Defesa & Geopolítica

Morre Ben Bradlee, editor do The Washington Post que denunciou Watergate

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Ben Bradlee, que presidiu a exposição do The Washington Post do escândalo Watergate, em seu escritório em Washington, 17 de junho de 1971 Foto: Mike Lien / The New York Times

Benjamin C. Bradlee, editor do jornal “The Washington Post” durante 26 anos, morreu nesta terça-feira (21) em sua casa em Washington, de causas naturais. Considerado o responsável pela transformação da publicação em uma das mais importantes e respeitadas do mundo, ele tinha 93 anos.

Bradlee era responsável pelo jornal durante a cobertura do escândalo Watergate, que culminou na renúncia do então presidente dos EUA, Richard Nixon. Antes disso, ele já havia entrado em conflito com o mesmo político ao publicar matérias baseadas em documentos secretos do Pentágono sobre a Guerra do Vietnã.

Benjamin C. Bradlee assumiu o “Washington Post” em 1965 e desde então procurou criar um modelo diferente dos jornais tradicionais da época. Primeiro como editor e depois como editor executivo, ele distribuiu correspondentes em diversos países, espalhou redações em todos os Estados Unidos e criou diversas novas seções e editorias.

Em sua gestão, que durou até 1991, o jornal conquistou 17 prêmios Pulitzer. Fundado em 1877, ele tinha conseguido apenas 4 prêmios semelhantes em toda sua história anterior. Além disso, logo em seus primeiros anos como editor, Bradlee viu as vendas do “The Washington post” mais do que dobrarem.

Bradlee foi interpretado por Jason Robarts em “Todos os homens do presidente”, filme de 1976 que rendeu um Oscar ao ator e contou o desenrolar do Watergate pelas reportagens de Bob Woodward e Carl Bernstein. Ele foi um dos poucos a conhecer desde cedo a identidade da fonte apelidada de “Garganta profunda”, revelada apenas em 2005 como sendo o oficial do FBI W. Mark Felt.

Foto: AFP Photo/Mandel Ngan

Em novembro de 2013, aos 92 anos, Bradlee foi condecorado por Barack Obama na Casa Branca, recebendo a Medalha Presidencial da Liberdade. Em seu discurso na ocasião, o presidente o saudou por trazer intensidade e dedicação ao jornalismo que serviam como lembrete de que “nossa liberdade como nação se apoia em nossa liberdade de imprensa”.

Em setembro deste ano, Sallly Quinn, sua esposa desde 1978, revelou que o marido sofria de Alzheimer havia alguns anos. Ainda assim, ela disse que ele “nunca foi deprimido um único dia em sua vida”.

Bradlee teve quatro filhos em seus três casamentos: Benjamin C. Jr., Dino, Marina e Quinn.

Fonte: G1

Lições de Ben Bradlee

Ben Bradlee, que morreu na terça-feira aos 93 anos, foi o último colosso da era dourada do jornalismo norte-americano. Era, em muitos aspectos, um jornalista de outra época.

Pela segurança que sempre exibiu em si mesmo e em seu meio: seu reinado no The Washington Post, de 1965 a 1991, coincidiu com a hegemonia da imprensa de qualidade, que marcava a agenda política, acumulava uma autoridade inquestionável e até podia provocar a renúncia de um presidente, como aconteceu com Richard Nixon pelo escândalo de Watergate. Nem a imprensa vivia permanentemente no divã da psicanálise nem existiam as redes sociais, nem blogs, nem novos meios que questionassem segundo a segundo se as matérias publicadas pelo The New York Times ou o Post são fit to print, ou seja, dignas de serem impressas.

Ben Bradlee (1921-2014) era de outra época, também, em sua relação com o poder. É difícil imaginar hoje um diretor de um meio de comunicação tão próximo a um presidente como foi Bradlee com seu amigo John F. Kennedy, e é difícil imaginar os diretores do Postou do Times mandando o Procurador da República ao inferno, como fez Bradlee depois que um repórter do Post recebeu uma citação judicial.

Hoje os diretores de imprensa nos Estados Unidos – homens e mulheres anônimos que poucos, mesmo no mundo da imprensa e da política, reconheceriam se cruzassem com eles na rua – não reinam na vida social do Upper West Side ou de Georgetown, como reinaram durante décadas Bradlee e sua cúmplice e editora, Katharine Graham.

Nem o Post significa o mesmo que naquela época na capital norte-americana – Politico e outros meios roubaram o monopólio que o jornal tinha da informação política – nem as festas do bairro de Georgetown, como tantas vezes lamentou a viúva de Bradlee, Sally Quinn, são as mesmas.

E, no entanto, Ben Bradlee não é um jornalista do passado. Bradlee marcou o padrão-ouro do que significa dirigir um jornal. Desde então, seja para imitá-lo, inspirar-se ou diferenciar-se dele, é raro o diretor que não se compare a este modelo: o homem de Watergate, o que converteu um jornal local em uma referência mundial, o que eletrizava a redação com sua mera presença.

Quando volta o jornalismo ativista – agora reclamar objetividade, mesmo imparcialidade e colocar os preconceitos no armário parece às vezes algo anacrônico –, a lição de Bradlee é estimulante. Bradlee tinha poucas opiniões e ideias. Nunca quis dar lição. Não era de esquerda nem de direita, muito pelo contrário. Era guiado pela busca da notícia.

“A essência do jornalismo é a superficialidade”, disse em uma entrevista a EL PAÍS, citando um mestre dele (a frase lembra a de outro jornalista do século XX, Josep Pla: “Eu não acredito em profundidades. O mais profundo que um homem possui é sua superfície”).

E outra lição, talvez tão importante quanto a de seu grande êxito, o Watergate: seu reverso, o escândalo de Janet Cooke, a jornalista que em 1980 publicou no The Washington Post uma reportagem sobre um menino viciado em heroína. Cooke ganhou o Pulitzer pela reportagem. Depois admitiu que era ficção. Bradlee ofereceu sua renúncia aos Graham, os donos do Post. E mandou que oombudsman fizesse uma investigação a fundo sobre o erro que arranhou sua imagem. Em seu maior fracasso, Bradlee deu outra lição de primeira ordem.

Seu jornalismo, mesmo fora das circunstâncias de seu tempo, serve para hoje e para sempre.

Fonte: El País

 

 

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