Defesa & Geopolítica

“Piores receios se tornaram realidade em Berlim”

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Em entrevista à DW, especialista em terrorismo diz que ataque na capital alemã já era esperado pelas autoridades e difícil de evitar. Na opinião dele, a sociedade tem que aprender a conviver com tais ameaças.

Na noite desta segunda-feira (19/12), um caminhão avançou contra frequentadores de um mercado de Natal no coração de Berlim, deixando ao menos 12 mortos e quase 50 feridos.

As autoridades partem do princípio de que se trata de um atentado terrorista e buscam o responsável. O grupo extremista “Estado Islâmico” (EI) reivindicou a autoria do ataque.

Em entrevista à DW, Rolf Tophoven, diretor do Instituto para Prevenção de Crise (IFTUS), em Essen, na Alemanha, comenta o ocorrido. Para o especialista, a tragédia na capital alemã significa que os piores receios dos serviços de segurança do país se tornaram realidade. “Um ataque dessa dimensão com um caminhão não pode ser 100% evitado”, afirma.

DW: Um ataque como este em Berlim era provavelmente apenas uma questão de tempo, certo?

Tophoven: A dimensão do ataque, também em relação ao número de mortos e feridos, já era algo, de certa forma, esperado pelas autoridades de segurança alemãs. Especialmente após os atentados de Bruxelas e Paris no ano passado, presumiu-se que a Alemanha é um alvo não apenas abstrato do terrorismo, como já foi dito muitas vezes, e que um atentado concreto poderia ocorrer aqui também. Portanto, os piores receios dos serviços de segurança se tornaram realidade agora.

O ataque poderia ter sido evitado?

Não. Se você tem um criminoso que é fanático e usa um caminhão como uma arma, você não tem chance, a menos que você o conheça, saiba quando e onde ele pretende fazer algo e o prenda antes do ataque. Mas não dá para controlar todos os veículos, também não dá para bloquear todos os mercados de Natal de forma que os torne seguros contra ameaças. Então você teria que fechar os mercados de Natal. Ou seja, um ataque dessa dimensão com um caminhão não pode ser 100% evitado.

O suspeito preso e depois solto por falta de evidências é um refugiado do Paquistão. As autoridades sabem com quem estão lidando e quais dos milhares ou até centenas de milhares de migrantes têm um histórico de radicalismo?

Muito é, certamente, do conhecimento das autoridades. Mas devido à massa dos que chegaram, é simplesmente impossível filtrar todo mundo, embora muito frequentemente o processo de radicalização só chegue a ocorrer na Europa. Muitas pessoas chegaram à Europa e à Alemanha com a intenção não só de obter segurança mas também uma renda, satisfação e uma existência segura. Quando essas expectativas não são atendidas pela sociedade, pode existir aqui e ali o perigo de se escorregar para a radicalização.

A discussão em relação à política de segurança varia, após tais incidentes, entre o exagero e a impotência. O que pode ser feito pelas autoridades realisticamente e como se comportar como um cidadão?

É certo que foi alcançado o objetivo dos terroristas, que é gerar medo em muitas pessoas – não em todas. Mesmo com todo o cuidado em relação a multidões, é importante para cada um manter uma espécie de serenidade soberana, para que não acabemos favorecendo os terroristas com nossas reações.

O que absolutamente não deve ocorrer é exigir novas leis e restrições através de uma reação impensada e nervosa. O Estado não pode fornecer 100% de segurança. O ministro alemão do Interior, Thomas de Maizière, já havia dito após os atentados de Ansbach e Würzburg [neste ano] que uma sociedade aberta e livre tem que se acostumar a lidar com tais situações extremas. Nós precisamos nos acostumar a tais dramas extremos, se quisermos manter a nossa abertura, a nossa forma de sociedade.

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: DW

Autoridades buscam envolvidos em ataque

Paquistanês é solto depois de ser detido por suspeita de avançar com caminhão contra mercado de Natal em Berlim. Não se sabe se autor do ataque agiu sozinho.

Após um caminhão avançar contra um mercado de Natal em Berlim na noite de segunda-feira (19/12), o Departamento Federal de Investigações da Alemanha (BKA), a Procuradoria Federal da Alemanha e a polícia berlinense afirmaram na tarde desta terça-feira que um suspeito detido poderia não ser quem dirigia o veículo e que um ou mais agressores ainda poderiam estar à solta. Poucas horas depois, o homem foi solto.

Segundo as autoridades, o suspeito detido e liberado após interrogatório e averiguações – um refugiado paquistanês de 23 anos – teria sido perseguido por uma testemunha após saltar da cabine do caminhão. Segundo a Procuradoria Federal, as investigações não apontaram evidências do envolvimento do paquistanês com o ataque.

O presidente do BKA, Holger Münch, disse que autoridades estão em alerta máximo para identificar possíveis envolvidos. Na noite desta terça-feira, o grupo extremista “Estado Islâmico” (EI) reivindicou a autoria do atentado.

Motivação terrorista

As autoridades supõem, mas ainda não confirmaram que o ato teve motivação terrorista. Ainda não se tem conhecimento de um vídeo em que um agressor reivindica o atentado. Apesar dos indícios – incluindo o fato de um mercado de Natal ter sido o alvo –, ainda é preciso investigar em todas as direções, disse o procurador federal Peter Frank.

Segundo Frank, também ainda não está claro se o homem que teria avançado com o caminhão contra a multidão agiu sozinho ou teve cúmplices. Segundo o chefe da polícia berlinense, Klaus Kandt, não seria “estritamente necessário” que mais pessoas estivessem envolvidas, pois o ataque não foi tão “sofisticado” em termos de logística.

De acordo com as autoridades, dos 12 mortos no incidente – incluindo um homem que estava no banco de passageiros e foi morto a tiros – sete já foram identificados. Seis deles eram cidadãos alemães, além do homem encontrado dentro do caminhão, que era polonês. Outras quase 50 pessoas ficaram feridas, 30 delas em estado grave. A arma com a qual o autor do ataque teria matado o motorista polonês do caminhão roubado ainda não foi encontrada.

Segundo Kandt, o risco de terrorismo na Alemanha não é maior agora que antes do incidente em Berlim. “Estou convencido de que devemos continuar vivendo livremente”, disse, acrescentando que não se pode construir muros ao redor dos mercados de Natal.

Em coletiva de imprensa nesta terça-feira, o ministro do Interior alemão afirmou que “não há mais qualquer dúvida” de que o atropelamento em Berlim é um atentado. A chanceler federal Angela Merkel também disse que, considerando o que se sabe até o momento, deve-se presumir que se trata de um ataque terrorista.

LPF/dpa/rtr

Foto: O procurador federal Peter Frank (centro) em coletiva de imprensa sobre incidente em Berlim

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: DW

Opinião: Uma noite que mudará a Alemanha

Este atentado bárbaro à liberdade atinge o seio da sociedade livre e é um presságio de que a Alemanha poderá se tornar menos receptiva e tolerante.

O atentado em Berlim abalou e chocou a Alemanha. Doze pessoas morreram, quase 50 ficaram feridas, algumas gravemente. O ataque, o terrorismo, mirou todo o país, alvejou a sociedade livre na qual os alemães vivem. E foi dirigido contra um símbolo particularmente pacífico: o mercado de Natal, visitado por milhões de pessoas no período do Advento – aliás, não só por alemães, mas por pessoas de todo o mundo, que passeiam despreocupadas por algumas horas em alegria invernal e pré-natalina e querem esquecer um pouco o estresse cotidiano.

O atentado, esse terrorismo assassino, é dirigido, portanto, contra todos nós, que queremos viver livres e despreocupados. É um ato bárbaro contra o nosso desejo de liberdade. E, por isso, o terrorismo de Berlim muda a Alemanha. Nós já não estamos na mira do terrorismo internacional, como era dito antes de forma vaga – agora nós somos vítimas. Assim como os ingleses, os franceses, os espanhóis, os israelenses, os americanos e outros.

E não importa se o ato foi cometido por um homem mentalmente perturbado, um lobo solitário com intenções assassinas ou por grupo inteiro com motivos fundamentalistas: ele atinge o seio da sociedade livre. Ele atinge a sociedade receptiva e tolerante. Ele atinge, com o mercado de Natal, também um símbolo cristão, uma expressão da tradição e da identidade alemã e europeia.

A chanceler está certa, este é um dia difícil para os alemães. E é possível perceber (houve nos últimos anos, diversos pequenos e médios ataques terroristas na Alemanha – muitos puderam ser impedidos, graças a Deus) que este ataque é um mau presságio! A mentalidade da sociedade alemã vai mudar. A leveza, a despreocupação, será menor. Essa muitas vezes aclamada liberdade, da qual não queremos abrir mão por causa do terrorismo, essa tão apregoada liberdade vai dar lugar a um sentimento profundo de insegurança. A Alemanha vai se sentir insegura. E estará mais insegura.

A isso se soma o possível terremoto político que um ataque como este atrai caso o autor seja um refugiado. Uma pessoa que procurou proteção neste país. Uma pessoa que queria refúgio. Uma pessoa que este país não rejeitou. Caso realmente o autor seja um refugiado que entrou no país no ano passado, quando a Alemanha abriu as fronteiras de forma tão generosa como incontrolada, então a política de refugiados da chanceler vai enfrentar severas críticas. Aí a simpatia da sociedade para com  os necessitados estará desgastada ao máximo. Aí, também na Alemanha, o triunfo do pensamento nacionalista e egoísta de direita celebrará mais do que apenas sucessos passageiros. Aí a sociedade tolerante vai se fechar. Aí o clima político do país vai se petrificar. Aí a liberdade estará ameaçada a partir de dentro.

Claro que justamente em um dia como este é necessário manter a calma e a prudência. Mas é cada vez mais difícil manter a serenidade. A noite de 19 de dezembro é uma noite que vai mudar Alemanha. Até que ponto? Ainda veremos.

Alexander Kudascheff

  • Alexander Kudascheff é editor-chefe da DW

Edição: konner@planobrazil.com

Fonte: DW

 

 

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