Defesa & Geopolítica

Brasil: Força Nacional de Segurança inicia operação para os Jogos Rio 2016

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A 30 dias do início dos Jogos Olímpicos, também começa nesta terça a operação integrada de segurança, coordenada pela Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos do Ministério da Justiça brasileiro.

Entre as medidas da operação está a ativação do Sistema Integrado de Comando e Controle, que vai integrar as forças de segurança no evento. O sistema será baseado no Centro Integrado de Comando e Controle do Rio de Janeiro, que funciona no centro da cidade.

Participarão do sistema as forças de segurança pública, defesa civil e ordenamento urbano.

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Fonte: Sputnik News

A um mês dos Jogos, Rio vê pressão aumentar

Enquanto instalações esportivas estão no cronograma, cidade vê seus problemas mais graves de infraestrutura expostos aos olhos internacionais: da segurança pública à poluição de cartões-postais.

O Rio de Janeiro entra nesta terça-feira (05/07) em contagem regressiva de 30 dias para o início dos Jogos Olímpicos e vê diversos problemas internos colocarem em risco o potencial de sua imagem. Em vez de impulsionar as belezas e virtudes da cidade, as últimas notícias poderão fazer do megaevento um cartão-postal dos problemas cariocas.

Por um lado, a cidade está quase pronta para receber o evento, com instalações esportivas entregues e obras próximas da conclusão. Por outro, o decreto de calamidade pública, deixando clara a grave crise financeira do estado; os problemas na segurança; os atletas que cancelaram a participação por causa do vírus zika; e promessas que não saíram do papel, como a despoluição da Baía de Guanabara, mancham a imagem da cidade perante turistas e atletas.

“O Rio de Janeiro enfrenta uma tempestade perfeita. Há crises em diversas áreas”, afirma Lamartine DaCosta, pesquisador do Comitê Olímpico Internacional (COI) e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). “Mas não existem Jogos sem problemas: eles foram registrados em todos estes eventos nesta fase de gigantismo a partir de Sidney [em 2000], quando passaram a ser monumentais.”

Calamidade pública

Em 17 de junho, a 49 dias para o início do evento, o estado do Rio de Janeiro declarou calamidade pública devido à crise financeira – o governo estadual prevê um déficit de 19 bilhões de reais em 2016. Um dos motivos apresentados pelo governador em exercício, Francisco Dornelles, para optar pela medida é que a crise impediria o estado de honrar os compromissos com os Jogos Olímpicos e Paralímpicos.

“Realmente houve uma nítida chantagem, que é comum em qualquer governo do mundo. Mas, por outro lado, do ponto de vista político, a decisão [de declarar calamidade pública] está correta, pois o prejuízo seria muito maior se a crise prejudicasse os Jogos”, diz DaCosta. “O Rio não é um fato isolado. Nos Jogos de Londres, por exemplo, a Câmara dos Comuns tentou embargar muitas das modificações que foram feitas no final da construção das instalações olímpicas.”

Após análise, o governo federal liberou 2,9 bilhões de reais. Deles, cerca de 800 milhões de reais deverão ser usados para pagar a metade do salário de maio e o integral de junho dos policiais. O governo promete liberar ainda as parcelas atrasadas do Regime Adicional de Serviço (RAS), que paga os homens que trabalham durante as folgas, e ainda a premiação do Sistema de Metas do primeiro semestre de 2015, para os que reduzem a criminalidade.

A crise na segurança pública – como salários atrasados dos policiais civis, militares e bombeiros; e a falta de combustível para veículos e helicópteros das forças de segurança – chegou a gerar diversos protestos de policiais, como uma faixa estendida no setor de desembarque do aeroporto internacional do Galeão com os dizeres “Welcome to hell” (Bem-vindo ao inferno). O estado do Rio vê, ainda, um aumento da criminalidade: houve uma alta de 15,4% no número de homicídios dolosos entre janeiro e abril em comparação ao mesmo período de 2015.

Parque aquático olímpico: a cidade está quase pronta para receber o evento.

O Rio terá reforços das Forças Armadas para o período dos Jogos. Porém, segundo a mídia brasileira, serão disponibilizados 4.500 homens – número inferior ao solicitado pelo governo estadual, que era de 5 mil. Representantes do governo federal afirmaram que, com o aporte de 2,9 bilhões de reais, não será necessário deslocar o número pedido pela administração fluminense.

“Vai ter a Força Nacional de Segurança, o Exército, a Marinha. Todos estarão aqui. Acho que eles [governo estadual] fazem um trabalho terrível na segurança, antes e depois dos Jogos. Ainda bem que não serão os responsáveis pela segurança durante os Jogos”, afirmou o prefeito Eduardo Paes, em entrevista recente à CNN.

Metrô em cima da linha

Com os recursos federais aplicados na segurança pública, o estado promete fazer um remanejamento de verbas para concluir as obras da linha 4 do metrô, que liga a zona sul da cidade à Barra da Tijuca – bairro com o maior número de competições olímpicas. Com o aporte, a inauguração da linha – que tem 16 quilômetros de extensão e cinco estações – foi adiada para 1º de agosto, a cinco dias do início dos Jogos.

Mas a despoluição da Baía de Guanabara, um dos compromissos assumidos pelo Rio em sua candidatura para os Jogos, não vai sair do papel. A promessa de reduzir em 80% o esgoto e lixo jogados na baía até 2016, local palco das competições de vela, não foi cumprida. Estima-se que menos de 40% do esgoto seja tratado. E, devido ao vírus zika, alguns esportistas – como o golfista australiano Jason Day e o norte-irlandês Rory McIlroy – desistiram de participar da Rio 2016.

Para Kai Michael Kenkel, professor do instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio e pesquisador associado do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), em Hamburgo, quando o então presidente Lula defendeu a candidatura da Rio 2016, o evento tinha tudo para dar certo. Agora, porém, a situação é outra, segundo ele.

“Com uma grave recessão econômica e a crise política, o quadro é o oposto. Mas, se qualquer gestor público olhar para as edições anteriores do evento, ele vai ver que não ficou nada ou pouco de sustentável nas cidades que já foram sede”, afirma Kenkel. “Se tivessem pesquisado, os líderes políticos teriam visto o peso financeiro que um evento como este traz para as finanças públicas.”

Policiais em treinamento no Rio: para Paes, trabalho do governo estadual é terrível nesta área.

Efeitos da crise

A crise do estado tem diversos motivos, como a queda do preço do barril de petróleo e, consequentemente, na arrecadação de royalties pelo estado; a crise do setor petrolífero brasileiro devido ao escândalo da Petrobras; a diminuição na arrecadação de ICMS, também devido à crise econômica, os gastos com a organização dos Jogos e da Copa do Mundo, além de má gestão das contas públicas.

O estado sofre ainda com a desvalorização do valor do barril de petróleo – que custava na faixa de 105 dólares em julho de 2013 e, atualmente, vale cerca de 50 dólares –, já que o valor dos royalties depende do preço do barril. Assim, o estado arrecadará, em 2016, 3,6 bilhões de reais – em comparação, no ano anterior foram 5,5 bilhões de reais, segundo dados da Secretaria da Fazenda.

Quando o valor do barril de petróleo estava em alta, o estado ampliou seus gastos. As despesas do Rio de Janeiro com o pagamento de servidores ativos, inativos e pensionistas do Poder Executivo explodiu nos últimos anos. Segundo dados da Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão, em 2010 foram gastos 17,2 bilhões de reais. Já em 2016, o valor será de 37 bilhões de reais – quase o dobro.

Mesmo com tantas notícias ruins antes de atingir a marca de 30 dias para o início dos Jogos, Lamartine DaCosta, da Uerj, diz que, pela tendência histórica, os Jogos deverão ocorrer normalmente. E, ainda, segundo estudos científicos, a um mês dos Jogos a mídia nacional e internacional começa a mudar o tom em relação ao megaevento.

“E a população absorve muito bem isso [os problemas]. É uma característica do povo aderir aos eventos, como nos Jogos Pan-Americanos e a Jornada Mundial da Juventude. E, pela tendência histórica, isso deverá se repetir também na Rio 2016”, prevê DaCosta.

Fonte: DW

“Crime organizado preocupa mais que terrorismo no Rio”

Policiais em treinamento no Rio de Janeiro: para especialista, Brasil não é terreno fértil para terroristas.

Ex-estrategista antiterrorismo do governo dos EUA questiona se autoridades estadual, municipal e federal serão capazes de responder de forma coordenada a uma emergência nos Jogos Olímpicos, evitando crise ainda maior.

A um mês da abertura dos Jogos Olímpicos, o Rio ainda vem tentando responder a questionamentos sobre sua capacidade para sediar o maior evento esportivo do mundo. Além da estrutura para os atletas e turistas, uma das preocupações é sobre a possibilidade de ataque terrorista.

Em entrevista à DW Brasil, o especialista em terrorismo David Kilcullen, ex-estrategista-chefe de Antiterrorismo do Departamento de Estado dos EUA, afirma que o Brasil será capaz de prover a segurança necessária aos visitantes durante os Jogos. Kilcullen, no entanto, alerta que a crise política no país pode prejudicar a coordenação dos trabalhos em âmbitos estadual, municipal e federal.

Embora ressalte que terroristas “sempre encontram uma desculpa” na escolha do alvo, o australiano explica que o Brasil não reúne as mesmas condições de exclusão social de comunidades muçulmanas como países da Europa Ocidental, que facilitam o recrutamento por parte do “Estado Islâmico”.

“Não acho que o Rio seja mais alvo do que qualquer outra cidade que tenha sediado Jogos”, afirma. “Eu estaria mais atento à população nas favelas e ao crime organizado e à possibilidade de fecharem linhas de transporte de acesso aos locais das competições.”

DW Brasil: Como o senhor avalia o risco de ataques terroristas durante os Jogos do Rio?

David Kilcullen: Qualquer evento de grande porte, especialmente internacional, pode ser alvo de terrorismo. Mas não acho que o Rio seja mais alvo do que qualquer outra cidade que tenha sediado Jogos Olímpicos, como Atenas e Londres. O Rio é, sim, uma cidade maior e mais complexa do que Londres, mais complicada para prover segurança. Além disso, o Brasil mantém-se neutro em termos geopolíticos, mas empresas como a Embraer fornecem aeronaves para a força aérea afegã atacar o “Estado Islâmico”. E se você é um jihadista, sempre consegue encontrar uma desculpa para atacar alguém. Por isso, preocupar-se em tornar-se menos alvo não é uma abordagem realista. É preciso, sim, fazer com que as cidades sejam mais resistentes em caso de ataque, saibam responder a ele, para que não haja um desastre.

Na América Latina e no Brasil, há muito tempo vivem comunidades árabes – particularmente libanesas – que não são imigrantes marginalizados, mas sim, ligados a negócios. A existência de populações marginalizadas, excluídas da participação econômica e política, e observadas sob suspeita, gera um ambiente fértil para extremismos e violência. Olhando para o Brasil, eu estaria mais atento à população nas favelas e ao crime organizado e à possibilidade de fecharem linhas de transporte de acesso aos locais das competições.

A crise que o Brasil vive no momento poderia afetar a eficiência da resposta no caso de um ataque?

O que observo no Brasil é uma abordagem de policiamento militar muitas vezes ineficaz, pode até funcionar em certas circunstâncias, mas pode acabar saindo pela culatra, gerando ressentimento e criando áreas praticamente sem presença de policiamento e, quando a polícia aparece, sabe que será atacada de volta. Existe também uma questão de capacidade: cidade e Estado serão capazes de responder rapidamente em caso de urgência, evitando transformar a situação em uma crise ainda maior?

Acredito que o Brasil será capaz de responder efetivamente. Há alguns anos funciona no Rio um centro de controle de segurança que centraliza dados. Há ainda um protocolo de ação estabelecido e a experiência positiva da Copa do Mundo. Mas é claro que instabilidade política em um nível alto pode tornar mais difícil, porque você poderá ter que contar, durante os Jogos Olímpicos, com pessoas que não tiveram experiência anteriormente à frente desses sistemas.

Policiais patrulham praia na Zona Sul carioca: para Kilcullen, Rio é cidade mais complexa do que Londres.

Como a segurança poderia ser afetada?

Há o envolvimento, durante as Olimpíadas, de diferentes forças policiais e esferas políticas. E coordenar tudo é algo complicado. Estabelecer um mecanismo para compartilhar informações rapidamente, verificar o que está acontecendo, onde, e responder de maneira apropriada, é mais difícil do que se imagina.

Durante o ataque de Mumbai em 2008, por exemplo, a força policial da cidade, o Mahastra State Constabulary, e o governo federal não conseguiram coordenar muito bem as ações, e acabaram a atrasando uma resposta em mais de quatro horas, e houve mortes até eles chegarem.

Quando um ataque acontece, há a tendência de responder a ele achando que acabou aí. E aí em seguida outros atentados ocorrem. Este foi o caso de Paris, quando sete ataques aconteceram num intervalo de 90 minutos. Primeiramente houve três ataques – uma estratégia para desviar a atenção dos órgãos: polícia, bombeiros, serviços de emergência. Quando todos estavam ocupados, e a cidade praticamente fechada, outros ataques ocorreram. Esta é uma estratégia adotada agora pelos terroristas.

E como lidar com essa estratégia terrorista?

O mais importante é admitir que pode haver ataques e não ficar pensando muito em como evitá-los, mas em como responder quando acontecerem. Vou dar um exemplo que vai parecer extremo: a Primeira Guerra Mundial começou com um ataque terrorista contra o arquiduque Francisco Fernando. O ataque em si causou três mortes, mas a guerra gerou milhões. O número de pessoas que morreram no atentado às Torres Gêmeas foi superado em muito pelas mortes que ocorreram nos conflitos decorrentes do 11 de Setembro.

Eu tendo a focar em como fazer com que o sistema seja suficientemente robusto para que possa resistir em caso de ataque sem que sofra um colapso total, sem que haja uma onda de violência. Um bom exemplo disso seria Sidney em dezembro de 2014, quando um homem fez reféns em um café no coração financeiro da cidade. A resposta imediata das autoridades foi fechar a área onde o ataque estava acontecendo. Mas fizeram de tal maneira que apenas aquela área foi bloqueada. O resto do centro, ruas, trens, continuaram funcionando. Eles tentaram minimizar a interrupção no restante da cidade, por isso, embora o caso tenha levado um dia inteiro para ser resolvido, e reféns acabaram sendo mortos, a cidade não foi tumultuada mais do que deveria.

Este é um exemplo de sistema flexível, que não fica totalmente destruído quando um incidente acontece. Além disso, as pessoas em Sidney foram às comunidades muçulmanas para dizer “não foi culpa de vocês, foi um cara maluco, estamos com vocês”, como num movimento para abraçar a comunidade. Voluntários se ofereceram para andar de trem com pessoas que se sentiam inseguras; houve um movimento no Twitter para diminuir a reação negativa. Isso foi de grande importância para que os ataques terroristas não gerassem uma paranoia, o que levaria a mais violência.

Fonte: DW

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