Beaumont permanece elevado após três anos de gestão da FN. Muitos pequenos empresários no centro do lugarejo ainda enfrentam dificuldades. Bares fecham, as fachadas de muitos prédios estão com reboco caindo, janelas estão lacradas com tábuas e pregos. No entanto, há mais policiais nas ruas e mais festivais da cidade. Canteiros de flores estão sendo construídos. Os prédios da prefeitura e da igreja estão sendo restaurados.

Clima político deteriorado

“Mas por trás da fachada, a coisa está desmoronando”, reclama David Noel, secretário do Partido Comunista, sentado em seu escritório, localizado a poucos metros da prefeitura. Sob um cartaz do revolucionário Che Guevara, Noel afirma que o clima político se deteriorou radicalmente em Hénin-Beaumont.

“Há constantes abusos verbais e insultos terríveis”, frisa, acrescentando que a oposição é alvo de ataques. O prefeito Briois alimenta uma rivalidade com o jornal local Voix du Nord, que ele chama de publicação esquerdista. Serge Décaillon, da associação filantrópica Secours Populaire Français (SPF), denuncia que a administração local corta subvenções e rescinde contratos de locação de entidades de assistência à população carente, que a FN diz serem comandadas por ativistas de esquerda.

“A cidade se tornou muito mais xenófoba”, acusa Etienne Balde, que trabalha para uma organização que ajuda a refugiados. “Isso é um enorme problema para a Frente Nacional, embora em Hénin-Beaumont praticamente não haja refugiados. Eles querem ir para outro lugar.”

Balde afirma que antes de a FN assumir a prefeitura de Hénin-Beaumont, havia doações modestas da cidade para sua organização. “Agora, a torneira foi fechada. Não somos mais desejáveis”, lamenta. “A nível nacional, a Frente Nacional mostra uma imagem bem boa. Mas ao olhar de perto, se vê que eles estabelecem uma espécie de ditadura a nível local”, diz.

Muro construído supostamente contra criminalidade se revelou um artifício para redução de velocidade

Questão migratória

O “laboratório” dos populistas de direita ganhou especial atenção na mídia quando o prefeito afirmou querer construir um muro contra a crescente criminalidade. Após debates acalorados, o muro se revelou ser uma construção na altura da cintura, com uma abertura para passagem. Ele era apenas um recurso para reduzir a velocidade do trânsito em uma área residencial.

Também a Carta para uma cidade sem imigrantes, anunciada pelo prefeito, permaneceu sem consequências. “Porque, de qualquer forma, quase não existem migrantes que queiram vir para Hénin-Beaumont”, frisa Szczurek. A proibição de pedir esmolas no centro da cidade foi anulada por um tribunal.

A política anti-imigração, que Le Pen usa para atrair votos, parece não mobilizar os habitantes de Hénin-Beaumont. A cidade recebeu nos últimos 100 anos imigrantes belgas, italianos, poloneses e norte-africanos. Szczurek acredita que uma vitória da Frente Nacional nas eleições para presidente quase não afetará Hénin-Beaumont.

“Eu não sei se isso fará muita diferença. Cada cidade tem seus problemas especiais. Temos de nos adaptar aos problemas específicos de cada lugar. Não há uma ideologia abrangente ao país. Nós enfrentamos a realidade com alta eficiência. É por isso que funciona”, diz.

O próprio Szczurek descende de imigrantes poloneses, mas isso não faz com que ele tenha problemas com a FN. A família dele, afinal, é francesa há muito tempo. “Já os novos imigrantes, aí é outra coisa”, pondera.

No domingo, Le Pen deve discursar em sua cidade-exemplo, em um pavilhão que leva o nome do ex-presidente socialista François Mitterand. “Não é o ideal, mas não se trata de uma declaração política”, diz Szczurek.

Fonte: DW

 

 

 

 

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