Defesa & Geopolítica

Haiti prepara-se para garantir a própria segurança após o fim da missão da ONU

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O inspector geral Lionel Trecile, chefe de Cooperação Internacional da Polícia Nacional do Haiti, diz que é fundamental coordenar esforços para acabar com o terrorismo. (Foto: Marcos Ommati/Diálogo)

Por Marcos Ommati/Diálogo

A Organização das Nações Unidas (ONU) analisa uma estratégia para prosseguir com sua presença no Haiti após o fim da Missão de Estabilização (MINUSTAH) no país, prevista para outubro de 2016, de acordo com o atual plano de consolidação. A MINUSTAH foi criada em 1 de junho de 2004 pela resolução 1542 do Conselho de Segurança. A missão da ONU sucedeu a Força Multinacional Provisória autorizada pelo Conselho de Segurança em fevereiro de 2004, após o exílio do presidente Jean-Bertrand Aristide como resultado de um conflito armado que se espalhou por diversas cidades do país.

O terremoto devastador de 12 de janeiro de 2010, que deixou mais de 220.000 mortos (segundo o governo haitiano), incluindo 96 integrantes das forças de paz da ONU, impôs um forte golpe à já enfraquecida estrutura econômica do país. O Conselho de Segurança, através da resolução 1908 de 19 de janeiro de 2010, apoiou a recomendação do secretário-geral de aumentar os níveis de força da MINUSTAH em apoio aos esforços imediatos de recuperação, reconstrução e estabilidade do país. O componente militar da missão é não apenas liderado pelo Exército Brasileiro, mas também chefiado por um brasileiro.

Durante a XIV Conferência de Segurança das Nações do Caribe (CANSEC), realizada em janeiro, em Kingston, na Jamaica, Diálogo conversou com o Inspetor Geral Lionel Trecile, chefe de Cooperação Internacional da Polícia Nacional do Haiti, sobre o futuro do país sem a MINUSTAH.

Diálogo: Como a Polícia Nacional do Haiti (PNH) se prepara para a saída da MINUSTAH?

Inspector geral Lionel Trecile: Desde que a resolução da ONU determinou que a atual missão no Haiti deveria se retirar gradualmente, a Polícia Nacional do Haiti estabeleceu um plano, que chamamos de Plano de Desenvolvimento 2012-2016. O programa cobre diversas áreas, incluindo o aumento da Força de Polícia Haitiana com o treinamento de grande número de policiais que poderão, progressivamente, assumir as funções com a saída das forças da ONU.

Diálogo: O que a polícia do Haiti planeja para as regiões mais violentas, como Cité Soleil, onde a MINUSTAH foi extremamente útil ao promover a pacificação?

IG Trecile: Há um conjunto de medidas sendo tomadas a este respeito, como o aumento do número de policiais no bairro de Cité Soleil; a criação de uma unidade de aplicação da lei, que apoia as delegacias de polícia locais; e, em terceiro lugar, a Unidade de Policiamento Comunitário do Haiti, criada recentemente e que intervém especificamente em áreas de conflito como Cité Soleil. O objetivo é que a população local possa se sentir segura com os esforços dessas várias unidades, incluindo a Unidade de Policiamento Comunitário.

Diálogo: O Sr. considera que as gangues continuam sendo o principal problema de violência no Haiti?

IG Trecile: Esse é um fenômeno que começa a… não digo desaparecer, mas o fenômeno das gangues teve uma queda considerável. Porque, além do trabalho realizado pelas Unidades de Policiamento Comunitário, algumas operações foram executadas com a prisão de muitos líderes de gangues. E essas operações continuam diariamente. Posso dizer que o fenômeno teve uma redução considerável, e estamos trabalhando para erradicá-lo definitivamente.

Diálogo: Houve muita discussão sobre terrorismo na conferência (CANSEC 2016), incluindo como o terrorismo está presente na região, algo que nunca havia sido levado em consideração. Esta é uma preocupação para o Sr.?

IG Trecile: Sim, claro que é uma preocupação para nós, especialmente por sermos o elo mais fraco da região. Nossa costa está praticamente deixada à própria sorte, e a fronteira com a República Dominicana não é muito bem monitorada. Praticamente oferecemos todas as condições para que os terroristas venham e possivelmente iniciem atividades aqui. Claro que somos um país pacífico nesse sentido, mas nossas fraquezas também são visíveis. Devemos nos esforçar para trabalhar com nossos amigos na comunidade internacional e nossos vizinhos da República Dominicana, fazendo o que for possível para evitar que essas pessoas invadam nosso país.

Diálogo: Como avalia a relação entre o Haiti e os Estados Unidos em temas de segurança?

IG Trecile: Com os EUA temos uma longa história de estreita cooperação, especialmente na área da guerra contra as drogas. Os EUA são nosso principal parceiro nessa guerra. Creio que isso continuará. E com respeito às gangues, como disse no início, a PNH está tentando intensificar suas forças em diversos níveis. Em termos de força de trabalho, através do Plano de Desenvolvimento 2012-2016, precisamos crescer para atingir 15.000 policiais até 31 de dezembro. Também pudemos ampliar nossas unidades de aplicação da lei em todos os departamentos, além de designar mais policiais a todas as nossas delegacias. Estamos trabalhando; sabemos que há muito a fazer, mas estávamos longe disso. Agora, estamos gradualmente trabalhando para assumir a plena responsabilidade sobre a segurança do país quando chegar o momento.

Diálogo: A PNH planeja continuar com a troca de inteligência com os países que integraram a MINUSTAH, sobretudo o Brasil, que tem sido o maior contingente da MINUSTAH em todos esses anos?

IG Trecile: Claro, claro. Acredito que a troca de informações é uma das áreas em que todas as agências policiais devem se concentrar atualmente. Porque o mundo se tornou uma pequena aldeia. Os crimes cometidos aqui [na Jamaica], por exemplo, podem estar sendo cometidos neste momento no Haiti. Temos de coordenar esforços. Também devemos compartilhar informações para vencer o terrorismo. Isso é extremamente importante e deve ser levado em consideração. Porque, como disse, o mundo se tornou uma aldeia e tudo o que acontece aqui pode estar ocorrendo em vários países simultaneamente. Se não coordenarmos nossos esforços, não sei se conseguiremos dar um fim ao terrorismo.

Fonte: Revista Diálogos

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