Categories
Conflitos Destaques Estado Islãmico Geopolítica Opinião Rússia Síria Terrorismo

Os incidentes na Síria e as relações entre Moscou e Ancara

Na última quinta-feira (9), aviões militares da Federação da Rússia atingiram acidentalmente um edifício onde se encontravam militares turcos, nas cercanias da cidade de Al-Bab, controlada pelo EI (Estado Islâmico). A cidade é a última grande concentração de extremistas do EI no norte do país.

Ainda em janeiro, a Rússia e a Turquia bombardeavam conjuntamente os combatentes de Al-Bab e coordenavam as ações entre seus Estados-maiores. Desta vez, porém, houve visivelmente alguma falha na comunicação, já que três soldados turcos morreram e onze ficaram feridos no bombardeio russo.

De acordo com declarações de uma fonte do Ministério da Defesa que não quis ser identificada ao jornal russo “Kommersant”, as coordenadas dos alvos do bombardeio haviam sido acordadas com antecedência.

Reação reticente

O último incidente com mortos entre Rússia e Turquia com ocorreu em 24 de novembro de 2015, quando a aviação turca atingiu um bombardeiro russo Sukhôi Su-24 que teria supostamente avançado a fronteira turca enquanto operando no norte sírio. O saldo de mortos foi de dois russos.

A reação do Kremlin então foi bastante dura. Vladímir Pútin intitulou o incidente de “ataque pelas costas por cúmplices dos terroristas”. A Rússia também introduziu sanções econômicas contra a Turquia e as relações bilaterais ficaram bastante arrefecidas até o pedido de desculpas do presidente Erdogan, em junho de 2016.

Desta vez, porém, não se viu quaisquer belicosidades decorrentes. Já nas primeiras declarações do Estado-maior da Turquia ressaltava-se que o ataque não foi premeditado e que se dirigia aos extremistas do EI.

Vladímir Pútin ligou logo após o ocorrido a Erdogan apresentando suas condolências. Já Ancara, de acordo com uma fonte da agência de notícias russas Tass no exército turco, mostrou-se satisfeita com o contato.

De acordo com a fonte, a Rússia e a Turquia criarão uma comissão especial para “prevenção de tais incidentes no futuro”.

Sem consequências graves

“Parece que a Turquia poderia pagar pela reação de Pútin pelo avião russo derrubado, mas ela não irá. A Turquia [diferentemente do que ocorria em 2015] não tem mais planos na Síria que se contraponham aos dos russos”, escreveu no Facebook o editor-chefe do Centro Carnegie de Moscou.

Agora, os dois países não apenas bombardeiam juntos a Síria e o Estado Islâmico, mas também afirmam estar dando um empurrão nas partes conflitantes da guerra civil para que essas alcancem uma resolução pacífica. Assim, Síria, Turquia e Irã se propuseram a fazer as vezes de patrocinadores de acordos de paz em Astaná, capital do Cazaquistão.

“As relações russo-turcas alcançaram solidez suficiente para permitir diferenciar intenções reais de confluências sem sucesso”, disse à Gazeta Russa o chefe da seção política do Centro de Estudos da Turquia Contemporânea, Iúri Mavachev.

Segundo ele, Moscou e Ancara conseguiram chegar anteriormente a um acordo sobre as esferas de influência na Síria. Com o acordo ainda sendo seguido, diz ele, nada mais teria importância.

O pesquisador-chefe do Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais da Academia Russa de Ciências, Víktor Nadeni-Raevski, tem opinião semelhante sobre o estado das relações bilaterais.

“Com certeza não haverá um rompimento radical. Mas agora é importante fortalecer a colaboração ‘na terra’ para evitar acontecimentos semelhantes no futuro”, diz.

O especialista relembra que incidentes de “fogo amigo”, infelizmente, ocorrem com bastante frequências nas guerras modernas.

Nó ao redor de Al-Bab

Especialistas ressaltam que a libertação de Al-Bab dos extremistas do EI é uma questão de tempo. Enquanto no norte o exército turco o ataca juntamente com o Exército Livre da Síria, no sul os ataques vêm do exército de Bashar com apoio da aviação russa.

O potencial para conflitos está nas críticas feitas anteriormente pelo presidente sírio Bashar al-Assad à presença turca no território da Síria.

“O fronte onde o EI se opõe aos turcos e ao Exército Livre e o fronte onde esses combatem o governo se aproximam e vão se tornar, literalmente, uma só linha”, afirma à Gazeta Russa Ilshat Saetov, pesquisador do Centro de Estudos do Oriente Médio da Academia Russa de Ciências.

Para ele, sob essas condições há grandes possibilidades de perdas ocasionais e combates locais. Por outro lado, nem a Turquia, nem o governo sírio desejariam uma guerra completa. Por isso, até mesmo em caso de mortes pontuais não haverá uma escalada do conflito.

Mavachev, do Centro de Estudos da Turquia Contemporânea, compartilha do mesmo ponto de vista. “O potencial bélico dos exércitos turco e sírios são incomparáveis”, afirma.

Ele também acredita que Moscou exerça influência suficiente sobre Assad para impedi-lo de travar uma guerra contra o exército turco.

OLEG EGOROV

Foto: Reuters – Combatentes apoiados pela Turquia avançam em tanques na cidade de Al-Bab, no norte da Síria, na quinta-feira (9), tentando retomar o controle dessa, tomada pelo EI.

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: Gazeta Russa

Categories
China Conflitos Destaques Economia Estados Unidos Geopolítica Negócios e serviços Opinião

China inflige a primeira derrota diplomática a Donald Trump

A China infligiu a primeira derrota diplomática a Donald Trump. Em uma longa conversa telefônica com o presidente chinês, Xi Jinping, o norte-americano se comprometeu a manter a política de “uma só China”, que reconhece Taiwan como parte do território chinês. Trata-se de um recuo completo de declarações anteriores do republicano.

As novas garantias de Trump sobre um assunto que o país asiático considerava “inegociável” reduzem substancialmente o nível de confronto dialético mantido desde antes da eleição do magnata e evitam a que poderia ter sido uma séria disputa entre as duas maiores economias mundiais.

A conversa, que tratou de muitos temas, aconteceu na noite de quinta-feira (hora de Washington e Brasília; manhã de sexta em Pequim), segundo nota da Casa Branca. O texto apresenta um tom excepcionalmente conciliatório – muito diferente da linguagem combativa que Trump empregou em ocasiões anteriores para se referir à China – e relata que o presidente norte-americano manifestou, “a pedido do presidente chinês”, seu apoio à política favorável à unificação chinesa.

O gabinete de imprensa da Casa Branca, que nos últimos dias solta comunicados bastante sucintos e diretos sobre as conversas de Trump com líderes internacionais, desta vez chegou a ressaltar o tom “extremamente cordial” da conversa.

Não ficou claro se a China precisou oferecer concessões aos EUA em troca do recuo de Trump.

Depois da sua vitória na eleição presidencial de novembro, o republicano irritou Pequim ao fazer uma inédita ligação telefônica para a presidenta taiwanesa, Tsai Ing-wen. Dias depois, chegou a sugerir numa entrevista ao Wall Street Journalque só manteria a política de “Uma Só China” se Pequim fizesse concessões em outras áreas.

Desde que os Estados Unidos e a República Popular da China (comunista) normalizaram suas relações diplomáticas, na década de 1970, os EUA reconhecem o regime de Pequim como o Governo legítimo da China inteira – incluindo a ilha rebelde de Taiwan, com a qual Washington não mantém relações diplomáticas.

Para a China, não há assunto mais sensível que Taiwan, já que Pequim considera essa ilha como parte inalienável do seu território. Os dirigentes chineses deixaram isso claro em declarações públicas e também em comunicações privadas com a recém-encerrada Administração de Barack Obama e com a nova equipe de Governo dos EUA.

Depois que Trump reiterou suas ameaças de aproximação diplomática com Taiwan, as relações entre a nova Casa Branca e Pequim ficaram virtualmente congeladas. Desde sua posse, o presidente norte-americano já havia conversado com uma dúzia e meia de líderes, mas até esta quinta não conseguira se comunicar com Xi. Eles haviam conversado apenas uma vez, em novembro, antes da conversa de Trump com Tsai.

Da parte de Pequim, os sinais eram claros: a menos que houvesse um compromisso explícito de respeitar a política de “Uma Só China”, a relação bilateral seria prejudicada. “Uma Só China é a base inquebrável e inegociável das relações EUA-China. Qualquer outra interação bilateral está sujeita a isso”, diz Li Yongcheng, da Universidade de Estudos Estrangeiros em Pequim.

Desde sua posse, o novo Governo norte-americano vinha emitindo sinais conciliatórios e atenuando sua retórica. Na semana passada, os assessores de segurança nacional de ambos os países, Yang Jiechi e Michael Flynn, mantiveram um diálogo, e na quinta-feira a Casa Branca revelou que Trump enviara uma carta a Xi com felicitações pelo ano-novo chinês, em que aproveitava para agradecer os cumprimentos de Xi por sua posse.

Uma vez obtida a declaração de Trump, o tom de Pequim também mudou. No comunicado sobre a conversa divulgado pelo Governo chinês, Xi elogiou a “ênfase” do norte-americano em sua adesão à política de unificação chinesa.

“Certamente há uma maneira de negociar com a China, mas as ameaças relacionadas aos seus interesses fundamentais são contraproducentes desde o primeiro momento”, disse James Zimmerman, ex-presidente da Câmara de Comércio dos EUA na China, à Reuters. “O resultado é que Trump acaba de confirmar ao mundo que é um tigre de papel, um zhi laohu: alguém que parece ameaçador, mas é totalmente ineficaz e incapaz de suportar um desafio.”

As duas partes parecem sugerir que a partir de agora as relações irão se normalizar e que ambos os Governos retomarão sua colaboração. A China, indica seu Governo, está disposta a colaborar em áreas como “comércio, investimentos e relações internacionais”. A Casa Branca, por sua vez, espera “novas conversas muito bem sucedidas”.

O momento escolhido para a conversa entre os dois líderes não foi aleatório. O telefonema ocorreu horas antes da chegada a Washington do primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, que deseja solidificar os laços com o novo Governo norte-americano para fazer frente às ambições expansionistas da China, seu vizinho e grande rival regional. A visita de Abe, de três dias, incluirá uma partida de golfe com Trump no clube privado do presidente na Flórida.

MACARENA VIDAL LIY / SILVIA AYUSO

Foto: EFE – Donald Trump e Xi Jinping. 

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: El País

Categories
Brasil Conflitos Destaques Opinião Segurança Pública

Brasil: Segurança nos estados não pode depender apenas da PM

Paralisação no Espírito Santo expõe fragilidade do sistema de segurança pública, que concentra o patrulhamento ostensivo na PM. Para analistas, é preciso dividir tarefas e fortalecer Polícia Civil e guardas municipais.

O caos gerado pela paralisação de policiais militares no Espírito Santos evidencia a dependência quase que exclusiva da segurança pública estadual do trabalho da corporação. A falta de alternativas deixa a população e os governos estaduais reféns em momentos de crise, avaliam especialistas ouvidos pela DW Brasil. “As PMs têm muito poder no Brasil.

Há poucos precedentes no mundo onde uma polícia tem tanta força. No limite, a população fica à mercê das vontades da corporação”, opina Rafael Alcadipani, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

A paralisação iniciada por familiares de policiais militares capixabas na sexta-feira passada (03/02), bloqueando as saídas dos batalhões em todo estado, gerou uma onda de violência, com mais de cem pessoas mortas, de acordo com o Sindicato dos Policiais Civis do Espírito Santo. O número de roubos e saques teria aumentado dez vezes, estima a associação. O Ministério da Justiça e Segurança Pública enviou 300 agentes da Força Nacional para auxiliar o estado no policiamento. O governo do Espírito Santo transferiu o controle da segurança pública para as Forças Armadas. Além dos 300 homens da Força Nacional, cerca de 1.500 soldados do Exército estão nas ruas capixabas.

Os manifestantes pedem reajuste salarial para a Polícia Militar, que, segundo a Constituição, é proibida de fazer greve. “O governo estadual negligenciou as duas polícias, mantendo salários baixos, más condições de trabalho e nunca abriu o diálogo para mudar essa situação. O governo vem fechando as portas para o diálogo há sete anos. O resultado está aí”, explica Alcadipani.

De acordo com a Associação de Cabos e Soldados da PM do Espírito Santo, o piso salarial da categoria, de cerca de R$ 2.600, é o mais baixo do Brasil e está defasado há quase uma década.

“Eu considero que as PMs precisam ser menores e com melhores condições. As demais polícias precisam ser fortalecidas, mas no caso específico do Espírito Santo, os policiais militares estão sofrendo muito. São necessários investimentos”, defende Alcadipani.

Policiamento compartilhado

A divisão do comando da segurança pública depende de um maior fortalecimento das polícias civis e das guardas municipais, de acordo com analistas. Com a redemocratização, a Polícia Civil ficou com um papel restrito à investigação, enquanto que a Polícia Militar manteve as características da ditadura e ficou com o poder quase que exclusivo sobre a ordem pública.

Para o sociólogo e especialista em segurança pública Cláudio Beato, o setor não pode ficar “nas mãos de um exército estadual”. Desde 2014, com a aprovação de uma lei que confere poder de polícia às guardas municipais, os grupamentos têm dividido o papel de patrulhamento ostensivo com a PM em várias cidades do país.

“É urgente que as guardas municipais tenham força de polícia. Acho que esse é o caminho, porque elas podem ser unificadas, ter carreira única e ser desmilitarizadas”, diz. “É também uma forma de afastar as corporações do militarismo.”

Segundo Beato, os municípios tendem a ter estruturas mais robustas de policiamento por meio das guardas municipais. “Acho que, cada vez mais, vai se pensar no município como uma instância que pode organizar suas próprias polícias, como ocorre nos Estados Unidos e alguns países da Europa”, argumenta.

O especialista avalia que propostas como a unificação das polícias militar e civil e a desmilitarização – desvinculação da PM do Exército – demandam um processo de longo prazo, que enfrenta muita resistência. “Nosso modelo de polícia ainda é do século 19”, critica.

Greve ou motim?

As Forças Armadas e a Polícia Militar são proibidas de fazer greve. Apesar de a justiça estadual ter condenado o movimento e o governo do Espírito Santo ter se recusado a negociar, a paralisação dos policiais já completa uma semana. A taxa média de homicídios por dia passou de quatro para quase 20 nos primeiros dias sem policiais nas ruas.

A greve iniciada na sexta-feira passada começou com um pequeno movimento de mulheres de policiais bloqueando a saída de alguns batalhões. Desde então, as famílias impedem a saída dos veículos de patrulha em todas as unidades do estado. É uma forma de os policiais contornarem a restrição de fazer greve.

“Essa paralisação mostra o grau de corporativismo das instituições policiais, que estão interessadas em defender seus interesses associativos. Se apenas uma instância tem o monopólio da segurança, acontece o que vemos agora no Espírito Santo”, diz Beato. “E isso deve ir para outros estados.”

Negociações entre policiais militares e o governo estadual ocorrem desde quarta-feira. A categoria pediu anistia a todos os policiais, devido à proibição de greve, e 100% de aumento.

“Isso é na verdade um motim. Um dos motivos para o caráter militar da polícia é que ela não pode fazer greve. O governo terá que ceder e usar o Exército durante algum tempo”, avalia o sociólogo.

“A segurança pública no Brasil faliu. Esse é só mais um exemplo”, acrescenta Alcadipani.

Foto: PMs tentam conter manifestantes no Rio de Janeiro, em 16 de novembro de 2016

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: DW