Defesa & Geopolítica

Quatro anos após Primavera Árabe, autoritarismo se intensifica no Oriente Médio

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Yaroslav Trofimov

Quatro anos depois do início da Primavera Árabe, o novo Oriente Médio se parece mais e mais com o velho — só que pior.

Por décadas, a região tinha como opção apenas ditadores como Hosni Mubarak, do Egito, e a militância islâmica que sempre invocavam quando pressionados pelo ocidente a serem mais liberais.

Os levantes de 2011 — frequentemente impulsionados por ativistas liberais e seculares — produziram uma esperança fugaz de que os jihadistas e autocratas não seriam mais as únicas alternativas.

Hoje, porém, o presidente egípcio Abdel Fattah Al Sisi lidera um regime que é considerado mais repressivo que o de Mubarak em muitos aspectos.

É este novo Egito e seus principais financiadores e aliados — as monarquias absolutistas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos — que cada vez mais espalham seu poder e influência por toda a região.

Do outro lado da equação, o Estado Islâmico conquistou um pedaço da Síria e do Iraque do tamanho do Reino Unido e agora está criando braços na Líbia e na inquieta Península do Sinai, no Egito. Ele está superando a velha al Qaeda em barbárie injustificada e proezas militares.

Enfatizando a ameaça terrorista ao ocidente, o braço da al Qaeda no Iêmen afirmou ser responsável pelo ataque na semana passada à revista satírica Charlie Hebdo, em Paris, enquanto um seguidor francês do Estado Islâmico matou uma policial e quatro reféns em um supermercado judeu na cidade.

Segundo Maha Azzam, cientista política que comanda o Conselho Revolucionário Egípcio, um grupo que reúne organizações de oposição ao governo de Susi, é preciso retroceder. “O espaço político intermediário não se reduziu, ele desapareceu. O que foi deixado para a geração mais jovem é uma escolha entre aceitar a ditadura ou, para os mais radicais, recorrer à violência.”

Ao longo de suas três décadas no poder, Mubarak frequentemente dizia a dignitários americanos que a escolha era entre ele e Irmandade Muçulmana, a principal organização islâmica do país com presença em toda a região. Ele estava certo: um ano após sua destituição, as primeiras eleições presidenciais democráticas do país colocaram Mohammed Morsi, da Irmandade, no poder.

Um ano mais tarde, liberais antes estavam de mãos dadas com os apoiadores da Irmandade na Praça Tahrir, no Cairo, escolheram uma ditadura que preservaria as liberdades seculares em detrimento de um governo islâmico democraticamente eleito. Seus protestos de massa incitaram o exército a encerrar a experiência democrática no país, colocando Sisi no poder e dando origem à repressão atual.

As novas autoridades egípcias aprisionaram desde então dezenas de milhares de adversários políticos e impuseram novas restrições aos protestos, à mídia, organizações não governamentais e grupos de direitos humanos.

Na região, uma intervenção militar da Arábia Saudita acabou com a Primavera Árabe no Barein.

E mesmo na democrática Tunísia, o único ponto relativamente brilhante na região, os eleitores elegeram em dezembro como presidente o ex-presidente do Parlamento durante a ditadura, de 88 anos. Ele imediatamente nomeou outra antiga figura do antigo regime como primeiro-ministro.

Cientes do que ocorreu no Egito e temendo destino semelhante, o principal partido islâmico da Tunísia, o Ennahda, nem apresentou um candidato à presidência.

“O que aconteceu no Egito afetou diretamente ou indiretamente todo o mundo árabe”, diz Osama el-Ghazali Harb, do Partido Egípcios Livres, um dos líderes tanto do levante de 2011 contra Mubarak como dos protestos de 2013 que precipitaram a expulsão de Morsi. “A derrocada da Irmandade Muçulmana aqui significa a queda da Irmandade, direta ou indiretamente, em outros países da região.”

O Egito foi palco de relativamente pouca violência considerando os padrões sangrentos dos últimos quatro anos, evitando os horrores das guerras civis da Síria e da Líbia. São esses horrores, que enchem as telas dos canais árabes de TV todos os dias, que tornam cada vez mais atraente o velho mantra dos governantes árabes de “istiqrar”, ou estabilidade, a todo custo. Defendendo este mantra estão alguns dos países menos democráticos do Oriente Médio: Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

“A Primavera Árabe representou uma mudança, e as monarquias não gostam de mudanças”, diz Jamal Khashoggi, importante analista saudita que administra uma nova rede de TV regional, a Al Arab News.

Depois de saírem ilesos dos levantes revolucionários da região e pressionarem os dissidentes em casa, tanto a Arábia Saudita como os Emirados Árabes estão conduzindo uma campanha regional para sufocar o que restou da esperança da Primavera Árabe de estabelecer governos democráticos e responsáveis, dizem os críticos.

“Há um processo contrarrevolucionário, caracterizado pela restauração dos velhos modelos do Oriente Médio”, diz Yasin Aktay, presidente interino que responde pelas relações internacionais do partido governante da Turquia, o Partido da Justiça e Desenvolvimento, um apoiador essencial dos levantes árabes.

“Atores importantes do velho regime, alguns países árabes e alguns atores internacionais estão tentando reverter os processos democráticos para restaurar as ditaduras e restabelecer seus próprios sistemas.”

A questão fundamental é se essa restauração no mundo árabe é transitória — a ser derrubada por eventos ainda mais dramáticos nos próximos anos — ou representa a nova norma.

Frederic Wehrey, associado sênior do Carnegie Endowment for International Peace, cunhou o termo “termidor saudita” para descrever o atual “período reacionário dos levantes árabes” (Termidor era o 11º mês do calendário revolucionário francês). Ele argumentou em um recente artigo que a condução contrarrevolucionária na região é insustentável e vai acabar desmoronando, da mesma forma que aconteceu com a reação conservadora termidor contra os excessos da Revolução Francesa.

Outros não estão tão certos.

“Não vai haver outro levante no Egito no curto prazo”, adverte Heba Morayef, analista sênior para o Egito do International Crisis Group, que até recentemente era o representante local do Human Rights Watch, organização de defesa dos direitos humanos. “Eu não acho que o Egito verá algo remotamente democrático nas próximas décadas.”

Fonte: Wall Street Journal

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