Defesa & Geopolítica

30 de Abril de 1975: Queda de Saigon

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Na 22 Gia Long Street em 29 de Abril de 1975, um prédio de apartamentos que abrigava funcionários da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e da CIA, agentes tentam desesperadamente evacuar para o USS Blue Ridge (LCC-19), americanos e sul-vietnamitas pelo telhado em um helicóptero. – Foto histórica de Hubert van Es.

No dia 30 de abril de 1975, sob chuvas torrenciais, helicópteros dos EUA viajavam entre um porta-aviões e Saigon, em dramática operação de evacuação. O pânico reinava na embaixada dos EUA.

Enquanto tropas do Vietnã do Norte invadiam Saigon, o pânico reinava na embaixada dos EUA na cidade. Milhares de pessoas desesperadas forçavam a entrada no edifício, sob a mira das armas de marinheiros norte-americanos. Além dos cidadãos dos Estados Unidos, foram poucos os que tiveram acesso ao heliporto sobre o prédio da embaixada, última chance para fugir de Saigon naquele dia 30 de abril.

Segundo o jornalista Dietrich Mummendey, da TV alemã-ocidental, milhares de franceses e vários correspondentes permaneceram no país, e a Cruz Vermelha declarou vários edifícios como “zonas internacionais”.

Nenhum outro acontecimento mobilizou tanto a opinião pública internacional, na década de 70, como a Guerra do Vietnã (1964-1975). O conflito representou a maior derrota militar da história dos EUA.

Pela primeira vez, as crueldades de uma guerra – fuzilamentos ao vivo e cadáveres de crianças nuas, mortas queimadas por bombas de napalm – foram exibidas no horário nobre da programação de TV.

Crônica de uma guerra anunciada

As hostilidades que antecederam o conflito começaram em 1956, quando o Vietnã do Norte decidiu não convocar eleições, em desacordo com o que havia sido decidido pelo Pacto de Genebra, após a derrota militar da França (potência colonial na região na primeira metade do século).

O Vietnã do Norte era dominado pela guerrilha comunista, cuja política pretendia anexar também o Vietnã do Sul. Os EUA passaram a fortificar suas posições no sul, a fim de garantir “a liberdade do país”. A política norte-vietnamita tinha o apoio da União Soviética e da China. Já os EUA lutavam contra a expansão do sistema comunista em outros países.

Em 1964, o suposto bombardeio norte-vietnamita a barcos americanos, no golfo de Tonquin, serviu de pretexto ao presidente Lyndon Johnson para iniciar as ações militares contra o Vietnã do Norte.

Descontentamento nos EUA

Em 1969, no auge dos combates, 543 mil soldados dos EUA estavam nas frentes de batalha. Os norte-vietnamitas, vindos de uma guerra com a França, usaram melhor estratégias de guerrilha e aproveitaram a vantagem geográfica (selva fechada e calor de mais de 40ºC) para derrotar os americanos.

O descontentamento da opinião pública dos EUA com a Guerra no Vietnã forçou a abertura de negociações de paz, em 1971. Dois anos antes da tomada de Saigon, em 1973, os ministros do Exterior do Vietnã do Norte e dos EUA haviam assinado um cessar-fogo, em Paris.

O acordo não foi implementado, mas os Estados Unidos começaram a retirar suas tropas. Em 1975, completada a retirada norte-americana (que incluiu também o corte de ajuda financeira), o regime sul-vietnamita entrou em colapso.

Vitória dos pequenos

A ofensiva norte-vietnamita começara um mês antes da capitulação de Saigon. Os militares norte-americanos foram surpreendidos pelo rápido sucesso dos vietcongues e a fraca resistência do exército sul-vietnamita.

Uma nova intervenção dos EUA foi descartada pelo presidente Gerald Ford, por falta de apoio no congresso. Resultado: os norte-vietnamitas conquistaram o sul, a 30 de abril de 1975, no que ficou conhecido como a “queda de Saigon”.

A evacuação de nove mil norte-americanos foi feita às pressas, na última hora. Mesmo assim, ainda foram resgatados cerca de 150 mil vietnamitas. A guerra deixou um saldo de 58 mil americanos mortos e 153 mil feridos; do lado vietnamita, um milhão de mortos e 900 mil crianças órfãs.

Milhões de hectares de terra, minados ou envenenados, se tornaram incultiváveis. Os EUA gastaram cerca de US$ 200 bilhões com o movimento bélico e lançaram um milhão de toneladas de bombas por ano. Em agosto de 1995, vinte anos após o fim da guerra, os EUA reataram relações comerciais com o Vietnã, ainda hoje um dos países mais pobres do mundo.

Fonte: DW

Vietnã: a guerra que os EUA não esquecem

Quarenta anos após a queda de Saigon, país ainda tem dificuldade em encontrar significado para a intervenção militar. Até hoje, derrota é referência em debates sobre entrada americana em outros conflitos armados.

Cliff Riley viu a queda de Saigon pela TV. Uma década antes, em 1966, ele havia se voluntariado no Exército, em meio à onda de patriotismo americano que sucedeu a Segunda Guerra Mundial. Intervir no Vietnã, pensava ele na época, era uma ação legítima para combater a ameaça do comunismo.

Ao desembarcar no Vietnã do Sul, então com 19 anos, ele viu a pobreza e achou que os Estados Unidos de fato poderiam ajudar. Com o tempo, porém, enquanto trabalhava no setor de comunicações do Exército, sua percepção das coisas foi mudando.

“Começou a me incomodar o dano que estávamos causando”, relembra. “Nós estávamos destruindo a terra deles. Eu me questionava sobre o que eles iriam ter quando saíssemos.”

Só de sua antiga escola, no estado de Ohio, Riley perdeu sete colegas. Quando já de volta em casa, ele acompanhou a queda da então capital do Vietnã do Sul com um misto de tristeza e raiva: “Meus amigos foram mortos. E pelo quê?”

A ambiguidade de Lyndon Johnson

Passados 40 anos, ninguém consegue ao certo responder pelo que os amigos de Riley e outros 58 mil americanos morreram. Uma dúvida que se reflete na figura de Lyndon Johnson, presidente dos EUA entre 1963 e 1969.

Mais de 58 mil americanos morreram num conflito que até hoje o país tem dificuldades de entender

Texano e liberal-democrata, ele apoiava a equidade racial e social nos EUA, numa agenda doméstica que contrastava com uma política externa agressiva. Em 1965, foi ele que transformou uma missão militar limitada numa guerra de fato, que envolvia quase 500 mil soldados americanos.

“As evidências mostram claramente que Johnson estava dividido”, opina o historiador Edward G. Miller, autor de um livro sobre a guerra. “De um lado, ele achava que os EUA, por estarem profundamente envolvidos nos assuntos do Vietnã do Sul há 15 anos, tinham obrigação de ajudar o país. Por outro, ele estava seriamente preocupado com as consequências de uma guerra.”

O assunto ainda divide historiadores e analistas políticos. Para uns, Johnson de fato temia um efeito dominó, com um comunismo se espalhando se o Vietnã do Sul fosse dominado pelo Norte. Para outros, tinha medo, na verdade, da pressão republicana interna caso não agisse.

“Johnson era um homem complicado, tinha medo de ser visto como fraco” afirma Miller. “Dizia com frequência que não queria ser visto como o primeiro presidente americano a perder uma guerra.”

Com a guerra, começou o recrutamento. Ken Williamson era estudante de fotografia na Universidade de Ohio quando a intervenção no Vietnã começou a escalar. Ele recebeu permissão para continuar os estudos, enquanto o campus era dominado por discussões sobre o conflito.

“Estávamos envolvidos numa guerra civil que, na minha opinião, não tinha nada a ver com a gente”, conta Williamson.

Após alguns anos, já formado na universidade, Williamson foi recrutado e recebeu a missão de ir ao Vietnã como fotógrafo, trabalhando, porém, longe do front. Outros opositores da guerra fugiram para o Canadá, mas ele conta que, na época, sentiu que tinha a obrigação de servir a seu país. A intuição de que algo estava sendo escondido da população, porém, permaneceu.

“O governo americano realmente mentiu ao país sobre o que estava acontecendo”, afirma Williamson, hoje com 72 anos. “Naquele tempo, era só uma impressão, mas hoje é possível provar que é verdade em várias áreas, como no uso do Agente Laranja.”

As sequelas da derrota

O Exército americano despejou mais de 80 milhões de litros de Agente Laranja – um herbicida desfolhante com uma perigosa dioxina – nas selvas do sul do Vietnã para destruir os cultivos e a selva usada pela guerrilha comunista. Durante anos, os EUA não admitiram a ligação entre a substância e os futuros problemas de saúde apresentados por soldados, como Cliff Riley.

“A dioxina estava deixando muitos de nós doentes”, conta Riley, hoje com 69 anos. “As pessoas que foram expostas têm mais chances de ter doenças como câncer de próstata, de pulmão ou Parkinson.”

Com 40 anos, o ex-soldado já tinha sofrido dois enfartes. Foi diagnosticado com câncer colorretal e hoje tem diabetes. Só com a aprovação do chamado Agent Orange Act, em 1991, o governo começou a indenizar veteranos por doenças causadas pela exposição ao desfolhante.

O horror da guerra e a derrota dos EUA foram tão traumatizantes que alguns americanos acreditam que o país sofre de uma “síndrome do Vietnã”.

“A ideia por trás do conceito é que a Guerra do Vietnã foi tão desastrosa e impopular que os líderes americanos estariam, por isso, relutantes em se envolver em conflitos internacionais”, opina Miller. “Até hoje, onde quer que haja uma discussão sobre o que os EUA deveriam fazer no Iraque, no Afeganistão ou contra o ‘Estado Islâmico’, o Vietnã continua sendo uma referência”, completa o historiador.

Fonte: DW

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