Defesa & Geopolítica

O Iraque não interessa mais

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Ilustração: Satoshi Kambayashi

Numa recente entrevista ao Huffington Post, o ex-chefe das Forças Armadas britânicas, o general Sir David Richards, disse que se as Forças Armadas dos países ocidentais começarem uma operação terrestre contra o Estado Islâmico, acabarão com ele em meio ano.

O problema é que isto, ao que parece, já nunca acontecerá. Em 17 de outubro a analista da Fox News em assuntos de segurança nacional Kathleen McFarland resumiu os resultados da reunião de Barack Obama com os ministros da Defesa da coalizão “anti-califado” na base Andrews da Força Aérea dos Estados Unidos. Segundo Obama, os estados membros da coalizão decidiram juntos derrotar o EI. Nas palavras de McFarland, a única coisa em que concordaram os representantes de 21 países foi não enviar suas tropas para combater o EI. Segundo ela, “dez anos atrás, nós precisávamos do Oriente Médio mais do que ele precisava de nós. Agora a situação se inverteu”.

Ela começou a mudar quando não foram cumpridas as promessas da administração Bush de que a “operação no Iraque seria curta, fácil, e se pagaria a si própria”. O problema particularmente doloroso de retorno do investimento, durante algum tempo, como sempre, foi afogado no cheiro estável do petróleo iraquiano. Mas agora, como se sabe, mesmo sem o Iraque todos têm petróleo mais que suficiente.

A população local precisa de proteção contra as atrocidades do recém-surgido “califado”? Esqueçam isso. O professor de relações internacionais Stephen M. Walt da Universidade de Harvard disse em seu artigo na revista Foreign Affairs que muitos sunitas na província de Anbar acham Bagdá e os destacamentos da milícia xiita um mal maior do que o EI.

E Barak Barfi da New America Foundation descreve em sua reportagem para a CNN os resultados de seu contato pessoal com pessoas que vivem sob o domínio do “califado” na vizinha Síria. “O presidente Barack Obama pode acreditar que o EI ‘claro que não é um estado’, mas os sírios que vivem sob seu controle estão gratos pelos ‘serviços públicos’ proporcionados pelo grupo – eletricidade, gás, água e alimentos. E o principal “charme” do novo regime, segundo os interlocutores de Barfi, é que, como se viu, os habitantes da cidade de Raqqa sob a autoridade do EI se sentem muito mais seguros do que durante o governo do Exército Sírio Livre! “O caos e os saques característicos da situação nas áreas controladas pelo ESL agora são para eles um pesadelo distante”, escreve Barfi.

Parece selvageria, mas Barfi, que tem consultado a família do jornalista Steven Sotloff executado pelo EI, dificilmente quer algo diferente de contar ao público a difícil verdade de que, muito provavelmente, uma grande parte da população do “califado” vai apoiar qualquer ação de seus “protetores”.

Não é de estranhar que ninguém se decida a enviar seus concidadãos para uma longa guerra num vasto território contra um adversário treinado e motivado e com uma população local hostil.

Bombardear não é tão assustador. Mas depois de golpes de mísseis e bombas contra as posições inimigas alguém precisa atacar e ocupá-las. As 14 divisões do exército iraquiano de meio milhão de homens que têm sido preparados para tais ações durante anos, ao que parece, já não contam. Conseguirão as brigadas do ESL e os “peshmerga” curdos vencer o EI? Tanto as brigadas do ESL como os curdos raramente saem além de seus territórios. Eles não têm experiência de fornecimento de munições, alimentos e combustível para unidades avançadas a longas distâncias. E para sitiar Raqqa, por exemplo, as unidades do ESL, para começar, devem avançar 150 km de suas posições em Aleppo e Idlib.

Treinar e equipar de novo? No início de outubro, a Alemanha decidiu abrir um centro de treinamento em Arbil para curdos iraquianos. A pedido da ministra italiana da Defesa, Roberta Pinotti, a Itália enviou 200 conselheiros para Arbil e enviará outros 80 para Bagdá. No Iraque estão trabalhando 242 conselheiros norte-americanos e várias dezenas de especialistas de vários outros países.

Mas o EI não espera. Quando os destacamentos avançados do “califado” chegaram às posições do exército iraquiano a apenas 20 km do aeroporto de Bagdá, os norte-americanos foram forçados a levantar ao ar helicópteros de combate Apache. O ataque foi repelido. E as esperanças de um envolvimento direto dos norte-americanos numa guerra terrestre suscitadas por esse episódio foram dissipadas pelo presidente do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos, o general Martin Dempsey. Ele declarou que os norte-americanos não podiam permitir a captura do aeroporto. “Precisamos desse aeroporto”, disse o general. E será que alguém precisa agora do Iraque com seus enormes problemas e pouca esperança de sua rápida resolução?

 

Fonte: Voz da Rússia

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