Defesa & Geopolítica

FAB PÉ DE POEIRA: Defesa Antiaérea na Força Aérea Brasileira

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Por  Cap Inf Lucas Rodrigues Nogueira Lemos

Saiba mais sobre o trabalho da Defesa Antiaérea da FAB e as participações em grandes eventos no País

Pela análise do histórico das Companhias de Artilharia Antiaérea de Autodefesa, nascidas no ano de 1997 em Canoas-RS, e no ano de 2009 em Manaus-AM, é possível observar que essas se desenvolveram baseadas na participação em exercícios e operações, aprimorando a doutrina e as concepções de emprego adquiridas do Exército Brasileiro, visto que seu efetivo de oficiais e graduados se especializava na Escola de Artilharia de Costa e Antiaérea – EsACosAAe.

A atividade de defesa antiaérea foi incorporada à missão da Infantaria em 1997 com a criação da Companhia de Artilharia Antiaérea de Autodefesa (CAAAD), em Canoas-RS.

O conhecimento e a experiência adquiridos ao longo desses anos serviram como base para a estruturação dos Grupos de Defesa Antiaérea (GDAAE), a qual pode ser relacionada a um processo conhecido como Ciclo de Vida Organizacional, que afirma que toda organização passa por momentos específicos em sua existência, como situações de crise, revolução e evolução, que se repetem ciclicamente, fazendo com que haja amadurecimento e lapidação de novos valores.

Desta maneira, a partir de 2012, às unidades de defesa antiaérea da FAB permitiu-se uma nova forma de envolvimento na sistemática de defesa aeroespacial brasileira: a participação em eventos de não guerra, ou, em outras palavras, a participação da defesa antiaérea nos grandes eventos esportivos que se realizaram em 2013, 2014 e 2016: Copa das Confederações, Copa do Mundo de Futebol e Jogos Olímpicos.

Diante deste quadro, o Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA) determinou que o 1º GAAAD (hoje denominado 1º GDAAE – Grupo Laçador) executasse, em junho de 2013, a defesa antiaérea da Arena Fonte Nova, em Salvador-BA, que sediou partida de futebol pela Copa das Confederações. Desencadeou-se, com isso, uma série de procedimentos que envolveram todos os subsistemas existentes em uma defesa antiaérea: o de comunicações, de armas, de controle e alerta e, por fim, o subsistema de apoio logístico, que, naquela ocasião, teve que envolver e cadenciar, harmoniosamente, todos os demais.

Militares treinam ciclo completo de emprego do Sistema Antiaéreo IGLA

A execução da defesa antiaérea seguiu, então, os protocolos já conhecidos. Primeiramente, a ida à cidade de Salvador, realizando a missão de Reconhecimento e Escolha para Ocupação de Posições – REOP. Tida como fase vital de qualquer defesa antiaérea, o REOP consiste na análise criteriosa das posições operacionais a serem ocupadas, não somente as posições das Unidades de Tiro e Postos de Vigilância dispostos no terreno, mas também do Centro de Operações Antiaéreas – COAAe, da Sala Móvel de Operações Terrestres e do Posto de Comando. Ademais, coube aos militares que executaram o REOP verificar minuciosamente os aspectos logísticos envolvidos, visto a complexidade em se mobilizar e em transportar praticamente a totalidade de seu efetivo. Descrevendo a cronologia das ações, após a conclusão do REOP e confecção do Plano de Defesa

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Antiaérea – PlanDAAe, a equipe precursora se deslocou para a cidade de Salvador, iniciando os trabalhos de apoio à tropa que se faziam necessários. Alimentação, alojamento, montagem dos meios, viaturas. Enfim, tudo detalhadamente coordenado, com apoio irrestrito da Base Aérea de Salvador, de seu Batalhão de Infantaria e da Prefeitura da Aeronáutica, para o recebimento da tropa envolvida na operação. Terminada a missão, era hora de preparar o terreno para o desafio ainda maior, que estava previsto para o ano de 2014: ambos os Grupos teriam que realizar a defesa antiaérea de estádios sede de jogos da Copa do Mundo de futebol. A Arena Corinthians, em São Paulo-SP, seria defendida pelo 1º GAAAD; a Arena Amazônia, pelo 2º GAAAD. Como de costume, as lições aprendidas foram absorvidas pela tropa, e o emprego real em ambiente urbano já não era mais novidade. Neste sentido, as adaptações foram realizadas. A camuflagem verde, típica das operações e exercícios anteriores, já não mais atendia ao cenário acinzentado das grandes cidades.

Os Grupos ocuparam posições operacionais em locais onde era possível manter o contato visual com as aeronaves, ampliando o monitoramento da FAB sobre o espaço aéreo próximo aos estádios.

O armamento, antes transportado em pesados cunhetes de madeira, passou a ser conduzido em compartimentos maleáveis, condizentes com características das posições das Unidades de Tiro. Outra importante lição havia sido aprendida: a coordenação minuciosa com os Batalhões de Infantaria da Aeronáutica. No caso de Salvador, ao BINFA 52 coube a proteção das posições dispostas no terreno. Consolidou-se a fi gura do militar “segurança aproximada”, ao qual fora confiada a missão de salvaguardar o local de atuação do Comandante da Unidade de Tiro, do Atirador e do Remuniciador, possibilitando a estes elementos a concentração na vigilância do espaço aéreo sob sua responsabilidade.

Dispositivo Termal de Pontaria MOWGLI-2M, de origem russa, quando incorporado ao sistema de mísseis superfície-ar IGLA-S, permite que o atirador identifique seus alvos e possa empregar a defesa antiaérea no período noturno.

Além disso, os deslocamentos, desde o Ponto de Liberação (P Lib) até as posições fi nais, tiveram que ser detalhadamente estudados pelos militares do Batalhão, para que houvesse o desempenho esperado na segurança do comboio que iria se deslocar pelas ruas e avenidas da capital soteropolitana. O protocolo, assim, foi seguido. Em Manaus e em São Paulo as equipes desdobraram-se para a realização do reconhecimento, que resultaria na confecção dos planos de defesa antiaérea específicos, a serem empregados na Copa do Mundo.

A versão mais moderna do míssil, o IGLA-S, é preparado para receber acessórios como o visor termal, um dispositivo infrared que intensifica a emissão de calor da aeronave e facilita o acompanhamento à noite.

Novamente o 1º GAAAD se deslocou, carregando consigo agora não só novos equipamentos de comunicação, como os rádios táticos Falcon III, capazes de prover enlace de voz e dados em alta velocidade, mas também o radar SABER M60, de tecnologia brasileira, importante ferramenta componente do subsistema de controle e alerta. Outro fator determinante ao cumprimento da missão consistiu na participação da Equipe de Ligação Antiaérea (ELAAe), composta por militares dos Grupos nos Centros de Operações Militares (COpM).

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Alocados, assim, nos Centros Integrados de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo, CINDACTA II em Curitiba e CINDACTA IV em Manaus, permitiu-se uma ampliação na consciência situacional da defesa antiaérea, em virtude da capacidade técnica operacional dos respectivos Centros. Por força doutrinária, após o término da Copa do Mundo, os GAAAD foram renomeados a Grupos de Defesa Antiaérea, GDAAE. Com um perfil de adaptabilidade, o Núcleo de Brigada de Defesa Antiaérea (posteriormente renomeado para Primeira Brigada de Defesa Antiaérea – 1ª BDAAE), Comando de Preparo da atividade antiaérea na FAB, estruturou, logo após a Operação Copa do Mundo, em 2014, o Curso de Defesa Antiaérea – CDAAE, no Grupo de Instrução Tática Especializada – GITE. O curso dava início à construção de um legado em termos de doutrina antiaérea.

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A formação própria de oficiais e graduados proporcionou a complementação, nos Grupos, de recursos humanos especializados. Igualmente, possibilitou a capacitação desses militares em consonância com as necessidades da Força Aérea, de modo a aproximar ainda mais a defesa antiaérea à defesa aérea, em um cenário de defesa aeroespacial. Paralelamente à estruturação do CDAAE, e para dar base a seu currículo, aprovou-se o primeiro manual de defesa antiaérea, MCA 355-1. Seu texto representou a solidificação de toda doutrina antiaérea já permeada na atividade.

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Chegado o ano de 2016, aos GDAAE coube, novamente, a defesa antiaérea de arenas esportivas em função dos Jogos Olímpicos. Em Manaus mais uma vez a defesa ficou a cargo do 2º GDAAE. Em São Paulo houve uma novidade: não só o 1º GDAAE, mas também o 3º GDAAE, recém ativado, somaram esforços, deslocando-se de Canoas-RS e de Anápolis-GO para estruturar a defesa antiaérea. Cumprindo o planejamento do COMDABRA, os Grupos finalizaram com êxito sua missão nos Jogos Olímpicos.

Viatura Agrale Marrua permite o deslocamento das unidades Antiaéreas da FAB em qualquer tipo de terreno.

Na retaguarda do sucesso encontra-se o foco na preparação e no treinamento árduo. No ano que antecedera aos Jogos, os Grupos intensificaram suas instruções, com ênfase na manutenção e no aprimoramento da operacionalidade de seus efetivos. Para tanto, o Programa de Instrução e Manutenção Operacional – PIMO fora moldado de acordo com as especificidades da Operação.

Preparação Em especial, vale destacar a importância da preparação dos militares componentes das Unidades de Tiro, uma vez que, cabe a eles, em suma, a conclusão de todo o processo de execução de uma defesa antiaérea. Dessa maneira, os Comandantes de Unidade de Tiro, Atiradores e Remuniciadores de todas as posições que foram adotadas nos Jogos Olímpicos foram submetidos ao mais intenso treinamento no simulador de tiro KONUS, visando seu adestramento de forma a sistematizar todos os procedimentos relacionados ao funcionamento perfeito do subsistema de armas.

De origem russa, o simulador Konus tem uma tela de projeção onde são simulados inúmeros cenários em ambientes diversos, utilizando um sistema computadorizado que gera relatórios de eficiência dos atiradores. Aumentando a realidade dos treinamentos, o “míssil” do simulador e o mecanismo de lançamento juntos somam 18,25kg, o mesmo peso do equipamento real.

A utilização intensiva de um simulador como o KONUS representou um salto qualitativo significativo na capacitação dos militares das Unidades de Defesa Antiaérea. Possibilitou a aferição dos aprendizados teóricos, com a prática constante dos procedimentos relacionados a cada espécie de alvo, cada qual exigindo da Unidade de Tiro no treinamento e, em especial do atirador, a condução mecânica de etapas sequenciais para a neutralização da ameaça aérea virtualmente proposta. É preciso destacar, ainda, a economia de recursos e de meios envolvida nesta fase de capacitação. Embora tenham ocorrido todos os avanços operacionais já explicitados neste texto, o Sistema de Defesa Antiaérea na FAB ainda carecia de codificação escrita, que formalizasse de modo sistemático a complexidade de sua estrutura.

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O MCA 355-1, base da doutrina antiaérea, ainda que atualizado em 2015, não esgotou o rol de assuntos relacionados à atividade. Para preencher as lacunas existentes em termos da operacionalidade de seus subsistemas, a 1ª BDAAE mobilizou o efetivo dos GDAAE para que elaborassem manuais específicos, referentes aos equipamentos empregados e aos procedimentos de operação. Assim, somente no ano de 2016 foram aprovados outros cinco manuais de defesa antiaérea.

Futuro Sob essa ótica organizacional, não há que se falar em estacionamento ou em acomodação quanto ao aprimoramento administrativo e operacional, ou muito menos acreditar que o desenvolvimento estrutural do sistema antiaéreo já tenha se encerrado. Pelo contrário. A doutrina se modificará, confrontada com um cenário dinâmico condizente com as novas tecnologias aeroespaciais. Os equipamentos, rádios e radares serão aperfeiçoados, envoltos em um ambiente de guerra eletrônica cada vez mais complexo. O armamento ampliará sua capacidade de neutralização. Os recursos humanos desempenharão mais eficientemente suas atribuições. Neste sentido há, ainda, um vasto campo para o desenvolvimento da atividade

Antiaérea no contexto aeroespacial brasileiro. Como exemplo deve-se mencionar a busca pelo aprimoramento de uma Unidade de Comando eficiente, capaz de gerar consciência situacional plena, e de coordenar, simultaneamente, diferentes tipos de meios aéreos e de armamentos antiaéreos, em prol da soberania aérea e da não ocorrência de fratricídios ou de danos colaterais. A ascendência da atividade ainda não encontrou seu ápice, nem tampouco seu momento de inflexão, cabendo à Primeira Brigada de Defesa Antiaérea a condução dos Grupos de Defesa Antiaérea em direção à contínua busca pelo sucesso, na certeza de que os céus do Brasil estarão sempre e, incondicionalmente, guardados pela Infantaria da Aeronáutica

Texto Cap Inf Lucas Rodrigues Nogueira Lemos

Imagens e vídeos Pé de Poeira

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