Defesa & Geopolítica

3 de Outubro de 1926: Primeiro Congresso Pan-Europeu

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Richard Nikolaus Coudenhove-Kalergi (1874-1972): iniciador do movimento pan-europeu

Em 3 de outubro de 1926, reuniram-se no Congresso Pan-Europeu em Viena, pela primeira vez, os adeptos da ideia de uma Europa unida. Representantes de 28 países tentaram, em vão, aproximar as nações do continente.

O organizador do encontro foi o conde austríaco Richard Nicolas Coudenhove-Kalergi, que, desde o início dos anos 1920, defendia um ideário pan-europeu. Filho do ex-embaixador do império austro-húngaro no Japão e abalado pela derrocada da monarquia, ele sonhava com uma “Europa pacífica, unida e igualitária, de Portugal até a Polônia”.

O conde cosmopolita, cujo título era uma herança da participação de seus antepassados na Primeira Cruzada em 1099, fez de sua vida uma “cruzada pela Europa” – como diz o título de seu livro publicado em 1943. Já em 1919, ele havia apresentado seu plano ao primeiro presidente da então Tchecoslováquia, Tomás Garrigue Masaryk (1850-1937).

Num polêmico artigo intitulado Pan-Europa, publicado por jornais de Berlim e Viena nos dias 15 e 17 de novembro de 1922, ele sugeriu uma alternativa à Liga das Nações, excluindo os Estados Unidos.

A ideia consistia numa Europa unida, com base numa eventual reconciliação teuto-francesa. Caso esse projeto não se concretizasse, havia a ameaça de uma segunda guerra mundial. Em 1923, Kalergi fundou o chamado Movimento pela Unificação Europeia, ao qual aderiram lideranças políticas, econômicas e intelectuais de todo o continente.

Nações sem fronteiras

Entre os defensores do movimento figuravam o ministro alemão das Relações Exteriores, Gustav Stresemann, o primeiro-ministro francês, Aristide Briand e, mais tarde, estadistas como o britânico Winston Churchill e o alemão Konrad Adenauer. Em abril de 1924, o conde publicou em sua revistaPan-Europa o “Manifesto Pan-europeu”.

O pan-europeísmo, no entanto, nunca se tornou um movimento de massas, apesar de o Congresso de Viena, no dia 3 de outubro de 1926, ter atraído dois mil representantes. Na ocasião, Kalergi apresentou seu programa político, que incluía a derrubada das fronteiras nacionais e a criação de uma união dos países europeus, igualdade e entendimento entre os povos, como condições para a paz, liberdade e prosperidade.

Fórmula controvertida

O filho de diplomata, porém, não era um democrata convicto. Para equilibrar os interesses divergentes após a Primeira Guerra Mundial, quando a Europa era pressionada pelo fascismo e bolchevismo, ele sugeriu uma fórmula controvertida: “Quem quiser a união dos Estados europeus, não deve esperar que todos os países adotem a mesma constituição e, sim, reconhecer tanto o fascismo italiano quanto a democracia francesa e tentar reunir organicamente as diversas nações europeias”.

Seu projeto não chegou a se concretizar. Depois que a Alemanha abandonou a Liga das Nações, em 1933, Hitler dissolveu a União Pan-europeia. Kalergi já havia previsto o que viria depois. Na manifestação em homenagem ao chanceler federal austríaco Engelbert Dollfuss, assassinado pelos nazistas, o conde disse, em 23 de novembro de 1934: “São dias de decisão entre a guerra e a paz. A Europa tem a escolha entre a derrocada e a prosperidade. A luta pela Europa é uma luta do bem contra o mal, da ordem contra o caos”.

O que veio foi o caos. Richard Coudenhove-Kalergi havia advertido para a ameaça de Hitler e da Segunda Guerra e continuou seguindo fielmente seu objetivo. Ele presidiu o Movimento Pan-Europeu até sua morte, em 1972, sendo sucedido por Otto Habsburg-Lothringen, filho do último imperador austríaco, Carlos 1º, e, desde 1979, deputado europeu pela União Social Cristã (CSU). Ironizado no passado como “utopista e romântico”, o conde Kalergi passou a ser lembrado como um dos precursores e idealizadores da moderna União Europeia.

Fonte: DW.DE

União Européia nasceu do sonho dos pioneiros da Pan-Europa

O conde Richard Coudenhove-Kalergi foi o fundador do Movimento Pan-Europeu

A Europa unida permaneceu sendo um sonho durante muito tempo: a realidade era marcada pela guerra. Se o cenário é diferente hoje, isso se deve à obstinação de alguns políticos, os pais da União Européia.

Principalmente depois da Primeira Guerra Mundial e das suas devastadoras conseqüências, a busca por soluções européias foi posta em primeiro plano por intelectuais, políticos e líderes econômicos. Um papel destacado foi ocupado pelo cosmopolita conde Richard Coudenhove-Kalergi. Em seu escrito Pan-Europa, publicado em 1923, ele formulou a idéia de uma confederação, da qual fariam parte todos os países europeus continentais.

“A Pan-Europa não é um instrumento da atual política européia, mas o seu oposto. É uma nova fonte de energia, uma nova tempestade de idéias que se torna mais forte ano após ano”, escreveu. Para ele, se todos os líderes europeus reconhecessem de forma clara a necessidade da integração européia, a Pan-Europa se tornaria realidade em seis meses.

Tão rápido, as coisas não se desenrolaram – ainda que o Movimento Pan-Europeu tenha encontrado muitos adeptos por toda a Europa, incluindo vários políticos de destaque. Durante a Segunda Guerra Mundial, o tema se manteve presente, mas somente ganhou impulso com o final do conflito. As potências mundiais se separavam cada vez mais, e para a Europa se abria um espaço como terceira força entre o Ocidente e o Oriente.

Churchill: igualdade entre pequenos e grandes

Após a Segunda Guerra, Churchill retomou a ideia de uma Europa unida.

Nesse contexto, um novo impulso ao pensamento europeu foi dado em setembro de 1946 pelo então líder da oposição na câmara baixa do Parlamento inglês, Winston Churchill. O ex-primeiro-ministro, que não tinha fama de ser um “europeu convicto”, conclamou os europeus a superar a tragédia do pós-guerra e criar uma espécie de “Estados Unidos da Europa”.

“Se a Europa um dia for unida, não haverá limites para a felicidade, a riqueza e a glória que os seus 300 ou 400 milhões de habitantes viverão”, afirmou. O primeiro passo para a reconstrução da família européia deveria ser uma parceria entre França e Alemanha. De acordo com Churchill, a revitalização da Europa não seria possível sem uma França espiritualmente rica e sem uma Alemanha espiritualmente rica. As pequenas nações seriam tão importantes como as grandes e seriam respeitadas pela sua contribuição.

O discurso em favor da Europa, proferido por Churchill em Zurique, trouxe a idéia da união européia de volta à imprensa internacional. Além disso, trouxe também a percepção de que essa idéia poderia ser realizada – até porque ela havia sido formulada por um dos três grandes vencedores da Segunda Guerra Mundial.

Schuman: destino comum

Robert Schuman defendeu a criação da Comunidade Européia do Carvão e do Aço.

Mas o pontapé inicial para a união dos europeus partiu de um francês: Robert Schuman. Em 9 de maio de 1950, o então ministro das Relações Exteriores se dirigiu à imprensa, em Paris, e sugeriu “colocar a totalidade da produção franco-alemã de aço e carvão sob o controle de uma autoridade reguladora comum.”

Era o início da Comunidade Européia do Carvão e do Aço (em alemão freqüentemente chamada de “Montanunion”), que pela primeira vez previa a cessão, por países europeus, de direitos relacionados com a soberania nacional. “Esta Europa é aberta para todos os países livres da Europa. Esperamos que outros países se juntem a nós”, disse Schuman.

De acordo com ele, todos esses esforços eram guiados pela crescente convicção de que os países europeus eram solidários entre si e compartilhavam um destino comum. “Fortaleceremos esse sentimento à medida em que focalizarmos nossas energias e nossas vontades e à medida em que harmonizarmos nossas ações por meio de encontros freqüentes e de uma confiança crescente em nossas relações.”

Monnet: indispensável para a paz

Jean Monnet: barreiras erigidas pela Europa nacionalista.

O chamado Plano Schuman foi na verdade concebido por outro político francês: Jean Monnet. Ele era uma personalidade cosmopolita, com muita experiência internacional e, em vez de aceitar condições adversas, queria modificá-las. Monnet estava convencido de que era necessário organizar o desenvolvimento econômico da Europa, já que também o bem-estar da França dependia disso.

“Pela primeira vez na nossa história, começam a cair as barreiras que as nações européias erigiram entre os nossos povos”, afirmou Monnet. A união era, para ele, indispensável ao renascimento da civilização européia e à manutenção da paz. Monnet e Schuman são considerados hoje os fundadores da Europa unificada. Inúmeras cátedras dedicadas a questões européias recebem os seus nomes.

Spaak: impedir bloqueios

Assinatura dos Tratados de Roma, em 25 de março de 1957

Menos lembrado é um contemporâneo dos franceses que também deu uma grande contribuição para que a Europa se tornasse o que ela é hoje: o belga Paul-Henri Spaak. Ele recebeu o apelido Monsieur Benelux por ter sido o condutor da união aduaneira entre a Bélgica, a Holanda e Luxemburgo.

Spaak teve um papel fundamental na assinatura dos Tratados de Roma. Na época, ele deu provas de visão ao exigir que regras européias deveriam ser firmadas pela maioria dos países-membros, com o objetivo de impedir bloqueios. A Europa acabou tomando outro rumo: até hoje as decisões são tomadas por unanimidade. Mas o trabalho de Spaak ainda é reconhecido em Bruxelas, e o seu nome faz parte do dia-a-dia dos parlamentares europeus: um dos dois prédios do Parlamento Europeu leva o nome desse incansável europeu.

Fonte: DW.DE

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