Defesa & Geopolítica

Plano Brasil/Análise: Coreia do Norte não está louca; ela está sendo racional demais

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Míssil balístico de alcance intermediário (IRBM) KN-08 Rodong-C com alcance de até 5.000 km e capacidade de abrigar uma ogiva de até 100 kilotons no caminhão WS-51200 de fabricação chinesa.

The New York Times
Max Fisher
13/09/2016

A Coreia do Norte é irracional? Ou apenas finge ser? A Coreia do Norte deu ao mundo amplas razões para perguntar: ameaças de guerra, ataques ocasionais contra a Coreia do Sul, líderes excêntricos e propaganda enlouquecida. Como mostrou seu programa nuclear e de mísseis, que na última semana realizou um quinto teste nuclear, essa preocupação se tornou mais urgente.

Mas cientistas políticos investigaram repetidamente a questão e, com frequência, saíram com a mesma resposta: o comportamento da Coreia do Norte, longe de louco, é racional demais.

Sua beligerância, concluíram os cientistas, parece calculada para manter um governo fraco e isolado que, de outro modo, sucumbiria às forças da história. Suas provocações encerram um enorme perigo, mas afastam o que Pyongyang, a capital do país, considera as ameaças ainda maiores de invasão ou colapso.

Denny Roy, um cientista político, escreveu em um artigo de 1994 ainda citado que “a reputação [do país] como um Estado louco” e de “violência insensata” haviam “funcionado em benefício da Coreia do Norte”, mantendo os inimigos mais poderosos afastados. Mas essa imagem, concluiu ele, era “principalmente um produto de incompreensão e propaganda”.

De certa maneira, isso é mais perigoso que a irracionalidade. Embora o país não queira a guerra, seu cálculo o leva a cultivar um risco permanente de uma –e se preparar para evitar a derrota, se houver uma guerra, potencialmente com armas nucleares. Esse é um perigo mais sutil, porém mais grave.

Por que os acadêmicos acreditam que a Coreia do Norte é racional?

Quando os cientistas políticos chamam um país de racional, não estão dizendo que seus líderes sempre fazem as melhores opções, ou as mais morais, ou que esses líderes sejam símbolos de adequação mental. Na verdade, eles estão dizendo que esses Estados agem de acordo com seus interesses próprios, o primeiro dos quais é a autopreservação.

Quando um Estado é racional, nem sempre consegue agir de acordo com seus melhores interesses, ou equilibrar os ganhos em curto prazo com os de longo prazo, mas ele tentará. Isso permite que o mundo molde os incentivos a um Estado, conduzindo-o na direção desejada.

Os Estados são irracionais quando não seguem seus próprios interesses. Na forma “forte” de irracionalidade, os líderes estão tão perturbados que são incapazes de julgar seus interesses. Na versão “branda”, fatores domésticos como o zelo ideológico ou as lutas internas por poder distorcem os incentivos, fazendo os Estados se comportarem de maneiras contraproducentes, mas que pelo menos são previsíveis.

Os atos da Coreia do Norte, apesar de horríveis, parecem dentro de seu interesse próprio racional, segundo um estudo de 2003 de David C. Kang, um cientista político que hoje está na Universidade do Sul da Califórnia. No país e no exterior, descobriu ele, os líderes norte-coreanos habilmente determinaram seus interesses e agiram de acordo com eles. (Em um e-mail, ele disse que suas conclusões se aplicam ainda hoje.)

“Todas as evidências indicam sua capacidade de tomar decisões sofisticadas e de administrar o poder, a política interna e internacional, com extrema precisão”, escreveu Kang. “Não é possível argumentar que esses líderes eram irracionais, incapazes de efetuar cálculos para atingir seus fins.”

Victor Cha, um professor da Universidade Georgetown que serviu como diretor para assuntos asiáticos no Conselho de Segurança Nacional do presidente George W. Bush, afirmou repetidamente que a liderança da Coreia do Norte é racional.

A crueldade selvagem e o cálculo frio não são mutuamente excludentes, afinal –e muitas vezes andam de mãos dadas.

Os Estados raramente são irracionais pelo simples motivo de que Estados irracionais não sobrevivem muito tempo. O sistema internacional é competitivo demais e o ímpeto de autopreservação é forte demais. Enquanto o Estado da Coreia do Norte é diferente de qualquer outro do mundo, os comportamentos que o fazem parecer irracional talvez sejam seus mais racionais.

A irracionalidade racional da Coreia do Norte

O comportamento aparentemente desequilibrado da Coreia do Norte começa com a tentativa do país de resolver dois problemas que enfrentou com o fim da Guerra Fria e aos quais não deveria ter conseguido sobreviver.

Um era militar. A península da Coreia, que ainda está formalmente em estado de guerra, havia passado de um impasse soviético-americano para uma inclinação majoritária a favor do Sul. O Norte estava exposto, protegido apenas por uma China mais concentrada em melhorar as ligações com o Ocidente.

O outro problema era político. As duas Coreias alegavam representar todos os coreanos, e durante décadas gozaram de níveis semelhantes de desenvolvimento. Nos anos 1990, o Sul era exponencialmente mais livre e próspero. O governo de Pyongyang tinha poucos motivos para existir.

A liderança solucionou os dois problemas com algo chamado política Songun, ou “militares primeiro”. Ela colocou o país em um permanente pé de guerra, justificando a pobreza do Estado como necessária para manter suas enormes forças militares, justificando sua opressão como necessária para extirpar os traidores internos e reforçando sua legitimidade com o nacionalismo que muitas vezes surge em tempos de guerra.

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É claro que não havia guerra. As potências estrangeiras acreditavam que o governo cairia por conta própria, como outros fantoches soviéticos, e fora isso queria a paz.

Por isso a Coreia do Norte criou a aparência de uma guerra iminente permanente, emitindo ameaças extravagantes, encenando provocações e às vezes ataques mortíferos. Seus testes nucleares e de mísseis, embora erráticos e muitas vezes fracassados, instigaram diversas crises.

Essa militarização manteve a liderança norte-coreana internamente estável. E também manteve os inimigos do país à distância.

A Coreia do Norte pode ser mais fraca, mas está disposta a tolerar riscos muito maiores. Ao manter a península à beira do conflito, Pyongyang coloca sobre a Coreia do Sul e os EUA o ônus de consertar as coisas.

De longe, os atos da Coreia do Norte parecem loucos. Sua propaganda interna descreve uma realidade que não existe, e parece inclinada a quase provocar uma guerra que ela certamente perderia.

Mas dentro da Coreia do Norte esses atos parecem perfeitamente sensatos. E com o tempo a reputação de irracionalidade do governo se tornou também uma vantagem.

Estudiosos atribuem esse comportamento à “teoria do louco” –uma estratégia cunhada por ninguém menos que Richard Nixon, em que os líderes cultivam uma imagem de beligerância e imprevisibilidade para forçar os adversários a ser mais cuidadosos.

Em uma entrevista, Roy disse que a Coreia do Norte “emprega no plano internacional uma posição de aparentemente aceitar mais riscos e ter mais disposição de fazer guerra, como forma de tentar intimidar seus adversários”.

Mas essa estratégia só funciona porque, mesmo que a beligerância seja de aparência, o perigo que ela cria é real.

Uma Coreia do Norte racional é mais perigosa?

Dessa maneira, é a racionalidade da Coreia do Norte que a torna tão perigosa. Como ela acredita que só pode sobreviver mantendo a península da Coreia próxima da guerra, cria um risco de provocar exatamente isso, talvez por meio de algum acidente ou erro de cálculo.

A Coreia do Norte tem consciência do risco, mas parece acreditar que não tem alternativa. Por isso, e talvez por causa da invasão do Iraque liderada pelos EUA e da intervenção da Otan na Líbia contra Muammar Ghadafi, ela parece realmente temer uma invasão pelos EUA. E isso é racional: os Estados fracos que enfrentam inimigos mais poderosos devem fazer a paz –o que a Coreia do Norte não pode sem sacrificar sua legitimidade política– ou encontrar uma capacidade de sobreviver a qualquer conflito.

O programa nuclear da Coreia do Norte, segundo alguns analistas, é destinado a impedir uma invasão dos EUA, primeiro atingindo bases militares americanas próximas e os portos sul-coreanos, depois ameaçando um lançamento de míssil contra o território dos EUA. Embora a Coreia do Norte ainda não possua essa capacidade, analistas acreditam que a terá na próxima década.

Esse é o apogeu da racionalidade da Coreia do Norte, em algo conhecido como teoria do desespero.

Segundo essa teoria, quando os Estados enfrentam duas alternativas terríveis, eles escolherão a opção menos ruim, mesmo que esta fosse difícil de considerar sob condições normais.

No caso da Coreia do Norte, isso significa criar as condições para uma guerra que ela com toda a probabilidade perderia. E poderia significar o preparativo de um último esforço para sobreviver a essa guerra lançando diversos ataques nucleares, correndo o risco de uma retaliação pela mera chance de sobreviver.

Os líderes norte-coreanos toleram esse perigo porque, em seu cálculo, eles não têm opção. Nós todos compartilhamos esse risco –extremamente pequeno, mas real–, queiramos ou não.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte: Uol Noticias

Edição Plano Brasil

10 Comments

  1. *Ser Humano ... says:

    celebres Frase ….

    O Lobo sempre sera Mal na Historia ou Estoria … se todos[as] escutarem [ só ] o Lado da Chapeuzinho Vermelho.

    Dente por Dente Olho Por Olho

    Povo Faminto e Cego.

    Fanatismo uma das Ferramentas e simbolo de Orgulho …

    Mal do SER Materealista

    Mais isso tambem Passa … e Deus aguarda.

  2. Apocalipse Troll says:

    Quem pode….PODE….quem não pode…ACABA COMO A SÍRIA E UMA CERTA REPUBLIQUETA DE BANANAS….

    • Ainda não acabamos , pelo menos por enquanto

  3. Apocalipse Troll says:

    Cachorro mordido por cobra tem medo de linguiça… 😛

  4. Alessandro - capa preta (identidade secreta ) says:

    coreia do norte é bem “legal”

    queria muito de coração mesmo, q o Brasil virasse uma, com todos os socialistas de esquerda MORANDO aki para SEMPRE com seus familiares !

    e o restante da população (entre 75-80%) morando nos EUA, Canadá, Austrália, França, Alemanha, Grã-Bretanha, Itália, ou onde achar melhor, só CURTINDO a vida, e vendo bem de LONGE oq aconteceria com os colegas de esquerda, vivendo nesse hipotético Brasil norte coreano rsrs..

    seria SENSACIONAL !!!
    Pq realizaria os dois sonhos, de quem quer morar num país sério de primeiro mundo, e de quem quer ver um Brasil socialista.

    • Apocalipse Troll says:

      e eu queria muito de coração também que aqui virasse uma Síria para sentirem bem na pele o que os nossos “Heróis/Paladinos da Democracia e da Liberdade” fazem com nações/povos pelo o mundo…a cultura ocidental não apedreja por questões religiosas…mas bombardeia, tortura ou mata por poder e questões econômicas…neste caso as pessoas acham normal e algumas até aplaudem..o pior é ver vira-latas desta republiqueta de bananas DEFENDENDO as atrocidades de uns enquanto CONDENAM as atrocidades de outros…

      Vejam como está a Ucrânia depois da revolução Maidan:

      Ucrânia compra gás 30% mais caro da UE em comparação quando comprava da Rússia;
      A moeda ucraniana se desvalorizou 350% em relação ao dólar;
      A inflação em 2015 foi de 43%;
      A indústria de defesa perdeu 80% de sua renda e agora na Antonov os trabalhadores trabalha UMA vez por semana;
      O governo ucraniano cortou laços econômicos com bancos russos e perdeu 9 bilhões em remessas dos ucranianos na Rússia, maior investimento direto que tinham.
      Pelos termos do FMI a ucraniana terá de pagar sua divida até 2041 com as gerações futuras dando metade do crescimento do PIB para os ocidentais se este chegar a 4% ao ano;
      De cada 5 empresas agrícolas na Ucrânia, 4 estão falidas.
      Padrão de vida nos ucranianos caiu 50%.
      Apenas 72 empresas agrícolas podem exportar para UE e desses 36 já exportaram tudo que podiam esse ano;
      Poroshenko tem uma popularidade menor que o seu antecessor,
      85% dos ucranianos não confiam no primeiro-ministro.

      Reportagem completa está no The Guardian.

      • Alessandro - capa preta (identidade secreta) says:

        então vc me dá razão q a coreia do norte é horrível para se viver ? é isso mesmo ? Pois vc só me deu opções ruins, só posso entender isso na sua resposta !

        eu dei uma “boa” opção no SEU ponto de vista, já q tu elogia a coreia do norte por ter bombas atômicas e sua soberania, e chama o Brasil, de republiqueta de bananas por não ter e aceitar ser assim, se vc não gostou da ideia q comentei acima, então vc assume q está errado sem querer querendo rsrs..

        Vc está em CONFLITO com suas ideias caro apocalipse troll ? pois é oq parece, deveria ter ficado feliz com a ideia utópica q dei lá no comentário anterior, pois agradava as duas partes, tanto a esquerda quanto a direita, não era isso q tu queria, um Brasil atômico, socialista, e sem a direita pra torrar a paciência ? Parece q tu não gostou ? estranho isso !!

        se vc quer dar ideias sobre um país legal para nós da direita, está dando uma ERRADA do NOSSO ponto de vista, não é a Síria e nem a Ucrânia o modelo q queremos, essa é da esquerda DISTORCENDO (pra variar) nossas ideias, quero ser um EUA, Canadá, França, Austrália, Japão, Coreia do SUL, grã-bretanha e todas os outros exemplos de “golpistas” e “Heróis/Paladinos da Democracia e da Liberdade” mundial.

        se não for esses exemplos, então prefiro do jeito q está o Brasil, mas JAMAIS uma coreia do norte, …

  5. Mossas says:

    Bom mesmo e a direta no Brasil onde deputados e senadores votao leis e beneficios a multinacionais estrangeiras em beneficio de nações estrangeiras e para o povo nada ….só fãla em privatizar e tirar direitos ….só faz bondade pro povo brasileiro !!!!!! Viva direita…lá no norte golpista e traidor nao tem vez !!!!

  6. muttley says:

    “A Coreia do Norte pode ser mais fraca, mas está disposta a tolerar riscos muito maiores. Ao manter a península à beira do conflito, Pyongyang coloca sobre a Coreia do Sul e os EUA o ônus de consertar as coisas.”
    Quero ver como Eles vão consertar, porque sanções até o momento tiverão efeito nulo ou quase nulo e não há quase nada mais para se impor (o povo já esta comendo capim a anos).
    A saida vai acabar sendo negociar, o Irã que não tinha um unico artefato nuclear conseguiu um bom acordo o que dira a Coreia do Norte, deve estar lambendo os beiços. E olha para quem acha que se deve bombardear aquele manicomio convem lembrar dos disparos de artilharia no territorio Sul Coreano e o navio que eles torpedearam, motivos não faltaram para aterem fogo na peninsula mas não deu nada.
    Sds

  7. exiled says:

    analise perfeita ,é um jogo perigoso mas fazem para se manterem como pais

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