Defesa & Geopolítica

EUA e Cuba fazem primeira reunião de ministros do Exterior em mais de 50 anos

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Ao fundo Bruno Rodríguez e John Kerry na Cidade do Panamá

Reunião entre secretário de Estado, John Kerry, e ministro do Exterior cubano, Bruno Rodriguez, marca momento histórico na diplomacia dos dois países. Cuba deve ser removida da lista de países que financiam terrorismo.

Na noite desta quinta-feira (09/10) o Departamento de Estado americano publicou uma foto do secretário John Kerry em um encontro com o ministro cubano das Relações Exteriores, Bruno Rodriguez, na Cidade do Panamá, por ocasião da Cúpula das Américas. Este foi o primeiro encontro de alto nível entre os dois países desde 1958, um ano antes de Fidel Castro tomar o poder em Havana.

Cuba está prestes a sair da lista dos Estados Unidos de países que apoiam o terrorismo, onde constam nações como Irã, Síria e Sudão. Após meses de avaliações, o departamento do Estado americano finalmente parece ter se decidido pela medida, segundo informou o senador democrata Ben Cardin, um dos membros do Comitê de Relações Internacionais do Senado em Washington.

“Este é um passo importante em nossos esforços para construir um relacionamento frutífero com Cuba”, declarou o senador. Cardin teria sido informado da decisão, que ainda deve ser anunciada oficialmente pela Casa Branca.

O presidente Barack Obama afirmou nesta quinta-feira, durante visita à Jamaica, que o departamento de Estado completou as avaliações sobre o tema, mas não se pronunciou oficialmente sobre a medida.

Obama e Castro

Obama chegou à Cidade do Panamá para a cúpula iniciada nesta sexta-feira, onde, especula-se, poderá se encontrar com o presidente cubano Raúl Castro. Uma reunião entre os dois líderes não está agendada, mas a Casa Branca já informou que haverá, inevitavelmente, alguma “interação” entre Castro e Obama.

Em dezembro, os dois líderes surpreenderam o mundo ao anunciar o fim de 50 anos de hostilidades entre as duas nações. Desde então, Washington e Havana negociam a normalização das relações bilaterais.

Desde janeiro estão em prática medidas que facilitam o comércio e as viagens entre os dois países. Representações diplomáticas serão restabelecidas pelas duas partes, e Obama já afirmou que irá defender, junto ao Congresso americano, o levantamento do embargo comercial imposto ao regime cubano desde 1962.

RC/afp/dpa/ap

Fonte: DW

Cúpula no Panamá pode marcar nova era na América Latina

Em meio ao processo de reaproximação entre Washington e Havana, reunião da OEA, que pela primeira vez terá presença cubana, pode entrar para a história como marco do realinhamento das relações interamericanas.

O anúncio foi claro: “A próxima cúpula não seria realizada sem Cuba”, declararam os 35 membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) em sua última reunião, em 2012, em Cartagena, na Colômbia. E eles tinham razão. Desta vez, a América Latina prevaleceu, e não os Estados Unidos.

A sétima edição da Cúpula das Américas, realizada nesta sexta e sábado no Panamá, vai entrar nos livros de história. Pela primeira vez, um presidente americano e um cubano vão apertar as mãos no encontro, do qual o país caribenho nunca participou. O fórum reúne, desde 1994, os líderes dos países que integram a OEA, da qual a ilha foi suspensa em 1962. Em 2009, a decisão foi revogada, mas Cuba se abstinha de participar. Agora, depois de mais de 50 anos, os dois arqui-inimigos políticos estão em processo de reatar as relações diplomáticas.

“A Guerra Fria no Caribe chega ao fim. Para Cuba, foi um triunfo político quando Obama declarou fracassada a política americana dos últimos 55 anos para a ilha”, avalia Bert Hoffmann, do instituto alemão Giga, sediado em Hamburgo. O especialista em Cuba, que acompanha o desenvolvimento político e econômico no país desde a década de 90, se diz convencido de que ambos os lados têm “intenções sérias”.

Desafio para Havana

Mas por trás do aparente triunfo de Cuba, não se esconde, na opinião de Hoffmann, fraqueza alguma de Washington, e sim um desafio político para Havana. “Até agora, o confronto com os Estados Unidos era fundamental para a legitimidade do sistema de partido único de Cuba”, explica. O conflito exterior parecia não permitir o pluralismo no interior do país. “O relaxamento em relação aos EUA aumenta agora as expectativas de participação política e transparência na ilha”, prevê.

A cúpula não será importante apenas para a reaproximação histórica entre os dois arqui-inimigos ideológicos, mas também para o realinhamento das relações interamericanas como um todo. Porque a imagem dos EUA como um inimigo em comum está empalidecendo. O apoio às ditaduras militares latino-americanas por parte de Washington virou coisa do passado.

“A reaproximação elimina um dos grandes temas da esquerda latino-americana”, opina o especialista em América Latina Oliver Stuenkel, da Fundação Getúlio Vargas. “Isso vai fortalecer o papel dos EUA na América Latina e melhorar as dinâmicas regionais.”

Relações com o Brasil

Ponto central dessa melhora é também a reaproximação entre os EUA e o Brasil. As relações entre os dois países tinham se deteriorado de forma dramática, quando foi revelado, em outubro de 2013, que a NSA grampeara telefonemas da presidente Dilma Rousseff. Ela e Obama marcaram uma conversa a dois durante a cúpula.

A relação tensa entre Brasil e Estados Unidos também é um dos exemplos para as discordâncias entre os EUA e o restante do continente. As sanções impostas pelos EUA contra sete políticos de alto escalão do governo da Venezuela não são criticadas só por Dilma, mas também por outros países latino-americanos.

Eles defendem o princípio da não ingerência em assuntos internos de seus vizinhos e não querem se submeter aos ditames de Washington em relação a quem pode ou não fazer negócios ou manter relações diplomáticas – seja democrata ou ditador.

Não só o líder cubano Raúl Castro se beneficia desta diretriz, como também seu aliado Nicolás Maduro. O presidente da Venezuela vai usar a cúpula para atiçar a velha hostilidade em relação aos Estados Unidos. Ele já planejou com antecedência grandes protestos contra as sanções americanas.

Fim de velhos estereótipos

Mas a realidade política e econômica do continente já se emancipou há muito tempo dos velhos estereótipos. A Venezuela reduziu drasticamente o fornecimento de petróleo a Cuba, pois não quer mais ser paga com serviços, e sim com dólares. Já o Brasil passou a ser o segundo maior exportador para Cuba, depois da China. Pequim, por sua vez, já tomou o lugar dos EUA como mais importante parceiro comercial do Brasil.

Bert Hoffmann não tem dúvida de que uma nova era está começando, mesmo que Havana insista em pisar, vez por outra, nos freios. “Raúl Castro está tentando abafar as expectativas de mudança do sistema político”, diz o especialista. “Mas o que vai acontecer com a lógica da fortaleza sitiada, quando o inimigo desistiu do cerco e se torna agora vizinho, parceiro comercial e investidor? O que acontecerá com Davi, quando Golias não mais ameaçar, mas tentar atraí-lo com dólares?”

Fonte: DW

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