Defesa & Geopolítica

Coreia do Norte

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Autor: De Leon* para o Plano Brasil

Com a movimentação do porta-aviões norte-americano “USS Carl Vinson” para a península coreana várias informações (muitas exageradas) têm transbordado a mídia a respeito da questão da Coréia do Norte. Porém, oito considerações precisam ser feitas.

1 – “O Ditador Louco”

É muito comum ouvir como em coro “o cara da Coréia do Norte” é louco.

A única evidência de sua loucura são os seus penteados. De resto sua política é absolutamente fria, realista e matemática. Não apenas o Governo norte-coreano consegue controle absoluto sobre a população como também sobre seu território, em escalas raramente observadas na história.

Por sua vez, na política externa sua estratégia de chantagem tem funcionado muito bem. Aliás, historicamente tais estratégias sempre costumam funcionar quando o Estado (ou grupo) que faz as ameaças é capaz de causar estragos superiores ao que seria o equivalente de sua própria destruição. Ou seja, a Coreia do Norte é capaz de causar danos políticos e econômicos que superam em muito a tudo que eles têm. É claro que há um limite até onde isso pode ser levado mas no caso Norte-Coreano parece que ainda há espaço para isso, uma vez que apesar de tais pressões, os norte-coreanos estão geograficamente contidos.

2-“Coreia do Norte como Estado fantoche da China”

Outro exagero a respeito sobre crise coreana é o quanto a China pode de fato influenciar a Coréia do Norte. De fato, a China é a única aliada dos norte-coreanos (em escala bem menor a Rússia). Porém, a China não controla e muito menos influencia.

A relação Beijing-Pyongyang é puramente estratégica e não por amizade ou laço ideológico. Qualquer conflito causaria um deslocamento de refugiados norte-coreanos para a província chinesa de Liaoning, algo que preocupa o governo chinês. Outro fator são as relações comerciais entre China e Coréia do Sul, que obviamente são fortes e em caso de conflito poderia afetar a economia chinesa.

3- O programa Nuclear Norte-Coreano I

A ascensão da nuclear da Coreia do Norte foi praticamente através de recursos do mercado negro (algo que foi tentado pela Líbia de Kadafi também). Não tendo apoio chinês, uma vez que outra nação vizinha e nuclear podem afetar seriamente os interesses chineses, mesmo sendo um potencial aliado. Lembrando que a China já divide espaço geopolítico com três nações nucleares além da própria Coreia do Norte (Rússia, Índia e Paquistão).

4- O programa Nuclear Norte-Coreano II

Apesar dessa atenção e discussão enorme em cima da bomba atômica norte-coreana, ela não é nem de longe o maior poder dos norte-coreanos.

De fato há um simbolismo por trás da bomba atômica que pode se materializar futuramente em poder real caso o programa continue juntamente com a sua capacidade balística, porém,  neste momento as armas nucleares são relativamente fracas, algumas fontes indicam que seriam até mais fracas dos que a que os Estados Unidos soltaram no Japão ao final da Segunda Guerra Mundial e outras fontes indicam que elas também não podem ser ainda empregadas em conflitos (daí mais uma ameaça futura do que atual). E mesmo que fosse o caso atual, as defesas THAAD e Patriot dos Estados Unidos na Coréia do Sul poderiam neutralizar tais ataques.

Porém, o problema real, pouco falado e que nada poderia ser feito são as dezenas de milhares de peças de artilharia, foguetes, morteiros e etc. que estão dispostos ao longo da fronteira. Estes dispositivos, apesar de antigos, iriam uma chuva de ferro e fogo sobre as cidades sul-coreanas que poderiam matar até mesmo centenas de milhares de pessoas em questão de pouquíssimas horas, além do dano material que causaria prejuízos incalculáveis.

5- Invasão dos EUA a Coreia do Norte

Anos atrás em simulações nas Forças Armadas dos EUA, foi constatado de que uma guerra contra a Coreia do Norte precisaria de pelo menos 150 mil soldados,(é mais do que o que foi usado no Iraque em 2003) apoiados por duas frotas navais dos EUA simultaneamente levando vários meses para atingir algum resultado militar. Isso sem falar em uma força de ocupação do pós-guerra.

É altamente questionável que haja capacidade e disposição do emprego desse tamanho hoje em dia por parte dos Estados Unidos. E bem como tais números são baseados numa simulação em que não haveria envolvimento chinês, nem direta ou indiretamente.

 6-Terra dos Unicórnios

A Coreia do Norte NÃO acredita em Unicórnios.

Apesar de vários “especialistas “divulgarem que a Coreia do Norte teria divulgado a descoberta e prova de unicórnios, não foi nada disso que aconteceu.

O que ocorreu é que uma tumba de um imperador local (Rei Tongmyong do Reino Koryo entre 918-1392) cujo nome era “Lar dos Unicórnios” ou em coreano “Kiringul” foi descoberta por arqueólogos locais. A imprensa norte-coreana então divulgou a descoberta dessa tumba e não a existência de unicórnios.

Aliás, o animal mitológico Kirin (ou Qilin) nem mesmo é um unicórnio e é uma criatura bem popular em diversas mitologias do leste e sudeste Asiático. Falar que os norte-coreanos anunciaram a existência de unicórnios seria o equivalente a dizer que o Governo dos Estados Unidos divulgou a existência de aves fênix por que existe uma cidade desse mesmo nome.

 7 – O efeito das sanções é nulo

Uma vez que a Coreia do Norte já está praticamente isolada do cenário global, novas sanções não terão muito efeito, se é que podem ter algum. Uma vez que não há quase mais nada a se retirar dos norte-coreanos, estes podem se dar ao luxo de não ter nada a perder em rodadas de apostas e por consequência sempre apostar alto, pois qualquer lucro é lucro.

 8-Ninguém quer a unificação

Outro problema frequente é a ideia de que a China não gostaria de ver uma Coréia unificada. Sim é verdade ela não tem muita vontade, porém, Japão e Estados Unidos também não gostam muito dessa ideia.

Uma Coreia unificada lança duas alternativas futuras problemáticas. Numa primeira possibilidade, suas ligações econômicas com a China somada a uma tradição Confuciana poderia fazer que ela viesse a se alinhar mais com a China. Na segunda possibilidade, seu potencial de crescimento político, econômico e militar seria desagradável a todos da região, para  o Japão que goza de ser a segunda força na região poderia eventualmente se ver retraído para uma terceira colocação e para a China que teria um novo competidor capaz de equilibrar (ou desequilibrar) a geopolítica regional a seu bel prazer.

No caso dos Estados Unidos, sua presença militar na Coreia do Sul oficialmente é voltada para defender esse país de agressões Norte-Coreanas e não como uma peça para ser usada contra a China, mas na prática é obvio que o grande alvo é a China e uma eventual unificação ou não justificaria a presença militar norte-americana na península o que os obrigaria a uma retirada ou a tomada de uma posição oficial anti-China que diplomaticamente resultaria em aumento de tensões.

*De Leon Petta Gomes da Costa. Pesquisador de Doutorado da Universidade de São Paulo. Pesquisador visitante da Virginia Commonwealth university (EUA) e Pesquisador Honorário da Universidade de Hong Kong (China).

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