Defesa & Geopolítica

Considerações sobre o abate do SU-24M e do seu desenrolar

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César Antôni Ferreira

Antes de tudo é preciso lembrar uma citação do atual dignitário Turco, Erdogan, quando houve a destruição de um jato de reconhecimento RF-4E no litoral de Latakia. Assim se manifestou Erdogan: “Uma breve violação de fronteira não deve nunca servir como pretexto para um ataque”.  Dito isto, se faz necessário lembrar de um outro dado, que são os números de violações do espaço aéreo alheio (Grécia) por parte da Türk Hava Kuvvetleri, ou Força Aérea da Turquia, da ordem de 2.244 violações em 2014, antecedidas por outras 636 em 2013. Percebe-se, portanto, que aquilo que a Turquia diz fazer não representa as suas ações de fato, colocando, por isso, uma suspeita indelével em qualquer alegação turca.

Não surpreende os acontecimentos terem se desenrolado da forma que se deram. Ontem mesmo, um veterano piloto de primeira linha da Força Aérea Turca, Beyazit Karatas afirmou que “caça russo de fato não representava nenhum perigo para a Turquia. O disparo contra a aeronave foi um grande erro, totalmente desnecessário que foi cometido”. Um absurdo que sobe às vistas a partir das alegações turcas. Vamos à elas:

Segundo carta postada pelo embaixador turco na ONU, senhor Halit Cevik, a aeronave russa teria sido advertida por 10 vezes durante um período de cinco minutos, através de “canais de emergência” para mudar de direção e que por “desconsiderar” as advertências teria sido alvejada enquanto ainda estava no espaço aéreo turco. Diz a nota do embaixador:
Desconsiderando-se essas advertências, ambos os planos, a uma altitude de 19.000 pés, violado o espaço aéreo nacional turco a uma profundidade de 1,36 milhas e 1.15 milhas de comprimento por 17 segundos de 09:24:05 hora local,(…)”, a nota continua com aquilo que se sabe, hoje, ser uma alegação fantasiosa, “o segundo avião foi alvejado, enquanto estava no espaço aéreo turco, por F-16 turcos”. O texto do embaixador Halit é bastante elucidativo da mentalidade turca, diria. Aceita, melhor, afirma que a suposta violação deu-se por apenas 17 segundos. Ora, ora, então temos que o líder de esquadrilha foi informado pelo seu controlador do momento exato da violação do espaço aéreo turco, tomou o quadrante traseiro da aeronave invasora e efetuou o disparo nestes meros 17 segundos… Isto, na alegação turca, bem entendido. A mentira turca, todavia, não pareceu convencer a todos, pois ontem mesmo, durante a madrugada, o serviço da Reuters no Twitter registrava: “Reuters – The United States believes that the Russian jet shot down by Turkey on Tuesday was hit inside Syrian airspace after a brief incursion into Turkish airspace, a US official told Reuters, speaking on condition of anonymit”. Nada mais revelador.

As alegações russas, respaldadas por registros do controle do espaço aéreo sírio são bem diferentes. Dizem os eslavos que a Turquia, constantemente, levava ao ar uma esquadrilha de interceptadores F-16, toda vez que uma missão de bombardeiros russos se dava na região de fronteira. Durante a cadeia de eventos do dia 24 último, não foi diferente. A parelha responsável pelo abate adentrou no espaço aéreo sírio ao menos 3 km e efetuou o disparo. O Su-24M atingido em um dos motores precipitou-se ao solo a uma distância de 4,5 km adentro do território sírio, alvejado por um míssil WVR AIM-9. Tem-se, portanto, que se houve uma suposta violação do espaço aéreo turco, houve outra, comprovada por um ato de guerra, do espaço aéreo sírio.  De fato, após tamanhas revelações advindas nestas 24 horas, o Premier turco, Ahmet Davutoglu, admitiu ter emanado dele, diretamente, a ordem de abate da aeronave russa.

Operação de resgate e oficiais mortos.

Inicialmente deu-se como tripulantes do SU-24M alvejado os nomes dos oficiais Sergej Aleksandrovich Rumyantsev e Aleksandr Akhmadulin, o primeiro com a patente de major e o segundo como tenente. Com o passar das horas nas redes sociais a família do major Sergei alertava que o mesmo estava vivo, passava bem, algo que ao que parece nenhuma importância foi dada, pois este era tido como morto em combate inclusive por agências de notícias árabes. Entretanto, para veracidade histórica deu-se os comunicados do Ministério da Defesa da Federação Russa, que apontava o oficial falecido em combate como o Tenente Coronel Peshkov Oleg, condecorado na data de 25 de novembro de 2015, de forma póstuma como Herói da Rússia. Peshkov era o piloto e o seu navegador, resgatado com vida, atende por Konstantin Murahtin e possui a patente de Capitão. Este navegador foi laureado como o melhor navegador nos exercícios da VKS batizados de “Aviadarts”. Murahtin foi condecorado com a Ordem da Bravura (ou Coragem, a escolha do tradutor).

As  operação de resgate foi acompanhada nestes tempos de mídia real, dela soube-se de um fracasso inicial. O corpo do Tenente Coronel Peshkov estava em poder dos rebeldes turcomanos, senhores do setor, sendo o líder identificado por meio de redes sociais. Trata-se de Alparslan Çelk, morador de Keban, distrito da província de Elazig, membro do movimento neo-nazista turco “Grey Wolf”, filho de um ex-prefeito da localidade. A identificação do líder jihadista deu-se em função da sua vaidade em posar ao lado do corpo vilependiado do oficial aviador russo e tornou-se mais um caso de consternação para Ankara, posto que serve como mais uma evidência do apoio direto do governo turco aos terroristas presentes em solo sírio.

A ação primeira era composta com dois helicópteros Mi-8 AMTSh e pelo menos um Mi-24P como elemento provedor de cobertura de fogo. Um dos helicópteros foi alvejado por armas no calibre de fuzil e superior, toadas elas armas de cano, ocasionando ferimentos mortais no fuzileiro naval Alexander Pozynich, este também agraciado de forma póstuma com a Ordem da Bravura. Konstantin Murahtin relatou que escapou das tentativas dos rebeldes turcomanos de o acertarem no ar com os seus fuzis e de ter tido a sorte de cair com seu paraquedas em uma área bastante arborizada, o que lhe forneceu a cobertura necessária para que viesse a se evadir dos seus captores.  Todavia, Murahtin ao se sentir seguro, comunicou-se via rádio, informando o seu estado e localização. De imediato várias colunas de insurgentes turcomanos começaram a patrulhar a região onde se encontrava, o que sugere, fortemente, que o equipamento de rádio dos pilotos não possui salto de frequência criptografado, ou que este foi facilmente triangulado pelas forças insurgentes locais, o que de qualquer forma é revelador que são sobejamente equipados para uma força guerrilheira de “resistência doméstica”. Em função disto, realizou-se uma força de resgate ampla, para dar combate aos terroristas no campo e resgatar o Capitão Murahtin. Cerca de 15 helicópteros foram empregados para transportar frações de elite do Exército Árabe da Síria e de elementos de Forças Especiais do Fuzileros Navais da Marinha da Federação Russa. Entre estes, duas parelhas de Mi-24P foram vistos em imagens divulgadas no Youtube. A operação iniciou-se ainda no período noturno, tendo os integrantes da elite de Operações Especiais do EAS encontrado o Capitão Murahtin às 00:40 GMT, segundo informe do Ministério da Defesa da Federação Russa. Após 23 horas do evento, o referido capitão encontrava-se junto a sua base operacional.

Um detalhe interessante da primeira e frustrada operação de resgate foi a destruição do helicóptero abandonado pelas Forças Especiais Russas, por estar avariado. Os militantes turcomanos, tendo o helicóptero inerte ao seu dispor, preferiram destruí-lo, utilizando para tanto um BGM-71 TOW. Uma arma anti-carro. Por certo com algum interesse em propaganda, tal como um vídeo com gritos de Allahu Akbar, para parecer aos ingênuos de que fora uma ação de combate. O desperdício de uma ogiva anti-carro é inegável, o qu eleva supor que o abastecimento desta arma, que equipa os exércitos da OTAN e que de maneira alguma é barata, ou de fácil aquisição é facilmente suprida aos milicianos.

 A importância do resgate do navegador, vivo, com plena consciência, se dá pelo fato de que a sua versão dos fatos poder ser confrontada com aquilo que foi proferido pelo outro lado. Segundo a Agência Sputnik, as palavras do Capitão Murahtin quanto aos supostos avisos turcos foi a que se segue:

“Na verdade, não houve quaisquer avisos. Nem de rádio, nem visuais. Não houve contato nenhum. Por isso, nós iniciamos a missão de combate em regime normal. Temos de perceber qual é a velocidade do bombardeiro e qual é do caça F-16. Se quisessem nos avisar podiam mostrar-se escolhendo o rumo paralelo. Mas não houve nada. O míssil abateu a cauda do nosso avião de imediato. Nem o vimos para fazer uma manobra antimíssil”.

O navegador proferiu outras declarações, segundo a mesma agência. Afirma o oficial quanto a possibilidade de ter invadido o espaço aéreo turco:

“Não, não, isso é completamente impossível. O que é mais importante é que voávamos à altitude de 6 mil metros, o tempo estava bom ou, como se costuma dizer, muitíssimo bom (…)” e continua: “Todo o nosso voo antes da explosão do míssil era plenamente controlado por mim. Podia ver no mapa e no terreno onde estava a fronteira e onde estávamos nós. Não havia sequer um risco mínimo de entrar na Turquia”.

Entre as resoluções do governo russo frente ao incidente, de clara violação dos protocolos acertados com os beligerantes da OTAN que operam no espaço aéreo sírio, caso dos EUA, da França e de Israel, estão o envio imediato do cruzador lança mísseis Moskva, de 12.500 toneladas e dotado do sistema AAA S-300F, bem como do envio de uma bateria do sistema S-400 para o litoral norte da Síria, notadamente para a base de Bassel Al-Assad. Dispõe de 250 km de alcance contra alvos aéreos e de 60 km contra alvos balísticos, rastreia 72 alvos e engaja 36 deles simultaneamente. Com isto, boa parte todo o território sírio seria coberto, do Líbano, bem como partes significativas do sul, sudoeste e sudeste do território turco. Ademais, nesta data, 25 de novembro de 2015, as forças russas efetivaram denso bombardeio justamente na fronteira turca onde houve o incidente, tendo como alvo as milícias insurgentes turcomanas, justamente aquelas ao qual Erdogan procura proteger, inclusive, com insistentes pedidos para criação de uma No-Fly-Zone. Objetivo este, que se percebe agora, muito distante de ser atingido, uma miragem, pode-se dizer. O ataque realizado contou com escolta de caças Su-30, que realizaram quando da missão de resgate uma CAP defensiva. Nas duas oportunidades não se percebeu movimentação alguma da Força Aérea Turca com os seus F-16.

Portanto, pode-se afirmar que as ações aéreas hoje realizadas, tendo como alvo os milicianos turcomanos foram em si uma retaliação, esta, aliás, é a opinião corrente da mídia norte-americana, tal como explicitado pela Superstation News, New York – USA:
“Russia wasted no time in retaliating against the Turkmen for shooting at, and likely killing, the downed Russian pilot as he dropped helplessly with his parachute from his crippled aircraft.  Just minutes ago, (9:00 AM EST) an enormous barrage of Russian Cruise Missiles launched from Russian warships in the Mediterranean, began exploding in the region where the Russian pilot was killed yesterday”. Não só mísseis de cruzeiro foram lançados, mas ataques com bombas guiadas foram realizados por pelo menos doze aeronaves, obviamente escoltadas, que arrasaram um comboio em uma estrada de acesso ao norte da Síria.

É fácil perceber, em função do noticiário, onde dignitários manifestam surpresa e condenação ao gesto turco, com exceção da OTAN, a qual se acredita ter aquiescido com o ato premeditado por parte dos dirigentes turcos, que as ações russas contra o contrabando de armas da Turquia para os insurgentes e do petróleo dos terroristas para o mercado negro turco devem ser intensificadas, como, aliás, já o foram nesta tarde. E que foi justamente estas ações aquelas que provocaram o endurecimento de Ankara, visto que o contrabando tornou-se uma mina de ouro para diversas famílias importantes da Turquia, inclusive, para o eminente filho do dignitário Turco, que atende pelo nome de Bilal Erdogan, flagrado em imagens junto com membros do Estado Islâmico. Não bastasse, o diário on-line Sol Haber traz uma notícia que expõe ainda mais a hipocrisia turca: a existência de hospitais turcos para assistência aos militantes do Estado Islâmico. Segundo o diário, os hospitais se localizam em várias províncias, principalmente em Sanliurfa, ou Urfa, como é mais conhecida. Não só existem hospitais turcos atendendo militantes do Estado Islâmico, como o próprio Estado Islâmico é dono de um deles, segundo apurado na reportagem. O repórter afirma ter estado na sala da administração do referido hospital e visto, junto com a bandeira nacional da Turquia a flâmula negra do Estado Islâmico. Convenhamos… Isto é algo para se considerar.


* As opiniões do autor, não necessariamente correspondem à do site

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